Publicado na Revista Ars Studiorum. São Paulo: A Gazeta Maçônica, 2025, Vol. I, p. 63-85.
Ivan A. Pinheiro[1]
Lucas Vieira Dutra[2]
Resumo: o artigo discute a natureza e a evolução da Maçonaria, com foco na fase Especulativa e na busca pelo autoaperfeiçoamento. A palavra “especular” é analisada a partir de sua origem, significando “contemplar” ou “ver o divino”, e não algo abstrato ou distante da realidade. São identificadas duas acepções principais para a Maçonaria Especulativa: uma que a associa à religião, vista como um meio de prestar homenagem à Divindade e outra que a define como uma Maçonaria simbólica, que usa as ferramentas da Maçonaria Operativa para ensinar lições morais e filosóficas. Essas duas visões, que refletem o embate histórico entre fé e razão, coexistem na Maçonaria contemporânea e fundamentam diferentes Ritos, como o Regime Escocês Retificado e o Rito Moderno. A Maçonaria Especulativa, com a introdução do Grau de Mestre e da Lenda de Hiram, passou a se ocupar de questões existenciais como a finitude, a morte e o sentido da vida. Apesar de ser vista como uma ferramenta para o autoaperfeiçoamento, o texto aponta uma contradição: a Maçonaria não possui ferramentas específicas para esse fim, além dos rituais e símbolos. A busca por autoconhecimento, uma das primeiras e mais relevantes etapas do processo, é deixada a cargo de cada maçom, que muitas vezes busca conhecimentos complementares em outras áreas como Filosofia, História ou Psicologia. Para preencher essa lacuna, é proposto o uso da literatura como uma alternativa viável e acessível para a autoanálise e o autoaperfeiçoamento. A leitura de obras literárias, como “Uma Confissão” de Liev Tolstói e “Memórias do Subsolo” de Fiódor Dostoiévski, é sugerida como um guia para a jornada interior. O texto destaca que essas obras, a primeira autobiográfica e a segunda ficcional, fornecem experiências e reflexões análogas aos desafios internos, e o compartilhamento e debate sobre elas podem enriquecer a jornada de autoconhecimento.
Palavras-chave: maçonaria especulativa, literatura, autoconhecimento, ética e moral.
Abstract: The paper discusses the nature and evolution of Freemasonry, with a focus on the Speculative phase and the pursuit of self-improvement. The word “speculate” is analyzed from its origin, meaning “to contemplate” or “to see the divine,” rather than something abstract or detached from reality. It is identified two main meanings for Speculative Freemasonry: one that associates it with religion, seen as a means of paying homage to the Deity, and another that defines it as a symbolic Freemasonry, using the tools of Operative Freemasonry to teach moral and philosophical lessons. These two views, which reflect the historical conflict between faith and reason, coexist in contemporary Freemasonry and underpin different rites, such as the Rectified Scottish Rite and the Modern Rite. With the introduction of the Master’s Degree and the Legend of Hiram, Speculative Freemasonry began to deal with existential questions such as finitude, death, and the meaning of life. Despite being seen as a tool for self-improvement, the text points out a contradiction: Freemasonry does not have specific tools for this purpose, beyond its rituals and symbols. The pursuit of self-knowledge, one of the first and most relevant stages of the process, is left to each Freemason, who often seeks complementary knowledge in other fields such as philosophy, history, or psychology. To fill this gap, the essay proposes using literature as a viable and accessible alternative for self-analysis and self-improvement. Reading literary works, such as “A Confession” by Leo Tolstoy and “Notes from Underground” by Fyodor Dostoevsky, is suggested as a guide for the inner journey. The text highlights that these works, the first autobiographical and the second fictional, provide experiences and reflections analogous to internal challenges, and sharing and debating them can enrich the journey of self-knowledge.
Key words: speculative freemasonry, literature, self-knowledge, ethics and morals.
A Literatura como Ferramenta para a Compreensão da Arte Real na Maçonaria Especulativa
Em uma das Bíblias da Maçonaria é possível ler que:
Speculate means to contemplate, to ponder, to mediate, to theorize, and to conjecture. The word was first used Masonically in the Cooke MS of the early 15th century, Where it was stated the “Edwin was of speculative geometry a master” […] the word was there used in the sense of theoretical or academic as distinguished from actual working with stone […] (Coil, 1961, p. 631).
No que tange a “to theorize”, para melhor esclarecimento e a exata amplitude da expressão, tome-se o que diz Ferry (2010, p. 31):
[…] conhecer o mundo que nos cerca. Essa é, como lhe disse, a primeira tarefa da teoria filosófica. Em grego, ela se chama também teoria, e a etimologia da palavra merece nossa atenção: to theion ou ta theia orao significa “eu vejo (orao) o divino (theion)”, “eu vejo as coisas divinas (theia)”. Para os estoicos, de fato, a the-oria consiste exatamente em esforçar-se por contemplar o que é “divino” no real que nos cerca. Em outras palavras, a tarefa primeira da filosofia é ver o essencial do mundo, o que nele é mais real, mais importante, mais significativo. Ora, pela tradição que culmina no estoicismo, a essência mais íntima do mundo é a harmonia, a ordem, simultaneamente justa e bela, que os gregos designam pelo nome de cosmos.[3]
Conforme se observa, a etimologia trazida por Ferry é diversa da que constitui o senso comum contemporâneo, que associa “teoria”, assim como “filosofia”, a algo completamente distante da realidade, em elevado nível de abstração, quando correspondia, na Antiguidade (e ainda hoje) ao oposto. Ademais, é preciso não perder de vista que, como ressalta o autor, trata-se da “primeira tarefa da teoria filosófica”, quando para fazer frente aos fenômenos incompreensíveis, as explicações mitológicas andavam de mãos dadas, de um lado com a filosofia natural, e do outro com os deuses.
De volta a Coil, ele chama ainda a atenção para as 2 (duas) acepções da expressão “Maçonaria Especulativa”: a primeira é vista em Preston (1742-1818), um dos primeiros autores da Maçonaria Contemporânea (Especulativa), e afirma que ela
[…] está interligada à religião, para nos colocar sob as mais fortes obrigações de prestar homenagem racional à Deidade, o que constitui, em uma só coisa, nosso dever e nossa felicidade. Ela leva a pessoa contemplativa a ver com reverências e admiração as gloriosas obras da criação, e a inspira com as ideias mais elevadas das perfeições do Divino Criador (Preston, 2017, p. 34)[4];
mas também
Speculative Freemasonry is also called symbolic Freemasonry, since the working tools of operative Masonry are used as symbols to teach moral and philosophical lessons. The fundamental theme of Freemasonry is morality or ethics and, if these be taught and observed, other advantages, benefits, and virtues will follow naturally, such as a charitable, religious, and philosophic atitude of mind Morality has been inculcated from the earliest of the Gothic Constitutions (Coil, 1961, p. 631).
A primeira está sobremodo repleta da religiosidade judaico-cristã ainda muito presente em todas as dimensões da vida e que, ao final da Modernidade e no auge do Iluminismo (séc. XVII/XVIII), ancorada no tecno-cientificismo, a passos céleres, porém não sem enfrentar grandes resistências, caminhava no sentido à secularização dos usos e costumes. Ademais, a noção de “teoria filosófica”, trazido por Ferry não conflita com essa primeira acepção de Coil, e se com ela não se confunde, a recepciona plenamente. Embora presente, na segunda acepção a questão religiosa aparece em segundo plano, sobressaindo-se as questões éticas e morais. Enquanto na primeira acepção a questão religiosa é ponto de largada e o fio condutor, na segunda é consequência e, se não o ponto de chegada, o ponto de encontro de ambas as visões.
