Bibliot3ca FERNANDO PESSOA

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A Distância entre o Abraço e a Dádiva

Por Ir∴ João Lages Neto MI***

Filantropia & Solidariedade[i]

Elocubrações sobre a Filantropia e a Solidariedade

Em recente conversa entre IIr∴ uma questão pautou o interesse, proporcionando uma vasta teia de discussão, com compreensão diversa e segmentada. Isto me toou e percebi que um olhar mais perscrutador seria necessário para melhor entendimento em minhas inquirições internas.

Após conclusão, fiquei elucubrando, como nós maçons devemos atuar no nosso cotidiano de “tornar feliz a humanidade”, exercendo a Filantropia e a Solidariedade. Quais caminhos, convergentes ou divergentes temos de exercer para cumprir o nosso papel.

Então, como buscador e livre pensador, que todos buscamos exercer, vamos averiguar o entendimento, mesmo sabendo da mixórdia que pode resultar de minhas percepções internas e formalizadas ao longo de minha existência.

Abaixo, com base no texto “O que é filantropia?[ii]”, publicado pelo IDIS – Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social, formalizo meu entendimento, quase de forma direta:

A filantropia é definida etimologicamente como o “amor à humanidade”. O conceito provém dos termos gregos philos (amor, afeição) e anthropos (homem, ser humano).

De forma pragmática podemos depreender que “filantropia”, consiste em ações práticas de generosidade e voluntariado. O agir, neste caso, envolve altruísmo, abnegação, desprendimento, doação privada de recursos, tempo ou até mesmo talento em prol do bem-estar coletivo, sem expectativa de compensações, quaisquer que sejam: financeira, política, materiais etc.

Prelúdio: O Prumo e o Nível das Ações Sociais da Loja

Na Maçonaria, o agir social é frequentemente resumido a Bolsa para o Tronco de Solidariedade. Todavia, confunde-se a filantropia com a solidariedade. Ambas as benemerências, operam na retificação da sociedade, mas possuem vetores, propulsores, alcances e bases iniciáticas inteiramente distintos.

Norteado pelo Prumo, vamos buscar ajuizar o entendimento pela busca pela retidão, justiça e integridade moral em nossas ações.

O objetivo desta peça de arquitetura, de forma concisa, é cinzelar essa diferenciação em termos estritamente objetivos.

Antes de prosseguirmos, vamos alinhar, num comparativo inicial, o que entendemos entre os dois termos e seus alcances, para qualificar nossas ações e nosso trabalho enquanto construtores sociais que somos.

Inicialmente abordo uma questão relativa à profundidade das ações, considerando vertical (Loja – Sociedade) e horizontal (entre Irmãos).

Vamos fazer uma composição geométrica e funcional entre as duas abordagens e entendimentos:

Critério de comparaçãoFilantropia MaçônicaSolidariedade Maçônica
DirecionadorVertical – Doador -> Receptor, Cima para baixoHorizontal – Entre iguais (IIr∴) – Lado a lado.
Público-alvoProfanos, comunidades carentes, instituições externasO Irmão, a família maçônica, a Ordem interna
ObjetivoMitigar o sofrimento material imediatoFortalecer a egrégora e garantir o amparo mútuo
Instrumento AçãoBolsa para o Tronco de Solidariedade (Metais direcionados para fora)O Juramento de Fraternidade e Socorro Mútuo

Vamos seguir com nossas observações, e buscar o entendimento de Filantropia.

Filantropia: O Olhar para o Mundo Profano

A filantropia é o dever moral do maçom para com a humanidade.

Anteriormente, para a Filantropia, vimos que seu significado literal, seria “amor a humanidade”, o que é por demais subjetivo e extrapola os limites de atuação. O exercício de sua prática está circunscrito a metais arrecadados em eventos, doações e a Bolsa para o Tronco de Solidariedade em prol dos necessitados, carentes, asilos, creches e tudo aquele que tenha imediata necessidade de amparo que o financeiro possa auxiliar.

Vimos então, a filantropia como o exercício de uma ação assistencialista [doador(Loja) – receptor], que obviamente não exige um vínculo iniciático entre quem doa e quem recebe.

