Por S. MORIN, Mestre Maçom da Marca

Fundamentos operativos: da pedra à identidade
A origem da Maçonaria da Marca remonta ao mundo concreto e trabalhoso dos construtores medievais. Muito antes de se tornar um sistema simbólico e iniciático, a “marca” era, antes de tudo, uma ferramenta de reconhecimento profissional usada nos grandes canteiros de obras de catedrais, abadias e fortificações na Europa medieval. Pedreiros, organizados em corporações hierárquicas e altamente especializadas, gravavam um sinal distinto em cada bloco moldado, geralmente composto por formas geométricas simples: triângulos, cruzes, estrelas, linhas que se cruzam ou figuras abstratas. Essa marca individual era uma verdadeira marca artesanal.


No contexto dos imensos canteiros de obras góticas dos séculos XII ao XV, onde várias dezenas, senão centenas, de trabalhadores podiam trabalhar simultaneamente, essa prática atendia às necessidades técnicas, administrativas e econômicas.
O primeiro objetivo era o controle de qualidade. Os gerentes de projeto e supervisores precisavam identificar rapidamente o artesão responsável por uma pedra defeituosa, mal cortada ou que não seguia os planos de construção. Assim, a marca garantia uma forma de rastreabilidade do trabalho e promovia a manutenção de um alto nível de requisitos técnicos nos canteiros de obras.
O segundo objetivo dizia respeito à remuneração dos trabalhadores. Como os pedreiros frequentemente eram pagos pela tarefa, ou seja, pelo número de pedras corretamente executadas, as marcas serviam como um sistema profissional de contabilidade. Cada pedra marcada testemunhava o trabalho realizado por um determinado artesão, o que permitia aos administradores do local avaliar com precisão sua produção e estabelecer sua folha de pagamento. Em uma sociedade onde os mecanismos administrativos permaneciam relativamente rudimentares, a marca registrada era, portanto, um instrumento essencial para a gestão e organização do trabalho.
No entanto, a marca não se limitava a uma função utilitária simples. Também participava da construção da identidade profissional do pedreiro. Por meio disso, o trabalhador afirmava sua pertença a uma comunidade profissional regida por regras precisas, conhecimento transmitido pelo aprendizado e uma forte cultura corporativa. A marca então se tornou o sinal visível de reputação, competência e reconhecimento entre os colegas.
Do ponto de vista historiográfico, uma das principais etapas da evolução dessa prática rumo a uma institucionalização mais formal ocorreu na Escócia no final do século XVI. Em 1598, William Schaw, Mestre de Obras do rei Jaime VI da Escócia, promulgou os famosos Estatutos Schaw, um texto fundamental na história da Maçonaria operacional escocesa. Esses estatutos tinham como objetivo reorganizar as lojas profissionais, fortalecer sua disciplina interna e padronizar os procedimentos para admissão de membros.
O Artigo 13 é de particular importância para a história da Maçonaria da Marca. Declarava explicitamente que a admissão de um companheiro ou mestre deveria ser oficialmente registrada e que seu nome e “marca” deveriam ser registrados nos registros da loja. Essa menção mostra que a marca já possuía um valor institucional reconhecido, indo além do simples uso prático do canteiro de obra para se tornar um elemento constituinte da própria identidade maçônica.
Durante o século XVII, as lojas escocesas começaram gradualmente a receber membros não operacionais, muitas vezes da nobreza, da burguesia letrada ou de círculos intelectuais. Esses “senhores pedreiros” ou “pedreiros aceitos” não exerciam a profissão de pedreiro, mas eram atraídos pelo prestígio, valores morais e tradições simbólicas das lojas. Significativamente, esses novos membros também adotaram uma marca pessoal, mesmo sem terem cortado pedras.
Essa transferência da marca do domínio estritamente profissional para um registro simbólico constitui uma evolução fundamental. A marca gradualmente deixou de ser apenas um sinal de propriedade ou remuneração para se tornar a expressão de uma identidade iniciática e espiritual. Agora simboliza o lugar do indivíduo no edifício coletivo, sua responsabilidade moral, bem como a marca pessoal que ele deixa na obra comum.
Assim, a Maçonaria da Marca aparece como herdeira direta de uma autêntica tradição operativa, na qual um gesto técnico concreto — marcar uma pedra — foi gradualmente carregado de profundidade simbólica e filosófica. Essa transição da ferramenta administrativa para o emblema iniciático ilustra perfeitamente a evolução geral da Maçonaria: a transição de uma profissão de construtores para um processo de construção interna e moral do homem.