Em outros termos, essas acepções alinham-se às duas cosmovisões formadas desde a Antiguidade, e cujo embate histórico, se contido durante todo o Medievo, foi tornado mais agudo e explicitado a partir da Modernidade, qual seja: entre a religiosidade e a secularização, entre a fé e a razão. Não surpreende que ambas povoem a Maçonaria, pois constituem a tecitura do espaço-tempo em meio à qual surgiram e se desenvolveram os incontáveis Ritos a partir do séc. XVIII, alguns ainda praticados. Assim, grosso modo, a título de ilustração, enquanto o Regime (Rito) Escocês Retificado (RER) tem por esteio a primeira acepção, o Rito Moderno (RM) – também referido como Francês – se ancora na segunda, ficando o Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA) a meio caminho.
Um breve parênteses para esclarecimento. Por oportuno, é importante registrar que a existência de 2 (duas) fases e mesmo a passagem de Operativa à Especulativa são objetos de controvérsias. Admitindo que não é fora de propósito reconhecer que, lato sensu, desde os primórdios da História da humanidade a atividade especulativa acompanha o homem, procede, então, referir à existência de uma Maçonaria Especulativa ainda antes da divisão formalmente institucionalizada em 1717. A especulação é inerente, senão imanente à natureza humana; não surpreende, pois, encontrá-la nas mais diversas escolas de pensamento e visões de mundo que permeiam, inclusive, a Maçonaria, a exemplo da cabala, do hermetismo e demais artes esotéricas – baseado nos insights de Frances A. Yates[5] (1899-1981), historiadora e medievalista inglesa, Pinheiro (2024) explora esta vertente a partir do foco no desenvolvimento das técnicas mnemônicas. Não obstante, neste texto segue-se o que pode ser denominado de mainstream: que a história da Maçonaria, esquematicamente e no seu maior nível de abrangência, pode ser dividida em 2 (duas) fases e que os marcos históricos, a exemplo do ato fundacional de 1717[6] e das Constituições de Anderson (como aliás, em outros tantos episódios de natureza histórica), nem sempre, cronologicamente, acompanham a realidade dos fatos; de regra esta os antecede enquanto causa de um efeito ainda incerto no tempo. Nesses casos, embora iniciem uma nova era, como ocorreu na Maçonaria, são antes atos de poder revestidos de força institucional e expressivo valor simbólico. Entre tantas efemérides históricas, a Revolução Russa, cujo marco cronológico é o ano de 1917 e, antecipa-se, diretamente relacionada ao que se segue, um século antes já dava sinais de estar em gestação: o cenário estava em construção, os atores desenvolviam as primeiras ideias, projetos e até mesmo conduziam os primeiros ensaios; dessarte, estes eventos, ainda embrionários, não completamente conectados e mesmo em algum nível contraditórios entre si, não podem ser dissociados da Revolução historicamente datada – tudo é processo, os marcos são pontos de referência necessários, por exemplo, às celebrações que consolidam, perpetuam e convertem em Tradição a institucionalidade do ato político fundador.
E tendo em vista a centralidade da ética e da moral no contexto da maçonaria contemporânea (especulativa-simbólica), torna-se relevante conhecer mais a fundo esses construtos; e para tal, dado que nem todos os autores distinguem entre a moral e a ética, optou-se por Brum (2020) que o faz com clareza:
A ação ética não é uma mera adequação a um sistema de normas. É uma reta ação, algo que se expressa em sintonia e harmonia com o que está no nosso íntimo, é a exteriorização da nossa índole interna. A ética não se restringe à moral social, às determinações do discurso religioso, a um código de deveres (p. 24);
Então, certamente deve existir uma diferença entre o que é essencialmente ético e o aspecto moral […] Se a moral está vinculada a regras, sua delimitação é dada em uma certa situação social – está localizada no tempo e no espaço. E altera-se quando mudam os valores vigentes. Já a ética é uma postura relacionada com princípios gerais e universais presentes na consciência do indivíduo […] A ação ética é a melhor ação possível, a mais indicada, a reta ação – e não uma simples ação correta, pois o “correta” nos leva para a área da moral […] A abrangência da ética é muito maior que o restrito espaço das normas morais […] (p. 25);
A ação ética surge de um âmbito mais amplo do que o simples obedecer a uma regra. Não são os costumes morais, o que é aceito pelo grupo e considerado “certo”, o que determina uma atitude ética. O correto e o incorreto envolvem juízos de valores. Já a verdadeira postura ética, a reta ação, escapa dos julgamentos valorativos. É uma ação que tem como base um estado de alma (p. 27).
Assim, para Brum, ética e moral são construtos distintos; todavia, considerando que “Nenhum homem é uma ilha isolada […]”[7], de algum modo, medida e circunstância ambas mantêm um relacionamento de interveniência, de causa e efeito recíprocos e simultâneos. Parece claro, em razão das insuficiências e limitações intrínsecas à natureza humana, que nem sempre é possível conceber uma ética absoluta, completamente alheia ao seu entorno, sendo suficiente, por exemplo, refletir acerca dos primeiros relacionamentos e do início da formação educacional quando ainda no afago do convívio familiar. Ao longo da vida, mesmo já com maior autonomia, a natureza gregária do homem o levará a estabelecer incontáveis relacionamentos, como é o caso daqueles no mundo do trabalho, em meio aos quais os seus valores éticos tendem a ser ajustados, quando não amalgamados, às normas morais vigentes no ambiente de referência – país, região, empresa, grupo, contexto, etc. Esse processo nem sempre é natural e indolor, quando os valores éticos não se identificam plenamente com a moral vigente no grupo (empresa ou qualquer instituição), por exemplo, devido às contradições (em face às chamadas questões de consciência, mas também por incoerências entre o discurso vs prática), são gerados conflitos internos que, no limite, podem favorecer o surgimento de patologias. Em síntese: os códigos de ética (individuais) determinam os critérios de conduta, as escalas de valores que permitem, a cada um, ficar em paz com a sua consciência por estarem justificadas as suas ações ou omissões; já os códigos morais (coletivos) são concebidos para assegurar as relações sociais, a realização de empreendimentos coletivos. Ocorre que, sem que se possa formar prévio juízo de valor, nem sempre os referidos códigos estão em perfeito alinhamento. Por fim, a proximidade conceitual entre “moral”, “código de deveres”, “normas” e “regras” e a lei, seja ela tácita (estabelecida pelos usos e costumes) ou escrita (pelo colegiado a quem foi conferida a legitimidade), de pronto a todos também aproxima a noção de Justiça, sendo esta entendida como o cumprimento da lei – sim, é uma visão reducionista[8] e para muitos controversa, mas para os objetivos deste texto não é necessário complexificar. Basicamente, em raciocínio linear, da ética (por influência) se passa à moral que, por sua vez, tende a ser convertida em Lei, cujo cumprimento é visto como justiça na comunidade de referência – todos construtos muito caros à Maçonaria que, em si, encerram um universo sem fim aberto ao debate.
Ademais, as éticas e as morais podem ser apreciadas no âmbito e mesmo como partícipes do embate de visões trazido acima: à ética imanente trazida à luz pela razão, acordada e consensuada entre os homens, há a alternativa histórica iniciada por Platão, mas que por ter logrado a adesão dos monoteísmos experimentou amplo e profundo desenvolvimento (corpus doutrinário, liturgias, etc.), qual seja: a ética revelada, idealizada e transcendente, de caráter metafísico – universal, eterna e imutável.
