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ALQUIMIA, O QUE É?

Tradução J. Filardo
Por Adrien Chœur

A Alquimia espiritual: definição

A Alquimia espiritual: definição e princípio O que é hermetismo? Em que consiste a transmutação do ser?

A alquimia espiritual é o ramo especulativo da alquimia: é uma química do espírito, que consiste em transformar não os metais, mas o próprio indivíduo e em particular o seu psiquismo.

A alquimia espiritual deve, portanto, ser distinguida da alquimia operativa definida como uma prática mágica ou uma pseudociência que visa transformar o chumbo em ouro.

Veremos como a alquimia espiritual se origina da tradição hermética que chega até nós desde a Antiguidade. Mais que uma doutrina, é um método que visa nos despertar para o nosso ser verdadeiro e autêntico, despojado de todos os véus que ocultam o que realmente somos. Como tal, pode-se defini-la como um protociência que fica entre a filosofia, a metafísica e a psicologia.

Aqui está uma definição de alquimia espiritual.

Definição simples de alquimia espiritual:

Definição: A alquimia espiritual é uma prática especulativa que consiste em realizar um caminho pessoal de autoconsciência e de purificação íntima, para renascer como um ser novo, consciente e desperto.

O alquimista é aquele que considera que a matéria contém nela, de forma oculta e amalgamada, a verdadeira luz. A matéria é, portanto, ao mesmo tempo o que transporta luz o que a torna sombra.

A Alquimia é uma prática mística: o objetivo final é a união com Deus. No entanto, não é uma religião. Na realidade, a alquimia especulativa toma emprestado ao mesmo tempo à ciência, à filosofia, à psicologia e à religião no sentido primeiro do termo (do latim religare, “Reconectar”).

O objetivo é, portanto, operar uma transmutação espiritual: uma conversão íntima, uma mudança existencial.

Em que consiste essa conversão? É uma questão de operar uma reorientação em relação a si mesmo e ao cosmos. O objetivo é encontrar nossa verdadeira natureza e acessar o divino em si mesmo.

Parte-se do princípio que a pessoa média vive em um mundo ilusório, feito de paixões, crenças, de preconceitos e falsas certezas, principalmente devido ao seu orgulho. Este homem acredita que é livre e autônomo. Ele acredita ter a verdade. El é egocêntrico.

Essas ilusões são devidas ao nosso apego às coisas (à matéria) e a nós mesmos (nosso corpo, nosso ego). A alquimia consiste acima de tudo em prantear essa parte de nós que protege a parte universal, ilimitada e eterna de nosso ser.

Encontrar o homem original em si mesmo.

O que acabamos de descrever lembra fortemente a história do Gênesis: ao morder o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, Adão e Eva causam um sério descentramento. Sua tentativa de se elevar ao nível de Deus e o fato de transgredirem conscientemente a lei divina faz com que experimentem a infelicidade, o sofrimento, a vergonha e a morte.

A alquimia espiritual consiste precisamente em reparar este pecado original, em recuperar o nosso estado primordial, inocente, espontâneo, feliz, estando conscientemente unidos a Deus. O objetivo é encontrar em si mesmo a parte divina e imortal de nosso ser: tal poderia ser a definição de alquimia espiritual.

As características da prática alquímica.

A alquimia espiritual é uma prática:

  • oculta: na verdade, há muito tempo ela é secreta e impenetrável. Hoje, os tratados alquímicos são vendidos livremente, mas sua compreensão não é mais fácil,
  • esotérica: tradicionalmente reservado a iniciados, o ensino alquímico tende a se democratizar; mas as lojas maçônicas e outras sociedades discretas permanecem locais privilegiados de estudo,
  • simbólica: símbolos alquímicos formam uma linguagem coerente com a base na qual a reflexão pode ser feita,
  • adogmática: a doutrina alquímica é apenas o ponto de partida da busca pessoal. Com base nisso, o buscador terá que traçar seu próprio caminho, seu próprio método para se unir a si mesmo (seu verdadeiro ser) e àquilo que o excede.

A alquimia espiritual, portanto, não é um ensino estável ou completo, e ainda menos dogmático. Mesmo acompanhado por um guia ou mestre, a maior parte do trabalho fica por conta própria. É de fato uma busca, no sentido mais nobre do termo.

A Alquimia espiritual e a gnose.

A alquimia espiritual pode ser definida como uma prática gnóstica. A gnose visa o conhecimento direto das coisas divinas e dos mistérios do universo: seu objetivo é o acesso à verdade e à realidade.

Ponto essencial, esse conhecimento passa pelo autoconhecimento, de sua natureza profunda, de suas potencialidades, de seus defeitos e de suas fragilidades, para descobrir, escondido no fundo de si, um espaço de vida e de Luz.

Além disso, a alquimia espiritual se cruza com os princípios da Mística judaica:  a Kabbalah. Esta tradição milenar estabelece para si mesma a meta de acessar novos níveis de consciência através de uma modificação da percepção das coisas.

Como na alquimia, a Cabala considera Deus não como uma entidade distinta e separada do mundo físico, mas como uma energia presente em tudo, inclusive no homem. É, portanto, essa parte divina que deve ser buscada.

A árvore da vida cabalística descreve o Adam Kadmon, o ser original ou “ser-mundo” feito à imagem de Deus, contendo em si todo o programa da criação. Entender as Sephiroth que compõem a árvore é compreender a si mesmo e, ao mesmo tempo, aproximar-se de Deus.

Alquimia espiritual e hermetismo: são a mesma coisa?

O hermetismo é a doutrina esotérica que se baseia nos escritos de Hermes Trismegistus, personagem mítico da Antiguidade, posteriormente considerado o fundador da alquimia espiritual. Entre seus escritos, há em particular o Corpus Hermeticum e os textos da Tábua de Esmeralda.

No final da antiguidade greco-egípcia, os gregos associaram Hermes Trismegistus a Thoth, deus egípcio do conhecimento oculto. A ele é creditada a maioria dos textos esotéricos, cuja interpretação quais será o assunto de numerosas especulações e teorias ao longo dos séculos, até a nossa época.

A tradição hermética se espalha por volta do ano 1000 no mundo muçulmano, antes de ir para o ocidente. A palavra alquimia vem do árabe al-kimiya, ele próprio originário do grego khumeia (“Mistura”).

No final da Idade Média e no Renascimento, a alquimia se desenvolve na Europa cristã: o objetivo é a transmutação dos metais, em particular a transformação do chumbo em ouro. Mas uma alquimia espiritual, especulativa, essencialmente hermética, feita de esoterismo Judaico e cristão, continua a ser transmitida, em particular através do Rosacrucianismo e depois da Maçonaria.

No final, o hermetismo se sobrepõe amplamente à alquimia espiritual e sua definição: o hermetismo é a doutrina oculta dos alquimistas especulativos.

Nota: na linguagem corrente, hermético hoje significa “difícil de entender e interpretar”.

A Arte Real: uma definição da alquimia espiritual.

A Arte Real esclarece a alquimia espiritual e sua definição. Este termo, que apareceu na Idade Média, designa a prática da alquimia em sua dimensão mais nobre e mais espiritual. Ela evoca a conquista da Magna Opera, isto é, a “transmutação” final do ser.

De fato, mais que uma ciência ou uma doutrina filosófica, a alquimia espiritual pode ser definida como uma arte, porque é antes de tudo uma forma de pensar e de viver: uma via de sabedoria. Tanto a arte quanto a alquimia tocam o íntimo: o caminho só pode ser pessoal.

A Alquimia espiritual hoje.

Hoje, a alquimia espiritual pode ser praticada pela pessoa comum com base em suas próprias leituras, pensamentos e pesquisas. Ela é praticada em particular por maçons de todas as convicções, e ainda mais proeminentemente entre Maçons de rito egípcio e de rito hermético (ritos de Memphis e Misraïm).

“A Maçonaria parece não passar de uma transfiguração moderna do hermetismo antigo. O simbolismo maçônico constitui, de fato, um estranho conjunto de tradições emprestadas das antigas ciências iniciáticas”. Oswald Wirth

Em geral, a alquimia permeia muitas práticas espirituais ou religiosas, mas também as ciências mais modernas, por exemplo a psicologia e a psicanálise.

Princípios básicos da alquimia.

Fundada na unidade do mundo (Um-o-Todo), a alquimia espiritual considera o cosmos (e o homem) como o resultado das energias divinas (o Sol e a Lua) que se combinam através dos quatro elementos: Fogo, Ar, Água e Terra.

A natureza tríplice do homem corresponde à famosa tríade alquímica Enxofre, Mercúrio e Sal:

  • O Enxofre é a combinação de Ar e Fogo Solar; é o Espírito humano conectado ao sopro divino, e na origem de todas as coisas,
  • O Mercúrio é a combinação de Ar e Água; é a Alma humana mutante, atraído tanto para baixo (a Água) quanto para cima (o Ar),
  • O Sal é a combinação de Água e Terra; é o Corpo humano aprisionado na matéria.

Esta tríade humana também corresponde à natureza do cosmos inteiro.

Morrer para renascer.

Existe na alquimia espiritual um fio condutor essencial: é o fato de que devemos aceitar morrer para renascer.

Essa morte simbólica consiste em abandonar a parte impura de si mesmo, em particular o apego à matéria. Este desapego delicado e doloroso permitirá entrar em um novo estado de consciência, mais puro e desperto.

Existem três estágios principais dessa transmutação:

  • A obra em negro ou putrefação da matéria,
  • A obra em branco: é a purificação da matéria,
  • A obra em vermelho: é a Grande Obra, o retorno à unidade.

Finalmente, a alquimia espiritual considera o mundo como um Todo coerente cujas partes se combinam em simpatia. A genialidade desta cosmologia está no encontro e fusão dos dois princípios transcendência e imanência, simbolizado entre outras coisas pelo Selo de Salomão.

Um-o-Todo na alquimia: definição e significado em Alquimia

Um-o-todo na alquimia: definição. Qual é o significado da fórmula “Um-o-Todo”? Como esse conceito ilumina a estrutura do cosmos?

Na alquimia, Um-o-Todo é a expressão que descreve o princípio da Unidade do mundo. Esta fórmula surge do final da Antiguidade, em particular na Crisopeia de Cleópatra a alquimista.

Ela é sugerida na Tábua de Esmeralda de Hermes Trismegistus:

E como todas as coisas foram e surgiram de um, pela mediação de um: assim, todas as coisas nasceram desta coisa única, por adaptação.

Isso constitui, de acordo com Hermes Trismegistus, a chave para a compreensão de tudo.

Um-o-Todo sintetiza o aspecto dual Criador e Criação: temos aqui a uma criação viva sempre em formação, mas que permanece coerente em si mesma.

O Um-o-Todo expressa ao mesmo tempo:

  • o Princípio (a fonte): é o Uno,
  • a matriz em sua dimensão cósmica (em outras palavras a Natureza, no sentido mais amplo possível): é o Todo,
  • mas também a Transmutação, isto é, a realização que se opera pela ação do Princípio sobre a matéria.

