REVISTA BIBLIOT3CA

Leituras Selecionadas do Editor-Chefe J.Filardo

O pensamento de Johan Gottlieb FICHTE para a reforma da maçonaria alemã de Friedrich Ulrich Ludwig Schröder

 

Ir. Rui Badaró[1]

INTRODUÇÃO

A compreensão histórico-filosófica da maçonaria enseja sua divisão em três[2]:

  1. a) a inglesa, de cunho tradicionalista, observadora rigorosa de rituais, imutável em suas formas consagradas pelo correr de três séculos (1717-2017), e que, transportada para os países de formação inglesa, manteve a mesma índole praxista em sua vida íntima e o mesmo comportamento perante o mundo não-maçônico;
  2. b) a francesa, que embora de origem britânica, cedo sofreu profundas transformações, ditadas pelas condições do meio em que se desenvolveu, adquirindo uma feição intensamente latina, e que se espalhou pelo mundo, tornando-se conhecida principalmente pela sua ação política, social e religiosa, e à qual estão filiadas a maçonaria brasileira, a portuguesa, a italiana, a espanhola, a romena, e as de todos os países hispano-americanos; e por último,
  3. c) a alemã, também de procedência inglesa, mas que sofreu a marca do espírito germânico, muito mais propenso às especulações metafísicas, tendo desde cedo adotado ritos e sistemas próprios, sendo sua história repleta de tentativas de ensaios de reformulações sistemáticas.[3]

Nesse contexto de uma maçonaria voltada às altas indagações filosóficas que permeava a reforma da fraternidade na Alemanha é que se inscreveu a construção do sistema de ensino Schroderiano[4], cujo principal objetivo foi o realinhamento com as práticas maçônicas inglesas[5], restaurando o que Schröder entendia como a verdadeira e antiga maçonaria, ou seja, sem os enxertos de misticismo, rosacrucianismo, iluminados, cavalheirismo e altos graus, vez que eles não integravam a maçonaria em seu início.

Assim, o principal substrato filosófico para a construção de um novo sistema de ensino maçônico por Schröder foi o pensamento idealista[6], uma das principais orientações filosóficas daquela época.[7]

2. FICHTE: ENTRE A FILOSOFIA E A MAÇONARIA.

É neste contexto que se insere a compreensão do pensamento de Johan Gottlieb FICHTE e sua importância para a reforma da maçonaria alemã de Schröder[8].

Note-se que FICHTE é pouco conhecido no seio da Maçonaria, não só por conta da raridade de sua obra nesta seara, mas também porque sofreu um “inexplicável” boicote dos escritores maçônicos, os quais silenciaram sobre sua atuação, preferindo, a maioria dos autores a dar maior ênfase a FESSLER, seu contemporâneo e contendor direto (bem como seu padrinho), mas sem dúvida alguma de menor magnitude no campo do pensamento filosófico.

Tendo nascido em 19 de maio de 1762 em Rammenau (Oberlausitz), Johann Gottlieb FICHTE estudou em Iena[9] e foi entusiasta de SPINOZA e seu racionalismo crítico, bem como de KANT, de quem foi um dos mais, senão o mais destacado discípulo. Em 1791, em Königsberg, com auxílio de KANT, publicou sua primeira pesquisa, a qual o guindou, da noite para o dia, a condição de um dos pontos altos do pensamento alemão[10].

Em 1793 foi iniciado, em Zurique, após longas hesitações, das quais se encontram traços em sua correspondência de outubro de 1792[11], com Theodor von Schön, ministro e burgrave de Marienburgo. Fichte chegou a afirmar:

“Estou convicto, com toda a segurança possível a um leigo, de que os maçons não têm finalidade universal alguma, e de que todo seu esforço se resume em procurar tal finalidade, que esperam obter de símbolos e antiqualhas”

Interessante observar que FICHTE repetiria esta afirmação por diversas vezes em debates com FESSLER, GOETHE e HERDER. Em 1794, à míngua da existência de Lojas maçônicas em Iena, FICHTE filiou-se à Loja “GÜNTHER DO LEÃO RAMPANTE” em Rudostadt, que tinha como grão-protetor o príncipe daquela cidade. Em sua filiação, FICHTE afirmou que tinha planos múltiplos, ideias e esperanças[12], para o que lhe seriam necessários homens de ânimo bastante elevado. Por seu discurso, FICHTE recebeu elogios de GOETHE e, meses depois, foi apoiado diretamente por ele em sua nomeação como professor da Universidade de Iena.