Ora, se às 2 (duas) acepções vigentes na maçonaria contemporânea (que, por sua vez, como visto, fundamentam os Ritos) forem reunidas as concepções de ética e moral, é possível, em exercício especulativo, ampliar as associações: (1) Maçonaria & Religião – RER – ética (princípios gerais e universais baseados no cristianismo); (2) Maçonaria & Razão – RM – moral (valores contingentes); e, (3) Maçonaria & Religião & Razão – REAA – ética & moral (palavras-chaves: ecletismo e flexibilidade).
De outro lado, entre tantos, Coil (1961) salienta que a matéria-prima, assim como as ferramentas dos pedreiros de ofício (a exemplo da régua, do compasso, do esquadro, da trolha e outras) constituem a base da simbologia adotada pela Maçonaria quando esta, em 1717 e a partir do epicentro situado em Londres[9], passa de Operativa à Especulativa – não que, bem antes, já não se encontrassem entre os maçons os chamados Aceitos (vide, acima, p. ex., a referência a Edwin no Cook MS), mas a essência das atividades ainda não envolvia a especulação tal como a partir do séc. XVIII se afirmará. Razão pela qual, uma vez Iniciado, o neófito (Aprendiz) é então equiparado a uma pedra-bruta a ser talhada e polida, símbolo da busca pela perfeição, compromisso que assume diuturnamente realizar (a partir da expertise no uso das já referidas ferramentas), tanto interna corporis (mediante atitudes e comportamentos, mas também de estudos, apresentação de trabalhos, debates, etc.) quanto extramuros, seja a partir de condutas exemplares e/ou de realizações. É importante observar que, de regra, somente as pedras talhadas e polidas, pelo encaixe natural, tornam-se partes constituintes da grande obra, o projeto da humanidade – o edifício social – quando a ética é consubstanciada na forma de moral.
A passagem da Fase Operativa à Especulativa, ao introduzir a Lenda de Hiram (no então criado Terceiro Grau – Mestre) trouxe novas e relevantes questões que, doravante, iriam orientar os trabalhos da, e na Ordem: a mais importante foi trazer ao centro do palco das representações simbólicas a questão da finitude – a morte – e, à reboque, reflexões sobre temas correlatos que até então estavam circunscritos pelos campos da filosofia e das religiões, notadamente as monoteístas: a origem e o sentido da vida, a morte como ponto final ou início de uma “nova vida”, a existência (e a natureza) da(s) alma(s), do espírito, a possibilidade da metempsicose ou da ressurreição, e outros, a exemplo da busca pela reintegração ao Uno, à mônada, à unidade primordial, denominações que, se não são rigorosamente sinônimas, integram o mesmo campo semântico. A impotência frente à finitude, desde o início dos tempos tem assustado o homem, afinal, como disse Turguêniev (2022, p. 217), “A morte é uma piada velha, mas ela é nova para cada um”, razão pela qual tem sido largamente explorada pelas Ordens Iniciáticas esotéricas, mas também as exotéricas. Para muitos, a busca pelas respostas a essas questões equivale à busca pela verdade primordial, a resposta a partir da qual tudo o mais, a partir de um encadeamento lógico poderia ser explicado e, assim, conferir um sentido à vida. Por isso, do maçom também se diz que é um buscador da verdade.
E desde então a Maçonaria Especulativa tem se ocupado, sobremodo, das questões (problemas) existenciais que, personalizadas, podem ser sintetizadas na busca pelas respostas às chamadas perguntas fundamentais: de onde eu vim (sobre o passado); para aonde eu vou (o projeto de futuro); e, qual o sentido da (minha) vida? A essas sucedem outras tantas perguntas como, por exemplo, quem busca a integração, é porque, um dia, já esteve integrado, portanto: o que houve que provocou a separação, a desintegração? É possível reparar para reintegrar e, neste caso, como?
Na nova ordem especulativa, mesmo quando já polida, a pedra não é mais do que a representação (imperfeita) da realidade superior (o sumo bem, a perfeição, etc.) que, embora transcendente, muitos acreditam (efetivamente creem) poder alcançá-la, mas outros admitem ser inatingível e, por fim, há os que reconhecem a sua incognoscibilidade, por isto a essa “realidade” só é possível de ser referida a partir de sucessivas negações (não é material, não é finita, não é temporal, …) – característica das tradições apofáticas – todas presentes e com incontáveis adeptos em meio às religiões monoteístas que, por sua vez, são hegemônicas na Maçonaria. Para muitos, mas certamente nem todos, indubitavelmente a questão da fé é um dos pilares dessa “nova (re)construção”. E se até então a Maçonaria Operativa estava imersa na cosmovisão cristã, mas com ela não se confundia – assim como de resto tudo na sociedade medieval -, a passagem para a fase Especulativa (se intencionalmente ou não é questão ainda em aberto) favoreceu sobremodo que a Ordem, a partir das iniciativas e das reiteradas práticas dos seus membros, sobretudo no âmbito de alguns Ritos, viesse a ser (e ainda seja) confundida com as religiões – uma espécie do gênero -, inclusive para o seu próprio público interno.
Enquanto Ordem Iniciática, independentemente do Rito (se RER, RM, REAA ou outro), o ingresso nos Quadros da Ordem se dá a partir de uma cerimônia genericamente denominada de Iniciação, quando então é dramatizada a morte do neófito – símbolo do rompimento com o passado que, independentemente de em algum momento no curso da vida ter sido ou não corrompido, de origem, em razão do pecado original, carrega marcas das quais deve se livrar (purificar) – a condição necessária para oportunizar, então, o seu (re)nascimento. Embora dramatizada em alguns minutos, efetivamente a Iniciação deve(ria) ser o marco deflagrador um processo complexo, cujas diferentes etapas e graus de aperfeiçoamento devem ser desenvolvidos ao longo de toda a vida, e é mesmo possível que muitos não o consigam na plenitude esperada[10]. Por exemplo, uma das primeiras etapas para a purificação é a realização de um exercício de autoconhecimento, seguido da autocrítica, do reconhecimento dos próprios erros e da disposição mudar as atitudes e comportamentos, bem como contar com o lastro da tenacidade e da resiliência para avançar em face a toda sorte de dificuldades que se levantarão às mudanças desejadas. Em outros termos, a partir da morte simbólica, a Iniciação dá início a um processo de autoaperfeiçoamento contínuo. Assim, do I ao II Grau – de Aprendiz a Companheiro – o Iniciado lapida e pule a pedra bruta que é a sua melhor representação – imagem. Mas se o rompimento com o passado é a condição necessária, não se revela suficiente para assegurar o crescimento e o desenvolvimento, agora sob novas bases, objetivos, diretrizes e instrumentos.
A chegada ao Grau de Mestre, antecedida por mais um rito de passagem (Iniciação), o confrontará, então, conforme antecipado acima, com as questões relativas à morte, à espiritualidade, à transcendência e outras. Doravante o trabalho do pedreiro não mais se restringirá apenas à matéria, ao mundo tangível dos relacionamentos (pessoais, com a natureza, etc.) e ao alcance da racionalidade. Assim, às antigas, novas ferramentas de trabalho devem ser adicionadas à oficina do maçom, pois em sendo o trabalho, assim como os objetivos de natureza diferente, igualmente distintas devem ser as ferramentas: práticas ascéticas, introspectivas, contemplativas, meditação, oração, entre outras consideradas necessárias à especulação – grosso modo, inscritas nos domínios dos mistérios, do esoterismo e do misticismo. No novo ambiente de trabalho do pedreiro, pleno de simbolismo – além de (re)construir a si mesmo, contribuir para a edificação social, o maçom deve buscar a verdade. A busca, agora pela pedra oculta, o levará aos lugares mais recônditos da mente, a realizar uma viagem ao subconsciente e, quiçá, ao mundo transcendente, pois os objetivos não mais se esgotam no alcance dos elevados valores éticos ainda que recepcionados pelos mais exigentes códigos morais, mas passam pelo desbravamento dos caminhos que elevam a alma no sentido à união, à reintegração (ou qualquer termo que se lhe assemelhe) com as origens primordiais, junto mesmo à criação da existência.
