Bibliot3ca FERNANDO PESSOA

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História da Loja Comércio e Artes – Primaz do Brasil (0001)

Por IVALDO GONÇALVES LOBATO – M⸫ M⸫

Palácio do Lavradio – Rio de Janeiro

Prezados Irmãos!

 O trabalho que ora vos apresento, tem como objetivo principal induzir os amados Irmãos aqui presentes, a realizarem uma viagem no tempo. Partindo do passado, com destino ao presente, com a finalidade de projetar suas consequências no futuro. É evidente que esta viagem só poderá ser realizada se nos for permitido o emprego do meio de transporte mais eficiente da atualidade, a nossa mente, haja vista, que dispomos de apenas 20 minutos para percorremos um universo de mais de 200 anos de história, dentro os quais a Loja COMERCIO E ARTES, tema central desta apresentação, está contida, contribuindo com 188 anos em prol da nossa Ordem e do Brasil.

Tomemos como ponto de partida o dia 4 de julho de 1776, data de publicação da Declaração de Independência das treze Colônias Inglesas da América do Norte, documento redigido por Thomas Jefferson, além de Maçom, um dos liberais mais avançado da época. Esse documento afirmava que: “todos os homens nascem iguais…” É sob a influência desse acontecimento que fazemos a nossa primeira escala, aportando no dia 14 de julho de 1789, quando o “povo simples” de Paris invadiu a Bastilha, milenar fortaleza-prisão do estado francês, a notícia sobre esse fato percorreu rapidamente a Europa. Espalharam-se de boca em boca, em jornais, panfletos e cartazes. O símbolo do antigo regime caíra! Todos que tomaram conhecimento do fato, mesmo que aterrorizados, pressentiram o início de novos tempos para a humanidade.

Os homens e mulheres que fizeram a Revolução de 1789, ao defenderem os princípios de “Igualdade, Liberdade e Fraternidade” como válidos para todos, legaram à humanidade uma divisa que está sempre presente nas lutas contra o autoritarismo.

Foi no início deste mesmo século que surgiu a franco-maçonaria especulativa ou moderna tal como a conhecemos hoje e que muito iria contribuir nessas transformações, cujos desdobramentos atingiriam o mundo colonial e em particular o Brasil.

O progresso econômico, explodindo com a Revolução Industrial, chocou-se com a barreira dos privilégios sociais e políticos, suporte e razão de ser do absolutismo. A contradição entre os problemas novos e as velhas regras e obsoletos instrumentos disponíveis para resolvê-los dar na crise do Antigo Regime, a qual, por sua vez levou à revolução, cujo ponto de partida foi a França, mas que se expandiu com rapidez por todo o Universo Atlântico. A sua maneira, o Brasil parte desse universo, foi profundamente afetado por esses acontecimentos. O poder reagiu como sabia e como podia, e as agitações terminaram em prisões e mortes, com o trono permanecendo firme no controle de suas colônias americanas. A repressão, porém, não poderia deter o avanço da revolução, que de francesa tornou-se européia e ao ampliar-se, incendiou o Velho Continente. Portugal também foi absorvido pelo conflito, e cedendo ao poder de Napoleão foi obrigado a fazer concessões à Inglaterra em troca de um acordo que previa na eventualidade de Portugal ser invadido, a família real transmigraria para o Brasil protegida pela armada inglesa. E assim, D João, juntamente com a família real, embarcou para o Brasil em 29 de outubro de 1807 chegando em Salvador em 22 de janeiro de 1808. Essa decisão resultou da fraqueza do Reino e teve extraordinária importância para o Brasil. As mudanças começaram com a abertura dos portos ao comércio internacional, e foram consolidadas a seguir com a instalação do monarca no Rio de Janeiro, marcando o início da construção de um aparelho de Estado que tendia a unir capitanias, antes dispersas, em torno de um centro político – a corte – agora situado no próprio espaço americano.

No início do século XVIII, com o desenvolvimento econômico e intelectual da colônia, alguns grupos pensaram na Independência Política do Brasil, de forma que os brasileiros pudessem decidir sobre seu próprio destino. Ocorreram, então, a Inconfidência Mineira (1789) que marcou a história pelo caráter de seus seguidores; depois a Conjuração Baiana (1798) e a Revolução Pernambucana (1817), todas elas duramente reprimidas pelas autoridades portuguesas. Em todos estes movimentos a Maçonaria se fez presente através das Lojas Maçônicas e Sociedades Secretas já existentes, de caráter maçônico tais como: “Cavaleiros da Luz” na Bahia e “Areópago de Itambé” na divisa da Paraíba e Pernambuco, bem como pelas ações individuais ou de grupos de Maçons.