Entremos na definição e significado de Um-o-Todo.

Um-o-todo na alquimia: definição.

Na alquimia, o princípio primeiro e essencial do mundo é a unidade.

Esta unidade é expressa por meio da fórmula Um-o-Todo, que traduz, não a natureza única de um Deus superior, mais precisamente ir além das noções:

  • de ser e de não ser,
  • de matéria e de espírito,
  • de visível e de invisível,
  • de caos e de ordem,
  • de dentro e de fora,
  • de transcendência (que tem seu princípio do além) e de imanência (que contém seu princípio em si mesma).

De fato, Um-o-Todo carrega essa dupla característica de ser ao mesmo tempo ele mesmo e também a superação de si mesmo: o ser e a causa do ser. Aqui temos o resumo do mistério do mundo e da vida.

Compreender Um-o-Todo é a base da alquimia e o fundamento da Arte real: é isso que permitirá começar o verdadeiro trabalho sobre si mesmo.

O ovo cósmico.

Um-o-Todo evoca o ovo cósmico: a imagem do mundo em todo o seu potencial de perfeição e organização do caos primordial.

O “Todo “ de “Um-o-Todo” de fato expressa o caos, um estado indiferenciado das potencialidades de qualquer geração e de qualquer transformação, enquanto o “Um” evoca unidade e coerência.

Um-o-Todo em alquimia: Ouroboros e o dragão.

Um-o-Todo é frequentemente representado pelo Ouroboros: a cobra que morde o próprio rabo. O Ouroboros representa o que não tem princípio nem fim, portanto o que é infinito e eterno.

A imagem do Ouroboros também evoca a estabilidade (o círculo se fecha em si mesmo) e também a transformação (vida, os ciclos)

O Ouroboros ilumina o mistério dos mistérios, ou seja, que Um-o-Todo é ao mesmo tempo transcendência (o deus-serpente) e imanência (a serpente cria a si mesma).

O Ouroboros reflete bem este duplo aspecto:
  • por um lado, a identidade (estabilidade),
  • por outro o potencial de transformação (mudança, dissolução) incluída nesta identidade: é o veneno presente na boca da serpente, ou vinagre do filósofo. Isso permite que o Pseudo-Demócrito diga: A natureza desfruta da natureza, a natureza triunfa sobre a natureza, a natureza domina a natureza.

Assim, o Um-o-Todo é “o Pai e o filho de si mesmo”: ele se cria, se autofecunda, se transforma e se dissolve.

A serpente passa por todas as coisas. Ela tem o duplo poder de gerar e destruir: ele é vida e morte, o solve et coagula. Ele é em particular a Água Transformadora, a Mulher, o Mercúrio, tanto a força da vida quanto o poder da morte.

Também dá à luz ao ativo (o Sol: poder de coerência e fixação) e ao passivo (a Lua: força caótica).

A serpente Ouroboros também pode ser comparada ao dragão, o “Basilisco Filosófico”. Segundo algumas interpretações, o dragão deve ser dominado, fixado, crucificado, porque se não for, ele é apenas destruição e caos.

Os símbolos associados ao Um-o-Todo.

O ideograma simples do Um-o-Todo é o círculo, linha que termina sobre si mesma, tendo seu início e seu fim em si mesma. O círculo sozinho pode significar a “matéria-prima”, ou seja, “Tudo”.

Além do círculo, outros símbolos podem ser associados ao Um-o-Todo:

O anel duplo, símbolo do Um-o-Todo em alquimia.

O anel duplo é uma representação do Um-o-Todo. O anel interno, princípio de atuação, pode ser assimilado ao veneno, ou seja, o poder de mudança e dissolução anterior a toda transformação. Já o anel externo representa a unidade, ou mesmo o Todo insuficientemente diferenciado, em gestação, em trabalho e que tem vocação de se organizar.

Um-o-Todo na forma de anel triplo.

Quanto ao anel triplo, ele pode descrever os “Três mundos”, a saber:

  • o mundo arquetípico incriado (o Princípio não manifesto),
  • o macrocosmo (o cosmos, a Natureza com seus três reinos),
  • e o microcosmo: o Homem.

O anel triplo também pode se referir aos três Princípios Alquímicos que constituem toda a criação: o Enxofre, o Mercúrio e o Sal, enquanto afirma a unidade desta criação. Mas também, por analogia, os três componentes do ser humano: o Corpo, a Alma e o Espírito.

A Cruz dentro do Círculo.

Um-o-Todo ainda pode ser simbolizado por uma cruz contida em um círculo:

  • sua linha horizontal representa o caráter passivo e descontrolado da criação,
  • a linha vertical seria, ao contrário, seu caráter ativo e estável.

A Cruz também introduz a Tétrade dos elementos: é esta coisa única que contém os quatro elementos alquímicos: a Água, a Terra, o Ar e o Fogo.

O centro da Cruz pode ser visto como a síntese das forças em ação, masculinas e femininas, unidas para criar. Também pode ser visto como o ponto de junção dos 4 elementos: a Quintessência.

Leia também nosso artigo sobre simbolismo da cruz.

O Selo de Salomão.

Finalmente, Um-o-Todo pode ser representado sob a forma de um Selo de Salomão, cujo simbolismo é substancialmente idêntico ao da Cruz mencionada acima.

O Selo de Salomão é formado pelo entrelaçamento do triângulo de pé (o Fogo) e do triângulo invertido (a Água): trata-se novamente da síntese das energias cósmicas.

O Selo de Salomão ainda pode ser interpretado como a união da transcendência e a imanência.

O Sol e a Lua em Alquimia

O Sol e a Lua em Alquimia: qual o significado e quais os símbolos associados? Como interpretar os princípios herméticos masculino e feminino? Que significado esotérico?

Em alquimia, o Sol e a Lua são as duas energias fundamentais que compõem o Todo unitário. Esta é a dualidade hermética fundamental.

É mencionado em particular no famoso Tábua de Esmeralda de Hermes Trismegistus, texto fundador do hermetismo:

É verdade, sem mentira, certo e muito verdadeiro: Que o que está em baixo é como o que está em cima; e o que está em cima é como o que está em baixo, para operar os milagres em uma só coisa. E como todas as coisas foram e surgiram de um, pela mediação de um: assim, todas as coisas nasceram desta única coisa, por adaptação. O sol é o pai, a lua é a mãe, o vento a carregou em seu ventre; a Terra é sua ama de leite. O pai de toda a telesma de todo o mundo está aqui.

Antes de discutir o papel do Sol e da Lua na criação, devemos lembrar o princípio que fundamenta a alquimia espiritual: a Unidade do mundo. Essa unidade é encontrada na expressão Um-o-Todo, que descreve o caráter indissociável, mesmo idêntico, do Criador e da Criatura. De fato, o Um-o-Todo vai além de qualquer dualismo, a ponto de reconciliar a transcendência e a imanência.

Os respectivos símbolos alquímicos do Sol e da Lua são os seguintes:

Entremos no significado do Sol e da Lua em alquimia.

O Sol e a Lua em alquimia: dois princípios originários do Um-o-Todo.

O Um-o-Todo autocria-se, auto fertiliza-se, autotransforma-se, autodissolve-se, domina a si mesmo. Ele é “o Pai e filho de si mesmo”. Ele é, de acordo com os textos alquímicos, “a natureza que goza consigo mesma”. Assim, o Um-o-Todo, mistério dos mistérios, princípio alquímico essencial e fundamental, contém todas as forças da Natureza.

Daí decorrem duas possibilidades, dois caminhos:

  • o primeiro, é a Natureza que se abandona a si mesma, no desejo, na espontaneidade, no gozo sem controle,
  • o segundo, é a Natureza que diz não a si mesma, que reage contra si mesma, que se domina.

Aqui vemos emergir dois polos de energia: um feminino (livre e passivo), o outro masculino (limitador e ativo). O polo feminino tem vocação de ser dominado pelo polo masculino. Mas o polo masculino não existiria sem o polo feminino.

Em outras palavras, Um-o-Todo, embora unificado, consiste em dois polos ou princípios distintos:

  • o Um que se manifesta na forma de um centro, um princípio organizador e animador,
  • o Todo, matéria-prima indiferenciada que reflete o caos que convém organizar, a potencialidade contida, em parte inerte, mas promissora, que tem vocação de se organizar.

Então, Um-o-Todo tem uma vocação para compartilhar, para se traduzir:

  • no ideograma do Sol (o círculo e seu ponto central), expressão do princípio ativo e dominante, denominado “masculino”, organizador,
  • no ideograma da Lua (semicírculo ou crescente), expressão do princípio passivo denominado “feminino”, ou seja, a substância original indiferenciada e caótica que se pretende animada e organizada pelo princípio ativo.

Nota: Aqui, os termos masculino e feminino são usados de uma perspectiva simbólica, sem correspondência com o suposto caráter de homens e mulheres.

A natureza e as características da Lua.

Uma vez que o Um-o-Todo se separou, a Lua simboliza aquela parte da única energia caótica e indeterminada, a natureza “viscosa”.

Aqui estão as características da Lua:

  • ela é se tornar e mudar: também criativa e destrutiva (dissolvente), simbolizando assim tanto a força vital quanto a morte,
  • ela é cega e selvagem se for separada do centro. Ela é uma sede ardente, luxúria, fome, impulso, gozo,
  • Ela pode assumir qualquer forma, qualquer qualificação,
  • Ela é parcialmente material, terrestre; neste sentido, ela é comparável à “matéria-prima”,
  • Ela pode ser associada:
    • ao elemento Água (triângulo apontando para baixo),
    • ao princípio Mercúrio,
    • ao metal Prata,
    • à cor branca, símbolo da luz (que reflete o Sol),
    • à Virgem: a mulher primordial não penetrada pelo princípio ativo,
  • Ela pode ser simbolizada pelo Ouroboros (serpente que se come ou se gera por sua boca) ou o Dragão que se volta sobre si mesmo.

A vida é uma serpente que está constantemente se gerando e se devorando. É preciso escapar de seus abraços e colocar o pé sobre sua cabeça. Hermes, ao multiplicá-la, a opõe a si mesmo, e num equilíbrio eterno faz dela o talismã de seu poder e a glória de seu “caduceu”. Eliphas Levi, História da magia, 1922.

Aqui, pisar na serpente, crucificá-la ou nela plantar uma flecha equivale à fixação do princípio lunar pelo princípio solar.

A natureza e as características do Sol.

O Sol se afirma como um princípio de fixidez que visa organizar o caos lunar.

Nota: O ideograma Sol corresponde ao hieróglifo do sol do antigo Egito.

Aqui estão as características do Sol:

  • ele é inalterável e imaterial,
  • ele é por natureza celestial,
  • ele é individualizante: constitui o ser coerente, consciente,
  • ele é fixo, invariável, eterno,
  • ele é estabilizante e coagulador,
  • ele é organizador, legislador,
  • ele pode ser associado:
    • ao elemento Fogo (triângulo apontando para cima),
    • ao princípio Enxofre,
    • aos símbolos alquímicos Arsênico (virilidade), Nitro ⦶ (fogo celeste positivo) ou Salitre,
    • ao metal Ouro (que nenhum ácido pode alterar): em alquimia, o Ouro é de fato o reflexo do Sol na terra,
    • à cor vermelha,
    • aos heróis solares: Mitras, Hércules, Jasão, Apolo, Hórus, etc.
  • ele é o ponto central que dá à luz o Ouroboros, que o doma, que o domina. Observe-se que em geometria o ponto dá origem ao círculo.