Sua acepção, manifesta o significado da exteriorização do Maçom ao deixar o Templo, retornar ao mundo profano onde vive, para atuar na Pedra Bruta da sociedade, buscando remediar os efeitos das desigualdades sociais existentes e que permeiam o mundo profano.

Agora, vamos nos debruçara sobre a questão da “Solidariedade”, seu entendimento e sua forma de atuação entre a nossa irmandade.

A Solidariedade: A Argamassa da Egrégora

A solidariedade é o vínculo indissolúvel que une os elos da Cadeia de União.

Ao adentrarmos a maçonaria, e observamos o nosso Ritual de Aprendiz Maçom[iii], diuturnamente, em nossas reuniões, que continuamente nos é apresentado a questão:

O Que vindes fazer aqui?
Vencer minhas paixões, submeter minha vontade e fazer novos progressos na Maçonaria, estreitando os laços de Fraternidade que nos unem como Verdadeiros Irmãos.

O conceito que devemos compreender para a ação circunscrita a “Solidariedade”, nos faculta o discernimento da interdependência biológica, moral e espiritual entre os Irmãos.

Solidariedade, não é caridade é responsabilidade mútua!

Ao buscarmos vasculhar nosso entendimento da ação da Solidariedade, entendemos que ela dá coesão aos elementos do Templo, tal qual a argamassa une as pedras justas e perfeitas, numa composição ordenada e perfeita, tal qual o Templo de Salomão que tinha suas pedras elaboradas nas pedreiras da Judeia e se ajustavam perfeitamente ao erigir a construção. Se o amparo social supre o corpo do profano, a verdadeira fraternidade, aquela que nos une como verdadeiros irmãos, sustenta a alma de nossa Oficina.

A Solidariedade, é estritamente interna e recíproca. Manifesta-se quando um Irmão adoece, quando uma viúva necessita de amparo, ou quando o desespero atinge uma família maçônica, quando a necessidade fraterna necessita atuar.

Enfim, concluindo esse raciocínio em torno desses 2 termos tão presentes em nosso cotidiano na maçonaria e muitas vezes inconclusivos em sua acepção e forma de ação, podemos declarar:

A filantropia é uma concessão de auxílio, enquanto a solidariedade é o cumprimento de um pacto de fraternidade que estabelecemos ao sermos iniciados. Aquilo, reforçando: O que nos torna verdadeiros Irmãos. Uma Loja Maçônica que pratica apenas a filantropia é uma mera ONG assistencialista. Uma Loja que pratica apenas a solidariedade isola-se em um corporativismo estéril.

A harmonia institucional se alcança ao projetar o Compasso da filantropia em direção à sociedade, sem descurar do Esquadro da solidariedade, que deve guiar a proteção contínua aos Irmãos a quem prometemos amparo.

Vamos todos buscar e trabalharmos para manter o Esquadro e o Compasso em Harmonia!

Meus Irmãos!

Vamos laborar a Filantropia e a Solidariedade, entendendo que para além da concessão, esta arquitetura funda um pacto: ela busca desmoronar os meros altares da filantropia vertical (doador-receptor), para se tornar um espaço vivo de solidariedade, neste caso horizontal, evidenciando que edificar não é apenas doar recursos, mas sim pavimentar e esquadrinhar o chão que nos equaliza   


*** Ir∴ João Lages Neto MI
A∴R∴L∴S∴ Fraternidade Absoluta Nº 31
G∴L∴M∴E∴E∴S∴ – Grande Loja Maçônica do Estado do Espírito Santo
Membro Titular da cadeira Nº 17 da AMACAL – Academia Maçônica Capixaba de Letras    


Notas

[i] Imagem gerada AI; GEMINI em 15-05-2026; 13-05-2026 15:20h

[ii] https://www.idis.org.br/o-que-e-filantropia; pesquisa em 13-05-2026; 14:39

[iii] Ritual de Aprendiz Maçom, 2013, G∴L∴M∴E∴E∴S∴ – Grande Loja Maçônica do Estado do Espírito Santo, Vitoria – Es


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