by José Filardo, M.´.I.´.
Respondendo ao excelente comentário do irmão Seixas do Rio de Janeiro, acabei expandindo a resposta que compartilho com todos aqui. (As palavras em inglês no texto não são frescura. É que o irmão Seixas é fluente em diversos idiomas…)
No momento histórico em que os protestantes decidiram reativar a maçonaria sob a roupagem especulativa, visando proteger a coroa britânica contra a invasão avassaladora das lojas jacobitas, essa nova “marca” oferecia coisas revolucionárias que atendiam às expectativas do mercado: democracia (eleições dentro de um ambiente absolutista) e igualdade (dentro de uma sociedade estratificada, com pouca possibilidade de ascensão social). Este era o apelo mercadológico do novo produto junto ao público em geral. Junto aos governantes (outro stakeholder) ela oferecia um eficientíssimo instrumento de controle social (desde que bem monitorada por um grão mestre pertencente ao establishment) – regras rígidas, códigos moral rígido garantindo a conformidade.
(É claro que os franceses… ah! the bloody French… tinham que subverter a ordem e transformar aquele produto tão bom em uma força política a serviço da liberdade, igualdade e fraternidade… damn it! )
Comecei a desenvolver agora a ideia da maçonaria como franquia, pensando em suas origens e no costume de cobrar pelos “charters”, pela imposição do layout ao franqueado, e outros detalhes que caracterizam o modelo de negocio de franquia de nossos dias.
Eu penso que a franqueadora foi a Premier Grand Lodge of London que se deu o trabalho de montar os bylaws da companhia, estabelecer as regras, enfim tudo o mais. E eu vejo uma ideia de royalties nas taxas que as grandes lojas e grandes orientes cobram das lojas. E mais, o verdadeiro royalty não é monetário, chama-se “regularidade”.
Com relação à maçonaria americana, penso que é uma questão de conceito.
Meu conceito de maçonaria, por exemplo, tem a loja como ponto de contato e local de encontro do meu grupo de controle (sim, porque a loja é o freio de mão que garante à maçonaria que o seu membro não está saindo da linha…) e também onde adquiro o produto “regularidade”. Entendo que os outros produtos incluídos na franquia original ficaram superados pela evolução da sociedade. Hoje, a democracia, igualdade, ascensão social, etc. é a norma, e não precisamos da maçonaria para isso.
Ainda segundo meu conceito, entendo maçonaria segundo o conceito da franquia francesa que introduziu no produto o componente “ação política e social”. Nessa medida, as lojas do Rito Moderno seriam estabelecimentos que seguem o modelo da franquia francesa, ainda que se encontrem sob uma franquia inglesa.
Penso que os americanos privilegiam o produto inglês. As franquias americanas parecem não ter preocupação com a “ação política e social” introduzida pelos franceses, mas encaram a loja como ponto de contato e local de encontro do grupo de controle. Dessa forma, uma loja com 500 membros atende às necessidades individuais dos maçons em seu meio social (não como ação política, por exemplo, mas como ação beneficente) agregando pontos positivos à sua reputação.
As lojas não se reúnem com a mesma frequência que a maçonaria brasileira (um exagero…) porque o sistema pedagógico é diferente. Lá, além dos interstícios serem menores, o neófito tem designado a ele um mentor que é responsavel por sua formação. Dispensa-se assim a necessidade de o aprendiz ter que aprender durante os trabalhos em loja.
Mas, como se percebe no trabalho sobre o restaurante “HIRAM’S”, também por ali adotou-se o que eu sempre chamei de REAA – Ritual E Ata (e Ágape)… característico da maçonaria atual. Entre nós, eu penso que a perda do componente “francês” da maçonaria brasileira, ocorrida com a ação do Renegado em 1927, levou a um esvaziamento do papel do maçom em seu meio social.
É claro que ainda se preserva, em parte, esse espírito nas praças menores no Brasil, mas o brilho foi-se. E na falta de um Grão Mestre de verdade que inspire ardor, atuando como o CEO da franquia, ou como o Chairman of the Board, ou o President Directeur General da empresa, resta aos franqueados ficar polindo o inventário e matando o tempo em um processo endógeno no qual se perde uma quantidade enorme de energia.
Em 11/12/2012, O Irmão Seixas escreveu:
Caro Irmão Filardo,
Como sempre, nos brinda com trabalhos muito interessantes. A respeito do tema em particular, permita-me comentar que a Maçonaria é tão complexa quanto a sociedade na qual se insere. Não é, nem nunca foi, panaceia para os males sociais que conhecemos. Entretanto, é uma escola de misérias de rara qualidade. Para aprendermos, no meio profano, as misérias > que aprendemos nela, teríamos custos muito maiores. Só por esse único aspecto, já é interessante passar por uma experiência na Maçonaria. Chama-la de “franquia” é uma ingenuidade. Uma franquia é um tipo de organização em que alguém, mais evoluído, fornece facilidades a outros, menos evoluídos, buscando com isso reduzir os custos associados ao processo de obtenção seja lá do que querem. Não vejo nenhum “franqueador” na Maçonaria Universal, a menos que você se refira ás Grandes Lojas ou Grandes Orientes. Mesmo assim, não possuem informações privilegiadas, as quais, fornecidas, tornariam mais fáceis a vida dos franqueados. Agem mais como “coordenadores” do que como “franqueadores”. A UGLE tampouco é franqueadora, ou mesmo qualquer uma das Grandes Lojas mais desenvolvidas (em relação a tamanho, e não a qualidade devo ressaltar).
Os problemas de aderência na Maçonaria Americana são antigos e conhecidos. Semelhantes aos nossos, eu diria, exceto pela quantidade de recursos ativada. Lojas com 500 ou mais irmãos nos EUA possuem pouca inadimplência financeira, enquanto que a frequência média pode chegar a ser inferior a 5%. Em outras palavras, uma Loja de 500 irmãos pode não ser capaz de se reunir por falta de número adequado.
Tenho lido muito sobre o assunto e, no momento traduzo um livro de um irmão da Grande Loja do Arizona que se preocupa com o tema. Entendo, e o autor também, que a solução para esse problema se baseia na educação. Não que aprendamos como melhor desempenhar os rituais, mas sim como podemos aproveitar suas lições em benefício de nossa vida profana. Existem muitas lições importantes nesses Rituais, começando com o aprendizado da disciplina, este se iniciando no primeiro grau. O seu blog tem contribuído para educar a muitos, especialmente com os trabalhos de excepcional qualidade que lá insere. Coisas mais simples como a obediência, a disciplina, a persistência, a resiliência, etc, podem ser aprendidas ou aperfeiçoadas nos graus iniciais, a partir do exame cuidadoso do conteúdo dos rituais, alguns elaborados há séculos, mas com mensagens ainda válidas em nossos dias. Uma linha de pensamento interessante é a chamada “Maçonaria de Observância”, crescentemente popular entre as Grandes Lojas Americanas, e que não sei se já tomou conhecimento.
Fraternalmente,
Seixas.´.