O Sol às vezes é representado como um segundo dragão que gira em torno do primeiro na tentativa de controlá-lo.

O Sol e a Lua em alquimia: correspondências cósmicas e humanas.

No plano cósmico:

  • o Sol pode ser assemelhado ao divino,
  • a Lua pode ser assemelhada à matéria caótica.

No plano humano:

  • o Sol pode ser assemelhado ao coração (cf. a Sephira Tipheret na árvore cabalística da vida),
  • a Lua pode ser assemelhada à alma mutante (a Sephira Yesod na árvore cabalística da vida),
  • observe-se que em alquimia, o que chamamos alma ou psique é chamado de “Espírito”.

O Sol é a força vital unitária (virtuosa), enquanto a Lua é força vital devoradora (cobiça e desejo). Por outro lado, o Sol parece carregar dentro de si o princípio do Amor: a lei do mundo.

Cuidado com o maniqueísmo.

Não devemos cair no maniqueísmo e pensar que o Sol é bom e a Lua ruim.

Na verdade, a Lua pode refletir perfeitamente as qualidades solares. Da mesma forma, o Sol às vezes pode ser apenas o reflexo pálido, em sua forma egoísta, vulgar e “terrestre”, do verdadeiro Sol eterno e vivo.

Por outro lado, o Sol, por seu aspecto limitante, contraente, coagulante, pode apertar com demasiada força a vitalidade das forças da Natureza. Paradoxalmente, o Sol pode fazer as pessoas pensar no que resfria, gela, petrifica…

Na realidade, a distinção Lua-Sol é artificial: o alquimista os separa para entender melhor, mas ele sabe que todo elemento da criação tem dentro de si as duas energias, masculina e feminina.

Sol e Lua em alquimia: paralelo com o yin e o yang taoísta.

Na alquimia taoísta, as duas forças energéticas fundamentais são yin e yang, semelhante à Lua e ao Sol.

O yin é a energia feminina (Água), o yang a energia masculina (Fogo). Esses princípios às vezes são simbolizados pelo tigre e pelo dragão que sobem e descem, giram, se enredando e, por fim, se harmonizando.

Nota: No taoísmo, o princípio feminino é negro, enquanto sua cor na alquimia ocidental é branca.

A Água e o Fogo em Alquimia

A Água e o Fogo na Alquimia: significado e símbolos associados. Como interpretar esses dois elementos alquímicos essenciais? Quais são os seus significados esotéricos?

Como um lembrete, o princípio que sustenta a alquimia espiritual é a Unidade do mundo. Essa unidade é encontrada no conceito Um-o-Todo, que descreve o caráter inseparável e complementar do centro (o Criador) e do círculo (a Criatura). O Um-o-Todo vai além de qualquer dualismo, a ponto de reconciliar espírito e matéria, transcendência e imanência. O Um-o-Todo se autocria, se auto fertiliza, se autodissolve, se autodomina: é “o Pai e filho de si mesmo”.

Originários do Um-o-todo, o Lua e a Sol (o yin e o yang, feminino e masculino) são as duas energias que impregnam o mundo. Esta é a dualidade hermética fundamental:

  • o ideograma da Lua (semicírculo ou crescente) é a expressão do princípio passivo denominado “feminino”, ou seja, a substância original indiferenciada e caótica que se pretende animada e organizada pelo princípio ativo.
  • o Sol (ideograma do círculo com seu ponto central), expressão do princípio ativo e dominante, denominado “masculino”, organizador da matéria,

Assim, por estar separado do centro, Lua corresponde a uma força desorganizada e indiferenciada, uma corrente obscura e cega dirigida para baixo: é a direção da queda, que se encontra no ideograma alquímico do elemento Água.

Observe-se, entretanto, que essa força precisa ser domada e, uma vez dominada, ela constitui energia potencialmente positiva.

Por outro lado, tudo que retorna ao centro e à unidade é orientado para o princípio sol e é expressa pela direção ascendente, a da chama. O ideograma alquímico do Fogo é, portanto, um triângulo apontando para cima.

Nota: A união da Água e do Fogo, chave essencial para a compreensão da ciência hermética, representa a fusão da imanência e da transcendência: é o Selo de Salomão.

Entremos agora no simbolismo e no significado da Água e do Fogo em alquimia.

A Água e o Fogo na alquimia: definição e significado.

Comecemos pela Água.

A Água.

A Água é uma força vital passiva, ou seja, “cega”. É uma força que não tem consciência de si mesma nem da coerência que a funda (porque o fato é que o princípio Sol está realmente presente nela, sem que ela o saiba).

A Água, uma força obscura sob o signo da Lua, é atraída para baixo: é a natureza que se devora, que cobiça, que goza, que cria tanto quanto destrói, em um ciclo interminável de devir, de transformação.

Mas, em sua descida, a Água (a “Virgem fugitiva”) é detida pelo princípio solar (que ela contém sem saber), que dá origem a outro ideograma: o triângulo invertido riscado, símbolo da Terra.

Nota: A barra que corta o ideograma da Água, para produzir o da Terra, corresponde à base do triângulo do Fogo, que se sobrepõe ao triângulo da Água no Selo de Salomão.

Assim, a Água é neutralizada pela força ordenadora e organizadora, o que significa que ela não pode ir tão longe a ponto de se autodestruir completamente. Concretamente, a Água limitada é a matéria: o Todo indiferenciado que compreende em si, de forma amalgamada, a força negativa e a força positiva (o fogo solar petrificante, coagulante, limitante, expressão da lei intransponível).

Visto de outro modo, o símbolo da Terra simplesmente evoca a Água fixada na matéria (a Obra em Negro visa justamente liberar essa Água, ou seja, remover a parada do ideograma Terra).

O Fogo em alquimia: interpretação.

O Fogo é a força ativa e consciente. Esta consciência dá origem ao ser, seja ele Deus ou o ainda o indivíduo plenamente consciente de si mesmo.

O Fogo vem dominar a força cega da Água. Ele é um princípio fixador, ordenador, organizador e planejador.

O Fogo é atração para o alto: convida-nos a reingressar no centro eterno, o princípio superior e transcendente, sem o qual nada poderia existir.

Mas em sua ascensão, o Fogo é interrompido pelo princípio lunar (Água), que dá origem ao elemento ar, do qual aqui está o ideograma:

Nota: A barra que corta o ideograma Fogo, para produzir o do Ar, corresponde à base do triângulo inverso da Água, que se sobrepõe ao triângulo do Fogo no Selo de Salomão (ver acima).

Assim, o Ar significa que é impossível reingressar totalmente ao princípio transcendente (D’us): não pode se separar da própria “natureza”, da própria matéria. Não se pode tocar o Sol, porque nos queimaríamos, mas podemos respirar seu “ar”.

Na verdade, Água e Fogo não existem em si mesmos.

Na realidade, Fogo e Água não existem em si mesmos. Estes são apenas conceitos. De fato, não se poderia imaginar uma força-Natureza totalmente desorganizada: isso não é concebível. Da mesma forma, não se pode imaginar um D’us separado da Criação, externo a ela: isso também não existe em alquimia.

Água e Fogo são, portanto, conceitos sem fundamento, mas que têm o mérito de separar consciência e espontaneidade, a fim de reuni-los novamente, com o único propósito de facilitar a compreensão de tudo. Este é o objetivo da Arte Real.

Águas congeladas e águas correntes.

Uma vez que os dois princípios masculino e feminino são separados artificialmente, as relações que podem ser estabelecidas entre os dois são:

  • ou o Fogo dominado por Água,
  • ou a Água dominada por Fogo,

No primeiro caso, a lei do devir se exprime: é a mudança, o ciclo perpétuo de morte e renascimento, o samsara Budista, o poder sempre renovado de dissolver o veneno do Ouroboros, o homem devorado pelo Dragão, ou a impossibilidade de acessar seu “self”, seu verdadeiro ser. É viver agitado, atormentado, como um ser obscuro em um mundo escuro.

No segundo caso, corremos o risco de rejeitar nossa verdadeira natureza espontânea, correndo o risco de conceituar tudo, intelectualizar tudo, fixar tudo. É o homem desenraizado, que perde o vínculo com a Mãe Natureza.

É, portanto, o equilíbrio perfeito entre Água e Fogo que devemos tentar encontrar: é a aceitação de tudo e de seu destino, um desapego associado a uma consciência pura e feliz da vida e do mundo como ele é. É a paz, a serenidade, a imortalidade.

Os 4 elementos em alquimia e seus significados

Quais são os 4 elementos em alquimia? Quais são seus significados e seus usos? Quais são os símbolos associados?

Antes de abordar os 4 elementos em alquimia, lembremo-nos que o princípio hermético que sustenta a alquimia espiritual é a Unidade do mundo. Essa unidade é encontrada no conceito Um-o-Todo, que descreve o caráter indissociável e complementar do centro (o Criador) e do círculo (a Criatura). O Um-o-Todo vai além de qualquer dualismo, a ponto de reconciliar espírito e matéria, transcendência e imanência. O Um-o-Todo se autocria, se auto fertiliza, se autodissolve, se autodomina: é “o Pai e filho de si mesmo”.

Originários do Um-o-todo, o Lua e a Sol (o yin e o yang, são as duas energias que constituem o mundo. Esta é a dualidade hermética fundamental:

  • Lua é a expressão do princípio passivo feminino, é a substância original indiferenciada e caótica que se pretende animada e organizada pelo princípio ativo.
  • Sol (ideograma do círculo com um ponto central), é a expressão do princípio ativo e dominante, denominado “masculino”, organizador da matéria,

A partir destas duas energias, a alquimia distingue 4 elementos fundamentais para explicar a natureza do cosmos. Esses elementos não explicam a composição da matéria em si (não estamos no campo da física ou da química), mas expressam diferentes “Estados” ou “Manifestações” da matéria.

Nota: é Aristóteles quem primeiro desenvolveu esta doutrina dos 4 elementos.

Os 4 elementos em alquimia são:

  • a Terra,
  • a Água.
  • o Ar,
  • e o Fogo.

Seus símbolos associados são os seguintes:

Antes de entrar nas características de cada um dos elementos, vamos primeiro relembrar a natureza da Água e do Fogo:

  • a Água tem as mesmas qualidades essenciais que a Lua: ela é força vital passiva, isto é, caótica, cega, sem consciência. É a vida bruta, que não tem consciência de si mesma nem da coerência que a fundamenta,
  • O Fogo é a força ativa e consciente. Esta consciência solar dá à luz o ser, seja D’us ou o indivíduo que despertou para sua verdadeira natureza. O Fogo vem dominar a força cega da Água. Ele é fixador, ordenador, organizador.