A passagem da Fase Operativa à Especulativa não implicou em corte abrupto entre um tipo e o outro de trabalho, pois no dia a dia ambos se alternam, sucedem e complementam em todo e qualquer lugar e oportunidade pois, conforme visto acima, “[…] is morality or ethics and, if these be taught and observed, other advantages, benefits, and virtues will follow naturally, such as a charitable, religious, and philosophic atitude of mind Morality has been inculcated”. Comuns a ambas, a área de interseção é a religiosidade cristã; assim, o binômio ética-moral não só contribui para o aumento da qualidade das relações sociais, como pavimenta o caminho para a elevação da alma independentemente se os valores fundamentais têm os alicerces assentados na convicção racional ou na fé, cuja pedra angular são as revelações estabelecida nas Escrituras Sagradas.
Por fim, nada melhor para sintetizar o trabalho e a trajetória do maçom contemporâneo do que a expressão VITRIOL (visita interiora terrae rectificando invenies occultum lapidem), cuja tradução livre corresponde a “visita o interior da terra e retificando encontrarás a pedra oculta”. Embora designada como especulativa, grande parte das atividades do maçom contemporâneo ainda podem ser associadas à fase operativa. A vida virtuosa, afastada dos vícios e das paixões (objetivo permanente e universal a todos os maçons independentemente do Rito praticado), requer o trabalho continuado sobre todas as dimensões do homem: o corpo (para assegurar a saúde física, o bem-estar e a disposição), a alma (para preservar a cognição e a sanidade mental) e também o espírito (para reestabelecer as conexões perdidas, não só com as origens primordiais, mas também com os semelhantes, a partir, por exemplo, da empatia, da caridade, etc.).
Feitas essas considerações mais abrangentes sobre a Ordem, o problema que motiva este ensaio em texto corrido é, curiosamente, o que pode ser visto como uma contradição interna: embora a Maçonaria seja vista (pelos maçons) como uma ferramenta para o autoaperfeiçoamento, ela mesma não dispõe de ferramentas específicas para tal; exceto as dos pedreiros de ofício que, como símbolos são analogadas às mais diversas práticas no cotidiano de cada um. Ademais, tudo o que existe são os Rituais (com notas históricas, lendas, símbolos, ritualísticas, liturgias e instruções gerais), a partir dos quais, em cada Grau, são extraídas lições morais. Considerada por alguns como herdeira das antigas escolas iniciáticas de mistérios, não obstante a existência do Grau de Mestre na sua organização, os seus detentores não guardam qualquer compromisso sugerido pelo significado da expressão; assim, com ou sem orientação voluntária, cada um delineia a sua trajetória e segue o caminho que melhor lhe aprouver de acordo com a sua visão de mundo (suas vivências, experiências), interesse e disponibilidade, o que significa, por exemplo, a busca por fontes complementares para a formação e o desenvolvimento, inicialmente na vasta literatura maçônica, cujas insuficiências serão então complementadas por saberes buscados em outros domínios – filosofia, história, religião, psicologia e outros. Ora, há motivos para crer que esse não é o melhor método andragógico, realidade que, por sua vez, autoriza questionamentos sobre os resultados que eventualmente possam ser obtidos.
Para preencher essa lacuna, a da ausência de ferramentas auxiliares e complementares aos Rituais, com maior sistematização e método, já há algumas iniciativas, como pode ser visto em Pinheiro (2023a, 2023b, 2021), todas ferramentas de largo espectro porque aplicáveis a todos os Ritos e estágios do curso da trajetória do maçom. A proposta que se segue tem o foco mais direcionado e pretende responder a seguinte pergunta: como realizar a autoanálise, promover o autoconhecimento nos “limites da Maçonaria”? Como visto, essa é uma das primeiras etapas do caminho, e desde que uma vez iniciada não deve sofrer solução de continuidade, o que dá a dimensão da sua relevância.
Embora denominada de autoanálise, a busca pelo autoconhecimento, a contento, dificilmente pode ser realizada sem o auxílio e a orientação de um profissional, a exemplo de um psicólogo; algo impensável para a maioria, seja pela acessibilidade ou custo em razão do longo prazo de acompanhamento, daí a delimitação, acima, na redação da questão-problema. Mergulhar no passado, numa viagem de descobertas para encontrar as raízes que levam ao entendimento da formação dos códigos de valores individuais (ética) que modulam (positiva ou negativamente) as atitudes e comportamentos em sociedade (moral), com o intuito de aprimorá-los, não raro é um processo repleto de surpresas dolorosas, que nos confronta com “o sentido da vida e a tríade trágica: sofrimento, culpa e morte (Kroeff, 2014, p. 59)”. Entrelaçadas e desde as pontas mais extremas das raízes podem ser encontradas carências afetivas, frustrações, desilusões, traumas de infância, entre outras marcas (supostas) indeléveis, mas que, de um modo ou de outro, “explicam” as incoerências, as contradições, os egoísmos, as hipocrisias, enfim, os vícios e as paixões que assolam o presente. Encontrar o sentido da vida (“a verdade”), ainda que tardiamente, revelam os estudos, revigora o corpo, o espírito e alma, como bem acentuado por Frankl (2019, p. 101) citando Nietzsche: “Quem tem por que viver aguenta quase todo como”[11]. Olhar para o eu interior (que algumas tradições iniciáticas, como é o caso do RER, recorrem ao espelho para dramatizar) pode ser assustador, equivalente ao encontro com fantasmas e demônios, mas necessário para os que desejam (re)iniciar a partir de novas bases. Por fim, embora a busca pelo autoconhecimento tenha intenção terapêutica, pois pretende ser um elemento de superação e catalisador de mudanças, beira à ingenuidade, nas condições dadas pela Maçonaria, crer que os resultados possam ser obtidos na extensão e profundidade pretendidos, ainda que alardeados pelos mais ufanistas. Portanto, justificam-se os esforços que tragam alguma contribuição para melhorar esse cenário. Dessarte, o que ora se propõe, como alternativa mais viável é o recurso à literatura.
Por tudo o que foi dito, não podendo contar com um profissional, ter contato com as experiências de quem já fez a viagem e/ou passou por situações analogadas às que eventualmente passamos, quando não literalmente em condições de enfrentamento, pode ser não apenas confortador, mas sobretudo um estímulo à resiliência e à superação. Há várias obras que, em parte, ou na sua totalidade, versam sobre essa visita ao interior, ao mergulho nas profundezas do ser, no subconsciente, na alma; e que não se invalide a estratégia sob o argumento de que são peças ficcionais, portanto distantes da realidade. Seja por um lado, ou por outro, as razões são favoráveis à estratégia: de um lado porque várias narrativas são construídas a partir de elementos autobiográficos dos autores, e do outro porque as próprias ficções (a exemplo das lendas, fábulas e parábolas) já são largamente utilizadas pela Maçonaria. Em outros termos, trata-se de aprender, à luz das condições disponíveis, com quem já fez, ou melhor, com quem já viveu.
Embora refira à autoanálise, a proposta não sugere que a leitura se dê e se esgote entre 4 (quatro) paredes pois, sem dúvida, o compartilhamento e o debate (por exemplo, em Loja) acerca das obras podem, em grande parte, suprir as eventuais limitações individuais, pois é fato que sobre cada fenômeno (isto é: o que é visto, o que se manifesta a cada um), a exemplo da interpretação de um texto, raramente todos têm a mesma percepção; assim, apreciar e refletir sobre as diferentes perspectivas, seja para concordar ou discordar, só pode ser deveras enriquecedor.