A transição especulativa e a gênese do grau (século XVIII)
Durante o século XVIII, a antiga prática da marca passou por uma transformação decisiva. O que até então era apenas um sinal profissional herdado das práticas operacionais tornou-se gradualmente um verdadeiro grau iniciático integrado à nascente Maçonaria especulativa. Esse desenvolvimento não ocorreu nem de forma repentina nem de acordo com um plano centralizado; foi resultado de um desenvolvimento gradual, empírico e às vezes díspar dentro das lojas britânicas, especialmente na Escócia e na Inglaterra.
A Maçonaria Especulativa, oficialmente nascida com a fundação da Grande Loja de Londres em 1717, já havia começado a reinterpretar as ferramentas, gestos e tradições dos antigos ofícios dos construtores a partir de uma perspectiva moral e filosófica. Nesse contexto, a “marca” adquiriu um novo significado simbólico: não representava mais apenas a assinatura de um artesão em uma pedra, mas passou a ser a expressão da identidade espiritual do pedreiro e sua participação consciente na construção do “Templo Interior”.
Naquela época, a tradição da Marca ainda não era um grau autônomo e claramente estruturado, como se tornaria mais tarde. Na verdade, era na forma de dois graus distintos, geralmente conferidos dentro das Lojas simbólicas — também chamadas de “Lojas Azuis” — de acordo com o avanço maçônico do candidato.
O primeiro grau era o do Marcador. Geralmente era concedido aos Companheiros e enfatizava as noções de trabalho, responsabilidade individual e reconhecimento do mérito. O candidato recebia sua própria marca pessoal, símbolo de seu compromisso com o trabalho coletivo e do valor de seu trabalho.
O segundo grau, o de Mestre da Marca, era reservado a Mestres Maçons. Desenvolveu uma dimensão mais elaborada, associada à fidelidade, integridade moral e ao reconhecimento do verdadeiro valor do trabalhador. Esse grau foi gradualmente parte do ciclo de histórias simbólicas relacionadas à construção do Templo de Salomão, um tema central da Maçonaria especulativa do século XVIII.
O surgimento desses graus testemunha o desejo das lojas de expandir e enriquecer os ensinamentos simbólicos dos três graus fundamentais de Aprendiz, Companheiro e Mestre. A Marca oferecia espaço adicional para desenvolver temas essenciais como mérito pessoal, justiça na remuneração do trabalho, retidão moral e a relação entre o indivíduo e o edifício coletivo.
Do ponto de vista documental, um dos mais antigos atestados da prática organizada da Maçonaria da Marca data de 1758, nos estatutos da Kilwinning Doric Lodge No. 68 em Port Glasgow, Escócia. Essa menção é historicamente importante porque mostra que o grau já estava suficientemente estabelecido para aparecer nas práticas oficiais de uma loja. A Escócia também desempenhou um papel essencial na preservação das antigas tradições operacionais e em sua transmissão para as formas especulativas da Maçonaria.
Na Inglaterra, a primeira evidência historica atestada da comunicação do grau data de 1º de setembro de 1769. Naquele dia, Thomas Dunckerley, uma figura importante da Maçonaria Britânica do século XVIII, concedeu os graus de Marcador e Mestre da Marca no Capítulo da Amizade do Arco Real em Portsmouth.
A personalidade de Thomas Dunckerley merece atenção especial na história da Maçonaria da Marca. Oficial naval, administrador enérgico e influente organizador da Maçonaria Inglesa, Dunckerley desempenhou um papel fundamental na disseminação de vários altos graus maçônicos, incluindo o Arco Real e graus associados. Sua ação ajudou a dar cada vez mais legitimidade à tradição da Marca dentro da Maçonaria Inglesa.
O fato de a cerimônia ter sido realizada em um Capítulo do Arco Real também é revelador. Durante o século XVIII, as fronteiras entre os diferentes sistemas de graus ainda eram relativamente flexíveis. Muitas lojas, capítulos e órgãos maçônicos experimentavam novos rituais ou combinavam várias tradições simbólicas. A Maçonaria da Marca assim se desenvolveu em um ambiente de forte criatividade ritual, antes de buscar gradualmente uma estrutura institucional mais estável.
