Bibliot3ca FERNANDO PESSOA

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Maçonaria Progressista, um oximoro?

Por J. Filardo  M.I.

Os maçons que nos consideramos progressistas laboramos em erro, pela simples razão de que o termo maçonaria progressista representa um contradição em termos, a figura conhecida em gramática como oxímoro. Algo parecido com “inteligência militar”, “lúcida loucura”, etc.

Isso não quer dizer que não existam lojas progressistas (compostas de maçons progressistas) ou que não existam maçons progressistas em lojas conservadoras. Os pobres coitados, muitas vezes por não existir uma loja progressista a uma distância praticável; talvez por ignorar a existência de alguma loja progressista em seu Oriente, ou que por relações interpessoais tenha se apegado à loja, continuam a suportar o ambiente retrógrado de sua loja, simplesmente por cultivar os princípios maçônicos que são indubitavelmente fascinantes, ou por acreditar ser possível mudar a natureza da instituição nela estando.

Àqueles que, certamente, reagirão indignados com os parágrafos acima, conclamo a estudar a história da Ordem e, estou certo, se renderão à lógica de meus argumentos.

Pois bem, contrariamente ao que muitos pensam, a maçonaria sempre foi uma instituição política. O ingresso de não-maçons nas lojas operativas decadentes (por falta de obras) estava, certamente ligado a interesses de rosacruzes e alquimistas em desenvolver seus interesses de maneira discreta ou secreta, e a busca do envolvimento de nobres como patronos era uma atitude política das corporações de pedreiros.

Progressivamente, o modelo se alastrou pela Escócia, Irlanda e Inglaterra durante o século XVII. A segunda metade desse século foi muito complicada naqueles países.[1] A sucessão ao trono inglês, misturada à questão religiosa entre católicos e protestantes provocou uma revolução que destituiu o monarca católico substituindo-o por um protestante ilegítimo, mas que atendia aos interesses dos nobres ingleses protestantes.

No início do Século XVIII existiam muitas lojas compostas por membros desvinculados de atividades de construção, que usavam as lojas para manobras políticas, entre elas o apoio ao herdeiro por direito ao trono inglês, da família Stuart. Assim como havia lojas que apoiavam o usurpador do trono.

Os historiadores da Maçonaria, em sua maioria, querem forçar a ideia de que a maçonaria operativa foi transformada em especulativa em 1717, com a criação da Grande Loja de Londres. Os fatos não concordam totalmente com essa informação.

Lojas “especulativas” já existiam há muito tempo como demonstra, por exemplo, aquele episódio esdruxulo em que a Srta. Elizabeth St. Léger[2] foi feita maçom porque assistiu a uma sessão da loja de seu pai por uma fresta e foi surpreendida pelo mordomo da casa que era o Cobridor da loja que se reunia na mansão de Lord Doneraile. E isso aconteceu em 1712, ou seja cinco anos antes que se anunciasse a fundação da Grande Loja de Londres e dez anos antes da publicação das Constituições de Anderson.

Com a necessidade de apoio da sociedade ao usurpador do trono inglês, visto que as lojas maçônicas de Londres tendiam a apoiar o Pretendente Stuart católico, a Coroa pretendeu criar uma Grande Loja que lhe assegurasse o controle da proliferação da maçonaria e também o controle da “ideologia” de seus membros.

Valendo-se de algumas lojas que já apoiavam o usurpador inglês, em 1722 eles concretizaram a “assembleia” que deu origem à Grande Loja de Londres, em seguida entregando a posição de Grão Mestre a um membro da família real, o que passou a ser a regra desde então na maçonaria inglesa.

Tendo à sua disposição os cérebros mais privilegiados da época, iluministas e membros da Royal Society [3],   criaram uma loja com um conceito revolucionário que, atendendo aos seus objetivos, alienava os católicos sem alienar os protestantes. Através de uma genial construção do Artigo I da Constituição de Anderson, introduziram o conceito de religião natural que jamais seria aceito por um católico, mas ao mesmo tempo exigiram a crença em um ser superior, atendendo assim à tradição das Old Charges da maçonaria operativa inglesa.  De quebra ainda incluíram os “libertinos irreligiosos” para garantir que a crença em um ser superior estivesse enquadrada em uma religião organizada. Gênios!

Correndo o risco de chover no molhado, vou transcrever abaixo o Artigo I das Constituições de Anderson, pois não me canso de admira-lo e sei que a maioria dos maçons brasileiros jamais se deu o trabalho de lê-lo com atenção:

“Um maçom é obrigado por seu caráter a obedecer à lei moral e, se compreende bem a arte, nunca será um ateu estúpido nem um libertino irreligioso. Embora nos tempos antigos os maçons fossem obrigados em cada país a praticar a religião daquele país, qualquer que fosse ela, agora é considerado mais conveniente apenas obrigá-los a seguir a religião com a qual todos os homens concordam, isto é, ser homens bons e verdadeiros, ou homens de honra e probidade, quaisquer que sejam as denominações ou confissões que ajudam a diferenciá-los, de forma que a Maçonaria se torne o centro de união e o meio para estabelecer uma amizade sincera entre homens que de outra forma permaneceriam separados para sempre”.

