Bibliot3ca FERNANDO PESSOA

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Competências individuais e a Maçonaria pós-moderna

Por Walter Roque Teixeira ** 

“Devemos nos tornar a mudança que queremos para o mundo”[2]
Ghandi

competências

Lendo o instigante artigo “A “velha” versus a “nova” Maçonaria: os desafios da Irmandade na pós-modernidade” do Irmão Tiago Valenciano, talvez por exagerada valorização e abraçado no conceito do conhecido princípio “TrimTab” encontrei uma verosimilhança com uma ideia de projecto apresentado em Agosto de 2018 na Loja que frequento e em 2019 ao Grão-Mestre Estadual, especialmente quando diz: “Sugiro que a Maçonaria passe a reflectir os caminhos que a pós-modernidade nos tem levado. Trabalhar por projectos, envolver os irmãos e explorar a criatividade são tarefas básicas” .

Afinal, como dizia o visionário Fuller, “o propósito da nossa vida é acrescentar valor à vida das pessoas desta geração e das gerações seguintes”.

Infelizmente, sabemos o que aconteceu a partir de 2019 e, desde então, a mudança que atingiu o nosso mundo actual deixou ideias e projectos sem uma avaliação das suas possibilidades e viabilidades. Aproveito, pois, a oportunidade deste instigante artigo para, se possível, suscitar alguma discussão sobre esta ideia que nada tem de visionária, mas que pode ter alguma relevância prática nos caminhos da Maçonaria actual (é muita presunção!).

A Maçonaria está sempre entre ameaça e oportunidade e, por isto, a sua acção precisa ser repensada.

Ameaça, porque, se não se consegue interessar de forma convincente o homem-maçom, pode-se assistir a um contínuo enfraquecimento institucional.

Não pode ser tão custoso entender e executar os ditames da resposta à célebre pergunta das aberturas ritualísticas: “Para que nos reunimos aqui?”.

Os tempos mudaram, a própria sociedade mudou e todos nós somos obrigados a acompanhar estas mudanças. A Maçonaria, Instituição imemoriável, também mudou de Operativa para Especulativa, buscando adaptar-se aos paradigmas dos tempos vividos. Porém, será que isto satisfaz o homem moderno (ou pós-moderno) com todos os problemas, desafios e estímulos que o cercam? Não seria o momento de dar um passo à frente e misturar, novamente, este especulativo ao operativo? Sim, pois nunca fomos somente uma coisa ou outra; apenas privilegiamos e adaptamos as nossas necessidades; não seria o momento de repensar e remodernizar?

É uma Oportunidade!

Quando se consegue instruir e comprometer os seus membros para seu o novo papel na sociedade, gera-se a oportunidade de fazer a Instituição crescer em todos os aspectos.

Esta é a grande missão; este é o grande desafio; ou correremos, permanentemente, o risco de jogarmos ao léu o trabalho e a genialidade de muitas gerações.

Como a Loja que frequento pertence ao GOB/SC, focalizei neste universo e assim, nos números da época, tínhamos mais de 160 Lojas espalhadas pelos municípios do Estado de Santa Catarina (sul do Brasil) com quase 5000 obreiros. Nacionalmente, embora com números controversos, falava-se de algo em torno de 90.000. Se considerarmos apenas um pequeno círculo de influência de cada um destes obreiros, poderíamos formar uma considerável força abrangente e solidária!

Claro que o ideal seria termos uma estratégia organizacional bem definida (o que a Instituição pretende ser no futuro; quais resultados deseja alcançar; a sua missão é tão somente lapidar homens para que possam influenciar de modo justo a evolução social? Afinal, qual a sua real missão? E não aquela escrita em  documentos e murais) e desta forma, buscar e correlacionar as competências específicas que permitissem alcançar os objectivos estratégicos definidos.