Com relação ao movimento da Inconfidência Mineira, vale ressaltar o que disse Márcio Jardim, autor de “A Inconfidência Mineira” – Uma síntese factual, publicado pela Biblioteca do Exército, página 334. “…José Aires Gomes disse, pouco depois de um encontro com o Alferes, que os homens de negócio do Rio apoiavam o levante porque desejavam liberdade de Negócio e porque Negociantes, que só olham para os seus interesses, e marcham para onde se lhe figuram mais vantajosos. Eles queriam o apoio de Minas para fazerem juntos uma América Inglesa. Antônio Ribeiro de Avelar, ANTÔNIO GONÇALVES LEDO e Antônio Jacinto Machado são os três comerciantes cariocas que mais aparecem nos Autos. A conduta de um descendente de Antônio Gonçalves Ledo (Joaquim Gonçalves Ledo) no processo de independência brasileira de 1820 – 1822 é fartamente conhecida.”

Acrescentamos, ainda, sobre este personagem dentro da Loja Comércio e Artes o que estar inserido na página 148 do livro “ Maçonaria Adonhiramita e o Escocismo”, do Ir⸫ José Daniel da Silva, onde consta como Anexo III a transcrição de uma carta de Gonçalves Ledo a seu irmão de sangue Custódio, datada de 1808, quando ainda em Portugal, que aqui reproduziremos por sua evidente importância histórica para a compreensão dos propósitos eminentemente políticos da maçonaria brasileira da época.

“Custódio,

Disse-lhe na carta de 14, que seguiu pelo correio inglês, ter sido meu ato reprovadíssimo por todos. Censurado geralmente. Mas eu tenho razões patrióticas para não acompanhar o Dr. Andrada nas forças de front. A invasão do General Junot, a partida do Rei e da Corte para o Rio de Janeiro, o tratado de Fontainebleau, os acontecimentos que ora se desenrolam na Europa são, e ninguém o negará de boa-fé, o início, senão o grande passo da nossa formação nacional, da liberdade do Brasil. Brasileiro, não seguirei os Batalhões Portugueses, nem derramarei meu sangue na defesa dos opressores de minha terra de nascimento, o amado Brasil. Dizem-me fraco e pusilânime, ignorantes que são todos dos meus intuitos não proclamados abertamente. Se o Rei de Portugal, se a nobreza de Portugal, abandonaram o berço que os embalou, não serei eu, nascido no Brasil, odiando os matadores de Tiradentes, que iria para o campo de batalha lutar pela liberdade dos déspotas que sugaram e ainda sugam as riquezas brasileiras. Partirei daqui brevemente e acompanhado de mais amigos irei organizar no Brasil a primeira Loja que será o centro da propaganda liberal do Brasil. Lembre-me ao Araújo e eu sou o seu irmão.

Joaquim Gonçalves Ledo”

Com esta carta estava lançada a semente germinadora da nossa Loja, e assim, em 1815, na casa de João José Vahia, à rua Pedreira da Glória, no Rio de Janeiro, era fundada a Loja Comércio e Artes. Entretanto, após o fracasso da Revolução Pernambucana de 1817 e a expedição do alvará de 30 de março de 1818, que proibia o funcionamento das sociedades secretas, a Loja, interrompeu seus trabalhos, só sendo reerguida a 24 de junho de 1821, com o título de “Comércio e Artes na Idade d’Ouro”; sob os auspícios do Grande Oriente de Portugal.

Segundo Teixeira Pinto, a reinstalação da Loja “Comércio e Artes’ se realizou após um jantar na casa do Capitão-de-Mar-e-Guerra José Domingos de Ataíde Moncorvo, na Rua do Fogo (atual rua dos Andradas), entre a Rua das Violas (atual Teófilo Otoni) e Rua Estreita de São Joaquim (atual Marechal Floriano), Rio de Janeiro.