Conforme mencionado, são incontáveis as obras que se prestam à finalidade, mas a riqueza dos textos à luz dos objetivos ora propostos, a autoridade inquestionável e mundialmente reconhecida dos autores, a acessibilidade (todos os textos estão disponíveis para download for free) bem como o tamanho das obras (novelas, ao invés de grandes romances[12]) apesar de serem consideradas clássicas, entre as melhores dos autores, em conjunto foram decisivos para a escolha dos textos a seguir explorados. O objetivo do que se segue não foi apresentar uma sinopse dos livros selecionados, mas antes e a partir de algumas citações[13] (pílulas gourmet) intercaladas de comentários, deixar à evidência que eles se prestam como guias para a viagem ao eu interior.
Aos autores e às obras:
- Liev N. Tolstói – aristocrata, conde, nasceu em 1828 na propriedade rural (Iásnaia Poliana) da família, em Tula, nas proximidades de Moscou. Órfão, foi criado pelos parentes – a mãe perdeu aos 2 (dois) anos e, aos dez, o pai foi assassinado. Produtor agrícola, cercado de centenas de servos (mujiques, na denominação russa), durante toda a vida não enfrentou problemas econômicos ou financeiros, mesmo quando contraiu dívidas de jogo. Embora não tenha concluído uma formação profissional[14], as condições financeiras da família possibilitaram que lograsse esmerada formação (era hábito, à época, que a aristocracia contratasse preceptores para a educação dos filhos), tendo inclusive (aos 16 anos) iniciado os estudos de Direito e, depois, se dedicado às Línguas Orientais – árabe, turco e grego. As viagens, na Rússia e pela Europa, o colocaram, através dos Clubes Literários, em contato com diversos intelectuais e autores já renomados; e as detalhadas anotações registradas no seu Diário pessoal viriam a ser parte da matéria-prima que, posteriormente, foi amplamente trabalhada e ornamentada já na tranquilidade de Iásnaia Poliana. A participação na Guerra da Criméia (1853-56) não poderia deixar de ser uma experiência marcante, sobretudo nas suas primeiras obras, algumas com lugar de destaque na literatura mundial, como Guerra e Paz e Anna Kariênnina, que antecederam a Uma Confissão, publicada em 1879. O séc. XIX foi de grande efervescência social, política, militar e intelectual na Rússia tzarista cujos sinais de esgotamento já antecediam os seus estertores – cenário ideal para uma mente inquieta e criativa. É um dos poucos autores que ainda em vida tiveram o reconhecimento do público, da crítica e puderam usufruir dos todos os benefícios do seu trabalho intelectual; aonde quer que fosse, no país ou no exterior, era aclamado, o foco da atenção de todos – efetiva celebridade. Não obstante a sua elevada condição socioeconômica, ou talvez mesmo por isto, desenvolveu extremada sensibilidade frente às grandes desigualdades sociais entre a aristocracia e a servidão, o que o levou a um agudo estado depressivo, crise de fé e a cogitar até mesmo no cometimento do suicídio. Faleceu em 1910, portanto, aos 82 anos.
- Uma Confissão – Neste livro ele narra, em detalhes, a trajetória da sua viagem interna, a busca pelo sentido da vida, a ânsia por encontrar a “verdade”, e o faz trazendo e refletindo, sobre uma a uma, as suas dúvidas, angústias, desapontamentos e, em meio a tanto, o seu encontro com as crenças – no seio da população servil -, o que o leva a um profundo reposicionamento sobre as questões de fé, mas também ao desencanto com 2 (duas) grandes instituições: com o Estado & Governo, mas sobretudo com a igreja ortodoxa russa que, em razão das críticas recebidas decretou a sua excomunhão. Inicia declarando que foi batizado e criado na fé cristã ortodoxa, todavia, não demora (nas suas reflexões) a perceber as incoerências entre o que é ensinado nas igrejas e lares e o comportamento efetivo das pessoas. Ao se olhar no espelho enxerga a mesma hipocrisia, soberba e ignorância que já observara entre os seus pares, os intelectuais que, apesar das divergências entre si, cada um se considerava o dono da verdade; reconhece, ainda, que escreveu para ter fama, (mais) dinheiro, era vaidoso e orgulhoso, e que todos criam que o que falavam, escreviam e publicavam era necessário para a humanidade. O próximo desencanto será com a racionalidade, o progresso e a felicidade enquanto encadeamento inexorável, como se suficiente o uso da boa técnica e dos saberes (desde os experimentais aos especulativos, cujo extremo é ocupado pela metafísica). O testemunho de uma execução pública, em Paris, o deixou transtornado, completamente descrente: “A verdade era que a vida não tem sentido algum” […] E a verdade é a morte […] O mais importante é que minha pergunta pessoal, “o que sou eu e o que são os meus desejos?”, continuava sem resposta”. O trecho a seguir, deixa claro uma das primeiras conclusões a que chegou, a de que ao fim e ao cabo a busca interna transcende as dúvidas e angústias pessoais: “[…] para responder à pergunta que se apresenta a todo ser humano (“O que eu sou?”, ou “Para que eu vivo”, ou “O que devo fazer?”), é preciso, antes, que o homem solucione a pergunta: “O que é a vida de toda a humanidade, que ele desconhece, e da qual ele conhece apenas uma parte minúscula, num minúsculo período de tempo?”. E a(s) verdade(s), a(s) resposta(s) a cada questão não pode ser individual, deve ser una, não pode haver conflito entre elas. Aos poucos as preocupações humanistas ganham espaço nas suas reflexões. A inquirição que promove sobre a razão (os saberes, as ciências) leva-o a um impasse e antecipa os próximos passos: “E a dúvida era a seguinte. Eu, minha razão, admitia que a vida era irracional. Se não existe nada acima da razão (e não existe, e nada demonstra que possa existir), então a razão é a criadora da vida, para mim. Se não houvesse razão, também não existiria vida, para mim. Como pode essa razão negar a vida, se ela mesma é a criadora da vida? […] Senti que havia nisso algo fora do lugar”. A citação mais longa, a seguir, reproduz um embate que ocupa a muitos, entre a fé a razão, e que também divide os Ritos e os Iniciados na Maçonaria: “O saber racional, na pessoa dos sábios e cultos, nega o sentido da vida, enquanto a enorme massa de pessoas, a humanidade inteira, reconhece esse sentido num saber irracional. E esse saber irracional é a fé, a mesma que eu não podia aceitar. Esse Deus trino, essa criação em seis dias, os demônios e os anjos e tudo isso que não posso admitir, a menos que me transforme num louco. Minha situação era horrível. Eu sabia que nada encontraria no caminho do saber racional, senão a negação da vida, e que nada encontraria na fé, senão a negação da razão, que era ainda mais impossível do que a negação da vida. Pelo saber racional, se concluía que a vida é o mal, e as pessoas sabem disso, e não viver depende só das pessoas, mas elas viveram e vivem, eu mesmo vivia, embora soubesse, já havia muito tempo, que a vida não tem sentido e é o mal. Pela fé, concluía-se que, para entender o sentido da vida, eu devia renunciar à razão, exatamente ela, necessária para o sentido”. Mas para saber como o autor solucionará mais esse impasse … será preciso ler o livro, pois o objetivo, conforme declarado é, à guisa de orientação, demonstrar como a literatura pode auxiliar cada Iniciado a fazer a sua viagem interna em busca do autoconhecimento para, na sequência, então (re)nascer. Com efeito, as transformações experimentadas por Tolstói foram extraordinárias (viveu em monastérios, tornou-se vegetariano, repudiou o sexo, a família, etc.), tendo impactado a sua relação com a esposa, com os filhos, com os servos e outros, além de ter criado, inclusive, uma legião de seguidores, por alguns considerada uma religião fundamentada no amor, no altruísmo e na caridade cristã – o tolstoismo.