Em 1794, FICHTE foi nomeado professor na Universidade de Iena, com apoio direto de GOETHE. Sua eloquência trouxe muitos ouvintes e uma grande influência sobre os estudantes. Acusado de ateísmo, por identificar Deus com a ordem moral do mundo, entrou em conflito com as autoridades de Iena, sendo demitido da cátedra que ocupava em 1799[13] e mudado para Berlim no mesmo ano, onde conviveu com TIECK, SCHLEIERMCHER, SCHLEGEL e outros românticos.

Uma vez em Berlim, FICHTE foi apresentado por FESSLER à loja “ROYAL YORK DA AMIZADE”, facilitando-lhe rápida ascensão, bem como sendo responsável direto por seu destino na maçonaria. O filósofo alemão sentia que, naquela oficina, mais que em qualquer outro lugar, poderia encontrar terreno favorável aos seus planos de renovação maçônica, notadamente porque FICHTE sabia que FESSLER havia incrustrado o pensamento filosófico de KANT anos antes e tinha a esperança que ali se poderia talvez realizar seu sonho “de fazer desta coligação, ativa em todas as partes do mundo, um órgão da filosofia. Determinando os graus de iniciação à luz da ciência.[14]

Assim, em 14 de outubro de 1799, FICHTE pronunciou seu discurso intitulado “Sobre a verdadeira e reta finalidade da maçonaria e sobre seus hieróglifos” suscitando o entusiasmo de todos, dado a profundeza de seus conhecimentos. Porém, ainda não estava FICHTE filiado à Loja ROYAL YORK DA AMIZADE”, o que ocorreu após seu retorno de Iena e Hamburgo[15], onde tomou conhecimento, ainda que de forma tarda, sobre os esforços de SCHRÖDER para reformar o sistema de ensino vigente na Grande Loja Provincial de Hamburgo (Estrita Observância).[16]

A ascensão de FICHTE foi tão rápida que em 23 de maio de 1800 já havia sido alçado à condição de Oberredner (primeiro orador) de sua novel oficina. Entre as incumbências de seu cargo, constava-se a de fazer, a cada quinze dias, uma conferência (Vorlesung) sobre a maçonaria. Entre 13 a 27 de abril de 1800, FICHTE passou a ministrar verdadeiras aulas diante de numerosos irmãos, não só da Grande Loja Royal York, como também de irmãos da Grande Loja Mãe Nacional dos Três Globos, da Grande Loja Nacional da Alemanha, potências que junto com a primeira formavam o tríplice sistema berlinense.

Essas conferências ministradas por FICHTE representaram uma grande afirmação pessoal, o que ensejou o surgimento de diversas rusgas entre os irmãos.[17] Nesse momento, pareceu ao idealista o momento oportuno de chamar para si a direção da Grande Loja Royal York, como era sua intenção desde o início.[18] Assim, no dia seguinte à sua nomeação como Grande Orador da Grande Loja Royal York, FICHTE pediu a FESSLER um colóquio para discorrer amplamente sobre novas reformas, que deveriam sobretudo extirpar as antiqualhas e toda influência francesa do sistema de ensino maçônico então praticado. Imediatamente, FESSLER recusou-se a aderir à ideia vez que entendia que as dificuldades eram demasiadas e a própria experiência fazia-o considerá-las insuperáveis. Essa recusa agravou o estado de latente dissídio entre FICHTE e FESSLER, nomeadamente porque o segundo temia que o poder lhe fosse tirado pela genialidade e ardor de FICHTE[19].