Esse período é, portanto, uma fase crucial na história do grau. A Marca deixa de ser uma simples sobrevivência operativa ou uma formalidade administrativa para se tornar um verdadeiro ensinamento iniciático. O símbolo da marca pessoal então adquire uma nova profundidade filosófica: não designa mais apenas o autor de uma obra material, mas se torna o sinal da responsabilidade moral do homem por sua obra, seus compromissos e a posteridade de seus atos.
Em resumo, o século XVIII marca o verdadeiro nascimento da Maçonaria da Marca como um sistema simbólico autônomo. Herdeiro das práticas operacionais medievais, alimentado pela imaginação especulativa das lojas britânicas e carregado por figuras influentes como Thomas Dunckerley, gradualmente se estabeleceu como um dos desenvolvimentos mais significativos e populares da Maçonaria de alto nível.
A crise de integração e a institucionalização da Maçonaria da Marca no século XIX
O século XIX foi um período decisivo na história da Maçonaria de Marca. Embora o grau tivesse experimentado uma grande difusão e crescente popularidade nas lojas britânicas no século XVIII, agora enfrentava uma questão fundamental: a de sua legitimidade institucional dentro da Maçonaria oficial inglesa. Essa crise viria a remodelar profundamente a organização do grau e ter uma influência duradoura em seu desenvolvimento internacional.
O Ato de União de 1813 e a Exclusão da Marca
O evento central desse período foi o estabelecimento da Grande Loja Unida da Inglaterra (UGLE) em 1813. Essa nova instituição nasceu da reconciliação das duas principais obediências maçônicas inglesas que haviam sido contestadas por várias décadas: a Grande Loja dos “Modernos”, fundada em 1717, e a dos “Antigos”, que surgira em 1751.
Essa fusão visava pôr fim às divisões doutrinárias, rituais e administrativas que enfraqueciam a Maçonaria inglesa. Para garantir a unidade da nova obediência, os negociadores do Tratado de União buscaram definir exatamente o que deveria constituir “maçonaria pura e antiga”.
O Artigo II do tratado então estabeleceu uma fórmula que se tornaria famosa: ” A Maçonaria pura e antiga consiste em três graus e nada mais, a saber: Aprendiz Inscrito, Companheiro do Ofício e Mestre Maçom, incluindo a Ordem Suprema do Santo Arco Real. »
Essa afirmação foi de grande alcance. Ao reconhecer oficialmente apenas três graus simbólicos — aos quais o Arco Real foi explicitamente adicionado — o texto excluía implicitamente todos os outros graus que haviam se multiplicado durante o século XVIII.
O grau de Marca, embora amplamente praticado e apreciado em muitas lojas inglesas, não aparecia nessa definição. Sua omissão, portanto, levou à sua exclusão da estrutura oficial da maçonaria simbólica inglesa. A situação era ainda mais paradoxal porque muitos maçons já consideravam a Marca como um complemento natural ao grau de Mestre Maçom, até mesmo como um passo essencial para a compreensão completa do Arco Real.
No entanto, essa exclusão não significou o desaparecimento do grau. Pelo contrário, a Maçonaria da Marca continuou a ser praticada ativamente em várias partes do Reino Unido. Mas seu status agora se tornava ambíguo: popular no uso, permanecia institucionalmente marginalizado.
Uma tensão entre a ortodoxia institucional e a prática maçônica
O debate em torno da Marca ilustra as tensões que corriam pela Maçonaria inglesa no século XIX. Por um lado, a UGLE buscava impor uma definição estrita e estabilizada de regularidade maçônica para preservar a unidade da obediência recém-criada. Por outro lado, muitos maçons desejavam manter antigas tradições rituais que consideravam legítimas e profundamente enraizadas na história da Ordem.
A Marca ocupou uma posição especial nessa controvérsia. Ao contrário de certos graus elevados mais esotéricos ou cavalheirescos que surgiram no século XVIII, ele reivindicava uma filiação direta com as tradições operacionais dos antigos construtores. Muitos, portanto, consideravam que ela fazia parte naturalmente do patrimônio fundamental da Maçonaria.
Essa tensão entre exclusão oficial e popularidade real criou uma situação instável por várias décadas. Algumas lojas continuaram a praticar o grau discretamente, enquanto outras buscavam obter seu reconhecimento oficial. As tentativas de compromisso se multiplicaram sem sucesso.