- Fiódor M. Dostoiévski – filho de médico, nasceu em Moscou, em 1821. Ainda jovem tornou-se órfão; perdeu a mãe (1837) devido à tuberculose e o pai (1839) depressivo e alcoólatra. Embora graduado como engenheiro militar, basicamente viveu como jornalista e escritor, o que de pronto o situou no epicentro das discussões políticas com intuito reformista. Denunciado como integrante do Círculo de Petrachévski, clandestino e de orientação socialista, foi preso e condenado à morte. O indulto concedido pelo Tzar, lido quando já estava frente ao pelotão de fuzilamento, converteu a pena capital em trabalhos forçados na Sibéria, seguidos da prestação de serviço militar como soldado raso, ocasião em conheceu a sua primeira esposa e tiveram início os ataques de epilepsia. A vida desregrada o levou a contrair muitas dívidas e, em fuga dos credores, viajar pela Europa, aonde perdeu ainda mais dinheiro (no jogo) e teve envolvimento com uma amante. A morte da esposa e do irmão aumentaram ainda mais os seus compromissos, pois Fiódor assumiu também o sustento da cunhada e sobrinhos. Assolado por dívidas firmou um contrato draconiano: a cessão dos direitos autorais das suas obras se não entregasse, em tempo recorde, o que viria a ser uma das suas obras mais conhecidas, O Jogador, tarefa que, a duras penas e auxiliado por aquela que viria a ser a sua segunda esposa, foi concluída em menos de um mês. Faleceu de enfisema pulmonar, em São Petersburgo, em 1881, portanto, com 60 anos.
- Memórias do Subsolo – Publicada em 1864, pode ser considerada uma obra precursora tanto do Existencialismo quanto da Psicanálise, reconhecida por críticos como Boris Schnaiderman como a manifestação mais vívida de Fiódor Dostoiévski como “romancista-filósofo por excelência”. No exame do processo de introspecção do Eu que esta obra oferece, iremos fundamentar nossos achados com os próprios termos do narrador sem nome, um angustiado alguém à procura de si mesmo. Esta descrição do percurso pode ser também um modelo válido a ser divisado pelo Aprendiz, homem livre e de bons costumes, que se comprometeu a polir a pedra bruta. Este protagonista anônimo, o “homem do subsolo,” é um indivíduo isolado, atormentado e ressentido, que vive em autoexílio e manifesta desprezar a Humanidade. O “subsolo” serve como uma metáfora para sua desconexão voluntária do mundo exterior, um refúgio escolhido que, ao mesmo tempo, força um encontro sem filtros com o próprio Eu (ou Self, como outros autores nomeiam). A narrativa é uma “confissão desordenada e filosófica” que mergulha “na mente de alguém que vive em eterna contradição”. A obra, de natureza densa e provocadora, é um mecanismo deliberado do autor para desestabilizar o leitor e interpelá-lo a uma autorreflexão, mesmo desconfortável, que serve como que um ‘gatilho’ para a introspecção profunda. A experiência de leitura é concebida como um “ato performático de autoanálise,” em que o leitor é compelido a uma investigação interna intensa através da sua aflição, da provocada inquietação. O autoexílio no “subsolo” torna-se um pré-requisito para o desenvolvimento espiritual e emocional genuíno, pois despoja as ilusões e força divisar um confronto com a essência crua e sem disfarces do Ser. Vejamos a natureza constitutiva deste inusitado processo. O homem do subsolo se descreve como alguém com uma “consciência excessiva” que o “impede de agir,” separando-o dos “homens diretos e de ação” que não têm dilemas internos. Sua obsessão por suas próprias motivações o paralisa e, paradoxal e ironicamente, ele sente “prazer em seu próprio sofrimento” e “orgulho” nessa consciência exacerbada. A descrição desse prazer no sofrimento aponta para uma tendência humana comum em que a consciência das próprias falhas se torna uma fonte de identidade ou de superioridade intelectual, transformando-se em uma armadilha que impede a ação e o engajamento com o mundo. O “subsolo” torna-se, então, uma aparente “zona de conforto na miséria” onde o indivíduo encontra uma satisfação perversa em sua idiossincrasia percebida. O verdadeiro crescimento, no entanto, vai exigir que se supere o orgulho no próprio sofrimento para buscar ativamente a resolução e o engajamento, mesmo que isso signifique lidar, reflexionar, confrontar o desconforto da mudança. Essa paralisia da “ruminação” deve ser transformada em uma espécie de “catalisador” para a ação consciente e conscientizadora. Podemos igualmente observar que o “homem do subsolo” é um porta-voz da crítica (também presente em outros textos, a exemplo de Notas de Inverno Sobre Impressões de Verão) de Dostoiévski ao racionalismo e aos rumos da Modernidade Europeia no século XIX, corporificado em parte pelas obras utilitaristas dos filósofos ingleses Jeremy Bentham[15] (1979) e John Stuart Mill[16] (2000). Ele rejeita a ideia de que o ser humano é previsível e que suas ações podem ser reduzidas a “fórmulas lógicas” para se alcançar a felicidade. O narrador afirma que o ser humano é inerentemente irracional e que o livre-arbítrio é fundamental, mesmo que isso signifique agir de maneira autodestrutiva para afirmar a própria liberdade. A metáfora “dois e dois são quatro” representa o mundo determinista contra o qual o personagem se rebela. Para a autoanálise, isso implica ir além de uma visão simplista e utilitária dos próprios desejos, reconhecendo a complexidade das motivações, incluindo impulsos não-lógicos, como parte da autenticidade emocional, característica ótima do Self apontada por Rogers no seminal “Tornar-se Pessoa” (1984). A compreensão é que o autoconhecimento genuíno exige o reconhecimento dos impulsos irracionais e contraditórios abarcados pelo Eu. A rejeição radical da racionalidade pelo homem do subsolo é uma tentativa de recuperar essa liberdade, evidenciando a complexa interação entre a afirmação da liberdade e suas consequências, mesmo que por vezes ameaçadoras e até catastróficas. Por outro lado, a psiquê do homem do subsolo é retratada como um “campo de batalha de vozes conflitantes”. Ele dialoga com “senhores anônimos” imaginários e constantemente se contradiz, dizendo e desdizendo o conhecimento que constrói sobre si. Essa reflexão dialógica leva precisamente à “consciência das contradições insolúveis, experimentadas como sofrimento”. O narrador vai em sua aparente desconexa narrativa desvelar um Self fragmentado e a impossibilidade de construir uma imagem coesa e cabal de si mesmo, sugerindo que a sondagem do Eu leva a uma “forma vazia,” desafiando a noção de um Self coerente e cognoscível. O conceito de “multivocalidade” do personagem é central para Dostoiévski, pois é uma declaração radical sobre a própria natureza da psique humana. Para a autoanálise, isso significa que o objetivo não é alcançar uma identidade perfeitamente consistente, mas sim aceitar e integrar as contradições inerentes. O crescimento emocional e espiritual reside na aceitação da “polifonia” da própria consciência, em vez de tentar suprimir partes de si mesmo. A tentativa de criar uma narrativa unificada do Eu diante dessas contradições leva ao sofrimento e ao autoengano. A aceitação da ambiguidade, por outro lado, pode levar a um Self mais integrado e autêntico. O homem do subsolo está “afundado na lama do desamor, da carência, do ressentimento e da incapacidade de amar”. Embora se considere intelectualmente superior, ele tem plena consciência de sua impotência e fracasso social, o que perpetua um tóxico ciclo de ressentimento e solidão. A segunda parte da obra explora as humilhações e conflitos em suas interações sociais, destacando o encontro com Liza, uma jovem prostituta. Liza