Quanto ao Ar e a Terra, veremos que eles constituem estados modificados de Água e Fogo.

Entremos no significado dos 4 elementos em alquimia.

Compreender os 4 elementos alquímicos.

Tu separarás a terra do fogo, o sutil do denso suavemente, com grande diligência. Ele sobe da terra ao céu e novamente desce à terra e ele recebe a força das coisas superiores e inferiores. Tábua de Esmeralda, Hermes Trismegistus.

Os 4 elementos alquímicos não devem ser tomados por elementos químicos. A alquimia na verdade não tem nada a ver com físico-química.

Os 4 elementos realmente resultam da decomposição, da separação (no plano intelectual) do que se encontra na matéria única.

Desse modo:

  • a Terra é a matéria-prima espessa e obscura, que contém tudo em si mesma, e em particular os 4 elementos. Nela, os elementos sutis são difíceis de ver e extrair, mesmo que estejam presentes. A Terra é, portanto, o Todo opaco, quase impenetrável. Ou o alquimista é quem procura explorar esta matéria (que aliás o compõe) para aí encontrar, escondidos na sua intimidade mais profunda, os elementos subtis: a vida, o espírito, a consciência, o princípio organizador, etc.
  • A Água é um estado modificado ou refinado da Terra: a energia vital emergiu, visível, mas é crua, cega, selvagem, sem consciência. Ela é espontânea: não conhece a ordem que o anima, nem o fato de estar em conexão com o centro eterno, organizador e unitário.
  • O Ar é um estado modificado ou refinado da Água: agora o vivente (Homem, o cosmos) está ciente da ordem que o compõe: ele está acordado, aberto à existência do princípio organizador. O ar é, portanto, o elemento da consciência, ou da intuição.
  • O Fogo é a Alma do mundo: é o princípio central que está presente em tudo e que tudo anima. Compreender o elemento Fogo é ser capaz de ver em tudo a sua razão de ser, a sua fonte, o seu plano, a sua identidade, a sua ordem divina.
  • Finalmente, reintegrando o Fogo à matéria, o ciclo se fecha: voltamos à Terra, ao Todo, mas desta vez ordenado. Nos reintegramos ao Um-o-Todo. É, por exemplo, o Homem que assume sua natureza autêntica e seus instintos mais profundos, tendo perfeita consciência e compreensão deles.

Assim, os elementos podem ser classificados de acordo com um eixo inferior-superior, do mais espesso ao mais sutil:

Esclarecemos que a hierarquia apresentada acima é artificial: não se trata de dizer que a Terra é vil e má, e o Fogo, nobre e bom. Na verdade, a Terra contém (sem saber) o Fogo; por outro lado, o Fogo nada seria sem a Terra.

Além disso, de acordo com a fórmula de Hermes Trismegistus, o que está em baixo é como o que está em cima. Podemos interpretar isso como a presença do fogo divino tanto acima quanto abaixo, no Céu e na Terra.

Hermes também diz: Sua força ou poder é completo, se for convertido em terra. Portanto, é bom que a Terra contenha todas as forças, incluindo a do Fogo, embora nenhuma diferenciação tenha ocorrido no estágio terrestre.

Também podemos apresentar os 4 elementos da seguinte forma, em um ciclo, para mostrar as diferentes etapas de refinamento (ou reintegração) dos elementos:

Este ciclo descreve a relação entre os elementos: o Fogo dá à luz a Terra (o Um dá à luz ao Todo), o Terra revela a Água que está nela (a vida selvagem), a Água deixa escapar o Ar (a consciência se manifesta) e, finalmente, o Ar se junta ao Fogo (o primeiro princípio do qual é a próxima imagem).

Os elementos alquímicos e a Cruz.

A tétrade de elementos alquímicos é frequentemente representada sob a forma de uma Cruz.

Originalmente, a Cruz simplesmente traduzia a união do princípio passivo (Lua, feminino, imanência: a linha horizontal) e do princípio ativo (Sol, masculino, transcendência:

O centro da cruz pode então evocar a neutralização ou a fixação desses dois princípios (o Sal), ou ainda a sua síntese ativa: a Quintessência.

Observe-se que há um grande número de variações na representação crucial dos elementos:

Eis aqui outro exemplo:

Os elementos alquímicos através do Selo de Salomão.

O Selo de Salomão representa a União da Água e do Fogo: os dois triângulos de sentidos opostos se sobrepõem.

A decomposição do Selo de Salomão nos permite entender melhor a origem dos símbolos vinculados aos 4 elementos alquímicos:

Assim, o Ar pode ser interpretado como o elemento Fogo parado (cortado) pela base do triângulo invertido Água: o espírito não pode se separar completamente da matéria.

Da mesma forma, a Terra pode ser interpretada como o elemento Água parado pela base do triângulo Fogo: a energia viva é estabilizada (fixada) pela força ordenadora.

Os 4 elementos, macrocosmo e microcosmo.

Que o que está em baixo é como o que está em cima; e o que está em cima é como o que está em baixo, para operar os milagres em uma só coisa. Tábua de Esmeralda, Hermes Trismegistus.

Esta frase pode sugerir uma correspondência perfeita entre o Homem e o cosmos, entre o microcosmo e o macrocosmo.

Assim, os 4 elementos alquímicos refletem os diferentes estados do Homem (o microcosmo), assim como os diferentes estados da Natureza (o macrocosmo), que dá o seguinte diagrama:

No microcosmo, a Água e o Ar juntos constituem o Espírito humano (o que é chamado “a alma” na linguagem comum), seja voltado para baixo ou voltado para cima.

Os 4 elementos em alquimia: interpretação.

Com base nos diagramas acima, podemos fazer uma descrição e interpretação mais precisas dos 4 elementos em alquimia.

A Terra.

A Terra é a matéria-prima caótica, ou, no plano humano, o Corpo. Todas as energias estão contidas nele, mas de forma amalgamada e indiferenciada.

A Terra está associada:

  • a Saturno,
  • ao Chumbo pesado e espesso,
  • à cor preto,
  • ao reino mineral,
  • ao cálcio, que constitui o esqueleto do Corpo,
  • à força árida, seca, mas também ávida, fonte de sede e luxúria,
  • ao que é fixo.

A Água.

A Água é a Natureza cega, força da vida selvagem que tem vocação a ser controlada, ou, no plano humano, o Espírito* ou a psique inconsciente. É o homem obscuro, vítima de seu caos mental.

A Água está associada:

  • a Mercúrio e à Lua,
  • à vida que habita na entidade corporal Saturno,
  • à cor Branco (ou verde para lembrar a natureza selvagem),
  • ao reino vegetal,
  • aos instintos herdados, à sensibilidade e às fantasias (o “aquilo” de Freud),
  • aos nervos ou ao sistema nervoso central,
  • às reações em vez de à ação.

O Ar.

O Ar é o cosmos organizado, ou, no plano humano, o Espírito* iluminado e consciente, ou seja, o homem desperto.

O Ar evoca:

  • a Água que evapora em contato com o Fogo,
  • a vontade esclarecida pela intuição e reflexão,
  • a energia consciente,
  • a ação,
  • a cor vermelha,
  • o sangue,
  • o reinado animal e humano.

O Fogo.

O Fogo é a Alma no sentido de espirito divino: é a consciência absoluta, o centro do mundo, a pura força solar, o princípio transcendente.

O Fogo evoca:

  • o Sol e a cor Ouro,
  • a estabilidade espiritual,
  • a radiação permanente,
  • a consciência perfeita e unitária,
  • a força intelectual (no plano humano),
  • a vida, em um sentido mais elevado e organizado,
  • o centro ou a fonte: aquilo que precede todas as coisas.

Os 4 elementos alquímicos: paralelo com a psicologia.

Podemos traçar um paralelo entre os elementos alquímicos e as noções clássicas de psicologia:

  • a Terra seria a totalidade do indivíduo (corpo + psique), ou mesmo sua parte mais terrena: as sensações,
  • a Água seria o inconsciente, os sentimentos, os impulsos, o instinto,
  • o Ar seria a autoconsciência, a reflexão, a intuição,
  • o Fogo seria o raciocínio e a consciência plena,
  • Enfim, o retorno à Terra, após a decomposição e reintegração de todos esses diferentes aspectos, permitiria ao homem acessar seu “Self”: é ser total e verdadeiro, consciente de todos os elementos que o compõem.

É, em particular, a tese de Carl Gustav Jung, fundador da psicologia analítica. Para Jung, o homem pode se elevar decompondo o interior de sua psique e, em seguida, recompondo-a: é a autoconsciência, própria definição de prática alquímica.

Colocação em perspectiva.

O diagrama a seguir coloca em perspectiva os 4 elementos da alquimia com as 2 energias (Sol, Lua) e os 3 princípios (Enxofre, Mercúrio, Sal):

Veremos ao final que a Grande Obra começa com o elemento Terra que é reduzido a Água (Nigredo), então a Água é reduzida a Ar (Albedo), então o Ar ao Fogo (Rubedo), antes que o Fogo seja definitivamente fixado na Terra. O círculo é assim fechado.

Dos 4 elementos alquímicos aos 3 princípios.

Os 4 elementos da alquimia se combinam para dar origem aos 3 princípios: Enxofre, Mercúrio e Sal.

Enxofre, mercúrio e sal na Alquimia

Enxofre, mercúrio e sal na alquimia: qual é o significado desses três princípios da tríade alquímica? Quais símbolos são associados? Que correspondência com o Corpo, a Alma e o Espírito?

Antes de discutir o Enxofre, Mercúrio, Sal e seus respectivos significados, lembremo-nos que a alquimia concebe a criação como um todo unitário: é isso o que traduz o conceito Um-o-Todo.

Um-o-Todo é composto de duas energias opostas, mas complementares:

  • a Sol, força vital ativa, consciente, organizadora,
  • a Lua, força vital passiva, cega e espontânea.

Nesta base, os quatro elementos Fogo, Ar, Água e Terra podem ser vistos como os estados diferentes do um-o-Todo:

  • a Terra é a matéria-prima caótica, na qual todas as energias são amalgamadas. No plano humano, a Terra corresponde ao Corpo,
  • a Água é a Natureza cega, força da vida selvagem que tem vocação para ser controlada, ou, no plano humano, o Espírito* enquanto mente não dominada a psique inconsciente.
  • O Ar é o cosmos organizado, ou, no plano humano, o Espírito* esclarecido e consciente (o homem desperto).
  • O Fogo é a Alma do mundo, o espirito divino: é a consciência absoluta, o centro do Todo, a pura força solar.

* Em alquimia, o Espírito corresponde ao que chamamos de alma, ou seja, o psiquismo humano.

Os quatro elementos podem ser classificados do mais espesso (a Terra) ao mais sutil (o Fogo), conforme explicado em nosso artigo sobre os 4 elementos alquímicos.