A criação da Grande Loja dos Mestres Maçons da Marca (1856)
O ano de 1856 marcou um ponto decisivo. Após longas discussões, a UGLE recusou-se definitivamente a integrar a Maçonaria da Marca aos trabalhos simbólicos colocados sob sua autoridade. Essa decisão provocou uma reação imediata dos apoiadores do grau.
Recusando-se a ver o desaparecimento de uma tradição que consideravam essencial, vários dignitários e lojas decidiram criar uma jurisdição autônoma especificamente dedicada à Maçonaria da Marca. Assim, em 1856, foi fundada a Grande Loja dos Mestres Maçons de Marca.
Essa instituição independente recebeu a tarefa de administrar, regular e disseminar o grau na Inglaterra e no País de Gales. Ela gradualmente estabeleceu uma estrutura estável, suas próprias constituições e um sistema administrativo completo, comparável ao das grandes obediências maçônicas tradicionais.
A criação desta Grande Loja representa um momento fundamental na história da Marca, pois transformou um grau marginalizado em um sistema maçônico autônomo e solidamente organizado. Paradoxalmente, a exclusão pronunciada pela UGLE contribuiu, portanto, para fortalecer a identidade da Maçonaria da Marca e para garantir sua sustentabilidade institucional.
Ao longo do século XIX, a Grande Loja da Marca experimentou um rápido desenvolvimento. Fundou muitas lojas, padronizou rituais e estabeleceu relações internacionais com outras jurisdições maçônicas. Assim, o grau ganhou reconhecimento crescente no mundo de língua inglesa.
Desenvolvimentos internacionais na Maçonaria da Marca
A partir do século XIX, a expansão internacional da Maçonaria também levou à da Maçonaria da Marca. No entanto, sua organização e status variavam consideravelmente de acordo com o país e as tradições maçônicas locais.
Na Escócia: continuidade operacional preservada
A Escócia adota uma abordagem muito mais flexível do que a Inglaterra. Fiel às suas antigas tradições operativas, a Maçonaria escocesa geralmente considerava a Marca como o complemento natural ao grau de Companheiro.
Nesse sistema, o grau pode ser concedido tanto dentro de uma Loja simbólica quanto em um Capítulo do Arco Real. Essa flexibilidade testemunha uma continuidade histórica mais marcada na Escócia entre a maçonaria operativa antiga e a maçonaria especulativa moderna.
Nos Estados Unidos: Integração ao Rito de York
Nos Estados Unidos, a Maçonaria de Marca encontrou seu lugar no sistema do Rito de York , um dos principais grupos de altos graus nos Estados Unidos.
Ela foi a primeira dos quatro graus de capítulo administrados em um Capítulo do Arco Real. Nesta organização, o grau de Mestre Maçom de Marca desempenha um papel introdutório essencial, preparando o candidato para os ensinamentos mais elaborados dos graus seguintes.
A tradição americana dava ênfase especial às dimensões morais do grau: o valor do trabalho honesto, o reconhecimento do mérito pessoal e a fidelidade aos compromissos assumidos.
A situação francesa: introdução, esquecimento e despertar
Na França, a história da Maçonaria da Marca foi mais descontínua. O grau foi introduzido em 1817 no Grande Oriente da França graças a Germain Hacquet, uma personalidade maçônica interessada em ritos anglo-saxões e altos graus britânicos.
No entanto, ao contrário da Inglaterra ou dos Estados Unidos, a Marca não conseguiu se estabelecer permanentemente no cenário maçônico francês do século XIX. Vários fatores explicam essa marginalização: a predominância de sistemas de altos graus inspirados na França; a considerável influência do Rito Escocês Antigo e Aceito; a fraca difusão das tradições maçônicas inglesas na França; e a ausência de uma estrutura autônoma capaz de garantir a continuidade do grau.
O ritual gradualmente caiu em desuso e quase desapareceu totalmente da prática maçônica francesa por muito tempo.
Só nos anos 2000 surgiu um movimento real para despertar a Maçonaria da Marca na França. A partir de 2001, várias jurisdições de altos graus, frequentemente ligadas ao Rito de York ou às linhagens britânicas da Marca, gradualmente reintroduziram esse sistema iniciático.