Da análise desta ata constatamos que:

– a loja fora instalada em novembro de 1815, sem precisão de data, mas as perseguições a obrigaram a abater colunas, tendo sido queimadas suas atas. Na reinstalação, em 1821, apenas seis anos depois, já não havia a lembrança da mais importante data da sua breve vida – dia da fundação, – que certamente teria constado em ata, se recordado fosse;

– a reinstalação se deu em 24 de junho de 1921, data cultuada pela Maçonaria, data em que se instalou a Grande Loja de Londres em 1717, Dia de São João, data em que tradicionalmente confraternizamos em Loja de Mesa;

– o calendário usado foi o profano, gregoriano; não se contou o ano a partir de 1º de março nem de 21 de março; apenas o ano foi grafado como manda a tradição maçônica dos ritos Francês ou Moderno e do Adonhiramita (o REAA ainda não era usado), adicionando-se 4000 ao ano civil;

– A loja Comércio e Artes, na sua fundação, usava o prenome de “Loja de são João”, sinalizando que era uma Loja Simbólica;

– Curiosamente, em época de tantas perseguições, os nomes dos fundadores de 1815 aparecem por extenso, não com os nomes simbólicos típicos do Rito Adonhiramita que se tem como certo fosse o usado na loja, na época;

– Nem Diderot nem Pitágoras (Gonçalves Ledo e José Bonifácio) participaram desses dois momentos históricos, conquanto Gonçalves Ledo, em breve, chegasse a Venerável desta Loja.

A propósito da atuação de Gonçalves Lodo nesta Loja, é oportuno registrar o trecho da Ata publicada nas páginas 23 e 24 do livro “Casos de Maçonaria”, do Irmão Pedro Henrique Lopes Casals e nas páginas 116 e 117 do livro “História Geral da Maçonaria”, do Irmão Nicola Aslen:

“Aos vinte e cinco dias do segundo mês do ano da V⸫ L⸫ de 5822” – já aqui usando um calendário maçônico (Quarta-feira, 15/05/1822 da E⸫ V⸫ sob a presidência do Ir⸫ GRACCO – Cap João Mendes Viana), o Ir⸫ DIDEROT (Joaquim Gonçalves Ledo) propôs “nomear uma Comissão de sete membros, destinada a redigir a Constituição Brasílica Maçônica, para reger o Gr⸫ Or⸫ e Maç⸫ Brasiliense” – este é o primeiro registro da intenção de se fundar a nova Obediência. Dava assim mais um passo no cumprimento das promessas feitas ao seu irmão Custódio, na carta já mencionada de 1808, em que dizia “…irei organizar no Brasil a primeira Loja que será o centro da propaganda liberal do Brasil.”

Na mesma sessão, ele ainda propôs “se decorarem as CCol⸫ com GGr⸫ Maiores e darem-se estes por comunicação”, o que pode ser uma indicação da mudança pretendida do Rito Adonhiramita para o Francês ou Moderno, que será, como veremos, o rito adotado pelo Grande Oriente Brasílico (que Ledo chamou aqui de “Brasiliense”), e onde o grau dado “por comunicação” significa a dispensa de uma cerimônia ritualística específica, talvez pelo desconhecimento ou falta dos rituais necessários, o que é mais plausível.

Por fim, em uma indicação do uso político que iria fazer das honrarias maçônicas (os “aumentos de salário”), propôs “que na escolha dos indivíduos que houverem de ser elevados, se deverá atender às virtudes e fervor maçônicos, e não à “antiguidade”.

Essa “virtude” e esse “fervor”, não eram propriamente maçônicos, mas “patrióticos” – assim entendidos os atos em prol da independência do Brasil. Com essa proposta sobre as “honrarias” foi plantada a semente, insuspeitada, da eleição de José Bonifácio ao Grão Mestrado, tempos depois, para a consecução do objetivo maior que foi a iniciação e rápida exaltação de D. Pedro, logo conduzido ao mesmo cargo em golpe realmente de “Mestre”. Todas as proposições foram aprovadas – segundo Nicola Aslen, pela unanimidade dos 128 maçons presentes. Estava, assim, lançada a pedra fundamental do Grande Oriente do Brasil, e, por extensão da Independência. Enquanto isso, os portugueses cansados da dominação e da decadência econômica do país, iniciam uma revolução na cidade do Porto culminando com a expulsão dos ingleses.