Agora é possível combinar esses quatro elementos ou estados entre si para formar três princípios em uma perspectiva mais dinâmica:

  • o Enxofre: é a expressão da influência solar sobre os elementos,
  • o Mercúrio: é a expressão da influência lunar sobre os elementos,
  • e o Sal: expressa uma influência de equilíbrio sobre os elementos.

Os 3 princípios Enxofre, Mercúrio e Sal constituem os “Três mundos” ou a “Tríade alquímica”:

  • no macrocosmo: Deus, Natureza e Terra,
  • no microcosmo: Alma, Espírito e Corpo,
  • no plano astral: Sol, Lua e Terra.

Aqui estão os símbolos associados:

Entremos no significado de Enxofre, Mercúrio e Sal na alquimia.

Enxofre, Mercúrio e Sal na Alquimia

Em primeiro lugar, especifiquemos que o Enxofre, o Mercúrio e o Sal nada têm a ver com os elementos químicos do mesmo nome: a alquimia não é química.

Na alquimia, Enxofre, Mercúrio e Sal não são estados da matéria, mas influências (positiva, negativa ou neutra). Estes são, portanto, “princípios” (às vezes falamos de “princípios criadores”) e não “estados”.

Concretamente:

  • o Enxofre é um princípio ativo, que tem a capacidade de queimar ou atacar metais. É a força solar que tenta dominar o caos da matéria. É a expressão da superioridade transcendental,
  • o Mercúrio é um princípio passivo, que tem a capacidade de tornar os metais maleáveis, quebráveis ou voláteis. Ele corresponde à influência lunar: a matéria que se cria e se dissolve de acordo com o princípio de imanência,
  • o Sal é um princípio que estabiliza, interrompe ou harmoniza no Todo os dois princípios precedentes.

Assim, Enxofre e Mercúrio são opostos em sua influência, embora sejam complementares. Eles se combinam para formar a matéria-prima que contém tudo, um material que mantém sua consistência graças ao Sal.

A correspondência entre os 4 elementos e os 3 princípios Enxofre, Mercúrio e Sal.

Conforme já vimos, o esquema a seguir ilustra a correspondência entre os 4 elementos e os 3 princípios Enxofre, Mercúrio e Sal.

Agora, vamos entrar nos detalhes de cada um dos três princípios alquímicos Enxofre, Mercúrio e Sal.

O Enxofre: definição alquímica.

O Ideograma do Enxofre consiste em dois sinais sobrepostos:

  • a Cruz, ou tétrade dos elementos,
  • o signo do Fogo dominando os elementos.

Definição: o Enxofre representa a influência solar, expressão do fogo divino (triângulo voltado para cima), operando uma ação purificadora sobre os quatro elementos (a Cruz).

Assim, o estado de perfeição dos metais estará diretamente ligado à maior ou menor presença ou ação do princípio Enxofre.

Nos “três mundos”, O Enxofre corresponde à Alma (Alma do mundo ou Alma do homem): princípio sobrenatural e divino, portador da força solar simbolizada pelo Ouro. Animado pelo fogo divino, expresso pela cor vermelho, a Alma preside a obra em vermelho, fase terminal da transmutação do chumbo em ouro.

O Mercúrio.

O Ideograma do Mercúrio consiste em três sinais sobrepostos:

  • a Cruz, ou tétrade dos elementos,
  • o círculo da substância indiferenciada (o Todo de Um-o-Todo),
  • a lua crescente que supera o todo.

Definição: O Mercúrio representa o estado dos quatro elementos (a Cruz) que constituem a substância indiferenciada (o círculo) pronta para ser ativada sob a influência do princípio lunar (o crescente).

O Mercúrio liquefaz (para baixo) ou evapora (para cima).

Nos “três mundos”, o Mercúrio corresponde ao Espírito presente em todas as coisas (o que chamamos de “alma” na linguagem comum). Ele representa o conjunto de forças, poderes e energias vitais que percorrem e animam a matéria (animação molecular, força da gravidade, de atração, de repulsão, de dissolução, de criação, de coesão, etc.), ou seja, tudo o que está entre o corpóreo e o imaterial.

O Espírito é o portador da força lunar ou mercurial. Ele preside a Obra em Branco, fase intermediária da transmutação do chumbo em Ouro onde se obtém a Prata.

Nota: na química clássica, o mercúrio é um elemento líquido. Sua superfície é como um espelho refletor. Seu movimento é rápido, daí o seu nome de “prata-viva”. Ou seja, o reflexo e a vitalidade são um reflexo das qualidades de Mercúrio.

O Sal.

O ideograma do sal se compõe:

  • o círculo da substância indiferenciada (o Todo),
  • de uma linha horizontal que marca a neutralização das forças solares e mercuriais.

Definição: O Sal representa o poder de equilíbrio das forças em ação na matéria-prima. O sal é ao mesmo tempo neutralização e síntese ativa; expressa o estado estável da matéria.

Na realidade, o Sal (às vezes chamado Arsênico) é menos um princípio do que uma consequência da união do Enxofre e do Mercúrio.

Nos “Três mundos”, o Sal corresponde ao Corpo, à matéria, à Terra.

Enquanto força, o Sal pode ser visto:

  • em um sentido negativo, como a tumba, a prisão, a morte,
  • em um sentido positivo, como o poder de “domar” a Água e o Dragão: é a ressurreição, a recuperação, a entrada em uma vida nova e mais luminosa.

Nota: na química clássica, o sal cristaliza e interrompe a decomposição. Ele se endurece, atua como uma barreira ao fluxo. Ele é ao mesmo tempo seco, quebradiço, úmido e fundente. Assim, pode-se dizer que ele espessa o Mercúrio (cristalização) e fluidifica o Enxofre. Ele é incombustível e à prova de podridão. Ele também pode simbolizar os elementos minerais dos quais os vegetais se alimentam.

O simbolismo dos metais e planetas em Alquimia

O simbolismo dos metais e planetas na Alquimia: como o interpretar? Qual é a doutrina alquímica dos 7 planetas, dos 7 metais, das 7 portas, das 7 chaves ou dos 7 selos? Qual é a ligação com os 4 elementos e os 3 princípios Enxofre, Mercúrio e Sal?

A “doutrina dos Sete”, ou doutrina dos Sete planetas ou das Sete esferas, faz parte da mais antiga tradição alquímica.

Metafisicamente, o número 7 expressa o 3 (a tríade alquímica Enxofre, Mercúrio, Sal) que é se soma ao 4 (a tétrade dos elementos Terra, Água, Ar, Fogo): é a expressão completa da “natureza natural” em ação.

Esses 7 princípios são encontrados tanto no macrocosmo (o universo) quanto no microcosmo (o homem).

A esfera mais pesada (a mais amalgamada) é representada pelo planeta Saturno que combina com o metal chumbo. Os outros planetas e metais representam estados refinados de Saturno.

Deus, o Espírito, em si mesmo masculino e feminino, fonte de luz e de vida, gerou com o logos um segundo ser espiritual que, como Deus do fogo e fluido, criou sete reitores para cercar o mundo sensível com seus círculos e dirigi-lo pelo que é chamado Destino. Corpus Hermeticum, Hermes Trismegistus.

A doutrina dos sete é interessante no sentido de que ela descreve simbolicamente um jornada pessoal a realizar, que consiste em atravessar estas 7 esferas ou “véus”.

Essa jornada vai na direção de uma purificação, de um despertar espiritual. Mas, interpretado no mau sentido, esse caminho pode descrever o apego do ser a aspectos obscuros, sombrios e ilusórios.

Haveria, portanto, um caminho de elevação e um caminho de “queda”, este último relembrando o pecado original de Adão e Eva.

Entremos agora no simbolismo dos metais e planetas em Alquimia

O simbolismo dos metais e planetas em Alquimia

Os 7 metais são tradicionalmente associados aos 7 planetas e às 7 cores seguintes:

  • Saturno – Chumbo – preto,
  • Júpiter – Estanho – azul,
  • Marte – Ferro – vermelho,
  • Vênus – Cobre – verde,
  • Mercúrio – Mercúrio (prata-viva) – cor misturada,
  • Lua – Prata – branco,
  • Sol – Ouro – amarelo.

Esta classificação pode variar dependendo do autor.

Os símbolos alquímicos associados são os seguintes:

Em Saturno todos os outros princípios ou planetas se manifestam: é a matéria, o Corpo (Saturno é uma estrela pesada).

Observe-se que os três planetas Saturno, Júpiter e Marte são lentos, enquanto Vênus, Mercúrio e a Lua são estrelas rápidas.

O Sete no homem (o microcosmo).

No homem, os sete descrevem os 7 pontos por meio dos quais as forças superiores entram no conjunto corporal, tornando-se correntes vitais e energias específicas do homem. Nós também falamos sobre 7 centros de vida.

Cada um desses pontos também pode ser visto como uma porta, um espaço de trânsito que pode ser atravessado em duas direções. Assim, a ação transformadora pode-se realizada em dois sentidos: de humano para não humano ou de não humano para humano.

No primeiro caso, trata-se de “passar as 7 portas”, de “romper os 7 selos”, ou mesmo de “ascender às regiões celestes”. É a ativação dos chakras, o despertar, a ressurreição, a palingênese (evolução no sentido de renascimento).

No segundo caso, trata-se de uma opacificação ou, num sentido mais positivo, uma reintegração do não humano no corpo.

A notar que os Sete às vezes são associados às partes do corpo humano.

Simbolismo dos metais e planetas: evolução ou “queda”.

A doutrina alquímica evoca dois setenários, o que pode parecer misterioso.

Na realidade, não se trata de dois sistemas de esferas distintas, mas de uma mesma realidade manifestada sob dois modos diferentes:

  • o primeiro modo (denominado “setenário superior”) é um despertar progressivo do ser humano através da ascensão das esferas, antes de descer novamente para reencontrar o seu ser completo, total, equilibrado e alinhado com a Lei divina,
  • inversamente, o segundo modo (denominado “setenário inferior”) evoca uma descentralização, ou seja, a aparência de um poder do “eu” corruptor, vulgar, concorrente ao de Deus. Como consequência direta, a verdadeira luz está oculta: é o sono do ser humano. As Sete Esferas são então os 7 Selos (ou o Dragão com 7 cabeças) que evitam que seres não despertos e não regenerados percebam o Fogo divino.

Assim, o simbolismo dos 7 metais e planetas em Alquimia pode devolver:

  • seja para uma hierarquia de níveis de consciência sempre mais altos,
  • ou a uma série de paixões ou faltas que caracterizam o ser adormecido.
A ascensão da alma ou evolução.

A via da evolução corresponde à alma que se desprende da natureza irracional e caótica: viaja pelas esferas planetárias em direção ao alto, como em uma jornada iniciática, despojando-se progressivamente, e finalmente juntando o que às vezes é descrito como a “oitava esfera”: a região das estrelas fixas, a identidade universal, o ser “self”, perfeitamente estável e bem-sucedido, tendo a ciência transcendente, tratando D’us comfamiliaridade.

É o “renascimento de acordo com a essência”: o desabrochar do ser de luz, salvo das Águas.

Nos textos alquímicos, fala-se também das “sete operações da Arte”.