Hoje, embora permaneça relativamente confidencial em comparação a outros ritos mais difundidos, a Maçonaria da Marca está vivenciando um notável renascimento do interesse na França. Atrai maçons que desejam explorar as tradições anglo-saxãs, as raízes operativas da Maçonaria e as dimensões simbólicas relacionadas ao trabalho, responsabilidade individual e autoconstrução.
Assim, o século XIX aparece como um período paradoxal na história da Maçonaria da Marca: excluída das estruturas oficiais da Maçonaria inglesa, ela conseguiu, no entanto, se constituir como uma instituição autônoma, se espalhar internacionalmente e preservar sua própria identidade que permanece viva até hoje.
Fundamentos Alegóricos e Morais da Maçonaria da Marca
No nível simbólico e filosófico, a Maçonaria de Marca está totalmente alinhada com o universo lendário da construção do Templo de Salomão, a matriz central da maioria das tradições maçônicas ocidentais. No entanto, ao contrário de outros graus que enfatizam as dimensões dramáticas da morte de Hiram ou as especulações místicas do Arco Real, o grau de Mestre Maçom da Marca foca seu ensino no valor do trabalho, no reconhecimento do mérito e na dificuldade do julgamento humano.
A estrutura narrativa do ritual apresenta os trabalhadores empregados na construção do Templo, principalmente os pedreiros responsáveis por moldar os blocos destinados ao trabalho sagrado. Cada artesão trabalha sob a autoridade de vigilantes, responsáveis por controlar a qualidade das pedras produzidas, verificar sua conformidade com os planos de construção e autorizar o pagamento dos salários.
Essa estrutura hierárquica é um dos elementos essenciais da alegoria. Simbolicamente, reproduz a organização dos antigos locais operativos enquanto serve como modelo moral para a sociedade humana. Os trabalhadores representam a humanidade trabalhadora engajada no trabalho de melhoria individual e coletiva; os Vigilantes incorporam autoridade, justiça e a responsabilidade do discernimento.
A pedra angular: o coração simbólico do grau
O principal ensino do grau gira em torno do famoso episódio da pedra angular, o verdadeiro centro dramático e filosófico do ritual.
Na lenda, um trabalhador particularmente habilidoso e consciencioso esculpiu uma única pedra destinada a uma função específica na construção do Templo. No entanto, quando essa pedra é apresentada aos Vigilantes, eles não reconhecem nem seu uso nem seu lugar nos planos que possuem. A forma incomum da pedra os leva a pensar que ela é defeituosa ou inútil. Por isso, é rejeitado, às vezes com desprezo, e descartado entre os materiais considerados inadequados para a obra.
Essa rejeição constitui um momento essencial na história iniciática. Revela a falibilidade do julgamento humano, mesmo quando ele vem de autoridades competentes e experientes. Os Vigilantes não são apresentados como maliciosos; ao contrário, seu erro decorre das limitações de sua compreensão e da incapacidade de perceber imediatamente o verdadeiro propósito da obra.
Mais tarde, quando o arco principal do templo foi concluído, os construtores descobriram que não havia pedras para completá-lo. O edifício permaneceu inacabado até que a pedra rejeitada foi encontrada. Isso, então, parece ser a pedra-chave essencial para a estabilidade e o equilíbrio do conjunto arquitetônico.
A inversão simbólica é fundamental: a pedra desprezada torna-se a pedra essencial; O que antes era considerado inútil acaba sendo indispensável para a realização do trabalho.
A referência bíblica: a pedra rejeitada que se tornou uma pedra fundamental
Essa alegoria é baseada diretamente em uma importante referência bíblica do Salmo 118, versículo 22:
” A pedra rejeitada por quem construiu tornou-se a principal no ângulo.”
Essa passagem, amplamente adotada na tradição judaico-cristã, tem um significado simbólico extremamente rico. No contexto da Maçonaria da Marca, ela ilustra vários ensinamentos fundamentais.
Primeiro, ela nos lembra que o verdadeiro valor de um ser, uma obra ou uma ideia nem sempre é imediatamente perceptível. O julgamento humano pode ser prejudicado por aparências, preconceitos ou pelas limitações do conhecimento. A verdade profunda de algo às vezes só se revela com o tempo.
Em segundo lugar, a história nos convida a refletir sobre a humildade. Os próprios Vigilantes, apesar de sua autoridade e experiência, podem estar enganados. Assim, o posto ensina prudência no exercício do poder e a necessidade de discernimento iluminado pela sabedoria em vez do orgulho.