Em 28 de maio de 1800, em nova tentativa de assalto ao poder, o filósofo escreveu ao Grão Mestre Adjunto uma carta, acompanhada de um esquema de suas ideias, quais sejam, o realinhamento com as práticas maçônicas inglesas, extirpando-se toda e qualquer influência maçônica francesa, bem como os enxertos que prostituíam as práticas maçônicas berlinesas. Em que pese tenha escrito a carta com afeto, algumas frases não deixaram de soar um tanto cruas. O sumário das observações que a acompanhava, continha uma crítica radical ao método e à posição doutrinária de FESSLER. A resposta adveio imediatamente, com grande dignidade, criticando as páginas de FICHTE com mal velada ironia, sem ceder-lhe num único ponto, e afastando integralmente suas propostas[20].

Em 6 de junho de 1800, no comitê que discutia os projetos de constituição, FICHTE e FESSLER altercaram-se violentamente, em plena assembleia. A discussão versava ainda sobre o argumento das reformas que deveriam enaltecer a autoridade e a força da Grande Loja Royal York. Já no dia 10 de junho, FICHTE replica às respostas epistolares de FESSLER, com uma carta, mostrando-se ainda mais mordaz e decepcionado com a maçonaria berlinesa. Em 15 de junho de 1800, FESSLER pronunciou em loja um discurso que acabou por ser considerado por FICHTE um verdadeiro ato de hostilidade às suas ideias. Tratava-se, em verdade, de uma condenação, por parte de FESSLER, aos Evergetas da Silésia, movimento que outrora fora fundador, mas, por conta do momento político vivido ensejou o dissimulado e agudo discurso de FESSLER[21].

O crítico discurso proferido por FESSLER era dirigido claramente à FICHTE, ainda que fosse por ele negado[22]. O resultado foi que o filósofo idealista perdeu as estribeiras e, no dia de São João, durante a festa da loja, investiu violentamente contra FESSLER, suscitando os clamores de seus próprios partidários. Ainda que tenham se reconciliado após a nova altercação, os irmãos da Grande Loja Royal York cansaram-se de FICHTE, perigoso demais para a sua tranquilidade. No dia 27 de junho de 1800, em pleno Colégio de Veneráveis, um deles dirigiu um libelo acusatório ao filósofo, tendo sido repetido por escrito dias mais tarde.[23]

Em 07 de julho de 1800, FICHTE, cansado e aborrecido com a maçonaria berlinesa, pediu seu quite placet, restando sua atividade maçônica truncada, exatamente quando pensava colher frutos. Nos meses que se seguiram, FICHTE encaminhou seus discursos/conferências à HERDER, MEYER E GOETHE, dentre outros pensadores e irmãos que tivera contato nos anos anteriores[24]. Em 1802, suas conferências foram publicadas em 2 volumes sob o título PHILOSOHIE DER MAUREREI, BRIEFE AN KONSTANT na revista ELEUSINAS. Interessante apontar que FESSLER teve o mesmo destino de FICHTE dois anos depois[25], sendo inclusive, obrigado a deixar Berlim.

3. A FILOSOFIA DA MAÇONARIA – CARTAS À CONSTANT

PRIMEIRA LIÇÃO

  1. CARTA I – Partimos da existência de homens sábios e virtuosos dentro da Ordem Maçônica.
  2. CARTA II – A finalidade dos sábios é a finalidade última da humanidade.
  3. CARTA III – A evolução humana é posta em perigo pela divisão do trabalho.
  4. Em meio à divisão do trabalho uma sociedade particular não pode ter função alguma.
  5. CARTA IV – A finalidade de uma sociedade particular pode ser apenas a de elevar a um plano de cultura humana universal a unilateralidade das classes sociais.
  6. Limites desta determinação da finalidade: educação para a liberdade ética ou para a sensibilidade moral?
  7. CARTA V – Pode valer a maçonaria como fim a si mesma?
  8. CARTA VI – O que realiza a cultura maçônica no maçom: a imagem do homem maduro. 9. CARTA VII – Que ação exerce a cultura maçônica sobre o mundo: a influência recíproca sobre as classes sociais.