representa uma oportunidade de redenção e conexão genuína que ele rejeita ativamente, manipulando-a e humilhando-a, movido por seu ressentimento, vergonha e orgulho. Seu orgulho em sua “consciência excessiva” e a incapacidade de lidar com a humilhação o aprisionam em um estado de imaturidade emocional, impedindo o desenvolvimento de relações autênticas. Vemos aqui uma chave de compreensão do modelo de introspecção oferecido, quando vemos que a obra sugere que a incapacidade de “narrar a verdade para si mesmo” devido ao autoengano é uma barreira psicológica crítica. A lição para o crescimento emocional é que o reconhecimento e o processamento de emoções difíceis, como ressentimento e orgulho, são essenciais para evitar o isolamento social e a rejeição de oportunidades de conexão e amor, que criam um ciclo vicioso de miséria autoimposta. Finalmente, a obra eleva a discussão psicológica a um plano espiritual, ao tratar o sofrimento não apenas como uma punição, mas como uma manifestação da liberdade e da complexidade da psiquê humana que se recusa, de modo reducionista, a ser simplificada pela razão. O “homem do subsolo” escolhe o sofrimento deliberadamente como uma afirmação de sua vontade contra qualquer sistema que negaria sua liberdade, mesmo que esse sistema prometesse felicidade. A capacidade de escolher o sofrimento seria o que precisamente afirmaria a dignidade humana. A obra sugere que o verdadeiro crescimento espiritual pode não estar em evitar a dor, mas em aceitá-la, engajá-la de forma significativa, buscando significado no sofrimento. Lidar com a própria capacidade para o “mal”, o autoengano ou a autossabotagem, e a dor resultante, pode ser como que um “cadinho” para uma compreensão mais profunda da própria natureza humana. O “subsolo” se torna um espaço metafórico onde a verdade crua da liberdade humana, tão cara à Arte Real, com todas as suas implicações, é revelada. O ensaio infinito da existência, assim como as “Memórias” do homem do subsolo, demonstra que a jornada de autoanálise é um processo contínuo e inconclusivo, um proceder a certo “resgate” de um Eu que tende, como vimos, a se fraturar, visto que esta sondagem do Self nunca chega a uma “interpretação mais completa e estável”. A “forma vazia” que se revela não é um vácuo a ser preenchido, mas a ausência de definições rígidas que permite a constante redefinição e a afirmação da individualidade. O livro não oferece respostas fáceis, mas usando um conhecido, porém preciso lugar-comum, a coragem de fazer as perguntas certas, tornando-se um guia, um precioso roteiro para quem busca um crescimento espiritual e emocional genuíno, longe das fórmulas enganadoras, simplistas de felicidade. A obra convida a uma imersão na complexidade da existência, reconhecendo que a verdadeira plenitude pode ser encontrada não na ausência de conflito, mas na coragem de enfrentá-los e integrá-los como parte indissociável da experiência humana pois como se diz, “estar vivo é diverso de viver”.
Ainda sobre os autores, as obras e os propósitos deste ensaio:
- em comum, além de terem sido notáveis escritores russos e contemporâneos entre si, embora Tolstói tenha sido mais longevo, cabe destacar a enorme sensibilidade de ambos para captar, ao nível micro, toda a riqueza da diversidade, da complexidade e as sutilezas (da alma) da natureza humana e, ao nível macro, de reverberar nas suas obras e personagens, não só as grandes questões sociais, políticas e econômicas à época em debates, que dividiam os corações e as mentes, como também aquelas atemporais e de cunho transcendente. Só resta a obviedade: não à toa, sem razão, que as suas obras tiveram a aceitação e o reconhecimento universal. Essa também é uma lição que pode ser apropriada pela Maçonaria: direcionar o foco dos seus esforços (desde a docência à produção intelectual) apenas para o autodesenvolvimento, sem estabelecer as indispensáveis conexões com “as coisas do mundo” é, no mínimo incompleto, com risco de ser infrutífero e desestimulante;
- ambos, grosso modo um rico e o outro pobre, sobretudo na juventude se entregaram ao hedonismo, à vida boêmia e desregrada: viciados em fumo, bebidas, jogos (notadamente os de azar), sexo e, quando casados foram adúlteros. Viveram em meio aos vícios e às paixões, mas souberam delas extrair a seiva que comporia e enriqueceria os seus personagens, no caso de Dostoiévski, uma obra inteira – O Jogador. Ademais, como visto, ambos, um ainda durante a infância, o outro já na juventude, acumularam perdas familiares, e tanto Tolstói quanto Dostoiévski perderam filhos – dos 13 do primeiro, 5 (cinco) morreram na infância. A morte, o sofrimento e as emoções extremas (alegria e dor) sempre os acompanharam, o que parece ter sido determinante, como já visto, mas também em outras das suas obras, para que manifestassem profundas preocupações existenciais, sempre em busca da verdade e do sentido da vida à luz da finitude inexorável. Essas notas ganham relevância por 2 (dois) motivos:
- primeiro porque afastam, em definitivo, o argumento da invalidação da literatura, como se todas as obras fossem totalmente ficcionais, como instrumento auxiliar à autoanálise, ao autoconhecimento;
- em segundo, mas ainda relacionado ao primeiro, mostra que ambos, embora distintos em vários aspectos, “foram gente como a gente”, se de um lado lograram reconhecimento e sucesso em razão do seu trabalho, de outro não estiveram livres das paixões e dos vícios, dos comportamentos contraditórios, mas não só souberam superá-los como, para sorte dos leitores, deixaram registradas todas as reflexões, os erros e os acertos cometidos ao longo da jornada em busca da verdade;
- embora contemporâneos, não consta que tenham sido amigos, sequer que tenham se encontrado, e enquanto Tolstói não apreciava as obras de Dostoiévski, este era um admirador daquele, e quando morto, Tolstói lamentou a perda precoce;
- desnecessário enfatizar que as obras, ora consideradas como efetivas viagens pelos labirintos do ser, ao encontro da alma e da gênese dos valores éticos e morais, são mais amplas e profundas em aspectos, perspectivas, circunstâncias, ações e reações, dilemas, emoções, do que as poucas citações (ainda que longas) e os comentários trazidos ao texto; mas essa é uma descoberta privativa àqueles que se dispuserem a ler os textos na íntegra. Difícil, mesmo passados quase 2 (dois) séculos da publicação das obras, em exercício de autoanálise não se identificar, no todo ou em parte (alguma circunstância, momento da vida, etc.) com um ou mais dos personagens e com as situações retratadas – dilemas, conflitos, angústias, etc. – e quase tudo é muito atual pois, em essência, o ser humano permanece – o mundo se transforma (muito) mais rápido do que a sua natureza fundamental. E a identificação não se limita apenas à situação-problema, mas abrange também as reflexões e as eventuais decisões dos personagens, o que remete à empatia, mas ocasionalmente à antipatia pelos personagens. A pergunta que resta é: e se fosse com você, você faria o mesmo? Como reagiria? Independentemente de a resposta ser afirmativa ou negativa, o fato é que a linha de raciocínio apresentada pelo personagem, no mínimo, já lhe poupou algum esforço, talvez tenha contribuído para reforçar ou mesmo eliminar algum curso de ação inicialmente cogitado;
- por último, mas não menos importante, é digno de registro que ambos, mas muito mais Tolstói, contaram com o apoio das esposas (Dostoiévski, da segunda); Sonia, esposa de Tolstói, foi decisiva para a definição dos perfis femininos, bem como atuava como revisora[17] e editora.
