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A verdadeira razão pela qual os Católicos não podem ser Maçons

Tradução de António Jorge, M∴ M∴

Por Edward Condon ***

Maçonaria, Igreja Católica, católicos

O antagonismo mútuo da Igreja Católica e da Maçonaria está bem estabelecido e é de longa data. Durante a maior parte dos últimos 300 anos, eles foram reconhecidos, mesmo na mentalidade secular [1], como implacavelmente opostos. Nas últimas décadas, a animosidade entre os dois desapareceu um pouco da consciência pública, à medida que o envolvimento institucional directo da Igreja nos assuntos civis se tornou menos evidente e a Maçonaria diminuiu dramaticamente em número e em proeminência. Mas como a Maçonaria completa 300 anos, vale a pena revisitar o que estava no cerne da oposição absoluta da Igreja ao grupo. A Maçonaria pode parecer pouco mais do que um clube masculino esotérico, mas foi e continua a ser um movimento filosófico altamente influente – que teve um impacto dramático, embora pouco notado, na sociedade e na política Ocidental moderna.

A história da Maçonaria em si é longa e interessante. A sua transformação gradual de guildas de pedreiros e trabalhadores medievais numa rede de sociedades secretas com a sua própria filosofia e rituais gnósticos é um conto fascinante em si. A era da última versão da Maçonaria começou com a formação da Grande Loja da Inglaterra em 1717 no pub Goose & Gridiron perto da Catedral de São Paulo. Nos primeiros tempos, antes que a Igreja fizesse qualquer pronunciamento formal sobre o assunto, muitos católicos eram membros e a diáspora Católica Inglesa e Jacobita foi crucial para difundir a Maçonaria na Europa continental. A certa altura, era tão popular entre os católicos em alguns lugares que Francisco I da Áustria serviu como patrono formal.

E, no entanto, a Igreja tornou-se o maior inimigo das Lojas maçónicas. Entre Clemente XII em 1738 e a promulgação do primeiro Código de Direito Canónico em 1917, um total de oito papas escreveram condenações explícitas à Maçonaria. Todos previam a penalidade mais severa para a adesão: a excomunhão automática reservada à Santa Sé. Mas o que é que a Igreja quis dizer com Maçonaria? Quais são as suas qualidades que são tão dignas de condenação?

É por vezes é dito que a Igreja se opôs à Maçonaria por causa do carácter supostamente revolucionário ou sedicioso das Lojas. Há uma suposição generalizada de que as lojas maçónicas eram essencialmente células políticas para republicanos e outros reformadores, e a Igreja opôs-se-lhes como parte de uma defesa do antigo regime de monarquia absoluta no qual ela estava institucionalmente investida. Mas, embora a sedição política eventualmente viesse à frente na oposição da Igreja à filiação maçónica, esta não foi de forma alguma a razão inicial pela qual a Igreja se opôs aos Maçons. O que Clemente XII descreveu na sua denúncia original não era uma sociedade republicana revolucionária, mas um grupo espalhando e reforçando o indiferentismo religioso: a crença de que todas as religiões (e nenhuma) são de igual valor, e que na Maçonaria todas estão unidas ao serviço de um entendimento unificador da virtude. Os católicos, como membros, seriam solicitados a colocar a sua filiação na Loja acima da sua filiação à Igreja. A proibição estrita, por outras palavras, não era para fins políticos, mas para o cuidado das almas.

Desde o início, a principal preocupação da Igreja tem sido que a Maçonaria subalterna a fé de um católico à filiação à loja, obrigando-os a colocar uma fraternidade secularista [1] fundamental acima da comunhão com a Igreja. A linguagem legal e as penalidades usadas nas condenações da Maçonaria eram realmente muito semelhantes às usadas na supressão dos Albigenses: a Igreja vê a Maçonaria como uma forma de heresia. Embora os próprios ritos maçónicos contenham material considerável que pode ser chamado de herético e, em alguns casos, é explicitamente anticatólico, a Igreja sempre se preocupou muito mais com o conteúdo filosófico abrangente da Maçonaria do que com a sua pompa ritual.