SEGUNDA LIÇÃO

PARTE I

Dedução do conteúdo do ensinamento maçônico

  1. CARTA VIII – A finalidade última da existência humana: os problemas dessa vida à luz da eternidade. Os três pontos principais deste problema: Igreja, Estado, domínio sobre a natureza.
  2. Qual é o objeto da cultura maçônica? Procedendo da educação do intelecto, ela é “instrução”. CARTA IX – A instrução é na Maçonaria, como em toda instituição de cultura, a coisa mais essencial.
  3. CARTA X – A finalidade eclesiástica como objeto de instrução: o conceito universalmente humano de religião.

CARTA XI – Aquele que ainda tem de ser disciplinado com o prêmio e o castigo para conservar-se homem honrado não pode pertencer a maçonaria, pois que, longe como está de aspirar a um melhoramento da educação por ele recebida através da sociedade, carece desta mesma cultura.

  1. CARTA XII – A finalidade política na instrução maçônica: o amor à pátria e o sentimento cosmopolita.
  2. O trabalho na concepção maçônica

PARTE II

Dedução histórica e da forma da instrução maçônica

  1. CARTA XIII – As instituições secretas de cultura certamente tão antigas quanto a divisão das classes
  2. CARTA XIV – As instituições secretas constituem seguramente uma tradição contínua através de toda a História
  3. CARTA XV – A forma didática destas instituições deve ser metafórica e, portanto, secreta; e somente pode servir-se da comunicação oral.
  4. CARTA XVI – O conteúdo desta instrução não pode ser outro senão a sabedoria da cultura universalmente humana, que toda época deve buscar nos mistérios.

 

 

NOTAS

[1] Ir. Rui Aurélio de Lacerda Badaró, Mestre Maçom da Justa e Perfeita Loja de São João, 680, Or. de Sorocaba, GLESP. Membro da ASMACLE – Academia Sorocabana Maçônica de Artes, Ciências e Letras.

[2] OSLO, A. Die Freimaurer. Dusseldorf: Patmos Albatross, 2002. passim

[3] FREIMAURER WIKI. Friedrich Ludwig Schroder. Disponível em http://freimaurerwiki.de/index.php/Friedrich_Ludwig_Schr%C3%B6der#Re.C2.ADformation_der_Freimaurerei . Acesso em 05 de novembro de 2017..

[4] Em 1789, dado a inquietude que dominou a maçonaria alemã, quando as Lojas de Hamburgo alteraram as cerimônias, símbolos e insígnias, Schröder entendeu a gravidade do que ocorria, bem como percebeu que tais mudanças poderiam representar a derrocada da instituição. Assim, convencido da necessidade de reformular o sistema de ensino vigente por meio do restabelecimento das práticas inglesas, Schröder iniciou, a partir de 1790, a elaborar um novo ritual para a Grande Loja Provincial da Baixa-Saxônia, subordinada à Grande Loja de Londres (Grande Loja dos Modernos) como assim diziam os que se intitulavam “antigos”, que não possuíam um Ritual escrito em inglês com um texto autêntico. Para lograr êxito, Schroder contou com o apoio direto de Johann Gottfried von HERDER na elaboração do novo sistema de ensino. Tal iniciativa fez com que uma Comissão de Estudos fosse criada no sentido de identificar os enxertos, vícios e excentricidades então vigentes. Todo este trabalho, sob a presidência de Schroder teve por base o texto apócrifo de “Three distinct knocks: (or The door of the most ancient free-masonry)”. Sobre este assunto cf. SOLF,H.H. Origem e fontes do ritual de Schröder. Traduzido por Kurt Max Hauser e Samuel Herbert Jones. Revisão de Antonio Gouveia de Medeiros e Rui Jung Neto. Edição comemorativa aos 209 anos do rito – 29 junho de 1801/2010.