Somente como lembrete, uma vez que isso não alterou a natureza da maçonaria inglesa, a ausência expressa da obrigatoriedade da crença em Deus, assim como outros pequenos detalhes que eram novidade à época, provocou uma reação enorme[4] dos maçons tradicionalistas, em sua maioria irlandeses e escoceses, e a Grande Loja de Londres foi obrigada, em 1813 a se unir à outra Grande Loja tradicionalista que se formara como reação, e teve que alterar esse Artigo I, em uma linha mais vinculada às Old Charges e os costumes maçônicos Antigos. Nascia então a Grande Loja Unida da Inglaterra, sempre comandada por um membro da família real inglesa.

E como ficará a sucessão do Grão Mestre da GLUI, agora que o Harry (Duke of Sussex) se demitiu da família real e considerando que William (Duke of Kent) é o herdeiro da coroa?

Vemos assim, que a Maçonaria (agora com maiúscula) nasceu oficialmente em 1717, já chapa branca, ou seja, conservadora e reacionária.  No Brasil temos um ditado nordestino muito bom para esses casos: “O pau que nasce torto, não tem jeito, morre torto”.

Mas, teriam os ideais maçônicos de 1717 desaparecido completamente em 1813 diante da capitulação da Grande Loja de Londres aos ideais retrógrados e conservadores dos maçons Antigos?

Na verdade não foi bem isso o que aconteceu.

Durante aquela confusão ocorrida na sucessão ao trono inglês, os Stuart e seus partidários derrotados em 1688 na Revolução Gloriosa, exilaram-se na França, levando consigo a maçonaria que, vamos nos lembrar, já era “especulativa”. Já em 1688 havia uma loja em St. Germaine-em-Leye, onde se radicaram os exilados escoceses.

Mas foi em 1725, três anos após a fundação da Grande Loja de Londres, que a Maçonaria aportou na França, a mesma Maçonaria do Artigo I das Constituições.

Assim, por muitos anos, a prática maçônica era desenvolvida concomitantemente na Inglaterra e na França, sob o simples rótulo de maçonaria.

Contudo, na prática, o meio político e social de cada país exercia influência sobre as duas instituições, com diferentes evoluções.  Quando na Inglaterra havia preocupação com Old Charges, heranças dos Operativos, e reações dos tradicionalistas forçando mudanças, na França isso não acontecia.  Eles havia recebido o pacote pronto ─ turn-key ─ uma organização de gentilhomens, não necessariamente religiosos que podiam se reunir secretamente e fazer todas as articulações que quisessem.  Quem ler a obra de Alexandre Dumas, Os Três Mosqueteiros, terá uma boa ideia de quão bem-vinda foi a maçonaria em terras francesas.

A maçonaria operativa havia praticamente desaparecido na Inglaterra. Sobrou apenas a Companhia dos Maçons de Londres [5]  que nega, absolutamente, ter alguma coisa a ver com os “free masons”.  Na França, os operativos sobreviveram e são chamados “Compagnons”   uma organização que forma jovens artesãos (de ambos os sexos) e que segue as regras tradicionais da antiga maçonaria operativa. Eles têm um pequeno museu em Paris no endereço Rue Mabillon, 10 – Paris 6. Também se pode visitar o museu em Tours (https://www.museecompagnonnage.fr/ ).

Pois bem, na Inglaterra, os poucos operativos restantes foram eliminados pelo escrutínio em loja (a curiosidade é que o maçom que derrubou a Grande Loja de Londres com a resistência oposta pela Grande Loja dos Maçons Antigos e Aceitos era um maçom operativo (pintor de parede) irlandês que fora rejeitado em uma loja de Londres e que não se conformou com as introduções de costumes alheios ao Ofício (Craft) no ritual da nova organização). Na França, por mais estranho que pareça, havia uma regra expressa entre os maçons franceses de que os Compagnons estavam impedidos de ingressar na Maçonaria. Imaginem só, os maçons operativos não podiam ser admitidos em lojas do Grande Oriente de França!

Os franceses gostaram do formato importado da Inglaterra e o submeteram ao cadinho ácido da cultura francesa. No decorrer do século XVII (na segunda edição das Constituições, em 1738) os Ingleses introduziram o grau de Mestre, a lenda de Hiram, o Real Arco (uma espécie de Grau 3,5) que os franceses adoraram e logo adotaram. Curioso é que tanto o grau de Mestre quanto o Real Arco que os ingleses só “descobriram” em 1738 já existia desde muito tempo na Irlanda. Eles foram “reinventados” pelos ingleses.  Se fosse a Rússia, diriam que Stalin tinha inventado.