Ao longo dos séculos XVIII e XIX, a Igreja Católica e o seu lugar privilegiado no governo e na sociedade de muitos países europeus tornou-se objecto de crescente oposição secularista [1] e até de violência. Contudo, há pouca ou nenhuma evidência histórica das Lojas terem desempenhado um papel activo no início da Revolução Francesa. No entanto, os horrores anticlericais e anticatólicos da Revolução podem ser rastreados até à mentalidade secularista [1] descrita nas várias bulas papais que proíbem as Lojas maçónicas. As sociedades maçónicas foram condenadas não porque pretendiam ameaçar as autoridades civis ou da Igreja, mas porque tal ameaça era a consequência inevitável da sua existência e crescimento. A revolução era o sintoma, não a doença.

O alinhamento dos interesses da Igreja e do Estado, e o seu ataque por sociedades secretas sediciosas e revolucionárias, eram mais claros onde a Igreja e o Estado eram um: nos Estados papais da península italiana. No início do século XIX, uma nova iteração da Maçonaria ganhou destaque, explícita no seu carácter revolucionário e declarada na sua oposição à Igreja; chamavam-se Carbonari, ou mercadores de carvão. Eles sancionaram e praticaram assassinatos e insurreições armadas contra os vários governos da península italiana na sua campanha por um governo constitucional secular [1] e foram percebidos como uma ameaça imediata à fé, aos Estados Papais e à pessoa do Papa.

A ligação entre a ameaça passiva da filosofia e do segredo da Maçonaria e as tramas e actos revolucionários activos dos Carbonários foi estabelecida na constituição apostólica de Pio VII Ecclesiam a Jesu Christo, promulgada em 1821. Enquanto a oposição declarada e activa dos Carbonários ao governo temporal dos Estados Papais foi abordada e condenada, ainda assim, ficou claro que a grave ameaça representada até mesmo por essas células violentamente revolucionárias era a sua filosofia de secularismo [1].

Ao longo de todas as várias condenações papais da Maçonaria, mesmo quando as Lojas apoiavam activamente as campanhas militares contra o Papa, como fizeram com a conquista e unificação da Itália por Garibaldi, o que foi sempre a primeira objecção da Igreja às Lojas foi sua ameaça à fé dos católicos e à liberdade da Igreja de agir na sociedade. O enfraquecimento dos ensinamentos da Igreja nas Lojas, e a subalternização da sua autoridade em questões de fé e moral, foram repetidamente descritos como uma conspiração contra a fé, tanto nos indivíduos como na sociedade.

Na encíclica Humanum Genus, o Papa Leão XIII descreveu a agenda maçónica como a exclusão da Igreja da participação nos assuntos públicos e a erosão gradual dos seus direitos como membro institucional da sociedade. Durante o seu tempo como Papa, Leão escreveu muitas condenações da Maçonaria, pastorais e legais. Delineou, em detalhes, o que a Igreja considerava ser a agenda maçónica e, lendo-a com olhos contemporâneos, ainda é chocantemente relevante.

Ele referiu-se especificamente ao objectivo de secularizar [1] o Estado e a sociedade. Ele fez referência em particular à exclusão do ensino religioso das escolas estatais e ao conceito de “o Estado, que [a Maçonaria acredita] deve ser absolutamente ateu, tendo o direito e o dever inalienáveis ​​de formar o coração e o espírito dos seus cidadãos”. Ele também condenou o desejo maçónico de remover a Igreja de qualquer controlo ou influência sobre escolas, hospitais, instituições de caridade públicas, universidades e qualquer outro órgão que sirva o bem público. Também especificamente destacado foi o impulso maçónico para a repensar o casamento como um contrato meramente civil, a promoção do divórcio e o apoio à legalização do aborto.

É quase impossível ler esta agenda e não a reconhecer como a base de quase todo o nosso discurso político contemporâneo. A visão consolidada de muitos sobre estas questões, se não de todos os nossos principais partidos políticos; na verdade o próprio conceito de Estado laico e as suas consequências na sociedade ocidental, incluindo a cultura difundida do divórcio e a disponibilidade quase universal do aborto, é uma vitória da agenda maçónica. E isto levanta questões canónicas muito reais sobre a participação católica no processo político secular [1] moderno.