[5] Three distinct knocks: or The door of the most ancient free-masonry

[6] Tomando a obra “The Three distinct Knocks” (or: The door of the most ancient free-masonry), considerado por Schroder o mais antigo e genuíno ritual inglês, levando em consideração os debates/cartas trocadas com BODE, MEYER, HERDER e GOETHE, somando a influência do pensamento de SCHILLER, LESSING, KANT, FICHTE e SCHELLING (estes dois últimos que despontaram para a maçonaria sobremaneira a partir de 1794 e início do século XIX), escreveu seus rituais com forte carga idealista e enfrentando represália e desconfiança por parte da maçonaria de Hamburgo, que estava entregue ao cavalheirismo e misticismo do sistema de ensino da Estrita Observância, mas que ao final, rendeu-se às propostas de Schroder. A elaboração de novos rituais e sua respectiva aprovação representaram o ápice da reforma da maçonaria alemã, promovendo não somente o realinhamento com as práticas da fraternidade inglesa, como também apresentando, enfim, as características do pensamento filosófico da época. BADARÓ, R. O Idealismo alemão como substrato para a construção do sistema de ensino de Schröder. Peça de Arquitetura. Porto Alegre: VII Seminário Nacional do Rito Schroder, 2016..

[7] FREIMAURER WIKI. Idealismus. Disponível em http://freimaurerwiki.de/index.php/Idealismus. Acesso em 05 de novembro de 2017.

[8] O Preâmbulo do Compact da Grande Associação Maçônica de 1801, o qual tem atribuída a sua redação à FESSLER, quando, em verdade, estes estratagemas foram propostos por FICHTE em seu debate com FESSLER sobre o “conceito de uma história para a fraternidade maçônica” no período de 28 de maio de 1800 a 10 de junho de 1800, onde resta claro que foi FICHTE e não FESSLER quem apontou os princípios basilares da Grande Associação Maçônica que visava a reforma da maçonaria alemã (berlinesa), a saber:”1º) Franco-Maçonaria e fraternidade maçônica, são dois conceitos bem diferentes, como as palavras “ciência e escola”, “religião e igreja”. Isto nos leva para; 2º) Franco-Maçonaria, independente de tempo e condições locais, sempre una e a mesma, é sempre aquilo que envolve e coloca firmemente o homem interno entre o esquadro e o compasso, seu modo de pensar e agir e que fixa a posição moral do homem na Sociedade, embora a Franco-Maçonaria possa ocasionalmente ter-se desenvolvido em direções diferentes. 3º) As Grandes Lojas Provinciais Unidas não reconhecem na Fraternidade Maçônica o tal chamado propósito ou desígnio secreto que se diz possuir e além dos três Graus de São João. Para elas o objetivo da Fraternidade Maçônica é o mesmo: prática, manutenção e crescimento comum da Arte; tudo isto visto pela luz de sua pura tendência moral. Isto os mais esclarecidos Irmãos têm em todos os tempos reconhecido. 4º) Como não mais se pode deixar aos caprichos de Maçons isolados ou Lojas em particular, a decisão e definição da natureza e tendência da Maçonaria, as Grandes Lojas Provinciais Unidas estão convencidas de que o mais antigo Ritual Inglês dos três Graus é o único em que podemos confiar como fonte histórica e para compreensão da natureza e evolução da Franco Maçonaria.” In: SOBRE O CONCEITO DE UMA HISTÓRIA DA ORDEM/FRATERNIDADE MAÇÔNICA – Correspondências entre FICHTE e FESSLER no período de 28 de maio de 1800 a 10 de junho de 1800. FICHTE, J.G. Filosofia da maçonaria. São Paulo: Fraternidade, 1984. Pags 133-160

[9] Em sua juventude, é sabido e, hoje comprovado, que FICHTE integrou a ordem secreta estudantil dos “Irmãos Negros” de Iena. Sobre estas ordens, FICHTE escreveu, em 1795, umas memórias que permaneceram inéditas até 1955..