Estabelecem um governo temporário, adotam uma Constituição Provisória e impõem sérias exigências a D. João (agora com o título de rei e o nome de D. João VI). Entre as exigências destacavam-se as seguintes: aceitação da constituinte elaborada pelas cortes; e sua volta imediata para Portugal. Com receio de perder o trono e sem alternativas, D. João VI regressa a Lisboa (Portugal) em 26 de abril de 1821, deixando como Príncipe Herdeiro, nomeado Regente do Brasil pelo Decreto de 22 de abril de 1821, o primogênito com então 21 anos de idade – PEDRO DE ALCÂNTARA FRANCISCO ANTÔNIO JOÃO CARLOS XAVIER DE PAULA MIGUEL RAFAEL JOAQUIM JOSÉ GONZAGA PASCOAL CIPRIANO SERAFIM DE BRAGANÇA BURBON. O Príncipe Dom Pedro, jovem e voluntarioso, aqui permanece, não sozinho, pois logo se viu envolvido por todos os lados de homens idealistas, a maioria maçons, que constituíam a elite pensante e econômica da época.

Enquanto isso, as cortes de Portugal estavam preocupadas com as perdas das riquezas naturais do Brasil, e previam a sua emancipação, como ocorria em outros países sul-americanos. Dois Decretos de 29 de setembro de 1821, de números 124 e 125 emanados das Cortes Gerais portuguesas, são editados na tentativa de submeter e inibir os movimentos no Brasil.

Um reduzia o Brasil da posição de Reino Unido à antiga condição de colônia, com a dissolução da união brasílico-lusa, o que seria um retrocesso; o outro considerando a permanência de D. Pedro desnecessária em nossa terra, decreta a sua volta imediata. Diante desses acontecimentos, a maçonaria mais uma vez se fez presente, e com extrema habilidade se aproximou de D. Pedro com o intuito de convencê-lo a permanecer no país em desobediência aos decretos supracitados. Esse movimento foi liderado pelos maçons José Joaquim da Rocha e José Clemente Pereira e com a representação de diversas províncias ao príncipe. A representação dos paulistas, de 24 de dezembro de 1821, foi redigida de forma enérgica pelo Maçom José Bonifácio de Andrada e Silva. A representação dos fluminenses foi redigida pelo frei Francisco de Santa Tereza de Jesus Sampaio, orador da Loja Comércio e Artes e em cuja cela, no convento de Santo Antonio, reuniam-se os principais líderes do movimento.

Assim, em 9 de janeiro de 1822, na sala do trono e interpretando o pensamento geral, traduzidos nos manifestos dos fluminenses e dos paulistas e no trabalho de aliciamento dos mineiros, José Clemente Pereira, presidente do Senado da Câmara, antes de ler a representação, pronunciou inflamado e contundente discurso pedindo para que o Príncipe Regente permanecesse no Brasil. Após ouvir atentamente, o Príncipe responde: “estou pronto, diga ao povo que fico”. A alusão às hostes maçônicas era explicita e D. Pedro conheceu-lhe a força e a influência, entendendo o recado e permanecendo no Brasil. Este episódio, conhecido como o Dia do Fico, marcou a primeira adesão pública de D. Pedro a uma causa brasileira.

Por esta época, já circulava o jornal, “Reverbero Constitucional Fluminense”, dirigido e redigido por Gonçalves Ledo e pelo Cônego Januário da cunha Barbosa, que circulou de 11 de setembro de 1821 a 8 de outubro de 1822, e que teve a mais extraordinária influência no movimento libertador, pois contribuiu para a formação de uma consciência brasileira.

Dando continuidade ao processo da independência, em 13 de maio de 1822, os maçons fluminenses, sob a liderança de Gonçalves Ledo e por proposta do brigadeiro Domingos Alves Munis Barreto, resolviam outorgar ao Príncipe Regente o título de Defensor Perpétuo do Brasil, oferecido pela Maçonaria e pelo Senado. Ainda, em maio de 1822, aconselhado pelo então seu primeiro-ministro das pastas do Reino e de Estrangeiros, José Bonifácio, D. Pedro assina o Decreto do cumpra-se, segundo o qual só vigorariam no Brasil as Leis das Cortes portuguesas que recebessem o cumpra-se do príncipe regente. Em 2 de junho de 1822, em audiência com D. Pedro, o Irmão José Clemente Pereira leu o discurso redigido pelos Maçons Joaquim Gonçalves Ledo e Januário Barbosa, que explanavam da necessidade de uma Constituinte. D. Pedro comunica a D. João VI que o Brasil deveria ter suas Cortes. Desta forma, convoca a Assembleia Constituinte para elaborar uma Constituição mais adequada ao Brasil. Era outro passo importante em direção à independência.