Na falta de uma estratégia organizacional bem definida com a participação e conhecimento de todos, identificar competências individuais pode, segundo alguns, não ser o caminho mais adequado, pois a competência de uma organização não equivale à soma das competências individuais; porém, por outro lado, pode gerar um comportamento organizacional diferenciado do actual – As relações sociais mudaram, as pessoas mudaram, a sociedade mudou, o modo de vida mudou e a Maçonaria continua lá, intacta .

A regra actual é participarmos na necessidade e não por planeamento, ou seja, envolvimento sem comprometimento .

O capital intelectual é determinante para o aumento do desempenho das instituições. Por isto, esta ideia visa identificar e mobilizar os talentos individuais e colocar a Maçonaria na pós-modernidade (cada vez é maior a presunção!).

Sabemos quantos engenheiros, arquitectos, advogados, políticos, médicos, enfermeiros, especialistas em tecnologia da informação, publicitários, escritores, artistas plásticos, educadores, administradores, policiais, bombeiros, juízes, promotores, etc. – e muitos outros eteceteras – temos nas nossas hostes?

Se são números conhecidos, onde vivo e convivo não são divulgados e muito menos utilizados!

Identificar e mobilizar os nossos talentos individuais, conhecendo com o máximo detalhamento possível esta força constituída de competências variadas e da mais alta qualidade e a partir deste marco capacitarmo-nos para encetar projectos específicos, seja na saúde, seja na qualidade de vida, seja na atitude cidadã ou ainda, na questão do enfrentamento de situações climáticas emergenciais; etc.; abrangendo a participação, qualquer projecto ir-se-á tornar mais viável ao longo do tempo e então, desta forma, poderemos, realmente, influenciar a  evolução social e, consequentemente, colocar a Maçonaria nos tempos actuais e torná-la novamente atractiva aos seus iniciados.

Interessa pois, em conclusão, através destas competências individuais gerar e sustentar as competências organizacionais necessárias para que se possa alcançar os objectivos estratégicos almejados.

Ao termos planos e planeamentos para todas as áreas de importância social poderemos lutar a boa luta para concretizá-los com a força congregada dentro desta maravilhosa Instituição [5]. Dá trabalho, mas vale a pena!

Pensando como um “trimtab” moveremos qualquer transatlântico, por maior que seja.

Para aclarar a ideia, imaginemos reunir de forma progressiva e coordenada, a partir do núcleo primário que são as Lojas, alguns núcleos de especialistas que iriam elencando sugestões de mudanças viáveis na legislação que facilitassem a vida do cidadão, empresário ou não, assim como, possíveis caminhos para as suas soluções? E se a conclusão destes trabalhos virasse um foco de luta legal e persistente da Maçonaria? Quantidade e qualidade não faltará!

Quanto a Maçonaria poderia contribuir com os seus membros e com a sociedade em geral sem, obviamente, perder as suas características especulativas?

Como fazê-lo?

A ideia é vender uma ideia sem direitos autorais e que cada um (efeito “trimtab”) dentro do seu universo, em achando viável e atraente, possa escolher a sua melhor forma de activá-la.

O primeiro passo, pois, é o Mapeamento de Competências!

Para tanto, no projecto inicial, foi criada uma “Ficha de Competência Individual” para que, inicialmente como teste, fosse preenchida pelos membros da Loja.

Muitas destas informações são conhecidas e podem ser encontradas nos vários sistemas computacionais administrativos da Instituição, contudo, alguns aspectos são muito próprios e não perscrutados nestes sistemas como, por exemplo:

  1. Actividade actual – identifica-se, comumente, a formação primária, mas não avalia se a actual actividade tem relação com esta formação académica e/ou técnica; muitos são identificados somente pela formação e não pela actividade que realmente exercem; é comum, por exemplo, encontrarmos engenheiros exercendo funções administrativas; advogados de formação optando pelo ensino de Yoga; e assim por diante;
  2. Competências específicas – actividade prática profissional ou não, mas que possua algum grau de ‘expertise’ e que possa ser aproveitada em algum projecto; é absolutamente necessário, neste processo, identificar competências específicas, experiências pessoais e não apenas, como dito, títulos académicos; conhecendo a actividade e a experiência real do Irmão, poderemos melhor aproveitá-la em algum projecto específico;