[10] Fichte decidiu devotar sua vida à filosofia, depois de ler as três Críticas de Immanuel Kant, publicadas em 1781, 1788 1790. Em 1790, ele volta para Leipzig, onde um pupilo seu pede para ter lições sobre a filosofia kantiana. Apesar de mal conhecer as obras de Kant, Fichte aceita o pedido e passa a estudar com afinco as obras de Kant, dando conta das três Críticas em poucas semanas. A leitura das Críticas foi muito importante para que Fichte superasse o determinismo, fazendo com que se evidenciasse que o “novo mundo” é o mundo da liberdade, que se evidenciava como a chave para entender toda a estrutura da razão. Segundo diz o próprio Fichte em carta a Johana “a vontade humana é livre, e a felicidade não é o fim do nosso ser, mas a dignidade de ser feliz”. São, portanto, essas convicções que tornam Fichte um filósofo, aos 28 anos. Sua investigação de uma crítica de toda a revelação obteve a aprovação de Kant, que pediu a seu próprio editor para publicar o manuscrito. O livro surgiu em 1792, sem o nome nem o prefácio do autor, e foi saudado amplamente como uma nova obra de Kant. Quando Kant esclareceu o equívoco, Fichte tornou-se famoso da noite para o dia e foi convidado a lecionar na Universidade de Jena. Fichte foi um conferencista popular, mas suas obras teóricas são difíceis. Acusado de ateísmo, perdeu o emprego e mudou-se para Berlim, onde proferiu diversas palestras e se tornou o primeiro reitor eleito da Universidade de Berlim. Faleceu em 27 de janeiro de 1814. Encontra-se sepultado no Dorotheenstädtischer and Friedrichswerder Cemetery, Berlim na Alemanha.

[11] X. LÉON. FICHTE et son temps. Tome I. Paris: Alcan, 1917. Pág. 22

[12] MEDICUS, Fritz. FICHTE Leben. Leipzig: Auswahl, 1922. Ed. 1991. Pág. 105:

[13] A famosa luta devida à acusação de ateísmo, que em 1799 obrigou o filósofo a retirar-se de Iena, após diversas perseguições e amarguras, representava o ato de fé do novo conceito religioso por ele desenvolvido nas primeiras obras do período de Berlim. Esta atividade de escritor político e de polemista estava, em seu íntimo, atrelada àqueles “planos múltiplos” que ambicionava Fichte pôr em prática no âmbito maçônico. De qualquer sorte, foi obrigado a guardar segredo, vez que ao sinal das primeiras dificuldades enfrentadas faltou-lhe apoio na Loja GÜNTHER e o príncipe de Rudolstad recusou-se a proteger e a hospedar em sua residência o irmão atormentado, perseguido e carente de apoio. MEDICUS, F. Idem. Passim

[14] FESSLERS SS. WW. II Bd, erste Abth, cap. IV (pags 94-101), cap. V e VII; zweite Abth, “Beylage”, pags. 316-319 – Cfr o excerto da “Fundamental constitution” da loja fessleriana in Jahrb. für Fraymaurerei auf das Jahre 1800..

[15] Nota do autor: FICHTE ingressou formalmente na Grande Loja Royal York apenas em 11 de abril de 1800.

[16] Existem menções e extratos de trocas de cartas entre GOETHE, HERDER, MEYER e FICHTE a partir de agosto de 1800, sendo certo que GOETHE teve acesso integral às conferências fichtianas que viriam a ser publicadas entre os anos de 1802 e 1803 e intituladas “Philosophie der Maurerei, Briefe en Konstant”. O fato é que o pedido de demissão de FICHTE em 07 de julho de 1800 confirmou a aversão da maçonaria berlinesa à filosofia romântica e idealista da época. VARNHAGEN VON ENSE, K.A. Denkwürdigkeiten und vermischte Schriften. Leipzig/Berlin:1803. Ed. 1999. Passim