Foi dentro deste contexto, em 17 de junho de 1822, que a Loja “Comércio e Artes na Idade do Ouro” em sessão memorável, resolve criar o “Grande Oriente Brasílico ou Brasiliano”, que depois viria a ser denominado de “Grande Oriente do Brasil”, e para que essa iniciativa tivesse respaldo legal, foram criadas mais duas lojas pelo desdobramento de seu quadro de obreiros, através de sorteio, surgindo assim as Lojas “Esperança de Niterói” e “União e Tranquilidade”, se constituindo nas três Lojas Metropolitanas conforme consta na ata da referida sessão. José Bonifácio de Andrada e Silva é eleito o primeiro Grão-Mestre, tendo Joaquim Gonçalves Ledo como 1º Grande Vigilante e o Padre Januário da Cunha Barbosa como Grande Orador.

Vale ressaltar, que a história da nossa Independência está intimamente ligada com a fundação do Grande Oriente do Brasil, tanto que o objetivo principal da sua criação, foi de engajar a Maçonaria como Instituição, na luta pela independência Política do Brasil, conforme consta de forma explícita das primeiras atas das primeiras reuniões, em que só se admitia para iniciação e filiação em suas Lojas, pessoas que se comprometessem com o ideal da Independência do Brasil. E dentro deste contexto foi fundamental o papel da Loja Comércio e Artes.

Entretanto, se faz necessário ressaltar, que não havia unanimidade para a consecução dessa empreitada, pelo contrário foi instalada uma verdadeira dicotomia entre os principais líderes da maçonaria atuante na época, duas facções já vinham se digladiando há algum tempo, ambas defendendo a independência política do país, mas sob formas diferentes de governo e maneiras diferentes de encarar a questão. Gonçalves Ledo e seus aliados pregavam o rompimento total com a metrópole portuguesa, enquanto, Bonifácio e seus seguidores, mais moderados, se alinhavam numa união brasílico-lusa, num regime de monarquia constitucional. Havia, na verdade, grandes interesses políticos e pessoais em jogo, já que ambos os grupos disputavam as prioridades de D. Pedro, não importando os meios empregados para o esmagamento do adversário.

Foi em virtude dessa oposição, que em 29 de julho de 1822, passa a ser editado o jornal – “Regulador Brasílico-Luso”, depois denominado, “Regulador Brasileiro”, lutando, também, pela independência, mas entrando em debate com o “Revérbero”, na defesa de José Bonifácio, redigido pelo frei Sampaio, que devido à veiculação de suas ideias, foi inquirido, no Grande Oriente, pelo grupo de Ledo, e sofreu ameaças e sanções. Em 2 de agosto de 1822, por proposta de José Bonifácio, é Iniciado o Príncipe Regente, D. Pedro, adotando o nome histórico de Guatimozim (último imperador Asteca morto em 1522), e passa a fazer parte do Quadro de Obreiros da Loja “Comércio e Artes”. Já no dia 5 de agosto, por proposta de Gonçalves Ledo, que ocupava a presidência dos trabalhos, foi aprovada a Exaltação ao Grau de Mestre Maçom que possibilitou, posteriormente, em 4 de outubro de 1822, numa jogada política de Ledo, o Imperador ser eleito e empossado no cargo de Grão-Mestre, do Grande Oriente do Brasil. Daí para a efetivação de emancipação política do Brasil foi um pulo à frente do movimento, achava-se a Maçonaria e os Maçons.