 Participação em outras organizações de qualquer natureza (Rotary, Lions, etc.); no bojo está a possibilidade de encontrarmos interlocutores para além da abrangência, aproveitar experiências e facilitar a implantação de projectos;

  1. Participação em projectos de qualquer natureza – próprios ou institucionais que já participe ou que gostaria de desenvolver; a ideia é perscrutar situações que, por falta de apoio, não se consiga materializar ou divulgar; ou seja, a ideia é criar um “mapa de oportunidades” na instituição;
  2. Conhecimento de línguas estrangeiras  especificando para cada uma o grau de fluência prática – não interessa títulos académicos na área – interessa entendimento, expressão oral, leitura e escritaisto abre portas e caminhos, seja no conhecimento, seja nos relacionamentos, seja na obtenção de verbas e apoios;
  3. Sugestões e ideias – perscrutar ideias de projectos com qualquer abrangência, especialmente, dentro das competências específicas; muitos possuem ideias que por razões múltiplas – pessoais, sociais ou institucionais – não conseguem expor; é necessário aproveitar todo o conhecimento e vontade implícitas no “Trimtab” individual dos milhares de Irmãos;
  4. Outros dados de interesse pessoal ou institucional que possam ser discutidos – todo projecto deve estar aberto a todos os ventos, sejam eles críticos ou somatórios; é necessário que se crie uma absoluta abertura a todas as ideias que obrigatoriamente grassam num universo de cognição e experiências tão privilegiadas.

Após identificadas, todas estas competências devem ser classificadas e agrupadas para, posteriormente, serem socializadas juntamente a possíveis ideias de projectos pontuais extraídos das contribuições. A partir daí, vem a facilidade de reunir pessoas dentro dos interesses peculiares de cada sector e deixarmos solta a criatividade. No fim, teremos, seguramente, resultados incríveis que balizarão os caminhos administrativos futuros. E seguimos, paralelamente, com os nossos estudos especulativos; a Maçonaria não precisa ser mudada: “A Maçonaria deve permanecer com os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade” [1]. Mas a sua visão e participação na sociedade sim: dela somos oriundos e dela somos parte.

Por fim, planear a ampliação da pesquisa dentro da Instituição, assim como, a gestão dos resultados. É um projecto grande que pode dar resultados inesperados, pois, o ser humano é criativo e proactivo sempre que lhe permitem.

Hoje, perdoem-me, mas as administrações que conheço estão encasteladas em alguma sala à distância onde, como o resto da sociedade, impera uma “burocracia emprerrante”.

Como grupo heterogéneo com educação privilegiada e saberes acumulados em todos os sectores, escolhamos as nossas prioridades com visão fraternal, sem apegos, mas com organização, vontade e planeamento. Esta será, sem dúvida, uma “nova” Maçonaria!


** Walter Roque Teixeira – GOB – GOB/SC – CIM 184.372 – ARBLS Palmeira da Paz nº. 2121 – Oriente de Blumenau – Santa Catarina – Brasil

Bibliografia

  1. Tiago Valenciano – “A “velha” versus a “nova” Maçonaria: os desafios da Irmandade na pós-modernidade”;
  2. FranklinCovey Brasil – “Trim Tab: Pequenas mudanças com grandes resultados”;
  3. Buckminster Fuller Institute – “Thinking like a Trimtab”;
  4. Universo Visionário de Fuller – “O Princípio do Trimtab”;
  5. Walter R. Teixeira – Maçonaria e corrupção: qual a nossa responsabilidade?

Um comentário em “Competências individuais e a Maçonaria pós-moderna

  1. O imobilismo deriva da crença errônea de que o maçom deve fazer seu caminho de aprendizado, sozinho. O poder central não tem uma meta . Podemos iniciar estes projetos dentro de nossas lojas e chegarmos a influênciar todo o conjunto. Nossos passado é brilhante. Mas o futuro somos nós que devemos faze-lo.

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