Também na França, graus de todos os tipos eram inventados e vendidos às lojas que eram independentes, com Veneráveis vitalícios. (daí pode-se ver que a atual figura do “dono de loja” tem antecedentes vetustos e respeitáveis na tradição maçônica!)

Isso viria a mudar com a fundação da Grande Loja da França, que se transformou, por fagocitose em Grande Oriente de França que criou o Rito Francês que se arvora em herdeiro do espírito de 1717, sem contudo repetir o Artigo I em sua constituição ─ talvez devido à menção da proibição do ingresso de ateus que não correspondia exatamente aos ideais franceses que sempre foram anticlericais. 

Também o espírito francês competitivo e divisivo que herdamos na fundação do Grande Oriente do Brasil operou, como na França, no ambiente maçônico com o surgimento de inúmeras obediências e ritos, ao contrário da Grande Loja Unida da Inglaterra que mantém um rito apenas ─ o Craft ─ com algumas versões ou variantes, entre elas o Emulation praticado no Brasil.

Temos assim, que as lojas francesas eram compostas em sua maior parte de aristocratas e membros da nascente burguesia, e a Revolução Francesa ─ que, by the way, não foi provocada, inspirada, auxiliada e que alguma forma influenciada pela Maçonaria ─ ao contrário, por sua composição a Maçonaria era uma força contrarrevolucionária, visto sua natureza conservadora ─ segundo alguns franceses cortou menos cabeças do que deveria ter cortado.

A Maçonaria brasileira é uma cria da Maçonaria Francesa que adotou o discurso libertário e a natureza laica contida nos ideais de 1717, o laicismo é a palavra que ilustra o conceito de religião natural.  Jovens brasileiros que estudavam na Europa, como todos os jovens idealistas, beberam dessa fonte e ao retornarem às fazendas de seus pais aqui na terra, situaram-se nas cidades que eram os únicos lugares civilizados e ali se envolveram e transplantaram um espírito libertário subversivo que desembocou na proclamação da Independência, um golpe tramado em loja, assim como foi tramado o golpe de 1889.

Essa origem inglesa e influência francesas criaram uma quimera. Para quem não sabe o que é uma quimera, pode consultar a wikipedia (https://pt.wikipedia.org/wiki/Quimera) para maiores esclarecimentos.

O modelo de maçonaria pregado no Grande Oriente do Brasil passou a ser de uma organização declaradamente apolítica e voltada para a educação e aperfeiçoamento de seus membros dentro do espírito da versão inglesa.  Isso na teoria, porque na prática, a maçonaria brasileira tem fama de ser intervencionista e cria essa expectativas nos candidatos.

A dicotomia continua presente em nossos dias, em que a aversão à política leva à defesa de uma posição totalmente apolítica, quando seus membros tendem a ceder aos apelos do modelo francês, muito mais consoante com uma organização que se quer progressista.  Esse conflito é, na maior parte dos casos a causa raiz da deserção das fileiras da Ordem.

Finalmente, a presença massiva de conservadores nas lojas, aliada ao método de recrutamento viciado da maçonaria brasileira, provoca o aumento daquela maioria conservadora e reacionária.  A existência de uma loja progressista é determinada pela origem. Ela somente sobreviverá enquanto tal, se tiver sido organizada por maçons progressistas e continuar a selecionar candidatos progressistas.

Aos maçons progressistas que pertencem a lojas majoritariamente conservadoras – o que em nossos dias é algo realmente opressivo, dado o apoio ideológico de muitos, se não da maioria dos maçons conservadores a um grupo de extrema direita que assumiu o governo do país ─  resta  fechar o bico e manter um perfil baixo, comparecendo às sessões dentro do mínimo necessário, para não perder de vez o respeito pela instituição.

Por isso, dizemos que a existência de maçonaria progressista no Brasil é impossível. Podemos ter, e temos lojas progressistas, poucas, mas boas. Mas o termo maçonaria progressista é como disse no início um oximoro, ou uma contradição em termos.


[1] https://bibliot3ca.com/jacobitismo-irlandes-e-maconaria/

[2] Nascida em 1693, seu pai e seus irmãos eram maçons aristocratas, em County Cork, Irlanda. Em 1712, quando Lord Doneraile, seu irmão, era venerável, sua loja organizava suas sessões dentro do domicílio da família. A jovem tinha assistido a uma sessão maçônica, graças a um buraco em uma parede em construção, em uma biblioteca adjacente à loja. Tendo sido surpreendida, seu caso deu lugar a uma reunião de mais de duas horas, depois da qual foi decidido oferecer-lhe a escolha entre a iniciação e a morte. Ela aceitou a iniciação e teria permanecido membro da loja até sua morte na idade de 95 anos

[3] https://bibliot3ca.com/o-ovo-e-a-galinha-a-royal-society-e-a-grande-loja-de-londres-de-1717/

[4] https://bibliot3ca.com/a-disputa-entre-antigos-e-modernos-2/

[5] https://bibliot3ca.com/607-2/

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