Mesmo que, atuando de forma contrária aos ensinamentos maçônicos, pois, no jogo de interesses que haviam se estabelecidos entre os dois grupos opositores, não havia espaço para tolerância, o respeito mútuo e muito menos para a fraternidade. Até mesmo os segredos dos assuntos tratados em loja, eram violados, vejamos o que diz Teixeira Pinto, à Pag. 20 de sua “A Maçonaria na Independência do Brasil”: “…Na direção desse Clube serviu-se José Joaquim da Rocha de todos os meios para entravar ou anular a ação da maçonaria, chegando a manter dentro da loja “comércio e Artes” perfeito serviço de espionagem. Descobriram, mais tarde o nome de um dos informantes. Chamava-se Frei Francisco de Santa Tereza de Jesus Sampaio, membro ativo da loja “Comércio e Artes,” onde usava o nome histórico de Pilades…” Esse é apenas um dos episódios, entre muitos ocorridos naqueles conturbados dias. A discórdia entre Gonçalves Ledo e José Bonifácio, no meu entender, foi fator determinante pela efêmera existência do Grande Oriente Brasílico, pouco mais de quatro meses. Além de ter prejudicado consideravelmente os registros oficiais da Ordem, quando Atas foram queimadas, livros desapareceram e muitos outros desmontes ocorreram dificultando sobremaneira o trabalho dos historiadores atuais, que em busca da verdade, e não encontrando documentos confiáveis, terminam divergindo entre si, principalmente em se tratando de datas. Outra consequência, não menos grave dessa rivalidade, era sem dúvida a coação sofrida pelo Príncipe Regente, tendo que tomar decisões apoiado por opiniões contraditórias. Tudo levando a se acreditar ter sido estes os principais motivos que fizeram D. Pedro I suspender os trabalhos do Grande Oriente do Brasil, fazendo tal comunicação através de um bilhete enviado ao 1º Gr⸫ Vig⸫, datado de 21 de outubro de 1882.

Com o fechamento do Grande Oriente, por seu segundo Grão-Mestre, D. Pedro I, a 25 de outubro de 1822, a Maçonaria brasileira entrou em longo período de adormecimento, só ressurgindo em 1830, com a fundação do Grande Oriente Nacional Brasileiro, que ficou conhecido como Grande Oriente da rua de Santo Antônio e, depois, como Grande Oriente da rua do Passeio, ou, simplesmente, “do Passeio”, em alusão às ruas em que se instalou. E já no mesmo ano da criação do Grande Oriente do Passeio, a “Comércio e Artes” era reerguida e filiada a ele. Quando, todavia, foi reinstalado o Grande Oriente do Brasil, a Loja filiou-se a ele, como fundadora. Em 1833, ela abandonou o Grande Oriente Brasil e voltou ao Grande Oriente do Passeio, adotando o Rito Escocês Antigo e Aceito e vindo a desaparecer na época de decadência do Passeio, cerca de vinte anos depois. Todavia, com a saída dela, o Grande Oriente do Brasil havia criado, em abril de 1833, nova “Comércio e Artes”, que adotou o Rito Moderno.