Simbolicamente, um espelho é colocado acima das 7 portas: é um convite ao autoconhecimento, conhecimento que proporcionará as 7 chaves que permitirão abrir as portas.

As 7 esferas, metais, planetas ou portas são, portanto, formas transcendentes de consciência e energia, originalmente escondido no seio da matéria.

A paralisia, o sono ou “a queda”.

Por outro lado, a queda da alma ao longo das esferas planetárias é mais frequentemente descrita pela associação de uma “paixão” a cada centro de vida. O poder do homem primordial é gradualmente alterado em obscuras energias corporais encerradas no subconsciente, na psique e nas pulsões.

Assim, pode-se associar o simbolismo dos planetas e metais na alquimia aos 7 pecados capitais (e às 7 virtudes teológicas e cardeais opostas):

  1. Saturno – Chumbo: avareza (contrário à prudência),
  2. Júpiter – Estanho: gula (contrário de temperança),
  3. Marte – Ferro: cólera (contrário de esperança),
  4. Vênus – Cobre: luxúria (contrário de justiça),
  5. Mercúrio – Mercúrio: desejo (contrário de caridade),
  6. Lua – Prata: preguiça (contrário de força da alma),
  7. Sol – Ouro: orgulho (contrário de fé).

Esta pobre alma, ignorando o que é, torna-se escrava do corpo, de formas estranhas, carregando o corpo como um peso, não como quem domina, mas como quem é dominado. Corpus Hermeticum, Hermes Trismegistus.

É, portanto, a “queda”, a travessia das esferas de alteração ou de “diferença”.

Uma outra descrição, em espiral, ou em círculos concêntricos, é comum. Este tipo de representação pode evocar:

  • O Ouro encerrado no cerne da matéria, e que só pode ser alcançado pela passagem pelos metais intermediários,
  • ou o percurso espiritual em espiral: o movimento ascendente ou descendente que corresponde às diferentes sublimações e precipitações sucessivas que ocorrem, circularmente, no Athanor fechado. Por exemplo:

A espiral acima descreve o processo alquímico: as diferentes descidas aos “infernos”, onde cada “Arsênico” encontra uma Água pela qual é levado a se transformar em um metal mais próximo do Ouro.

A partir daí temos os casais seguintes, de tipo masculino-feminino, em ordem de progressão:

  • Saturno-Lua,
  • Júpiter-Mercúrio,
  • Marte-Vênus,
  • antes de chegar ao Sol (Ouro).

Nota: a travessia das 7 esferas é encontrada em certos escritos gnósticos, tais como Evangelho de Maria Madalena .

A Obra em negro em alquimia: significado

A Obra em negro em Alquimia: significado, descrição e definição. Em que consiste a Obra em Negro? O que é a separação, a dissolução, a putrefação ou a extração?

A alquimia ou “ciência hermética” considera que toda mutação começa com uma regressão antes de poder se elevar a uma qualidade mais nobre.

Em primeiro lugar, ocorre uma separação, uma dissolução, uma mortificação ou uma putrefação (o vocabulário alquímico é muito rico para descrever esta primeira fase do processo).

Esta é a primeira etapa do processo alquímico, de longe o mais difícil, aquilo que consiste em o alquimista vá além de sua personalidade para ter acesso, talvez um dia, ao seu Ouro interior.

Além de ser difícil, a Obra em Negro (ou Nigredo) é uma operação arriscada: na verdade, a dissolução corre o risco de causar a perda do essencial, isto é, do próprio Ouro (o princípio superior, a Alma).

Por outro lado, esta separação pode fazer você pensar em uma luta Mãe-Filho, que é a razão pela qual às vezes é chamada incesto filosofal (Veja mais abaixo).

Aqui está um resumo detalhado da Obra em Negro em Alquimia, bem como uma tentativa de interpretação.

A Obra em Negro em Alquimia: resumo detalhado.

Para entender a Obra em Negro na Alquimia, é preciso lembrar a ideia segundo a qual o Ouro procurado pelo alquimista está aprisionado em “uma prisão muito tenebrosa”. Esta prisão está sob a guarda de Mercúrio (as Águas, o Espírito), ela mesma sob a guarda de Saturno (o chumbo, o Corpo).

Em suma, o Corpo é a prisão.

Será, portanto, uma questão de emancipar a forma de vida sutil do denso Mercúrio e de Saturno. Saturno é o corpo físico que atrai para si e fixa o Mercúrio: na verdade, Saturno é este princípio que sujeita a força vital à individualidade fixada: é a vida condicionada, o indivíduo-ego, o ser não desperto prisioneiro de si mesmo.

Nota: Através da fixação do Mercúrio, Saturno também fixa o Enxofre: o princípio superior é então ele mesmo preso na individualidade, em um determinado corpo.

A Obra em Negro consiste justamente em quebrar essa cadeia: separar significa extrair o Mercúrio do Corpo, o que também permitirá, em última instância, extrair o Enxofre. Assim, o Mercúrio constitui a principal chave da Obra.

Em outras palavras, é uma questão de resgatar Mercúrio, para dar a ele sua liberdade de modo que se torne novamente aquela força vital indeterminada, capaz de revelar seu Enxofre interior, caminho transcendente de transformação. Eis aqui a separação que deve ser operada.

A Obra em negro em alquimia: significado, interpretação

A Obra em Negro é desencadeada pela vontade do alquimista. Ele sente em si uma necessidade de despertar que constitui o Fogo da partida, o fogo do cozimento. Esse Fogo filosófico é um calor interior que certamente vem de um lugar muito sagrado, cheio de amor. Este fogo deve ser suave para revelar o Ouro profundo encerrado no Corpo, e que não se despertará antes que o corpo esteja totalmente dissolvido.

Concretamente, qual é o significado da Obra em Negro na alquimia?

Se abandonarmos a linguagem simbólica, podemos interpretar esta fase como um desapego, pelo qual o indivíduo se retira de sua corporeidade para despertar para a vida em geral. Trata-se de reavivar aquela força universal presente em si mesmo, mas oculta, o inconsciente. O “eu “, o ego, a sensação de viver como um indivíduo separado e autônomo: é isso que precisa ser dissolvido.

Porque é o “eu” que nos impede de acessar nosso ser profundo, universal e eterno. Este desapego é o “deixar as Águas”, Águas que permitirão dissolver o Corpo e, assim, libertar a Alma.

No entanto, essa tentativa de desapegar muitas vezes leva a uma reação de medo o que faz com que a operação falhe e as portas do conhecimento se fechem.

Existe também o risco oposto: o de um desapego rápido demais (uma dissolução muito rápida ou avançada demais), o que acabaria por perder o pé e “perder sua alma”. Isso equivale, na fornalha alquímica, a uma reação muito aguda, causando uma fumaça branca incontrolável que acabaria saindo: é o Espírito que escapa.

Assim, o bom alquimista é aquele que consegue manter o controle de seu forno.

Nota: em alquimia, a Alma designa o espírito divino, enquanto o Espírito representa a alma humana mutante.

Resumo da Obra em Negro.

Em resumo, o objetivo da Obra em Negro é liberar a vida, e obter um Mercúrio puro: por isso devemos entender por isso uma vida livre, sem limites e sem relação com um ser individual. O Mercúrio grosseiro e vulgar, ligado ao Corpo, deve, portanto, ser refinado.

O vocabulário alquímico fala de “preparação de águas corrosivas” ou “preparação do Mercúrio dos Sábios”: o objetivo é espiritualizar o Mercúrio, ou seja, afastar-se de seus desejos, suas paixões, seus impulsos, seus instintos que trazem a força vital de volta ao “eu” individual, ao Corpo, uma espécie de Enxofre negativo.

Esse processo, se for bem-sucedido, tem uma consequência direta: o indivíduo não tem mais nenhuma percepção do mundo exterior por ou para si mesmo. Sua consciência agora está dissociada de seu “eu”. Essa é a prova do vazio, o abandono de tudo em que se fundavam nossos instintos animais. Nos textos, fala-se, entre outros, de sono sem sonhos, estado de transe, letargia, estado cataléptico e finalmente morte aparente.

Porém, é imprescindível que a consciência permaneça alerta durante todo o processo, caso contrário nenhum despertar poderá ocorrer: só assim é que terá sucesso a morte hermética ou “morte filosofal”.

Portanto, este é o significado da linguagem alquímica que fala em “secar a Água muito pesada” (Mercúrio muito corpóreo) para chegar a uma Água espiritual “ígnea”: o Mercúrio filosofal.

A separação, a morte, a escuridão.

Se reformularmos, “separar-se do corpo” significa passar o princípio-vida (Água, Mercúrio) para o estado não-individual, não-corpóreo. A separação é, portanto, dissolução, extração do princípio-vida original: é uma conversão realizada dentro da própria matéria-prima.

Mas no Athanor, forno alquímico perfeitamente hermético, as cinzas corporais não desaparecem: a separação não acarreta nenhum desaparecimento; ela é, antes, uma revelação.

Quanto à morte, ela evoca essa substância que acaba de ser desativada, ou seja, o princípio corporal. Ela é sinônimo de putrefação. Mas, mais uma vez, as cinzas estão lá.

A morte evoca a cor preta: é o estado do corpo quando a Alma lhe foi retirada. O resultado é uma fumaça branca que se eleva e que acima de tudo não deve escapar do Athanor, sob pena de se perder o Espírito.

Além disso, o preto é assimilado à Terra, à Sombra obscura ou ao Corvo.

A Obra em Negro: o Mercúrio e o Enxofre reencontrados.

O resultado da Obra em Negro é encontrar os dois princípios fundamentais que fundam o ser humano (e o cosmos): o Mercúrio e o Enxofre. Esses princípios agora são evidentes, enquanto eles estavam aprisionados na matéria.

Já estamos na primeira fase de formação do Andrógino hermético, composto de Enxofre e Mercúrio. Os dois inimigos se abraçam. As duas serpentes do Caduceu se entrelaçam – a masculina e a feminina – em torno da vara de Hermes. Na Água divina, ou Mercúrio dos Sábios, se anuncia o estado de unidade, que é a verdadeira “Matéria-prima”, da qual se podem ter todos os Elementos e todos os Regimes da Grande Obra. A Tradição Hermética, Julius Evola.

O incesto filosofal.

O estágio da Obra em Negro às vezes é qualificado como incesto filosófico, por referência às relações simbólicas mantidas entre a Mãe e seu Filho, aqui entendidas como feminino-masculino, fixo-volátil, Lua-Sol, etc.

A princípio, a Mãe domina seu Filho: as Águas dissolvem o princípio fixo do “eu” individual. Mas em um segundo momento, o Filho recupera o controle sobre a Mãe, afirmando-se como o único princípio superior.

Assim, a separação intervém no ventre da Mãe que devora ou mata seu Filho, mas provisoriamente, o objetivo final sendo o restabelecimento do poder do Filho, que então se afirmará sobre o princípio que primeiro a dominou e dissolveu.

A Obra em Negra em Maçonaria.

Na Maçonaria, a prova da terra assume o simbolismo da Obram em Negro e da Morte Hermética.