Ao longo dos séculos de condenações papais à Maçonaria, era normal que cada Papa incluísse os nomes de novas sociedades que partilhavam a filosofia e a agenda maçónica e que deveriam ser entendidas pelos Católicos como “maçónicas” em termos de direito canónico. No Século XX, isso passou a incluir partidos políticos e movimentos como o comunismo.

Quando o Código de Direito Canónico foi reformado, após o Vaticano II, o cânone que proíbe especificamente os católicos de ingressar em “sociedades Maçónicas” foi revisto. No novo código, promulgado em 1983 pelo Papa João Paulo II, a menção explícita à Maçonaria foi completamente descartada. O novo Cânone 1374 refere-se apenas às sociedades que “conspiram contra a Igreja”. Muitos tomaram esta mudança para indicar que a Maçonaria já não era sempre má aos olhos da Igreja. De facto, o comité de reforma deixou claro que eles não se referiam apenas aos Maçons, mas a muitas outras organizações; o “enredo” da sua agenda secularista [1] espalhou-se tanto para além das Lojas que continuar a usar o termo “maçónico” para abranger tudo, seria confuso. O então Cardeal Ratzinger emitiu um esclarecimento oficial da nova lei em 1983, no qual deixou claro que o novo cânone foi formulado para encorajar uma interpretação e aplicação mais amplas.

Dado o entendimento cristalino no ensino da Igreja sobre o que inclui a trama ou agenda Maçónica contra a Igreja (casamento como um contrato meramente civil aberto ao divórcio à vontade, aborto, exclusão do ensino religioso das escolas públicas, exclusão da Igreja do fornecimento de bem-estar social e / ou controlo das instituições de caridade), parece impossível não perguntar: quantos dos principais partidos políticos do Ocidente podem agora ser considerados abrangidos pela proibição do Cânone 1374? A resposta pode ser bastante desconfortável para aqueles que querem ver o fim das chamadas guerras culturais na Igreja.

Mais recentemente, o Papa Francisco tem falado repetidamente da sua séria preocupação com a infiltração Maçónica na Cúria e noutras organizações católicas. Ao mesmo tempo, ele advertiu contra a Igreja se poder tornar uma mera “ONG” nos seus métodos e objectivos – que é o perigo directo daquela mentalidade secularista [1] que a Igreja sempre chamou de filosofia Maçónica.

A infiltração Maçónica na hierarquia e na Cúria é há muito tratada como uma espécie de versão católica de “monstros debaixo da cama”, ou paranóia macarthista sobre infiltrados comunistas. Na verdade, quando se fala com pessoas que trabalham no Vaticano, descobre-se rapidamente que para cada duas ou três pessoas que se riem desta ideia, pode-se encontrar alguém que a encontrou directamente. Eu mesmo conheço pelo menos duas pessoas que foram abordadas sobre a adesão enquanto trabalhavam em Roma. O papel das lojas Maçónicas como ponto de encontro confidencial e rede para aqueles com ideias e agendas heterodoxas mudou pouco desde a França pré-revolucionária até ao Vaticano moderno; 300 anos após a fundação da primeira Grande Loja, o conflito entre a Igreja e a Maçonaria ainda está muito vivo.

*** Edward Condon – Advogado canónico, escreveu a sua tese de Doutoramento sobre a história das sanções legais da Igreja contra os Maçons


Fonte

Notas

[1] N. T.: O secularismo é o princípio da separação entre instituições governamentais e instituições religiosas. Em certo sentido, o secularismo pode afirmar o direito de ser livre da imposição do ensino religioso, bem como o direito à não imposição governamental de uma religião, num estado que é neutro em matéria de crenças. Noutro sentido, refere-se à visão de que as actividades humanas e as decisões, especialmente as políticas, devem ser neutras em relação às influências religiosas.

3 comentários em “A verdadeira razão pela qual os Católicos não podem ser Maçons

  1. Esclarecedor. Agora entendo de quando eu precisei do auxilio da Igreja, a pedido de uma cunhada pela passagem de um Irmão ao Oriente Eterno, e me foi negado.

  2. Esclarecedor. Começo a entender certos fatos, que aconteceram comigo de quando precisei da Igreja, a pedido de uma cunhada pela passagem de um Irmão ao Oriente Eterno, e me foi negado.

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