Esta, por dissidência, também acabou saindo do GOB, no final de 1834, indo para o Passeio; mas, como não quis fazer fusão com a outra “Comércio e Artes” que lá estava, ela acabou se dissolvendo. Com a saída desta última, o GOB criou nova Loja, em 1834, considerando-se como reinstalação da primitiva Loja de 1815; ela adotou o Rito Moderno e só iria passar para o Escocês Antigo e Aceito em fevereiro de 1974. Ainda ocorreriam, porém, mais duas reinstalações, por causa de dissidências: em 1863, a Loja foi fundadora do Grande Oriente da rua dos Beneditinos, dissidência liderada por Joaquim Marinho, e só voltou ao GOB quando esse Grande Oriente foi absorvido, em 1883, fundindo-se, então, com a outra; e em março de 1948, quando a Loja saiu para ser fundadora do Grande Oriente Unido, retornando quando este foi absorvido pelo GOB, em 1956, fundindo-se com aquela que havia sido criada para substituí-la. Desta forma, apesar de todas as divergências dos nossos IIr⸫ do passado, temos que admitir que suas atuações, sempre foram direcionadas na busca de manter esta Loja ativa, atuante e ocupando um lugar de destaque dentro da Maçonaria brasileira, e, em especial, dentro do Grande Oriente do Brasil. Razão pela qual o § 1º do Art 8º da atual Constituição do Grande Oriente do Brasil, diz textualmente – “Constituem patrimônio histórico do Grande Oriente do Brasil as três Lojas Simbólicas legítimas, regulares e perfeitas que lhe deram origem: COMERCIO E ARTES, UNIÃO E TRANQUILIDADE E ESPERANÇA DE NICTHEROY, as quais não poderão abater colunas.” Diante do exposto, todos nós meus IIr⸫, que formamos o atual quadro de obreiros da Loja Comércio e Artes, temos a grande responsabilidade de dá continuidade aos trabalhos dos nossos antepassados, que começou com a materialização do sonho de Gonçalves Ledo e teve continuidade na dedicação de inúmeros IIr⸫ que deixarei de citar para não cometer injustiça, entretanto, volto a ressaltar com toda a ênfase. A responsabilidade agora é toda nossa. Isto posto, temos que tomar as devidas precauções para evitarmos erros como os ocorridos no passado. Quer isto dizer que não se pode ser Maçom sem se respeitar à ordem democrática e a moral vigente, que, aliás, devem estar em consonância nas sociedades civilizadas contemporâneas. Um Maçom que não se identifique nesses termos com a sociedade em que integra, dificilmente poderá manter a sua condição de Maçom, porquanto nenhum legítimo dever profano deve estar em contradição com o juramento maçônico. A perpetuação de nossa instituição passa, com absoluta certeza, pelo grau de compreensão de seus membros e na renovação sistemática de suas lideranças. Cabe a cada um de nós renunciarmos as vaidade e presunções infundadas para o bem. Para vivermos em igualdade, sem qualquer grau de subordinação, é muito difícil, todavia, dentro da Maçonaria é necessário. Não basta respeitar o Irmão como homem, devemos respeitá-lo como Maçom. Não importa qual o Grau ou Rito que frequente, importa sim, o respeito pelo ato da Iniciação e pela instituição a que o Maçom pertence. Se quisermos ser verdadeiros Maçons pautemos a nossa vida com a prática da caridade e abandonemos o medo, a vulgaridade, o ódio, a inveja, a maledicência, o ciúme, o rancor, o sentimento de vingança e o desamor. Outra questão que este Irmão que vos fala considera importante, é muito bem salientada em nossos Rituais, refere-se as nossas responsabilidades para com o Grande Arquiteto do Universo. A Maçonaria não é uma religião, todavia, um Maçom é religioso, é um homem que acredita em Deus. Ele tem que reconhecer a convicção dele em Deus entes mesmo que possa ser feito Maçom. Tudo em Maçonaria tem como referência Deus. Implica em Deus, fala de Deus e conduz a Deus. Não há um Grau, nem um Símbolo, nem uma conferência, nem um ensinamento que não ache seu significado e derive sua beleza de Deus, o Grande Arquiteto do Universo. Toda Loja é erguida a Deus e seus trabalhos dedicados em nome de Deus.

Nenhum Iniciado entra em uma Loja sem manifestar a sua confiança em Deus. Um verdadeiro Maçom, portanto, é um homem religioso. Por isso, meus Irmãos encerro rogando ao Grande Arquiteto do Universo que abençoe e proteja a Loja Comércio e Artes nestes seus 188 anos de existências e que nos ajude a manter as suas colunas erguidas, de forma que daqui a mais 188 anos outros Irmãos estejam aqui nos reverenciando. E assim seja.

BIBLIOGRAFIA:

1 – CASTELLANI, José, A História do Grande Oriente do Brasil – A Maçonaria na História do Brasil. Brasília – Gráfica e Editora do Grande Oriente do Brasil, 1993.

2 – CASTELLANI, José, Os Maçons que Fizeram a História do Brasil, 2ª ed., Editora A Gazeta Maçônica, Londrina, 1997.

3 – PINTO, Teixeira. A Maçonaria na Independência do Brasil.

4 – D`ALBUQUERQUE, A Tenório, A Maçonaria e a Independência do Brasil, 2ª ed., Gráfica Editora Aurora Ltda, Rio de Janeiro.

5 – FERREIRA, Manoel Rodrigues & LIVIO, Tito, A Maçonaria na Independência Brasileira, Volume 2, 2ª Ed., Gráfica Editora Biblios Ltda, São Paulo, 1972.

6 – JOEL Guimarães de Oliveira, Maçonaria e Independência – Um Estudo das Atas do Grande Oriente do Brasil, trabalho apresentado em loja, 1999.

Rio de janeiro, RJ, 14 de novembro de 2003.


Publicado no site da Loja Comércio e Artes – 001

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