[17] Cf FLOHR, A. Geschichte der Grossen Loge von Preussen, gennant Royal York u.s.w. nach den Akten zusammengestellt. Berlin: 1898. 1ª ed. 1965, 10ª. Ed., vols. I-II, págs 133-136

[18] Na cit. carta à esposa, de 28 de outubro de 1799, tem-se: “Não simpatizo com FESSLER. Ele me trata com atenções porque pensa servir-se de mim. Age, porém, com um espírito de usurpação que eu devo de quando em quando refrear. Faço como se estivesse disposto a deixar-me usar como seu instrumento, até eu conseguir tirar-lhe da boca todos os seus segredos. E em grande parte já o consegui. Pelo menos, sei já o que ele fez e quero ainda ver o que pretende fazer ulteriormente. No fim, o resultado será que eu conseguirei impor meus planos servindo-me dele”. VARNHAGEN VON ENSE. Op. Cit. Passim

[19] FESSLER, I. Meine maurerische Verbindung, .cit., págs. 330-331

[20] Cf FICHTES LEBEN UND LITER. BRIEFWECHSEL, II, 509; e a coleção AUS DEN PAPIEREN DES THEODOR VON SCHÖN (Halle, 1875, pags.32-33 e38).

[21] FESSLER fez uma comparação entre o sábio do mundo ideal, que sabe como tudo absolutamente deve ser e o sábio do mundo real que, à luz da própria idealidade, considera como tudo pode vir a ser pouco a pouco, segundo os elementos de que dispõe: o primeiro dissolve as sociedades ao querer elevá-las ao próprio nível; o segundo as constitui e consolida, se possui bastante resignação para se dispor a sustenta-las unicamente com as próprias forças . Todavia, o primeiro dos dois era também, para FESSLER, o mau maçom, germe de toda ruína dentro da loja, o qual começaria com a pretensão de fazer reconhecer a sua superioridade, prosseguirá atirando reprovações de inconsistência e de erro e terminará com uma admoestação cheia de desprezo. FLITNER. Enleitung. Eleusinas. Pág. 16-17

[22] O discurso de FESSLER intitulava-se “Sabedoria e Justiça – os fundamentos de uma loja” e foi publicado na revista maçônica Eleusinas nas páginas 207 e segs. Cf ELEUSINIEN des Neunzehnten Jahrhunderts, Berlin: 1802, disponível em https://books.google.com.br/books?id=GV9lAAAAcAAJ&pg=PA207&lpg=PA207&dq=%22Klugheit+und+Gerechtigkeit,+die+Grundfesten+einer+Loge%22+Fessler&source=bl&ots=HzwsNk6rrN&sig=6NhDpq27ZqBpSMqCNU9FPPGIfHk&hl=ptBR&sa=X&ved=0ahUKEwjmkqqC1rHXAhVEE5AKHUoaCfsQ6AEIMzAC#v=onepage&q=%22Klugheit%20und%20Gerechtigkeit%2C%20die%20Grundfesten%20einer%20Loge%22%20Fessler&f=false

[23] FESSLER caiu em desgraça perante grande parte dos irmãos da Grande Loja Royal York, quer por sua malograda reforma nos rituais dos graus joaninos (que duraram apenas 3 anos), quer pelo fato de ter se tornado alvo de hostilidade por parte dos ortodoxos, tendo sido combatido com opúsculos e panfletos, e acusado de amor desmedido à novidade pela novidade. No entanto, FESSLER quisera apenas substituir o AUFKLÄRUNG pelo KANTISMO puro, na concepção de realidade. Para além, FESSLER foi acusado também de jacobinismo e ameaçado com denúncia de alta traição, tal qual já ocorrera anos antes, na Silésia. X. LÉON. FICHTE et son temps. Tome I. Paris: Alcan, 1917. pags 30-36

[24] FREIMAURER– WIKI. JOHANN GOTTLIEB FICHTE. Disponível em http://freimaurerwiki.de/index.php/Johann_Gottlieb_Fichte. Acesso em 10/11/2017

[25] FICHTES LEBEN UND LITER. BRIEFWECHSEL, I, 201-206.