Por fim, a pedra rejeitada também simboliza o indivíduo desconhecido, incompreendido ou marginalizado, cujo valor interior acaba sendo reconhecido. Assim, o grau possui uma dimensão moral profundamente humanista: afirma a dignidade do trabalho honesto e o reconhecimento do verdadeiro mérito, independentemente do status social ou aparência.
Uma pedagogia do trabalho e da justiça
A Maçonaria da Marca se destaca pela importância que atribui ao trabalho justo e consciente. Enquanto outros graus maçônicos enfatizam principalmente especulações metafísicas ou esotéricas, a Marca permanece profundamente enraizada em uma ética do trabalho.
O trabalho do trabalhador não é apresentado como uma atividade material simples; Torna-se uma metáfora para a construção moral do ser humano. Cada pedra esculpida representa um esforço pessoal, um ato de perfeição e uma contribuição para o edifício coletivo.
O salário concedido ao trabalhador também tem importância simbólica. Não se limita à remuneração material, mas também inclui o reconhecimento legítimo do mérito e dos esforços. Assim, o grau insiste em vários princípios fundamentais: honestidade no trabalho, fidelidade aos compromissos assumidos, responsabilidade individual, justiça na distribuição de recompensas e respeito ao mérito autêntico.
Essa dimensão ética explica em grande parte a popularidade histórica do grau nos círculos maçônicos anglo-saxões, que são particularmente sensíveis aos valores de responsabilidade pessoal e moralidade prática.
A marca pessoal: identidade e responsabilidade
Um dos aspectos mais originais do grau reside na preservação da marca individual herdada das tradições operacionais medievais. Cada Mestre Maçom da Marca adota uma marca pessoal que simbolicamente o distingue dos outros trabalhadores.
Essa marca tem vários níveis de significado.
Ela representa, antes de tudo, a identidade do iniciado. No trabalho coletivo do Templo, cada Maçom faz uma contribuição única e insubstituível. A marca nos lembra que ninguém pode ser confundido com outro na realização de seu trabalho interior.
Mas também simboliza a responsabilidade moral de cada uma de suas ações. Assim como o pedreiro medieval colocava sua marca nos blocos que havia moldado, o iniciado é convidado a assumir plenamente as consequências de suas ações, tanto no mundo secular quanto na vida espiritual.
Finalmente, a marca se torna o sinal duradouro da marca deixada pelo homem no edifício humano universal. O grau, assim como qualquer ação justa, honesta e consciente, participa da construção de um Templo simbólico que vai além do próprio indivíduo.
Uma moralidade de gratidão e perseverança
Além de sua decoração bíblica e operacional, a Maçonaria da Marca transmite uma verdadeira filosofia de reconhecimento. Ela nos lembra que o verdadeiro mérito pode ser ignorado, mal compreendido ou rejeitado antes de ser finalmente reconhecido em seu verdadeiro valor.
Portanto, o grau convida o Maçom a perseverar em um trabalho bem feito sem buscar imediatamente aprovação externa. A pedra certa deve ser cortada exatamente, mesmo que seu destino permaneça desconhecido.
Esta lição é universal em seu escopo. Ela diz respeito à vida iniciática tanto quanto à existência social ou profissional: o homem nem sempre controla a forma como seu trabalho será percebido, mas ele permanece responsável por sua qualidade intrínseca.
Assim, por meio da alegoria da pedra angular e da pedra rejeitada, a Maçonaria da Marca desenvolve uma profunda reflexão sobre a justiça, a dignidade do trabalho, a humildade do julgamento e o valor interior dos seres e das obras. Herdeiro das tradições dos antigos construtores, transforma o ato concreto de esculpir uma pedra em uma meditação moral sobre o lugar do homem no edifício coletivo da humanidade.
Bibliografia para ir mais longe
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Dachez, Roger. (2021). Précis de maçonnerie de la Marque: sources, histoire, rituels et symbols. Edições Dervy
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Schaw, William. (1598). Os Estatutos de Schaw.
Jones, Bernard E. (1950). Guia e Compêndio dos Maçons. Harrap.
Petitjean, Pierre (2008). “O Grau de La Marque: O Elo Perdido Entre Operativos e Especulativos?”, La Chaîne d’Union, n° 45, p. 76-83.
Fonte: https://450.fm
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