Então está no escuro da câmara de reflexão que começa a iniciação: é aqui que começa a separação, a dissolução, enfim, a Nigredo. A consciência imediata é convidada a desaparecer em favor de uma consciência mais profunda que desperta. O neófito se prepara para morrer no profano para renascer no sagrado.

Por outro lado, na Maçonaria, desbastar a pedra bruta pode ser visto como a operação que consiste em espiritualizar o Mercúrio preso na matéria. É retirar a matéria que está em excesso, é permitir que a Alma e o Espírito exalem, saiam da pedra vulgar. Esta é de fato uma metáfora para a Obra em Negro.

A Obra em Branco em alquimia: significado

A Obra em branco em Alquimia: significado, descrição e definição. Em que consiste a Obra em Branco? Qual é o significado? Por que o Albedo simboliza a ressurreição ou a ascensão?

Anteriormente, vimos que a Obra em negro (Nigredo) constituía a primeira fase do processo alquímico: é a etapa da separação, da dissolução ou da “Putrefação”.

No nível humano, trata-se de extrair a forma de vida sutil encerrada no Corpo. A tradição alquímica fala de livrar Mercúrio (Águas) de Saturno (Terra, chumbo). De fato, Saturno é o corpo físico que atrai e retém Mercúrio: a força vital está sujeita à individualidade fixa. É a imagem do indivíduo egocêntrico e não desperto, prisioneiro de si mesmo e de sua condição.

Concretamente, a Obra em Negro consiste em um desapegar: a consciência se liberta da individualidade.

A Obra em Negro é inseparável da morte, o Corpo físico sendo reduzido a cinzas. Mas neste ambiente de luto, uma luz aparece, semelhante à brancura da Lua. As Águas dissolventes, Águas da morte, transformam-se em Águas de Ressurreição: a luz da natureza se fez conhecer.

É o anúncio da segunda etapa do processo alquímico: a Obra em branco, ou Albedo.

Se a Obra em Negro for separação e morte, a Obra em Branco é ressurreição. Com o branco chega-se a uma nova forma de existência, luminosa: há uma mudança do ser, o nascimento de um novo indivíduo.

A Obra em branco é, portanto, luz, primavera, ressurreição, vida, dia, floração … Ela expressa o estado de êxtase ativo seguindo uma mudança ontológica. A condição do ser humano é ao mesmo tempo suspensa e regenerada.

Eu saí de mim mesmo e me vesti de um corpo que não morre. Agora, não sou mais o mesmo, tive um nascimento intelectual … Não sou mais colorido, tangível, mensurável. Tudo isso me é estranho … E não é com os olhos físicos que se pode me ver agora. Corpus Hermeticum, Hermes Trismegistus

Eis um resumo da Obra em Branco em Alquimia, bem como sua interpretação.

A Obra em branco na alquimia: introdução.

Antes de abordar a Obra em Branco, devemos primeiro distinguir duas vias possíveis da experiência alquímica:

  • a via úmida, que consiste em provocar a suspensão das faculdades individuais condicionadas pelo Corpo e pelo mental, para que o obstáculo por ela constituído seja superado. Esse caminho equivale a libertar o “eu” pela força das Águas (a vida): nós “queimamos com a Água”.
  • a via seca, que consiste em transformar suas próprias faculdades mentais e usá-las como uma alavanca para atingir o objetivo. Essa via equivale a explorar a força do Fogo (“eu”) para que o “eu” opere sobre si mesmo. Aqui, “lava-se com o Fogo”, por uma ação direta, uma vontade consciente.

A via seca se caracteriza pela ausência de preto e o uso de um Mercúrio duplo, ao mesmo tempo Água vital dissolvente e princípio animado por um certo Ouro ativo. Este duplo Mercúrio já contém dentro de si o Fogo secreto dos Filósofos.

A via seca ou rápida permite agir purificando, sem antes produzir o “negro” e depois o “branco”. Durante o processo, a consciência permanece plena e ativa. Mas esta via é mais exigente que a primeira, ela exige uma vontade inabalável, bem como um acompanhamento iniciático. O risco é que ver ressurgir o ego, ainda mais forte que antes.

É por isso que deve ser respeitado um certo ascetismo hermético: trata-se de cultivar a pureza do corpo e do coração, a retidão, o desinteresse, a ausência da luxúria, de inveja e de egoísmo.

Descanse o corpo, acalme as paixões; direcionando-se assim, você atrairá o ser divino para si. Zózimo

A preparação hermética exige grande equilíbrio físico e intelectual, neutralidade perfeita, bem como uma rejeição de desejos artificiais. Tratar-se-á de livrar-se de todos os seus condicionamentos e apegos.

Descrição e resumo da Albedo.

Voltemos à Obra em branco, que faz parte da clássica via hermética, chamada úmida, mas que também é sugerido na via seca.

A Obra em Branco corresponde à revelação da Água divina, Mercúrio celestial, ou ainda à manifestação da “Luz Mágica Vivificante”.

Agora, o indivíduo iluminado é carregado na própria natureza da Alma. É a fumaça branca emitida pela Nigredo. É o Espírito em ação, a inteligência pura, o diáfano ser liberto de si mesmo e de suas paixões.

É, portanto, a primeira das transmutações alquímicas, que também pode ser descrita como uma ressurreição do indivíduo.

Então a Albedo simboliza a Vida que venceu a morte. O Rei ressuscitou, a Terra e a Água estão se tornando Ar.

A Obra em Branco é muitas vezes simbolizada pela chegada de um novo dia: a noite dá lugar ao amanhecer, a Terra se reveste de uma Natureza verde e florida, nasce uma criança vestida com um hábito branco.

A Obra em Branco também marca uma pausa no processo alquímico: a matéria voltou a ser estável, doravante indestrutível (incombustível) em sua nova forma e em sua nova cor: o branco.

O Corpo agora é puro, sutil, espiritual, transparente, aéreo. Nos textos, às vezes é descrito como bastante material (externamente, ele permanece idêntico ao que era), mas agora existe apenas como uma função do Espírito.

Por outro lado, a Água divina (esta prata-viva) confere o poder de ver e ouvir o que normalmente não é possível ver ou ouvir e de curar todas as doenças. É a Água de Sabedoria ou Água da vida quem purifica tudo e que dá imortalidade. Esta água é semelhante ao logos, à palavra divina.

No final, o Albedo é o Mercúrio purificado (a Virgem) que corre para o hemisfério superior para dar à luz um novo Rei, que se unirá ele mesmo à Virgem para fixá-la, estabilizá-la, congelá-la.

A Obra em branco em alquimia: significado, interpretação

Concretamente, qual é o significado da Obra em Branco na alquimia?

A Obra em Branco é um estado estável de êxtase consciente consecutivo ao estado de sono noturno devido à Obra em negro (a separação). Podemos qualificar este estado de “vigília eterna”.

O sono do Corpo tornou-se a lucidez da Alma: meus olhos fechados viram a verdade. Corpus Hermeticum, Hermes Trismegistus

É, portanto, um estado de paz, de serenidade total, chegando à iluminação. É o coração que se exprime enquanto o “eu” dorme. É a consciência humana que se aproxima de Deus.

Assim, o Albedo descreve uma mudança na relação consigo mesmo: por meio de seu “Corpo glorioso”, o indivíduo não teme mais a morte. Todo o seu condicionamento foi quebrado, todos os seus determinismos (instintos, impulsos, heranças) foram superados. O apego, o medo e as paixões se foram.

O orgulho não existe mais. O ego desapareceu.

A finalidade da Albedo.

O estado de suspensão (êxtase) descrito anteriormente não é exatamente a finalidade da Obra em Branco.

Na verdade, a Albedo é completada por uma descida ao corpo que confirma e completa a experiência vivida. Assim, a corporeidade retorna, mas no estado de Luz: estamos falando de Pedra branca, primeira corporificação e projeção do Espírito. O corpo abandona o túmulo, renasce, material e etéreo ao mesmo tempo, completamente consciente e imortal.

Isso evoca Jesus ressuscitado que se apresenta aos seus discípulos de forma visível. Também evoca o episódio bíblico da transfiguração.

A individualidade voltou, mas de uma forma sutil e universal. O Corpo se transformou profundamente.

Assim, o chumbo (ou cobre) tornou-se Prata, também chamado “Rosa Branca”.

Em essência, assistimos:
  • a uma corporificação do Espírito,
  • e a uma espiritualização do Corpo: agora a consciência circula por toda parte na matéria.

Essa descida ao Corpo tem por virtude fixar operação alquímica do branco. Mas vários ciclos de sublimação e retorno ao Corpo (solve et coagula) sem dúvida serão necessários chegar a uma Prata pura:

  • solve corresponde à ascensão (conversão do Corpo em Espírito),
  • coagula corresponde à descida (retorno do Espírito ao Corpo: fixação por um Sal clarificado).

Nota: Se o Corvo está associado à Obra em Negro, a pomba é por vezes associada à Obra em Branco, símbolo de paz, de serenidade estável instalada no Corpo reencontrado. A pomba às vezes aparece na frente de um arco-íris representando as 7 cores que simbolizam a aliança entre o Céu e a Terra.

Conclusão.

No final, a Obra em negro e a Obra em branco são duas fases complementares e inseparáveis do processo alquímico. Testemunhamos pela primeira vez a dissolução do Corpo como um símbolo do indivíduo descentrado, apegado à matéria por si mesma. A Albedo, então, descreve o advento de uma nova forma de indivíduo cujo corpo agora é constituído de sua verdadeira matéria-prima: o Espírito, ele mesmo ligado à Alma do mundo.

Assim, entendemos que a matéria é na realidade apenas um modo de ser do Espírito: é um ensino fundamental da alquimia espiritual.

A Obra em vermelho na alquimia: introdução.

A Obra em vermelho em Alquimia: definição e descrição. Qual é o significado da Rubedo? Em que exatamente consiste a Obra em Vermelho?

Antes de abordar a Obra em vermelho e sua definição, lembremos que o objetivo do processo alquímico é criar um equilíbrio perfeito entre todos os componentes do ser, após estes terem sido purificados e fortificados (ou “retificados”): Este equilíbrio torna possível alcançar o “Centro de si mesmo”.

Concretamente, o domínio do Corpo e da mente possibilita o controle das paixões, o que acalma e unifica o ser íntimo, limpa, ilumina a sensibilidade e a torna mais sutil. É assim que o “eu” vulgar se abre para o Mercúrio (princípio de vida), e a separação (Obra em negro) e a Extração (Obra em branco) podem ocorrer.

Por meio dessas operações, o alquimista atinge seu verdadeiro ser, seu pensamento sendo doravante servido por toda a Natureza, ela mesma sujeita ao Espírito em todas as suas manifestações.

No artigo anterior, descrevemos a Obra em branco, que se divide em duas fases:

  • uma ascensão em direção a um estado de êxtase consciente, uma espécie de iluminação, de vigília eterna e pacífica,
  • uma descida ao Corpo para formar a Pedra branca: agora o Corpo é espiritualizado ao mesmo tempo que o Espírito é coagulado.