 

 

REFERÊNCIAS

 

AUS DEN PAPIEREN DES THEODOR VON SCHÖN (Halle, 1875, pags.32-33 e38).

BADARÓ, R. O Idealismo alemão como substrato para a construção do sistema de ensino de Schröder. Peça de Arquitetura. Porto Alegre: VII Seminário Nacional do Rito Schroder, 2016.

FLOHR, A. Geschichte der Grossen Loge von Preussen, gennant Royal York u.s.w. nach den Akten zusammengestellt. Berlin: 1898. 1ª ed. 1965, 10ª. Ed., vols. I-II, págs 133-136

ELEUSINIEN des Neunzehnten Jahrhunderts, Berlin: 1802, disponível em https://books.google.com.br/books?id=GV9lAAAAcAAJ&pg=PA207&lpg=PA207&dq=%22Klugheit+und+Gerechtigkeit,+die+Grundfesten+einer+Loge%22+Fessler&source=bl&ots=HzwsNk6rrN&sig=6NhDpq27ZqBpSMqCNU9FPPGIfHk&hl=ptBR&sa=X&ved=0ahUKEwjmkqqC1rHXAhVEE5AKHUoaCfsQ6AEIMzAC#v=onepage&q=%22Klugheit%20und%20Gerechtigkeit%2C%20die%20Grundfesten%20einer%20Loge%22%20Fessler&f=false

ENZYKLOPÄDIE DER FREIMAUREREI VON HESSE UND MOSSDORF, Bd. 3, Brockhaus, 1828;

FESSLER, I. Meine maurerische Verbindung, .cit., págs. 330-331

FESSLERS SS. WW. II Bd, erste Abth, cap. IV (pags 94-101), cap. V e VII; zweite Abth, “Beylage”, pags. 316-319 – Cfr o excerto da “Fundamental constitution” da loja fessleriana in Jahrb. für Fraymaurerei auf das Jahre 1800.

FICHTES LEBEN UND LITER. BRIEFWECHSEL, II, 509;

FLITNER. Enleitung. Eleusinas. Pág. 16-17

FREIMAURER WIKI. Friedrich Ludwig Schroder. Disponível em http://freimaurerwiki.de/index.php/Friedrich_Ludwig_Schr%C3%B6der#Re.C2.ADformation_der_Freimaurerei Acesso em 05 de novembro de 2017.

FREIMAURER WIKI. Idealismus. Disponível em http://freimaurerwiki.de/index.php/Idealismus. Acesso em 05 de novembro de 2017.

FREIMAURER–WIKI. JOHANN GOTTLIEB FICHTE. Disponível em http://freimaurer-wiki.de/index.php/Johann_Gottlieb_Fichte. Acesso em 10/11/2017.

MEDICUS, Fritz. FICHTE Leben. Leipzig: Auswahl, 1922. Ed. 1991. Pág. 105:

OSLO, A. Die Freimaurer.Dusseldorf: Patmos Albatross, 2002. passim SOLF,H.H. Origem e fontes do ritual de Schröder. Traduzido por Kurt Max Hauser e Samuel Herbert Jones. Revisão de Antonio Gouveia de Medeiros e Rui Jung Neto. Edição comemorativa aos 209 anos do rito – 29 junho de 1801/2010.

THREE DISTINCT KNOCKS: OR THE DOOR OF THE MOST ANCIENT FREEMASONRY

VARNHAGEN VON ENSE, K.A. Denkwürdigkeiten und vermischte Schriften. Leipzig/Berlin:1803. Ed. 1999. Passim

  1. LÉON. FICHTE et son temps. Tome I. Paris: Alcan, 1917. Pág. 22

 

Título original O pensamento de Johan Gottlieb FICHTE para a reforma da maçonaria alemã de Friedrich Ulrich Ludwig Schröder

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