Já encaminhando para as considerações finais, é importante alertar e chamar a atenção, sobretudo daqueles que intencionam adotar a estratégia sugerida, que cada obra, de regra, admite pelo menos 3 (três) níveis de análise e compreensão: a obra em si mesma; a obra à luz da biografia do autor (o que por vezes permite identificar as mensagens ocultadas); e, obra no seu contexto histórico. São entendimentos que não se excluem, mas antes se complementam e mutuamente se enriquecem, ampliando sobremodo o entendimento que delas pode ser extraído. O que, por exemplo, aparentemente é um detalhe cronológico pode, na verdade, encobrir a relevância oculta na obra: Uma Confissão foi escrita em 1879, porém publicada em 1884, originalmente no exterior e, na Rússia, somente em 1906. O motivo? A censura! Ademais, como declarado pelo autor, ela é parte (a introdução) de uma obra maior – Investigação da Teologia Dogmática – publicada somente após a morte de Tolstói.
Mais do que escritores, Tolstói e Dostoiévski foram pensadores e críticos sociais, por alguns considerados filósofos, foram admirados e influenciaram (o pensamento e por certo a contribuição de) grandes vultos da história: M. Gandhi, Thomas Mann, Victor Frankl, S. Freud e tantos outros; assim, salvo melhor juízo, não há motivos para deixar de lê-los.
Finalmente, há várias obras que se prestam à finalidade deste texto (auxiliar na viagem ao interior – VITRIOL -, à descoberta crítica do Self, da gênese da formação dos códigos de valores individuais, etc.), alguns de leitura mais amena, como é o caso de Auto-Engano[18] (Giannetti, 1997) e Sidarta (Hesse, 2015), já outros sugerem que há o momento mais adequado para o seu enfrentamento, como é o caso de O Lobo da Estepe (Hesse, 2024), A Morte de Ivan Ilitch (Tolstói, 2002) e, Carta ao Pai (Kafka, 2007). Devido ao tamanho das obras, Os Irmãos Karamázov (2013) e Crime e Castigo (2001), ambos de Dostoiévski, se de um lado demandam muito mais tempo para leitura, oferecem uma riqueza de personagens e jornadas introspectivas de grande profundidade – a análise da personalidade, dos valores e das iniciativas de Raskólnikov, personagem central de Crime e Castigo, é matéria obrigatória nos cursos de Psicologia, Sociologia e Direito. A literatura se apresenta como um universo (infinito) ainda a ser explorado como fonte de estudos tanto para os maçons (tal como hoje: cada um por si) quanto para a Maçonaria enquanto instituição que, sem prejuízo à autonomia das Lojas pode, mediante políticas e estratégias, fazer uso das suas estruturas para induzir, catalisar e reconhecer iniciativas inovadoras. A Maçonaria Especulativa, por definição (conforme as primeiras palavras deste texto), não pode ficar limitada ao estudo da sua História, à permanente louvação dos seus vultos e tampouco às reiteradas obviedades (há alguém que possa questionar) a exemplo de que às virtudes devem ser erigidos templos enquanto que os vícios devem ser encerrados em masmorras. Como transformar o mundo, pelo exemplo se, antes, não for realizada a jornada interior, não forem revisitadas e polidas as bases que estruturam os valores éticos e os códigos morais? E como levar a cabo esses empreendimentos sem os recursos e as ferramentas minimamente necessárias? O foco deste ensaio foi delimitado à jornada para o (re)encontro do Self, mas o escopo a ser explorado pela Ordem a partir da literatura é tão amplo quando o universo que a ambas constitui e que ao fim e ao cabo as fundem. A propósito, a viagem ao interior não é exclusiva aos indivíduos, as instituições podem e mesmo regularmente as promovem.
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Notas
[1] Mestre Maçom, G. 33 no REAA e G. 5 no RER, Pesquisador Independente. E-mail: ivan.pinheiro@ufrgs.br. Os autores agradecem a leitura e as contribuições do Ir. José Filardo, Mestre Instalado, membro ativo da ARLS Fernando Pessoa, 4001, Bacharel em Letras (USP) e em Direito (Fac. de Direito do Largo de São Francisco), Grau 9 no REAA, Grau 4 no Rito Moderno, tradutor, escritor, pesquisador e editor do Blog www.bibliot3ca.com.
[2] Mestre Maçom do Quadro da ARLS Presidente Roosevelt, 75, GLESP, Oriente de São João da Boa Vista. Graduação em Formação de Psicólogo pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (1977), Licenciatura e Bacharelato em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (1976), Mestrado em Ciências da Motricidade pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Instituto de Biociências, Campus de Rio Claro, 1997) e Doutorado em Psicologia como Profissão e Ciência (PPGP-CCV) pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (2003). Especializado em Maçonologia (UNINTER). E-mail: dutralucas@aol.com.
[3] Destaques firmados pelo citado.
[4] O livro do qual foi extraída a citação foi originalmente publicado em 1772.
[5] Que inspiraram pesquisadores maçônicos.
[6] Data que também é objeto de questionamento.
[7] Frase atribuída a John Donne. Fonte: https://www.pensador.com/frase/NTE2MzQ4/. Acesso em: 20.08.25.
[8] Com efeito, “A moralidade envolve mais do que dano e justiça” (Haidt, 2020, p. 135).
[9] Não se ignoram as controvérsias históricas (e geográficas) envolvidas, mas abordá-las, agora, implicaria em desvio do foco, fugir do escopo delimitado; ademais, à luz dos objetivos, as controvérsias podem ser consideradas como pormenores.
[10] O RER adota uma denominação muito rica de significado: as Iniciações são denominadas Recepções (ao Primeiro, ao Segundo e aos demais Graus), um reconhecimento explícito de que nem todos os Recepcionados (pela Ordem) conseguirão ascender à condição de Iniciados.
[11] Destaques no original.
[12] Curiosidade: várias obras, hoje consideradas romances (a exemplo Irmãos Karamázov e Anna Kariênnina), foram originalmente publicadas na forma de novelas, capítulo a capítulo, nas revistas (periódicos) da época, o que aumenta a admiração pelos autores que, presos aos conteúdos já publicados se viam obrigados a dar continuidade à narrativa sem poder voltar atrás para modificar ou corrigir. A capacidade de abstração, planejamento e continuidade demonstradas, sem dúvida, é notável, capacidade rara. Mas é importante também registrar que algumas obras, a exemplo de Guerra e Paz, primeiro grande sucesso de Tolstói, originalmente publicado na forma de folhetins, passou por 7 (sete) revisões antes da edição como romance em forma de livro.
[13] Por opção os autores não citam as páginas. Embora nas Referências Bibliográficas tenham sido especificadas as versões impressas (para facilidade do leitor), para a realização deste trabalho os textos foram lidos a partir de arquivos no formato pdf sem paginação.
[14] Curso Superior.
[15] 1748 – 1832.
[16] 1806 -1873.
[17] Responsável pelas 7 (sete) revisões de Guerra e Paz.
[18] Mantida a grafia do título na publicação.
[19] Escrita em 1789, impressa em 1780 e publicada somente em 1789.
[20] Esta obra foi originalmente publicada em 3 (três) artigos separados na Fraser’s Magazine em 1861, sendo reunida e reimpressa como um único livro em 1863.
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