REVISTA BIBLIOT3CA

Leituras Selecionadas do Editor-Chefe J.Filardo

Dados e Segredo Maçônico

Tradução J. Filardo

 por Hilaire DE BAZILE

Desde mais de três séculos, a Maçonaria intriga por seu apego ao segredo. Os tempos mudaram com o surgimento do que é chamado era digital. Hoje, as portas são grandes aberturas sobre a vida privada ou profissional, a fronteira entre essas duas vidas cada vez mais se reduzindo. Os blogs maçônicos deram adeus a ele, seguidos pelos sites das obediências. Os convites e outras correspondências são difundidos em francês, por mensagens ou emails. As redes sociais, Facebook em mente, estão cheias de páginas maçônicas, amigos maçons ou não “curtidos” e fóruns tanto abertos quanto fechados. Assim, a Maçonaria parece se render às delícias digitais seguindo o princípio da inevitabilidade.

Aqui não se trata de julgar a pertinência da mania digital das Irmãs e Irmãos. Por outro lado, embora as autoridades europeias tenham adotado o RGPD (Regulamentação Geral de Dados Privados), é interessante notar a manutenção do pedido de segredo absoluto na Maçonaria, um segredo ritual, mas também um segredo dos dados entregues pelos maçons às obediências. O arquivo de membros com seus dados permanece secreto.  Mas o RGPD se aplica a todas as organizações, independentemente de tamanho, que armazenam e usam dados pessoais. Este é o debate que dados e big data representam para todas as obediências.

Agora todo mundo sabe ou deveria saber que nada, absolutamente nada, é apagado das memórias gigantescas do Facebook ou da Amazon ou de um ministério, memórias gerenciadas por gigantes informáticos cujo público mais frequentemente ignora a existência ou o nome, por exemplo, Cisco. Além disso, é preciso entender que a pirataria de dados se tornou um negócio, uma fonte de renda. Um excelente “hacker” pirata pode encontrar um ótimo trabalho.  A venda ou exploração de dados, a exemplo de Snowdon ou da Cambridge Analytica, prevalece sobre todos os princípios morais ou éticos.

O segredo nada mais é que uma lembrança de um tempo antigo neste mundo digitalizado que, parece, está aberto aos quatro ventos? O íntimo, ainda por um longo tempo, permanece um espaço inviolável, embora possa ser influenciado pelos elementos externos, mas ele não o tem sido por séculos, pela fala e escrita, e depois pelo audiovisual? No tempo de Voltaire ou Sócrates, o íntimo poderia ser trabalhado como é hoje.  A liberdade de pensar ainda é possível apesar de um espaço que tende a se restringir. Para ilustrar essa redução de espaço, basta observar o cruzamento de dados que permite a dezenas de organizações trocar informações sobre uma pessoa. O que quer que façamos ou a comunicação que mantivermos, os dados são gravados sem qualquer possibilidade real de oposição. E mesmo se identificamos os casos pelos quais não permitimos a gravação de um dado, a partir do momento em que o tivermos “dado”, ele será para sempre gravado em uma megamemória inacessível às pessoas comuns. Assim, dentro de bem pouco tempo, somente nossa intimidade e nossa consciência continuarão a ser nossa propriedade.

O segredo maçônico poderá também permanecer por muito tempo, contanto que nada seja registrado do que é dito nas lojas. Por tanto tempo quanto o segredo de nossos sentimentos permanecerá em nós sem compartilhar. No entanto, por que se iludir? A Maçonaria, se encontrará mais cedo ou mais tarde, obrigada a controlar o compartilhamento de seus dados para evitar a pirataria, como aquelas que recentemente alcançaram certas obediências. Tal compartilhamento obrigará a uma exigência legislativa e ética. Pertencer à Maçonaria deverá ser admitido protegendo os maçons de qualquer discriminação. As posições de partidos extremistas na Itália, na Turquia ou mesmo na Hungria ou na Polônia devem alertar os maçons para o perigo que os ameaçam. O segredo tem um preço duplo.  O da suspeita e da delação.

Aderir à Maçonaria deveria ser considerado um ato banal, uma expressão de liberdade e espiritualidade.  Atrever-se a se declarar maçom é muitas vezes a melhor maneira de combater a suspeita e impor o segredo. No oceano de dados coletados, pertencer à Maçonaria tenderá a se tornar mais e mais público, porque esses dados que se tornaram voluntariamente compartilhados não serão mais dados secretos. É, portanto, uma questão que merece ser debatida o mais amplamente possível para que a Maçonaria continue a trabalhar para promover a felicidade da humanidade no mundo digital.

O segredo nada mais é que uma lembrança de um tempo antigo neste mundo digitalizado que, parece, está aberto aos quatro ventos?

 

 

Publicado na Revista FM Franc-Maçonnerie

 

 

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