Então um “Corpo glorioso” aparece, fisicamente visível, mas a serviço do Espírito iluminado. Todos os condicionamentos do indivíduo foram quebrados. Seu ego e seus determinismos foram superados. O Rei nasceu.

Mas o processo não está totalmente concluído: resta coroar definitivamente o novo Rei com a Obra em vermelho.

Aqui está uma descrição da Obra em vermelho em Alquimia, bem como uma tentativa de interpretação.

A Obra em vermelho em Alquimia: definição e descrição.

Enquanto a Obra em branco é chamada de “Pequeno remédio”, a Obra em vermelho é chamada de “Grande remédio”. Temos a mesma ideia com o uso dos termos “Pequena Obra” e “Grande Obra”, ou mesmo “Pequenos Mistérios” e “Grandes Mistérios”.

A Pequena Obra se faz sob o signo da Lua (com o Sol ao fundo, é claro), enquanto a Grande Obra é feita sob o signo do Sol.

A Obra em vermelho é na realidade a continuidade da Obra em branco, com o objetivo de aperfeiçoar o processo de fixação. Trata-se de aumentar o Fogo para que ele evapore os últimos vestígios de Água, e que só fiquem o Fogo e a Terra (cinzas).

Este Fogo não mais se unirá ao Corpo pela Água, mas diretamente, o que permitirá ao homem atingir sua perfeição suprema.

Por meio da Obra em Branco, o homem se uniu à Vida, mas uma Vida de cujo princípio ele ainda não pode se aproximar. Pela Obra em vermelho, ele se aproxima do centro solar, ordenador.

Assim, enquanto a Obra em Branco permite ao Espírito alçar voo sob o signo do Ar (a intuição), a Obra em vermelho coloca o indivíduo em contato com o Fogo intelectual (a ideia organizadora).

Trata-se de um retorno à individualidade completa e total, sob o signo do Enxofre: é o nascimento do Rei hermético com sua púrpura, seu cetro, sua coroa e seu diadema (entende-se melhor agora a expressão ” Arte real“).

Sua força ou poder é completo, se for convertida em terra. Tábua de Esmeralda, Hermes Trismegistus.

Assim, a Obra em Branco deve ser completada e alcançada pelo elemento Fogo levado ao seu máximo. Mas é bem a terra, em toda a sua profundidade, que contém e recebe este Fogo primordial: é a mina de Ouro dos filósofos. As cinzas e os resíduos gerados no início do processo serão os elementos que permitirão realizar a Grande Obra.

Para resumir o conjunto do processo alquímico, podemos dizer que a Obra começa com o elemento Terra que é reduzido a Água (Nigredo), então a Água é reduzida a Ar (Albedo), depois o Ar em Fogo (Rubedo), antes que o Fogo seja definitivamente fixado em Terra. Assim, fecha-se o círculo.

A Obra em Vermelho ou Rubedo: interpretação.

Vamos mais longe na definição e interpretação da Obra em Vermelho.

Nós entendemos a Obra em vermelho como a última transmutação: a Prata é transmutada em Ouro. Todos os metais imperfeitos são destruídos. Apenas permanece a Pedra vermelha, ou Pó vermelho.

Essa fase traz o “eu” de volta à plena consciência de seu estado primordial, absoluto e universal. A consciência é agora o equivalente perfeito do Corpo, este Corpo que agora expressa a reinstalação final do Espírito na matéria. O morto é definitivamente ressuscitado, absolutamente unido a si mesmo.

Portanto, trata-se de uma reconciliação íntima, de uma ressurreição sem resíduo, sem impurezas. Nada foi realmente abandonado, tudo foi reintegrado, mesmo o mal, mesmo o sofrimento. Agora tudo se confunde no Amor, essa força que tudo aceita, tudo abraça, tudo dissolve.

A Pedra filosofal é o resultado final desse processo de transformação: é o indivíduo que se transformou, que se refez: a pedra bruta que ele era transformou-se em “filosofal”.

No final, a Obra em vermelho marca a hora da redenção. Todos os pecados são redimidos. A culpa desaparece. O indivíduo toma consciência de que não é nada e ao mesmo tempo que é tudo: não é o microcosmo igual ao macrocosmo? O ser desperto se deixa trespassar pela evidência daquilo que constitui, ou seja, a encruzilhada de todas as forças do universo. Ele mesmo é a realidade, a verdade, a vida, o ovo cósmico inteiro.

O indivíduo já não é obstáculo de nada: deixa-se atravessar pelo Um e pelo Todo.

O chumbo se transforma em Ouro, o acaso se dissipa quando, com Deus, sou transformado por Deus em Deus. Angelus Silesius (Sacerdote, alquimista e místico do século 17)

A obra em amarelo em alquimia (Citrinitas)

A Obra em amarelo na alquimia: o que é? Em que consiste a Obra em Amarelo? Definição e significado.

O propósito do processo alquímico é a transformação do ser. Trata-se de recompor o indivíduo após ter purificado e retificado seus componentes: Corpo e Espírito (no sentido de alma humana).

O objetivo é criar um ser equilibrado, mais iluminado, mais consciente, mais centrado, mais sutil, pronto a entrar em um mundo de paz e serenidade, longe das ilusões e da confusão do mental.

O processo de transformação envolver tradicionalmente três etapas:

  • em primeiro lugar, a Obra em negro (Nigredo) consiste em uma separação, uma dissolução ou uma putrefação: trata-se de dissolver o Corpo para libertar o Espírito (as Águas) de sua influência. Ou seja, a Obra em Negro consiste em abandonar tudo o que nos acorrentava à nossa individualidade material: é a morte do ego, abandono das paixões, renúncia aos desejos, aos medos e às ambições,
  • a seguir vem a Obra em branco (Albedo): é o surgimento da consciência pura (as Águas Vivas), o nascimento do ser espiritualizado, comparável à Lua que aparece no meio da escuridão da noite. É a ressurreição do ser, o nascimento de um novo indivíduo. Liberto do Corpo, do orgulho e do ego, o Espírito humano não mais teme a morte; ele se eleva em direção ao que o excede: O sono do Corpo torna-se a lucidez da alma (Corpus Hermeticum, Hermes Trismegistus). Esta etapa termina com uma descida do Espírito ao Corpo (formação da Pedra Branca ou “nascimento do Rei”): a individualidade retorna, mas de uma forma mais sutil, mais desperta,
  • finalmente, a Obra em vermelho (Rubedo) chega para fechar o processo: é a formação da Pedra Vermelha (ou Pedra filosofal), em outras palavras, o coroação do Rei sob o signo do Sol (o centro ordenador). De fato, o indivíduo não precisa mais do Espírito (a psique, as Águas) para entender o que ele é. Ele está agora em relação direta com o Fogo intelectual, que ilumina totalmente a matéria. Aqui temos uma reconciliação de espírito e da matéria: o indivíduo está definitivamente reunido consigo mesmo e com o cosmos ; todos os seus componentes são harmonizados, sem qualquer intermediário.

Às vezes, uma quarta etapa é adicionada a este processo, que se insere entre a Obra em branco e a Obra em vermelho: é a Obra em amarelo, também chamado Citrinitas, e às vezes xantose (“Amarelecimento” em grego).

Esse amarelecimento é, portanto, um estágio intermediário entre o branco e o vermelho, entre a consciência lunar (Obra em branco) e a plenitude do Ser (Obra em vermelho).

Entremos no significado da Obra em amarelo na alquimia.

A Obra em Amarelo na Alquimia (Citrinitas): descrição, interpretação.

Enquanto a Obra em branco marca o nascimento da consciência purificada (livre de suas ilusões e do peso do ego), a Obra em vermelho pode ser definida como a extinção de qualquer forma de consciência individual: agora colocados sob a luz direta do Sol, o ser humano experimenta o mistério em vez de o pensar ou interpretar.

A transição do branco para o vermelho, portanto, reflete um salto na consciência, que marca a passagem de um estado individual para um estado universal.

Essa passagem se torna mais compreensível se introduzirmos uma etapa intermediária, neste caso a da Obra em amarelo. Esta etapa evoca:

  • uma nova morte (a “morte amarela”), que corresponde à renúncia definitiva à individualidade. Trata-se de renunciar às últimas identificações, às últimas ilusões devido à consciência de um eu separado,
  • ou ainda um amadurecimento, uma passagem gradual do individual ao universal, do duplo ao Único, do separado ao reconciliado.
Em resumo, poderíamos dizer que:
  • A Obra em Negro é umaluta (para se libertar da individualidade, do ego),
  • a Obra em Branco é uma liberação (ou tomada de consciência),
  • a Obra em Amarelo é o início da sabedoria,
  • A Obra em Vermelho é a iluminação, ou seja, a plenitude, o retorno definitivo ao Todo.

A Obra em amarelo é, portanto, a última etapa antes da coroação final: é o último esforço de renúncia, de desapego. É também a via da serenidade, da humildade e da sabedoria, esta última palavra sendo tomada no sentido de uma perfeita autoconsciência, mas também no sentido de um apagamento quase total da individualidade, a fim de alcançar a última realidade.

Mas cuidado, essa “sabedoria” pode, em alguns casos, assumir um aspecto equivocado: o sábio que não tem a vontade real de apagar seus últimos resquícios de individualidade pode muito bem se tornar um guru ou um impostor.

Concretamente, a Obra em amarelo marca a evaporação das últimas Águas psíquicas sob o efeito do Fogo solar, cuja potência aumenta progressivamente. A Obra em vermelho é a conclusão desse processo: não há mais Água, não há mais consciência no sentido “individual” do termo.

No final das contas, a Obra em amarelo é essa porta que nos permite entrar na realidade última, que podemos chamar de paraíso terrestre ou ” Reino de Deus“.

A cor amarela.

A cor amarela da Obra em amarelo evoca um estado intermediário entre o branco e o vermelho: é um estado transitório, evolutivo, que corresponde a um aumento gradual do fogo alquímico.

Estamos entre dois, entre a Lua e o Sol. A Lua se torna vermelha: a psique e a consciência se desvanecem para dar lugar gradativamente ao Princípio Superior, que tem vocação para se tornar o único Mestre a bordo, o que de fato sempre foi.

O amarelo também evoca a cor do Ouro, imagem de perfeição absoluta, de autoconhecimento e de imortalidade.

Conclusão sobre a Obra em amarelo na alquimia.

Da mesma forma que a Obra em Negro abre a Pequena Obra (ou Obra em Branco), a Obra em amarelo anuncia a Grande Obra (ou Obra em vermelho).

Por um último esforço de se despojar, o indivíduo empurra a porta da realidade última: ele se prepara para se fundir com o cosmos e suas leis, tornando-se tudo e nada ao mesmo tempo.

Assim a Obra em amarelo representa o amanhecer da luz solar inerente ao ser, e que a luz lunar reflete apenas imperfeitamente.

2 comentários em “ALQUIMIA, O QUE É?

  1. Vou reler e acompanhar o “pensamento expresso”, com mais rigor e procura/aprendizagem!

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