REVISTA BIBLIOT3CA

Leituras Selecionadas do Editor-Chefe J.Filardo

Maçonaria e Literatura: Os autores iniciados que não escreveram sobre a Maçonaria

Tradução J. Filardo

Por Jean-Moïse Braitberg

A categoria de escritores maçons que por discrição ou por indiferença não falaram da Maçonaria é mais extensa que de escritores não maçons que falaram da Maçonaria. Isso mostra que, se os maçons estão encarregados de espalhar a Luz, essa exigência pode passar pelo exemplo e não pela exteriorização.

Charles Louis de Secondat, Barão de La Brede e de Montesquieu (1689-1755)  não é um literato, mas um pensador político. O primeiro franco-maçom francês comprovado que fora iniciado em Londres, em 12 de maio de 1730, na loja de Londres Horn – Le cor. Montesquieu não escreveu uma linha sequer sobre a Maçonaria. Sabe-se, no entanto, que ele foi maçom na maior parte de sua vida, como mostram as admoestações dirigidas a ele pelo cardeal de Fleury, ministro de Estado de Luís XV.

Sem dúvida Pierre Choderlos de Laclos (1741-1803)   foi um maçom sincero e ativo. Mas ele não sentia necessidade de falar sobre isso. O autor de Ligações Perigosas, publicado em 1782, nasceu em uma austera família protestante da Picardia. Sua carreira militar o levou à iniciação na Loja Union no oriente Toul-Artillerie em 1763. Considerado na época como “muito moral”, mas de uma “moralidade indireta”, o romance que retrata o cinismo e a crueldade das relações humanas na alta sociedade da época traduz o sentimento de reprovação do autor em relação à libertinagem, mas também um certo fascínio. Aderindo à Revolução, Choderlos de Laclos conheceu uma vida militar tão rica em reviravoltas quanto seu único romance.

Nascido em uma família judia rica, o alemão Heinrich Heine (1797-1856) passou boa parte de sua vida na França, onde seu talento floresceu sob a proteção de George Sand , entre outros.  O autor de Die Lorelei não era um maçom muito ativo. Ele foi iniciado em Paris pela loja dos Trinosophes cuja divisa era “Bem Pensar, Bem Dizer, Bem Fazer”.

Ele não escreveu mais sobre a Maçonaria que seu contemporâneo Henri Beyle, conhecido como Stendhal (1783-1842).  No início de seu romance Rouge et le Noir, ele faz menção de reuniões secretas durante as quais M. de Renal e seu criado se tratavam como íntimos. Foi dito que se tratava da Maçonaria. Stendhal, em seu diário de 26 de agosto de 1806, relata que foi iniciado sem dizer em qual loja.  Ele teria pertencido à loja parisiense Sainte-Catherine. Claramente, a Maçonaria não passava de um episódio sem amanhã em sua vida. O que também foi o caso de Alexander Pushkin (1799-1837).  A grande figura do romantismo russo havia sido iniciada em 4 de maio de 1821 na loja Ovídio de Kishinev, na Bessarábia.  Isso aconteceu pouco antes da proibição da Maçonaria, decidida no ano seguinte pelo czar Alexandre III.  A vida maçônica do poeta parou por aí e não deixou rastros.

Mas ele também pode ter sido um maçom ativo sem sentir a necessidade de declará-lo. Este era o caso de  Mark Twain (1835-1910), h truculento autor das aventuras de Tom Sawyer e Huckleberry Finn. Ele foi iniciado maçom em 1861 na loja Polar Star No. 71 em St. Louis, Missouri e parece ter sido um leal maçom. Mas ele não escreveu nada, talvez por modéstia e discrição, sobre o assunto.

Também discreto, mas não resistente à tentação de referir a ela, Arthur Conan Doyle (1859-1930)  foi iniciado maçom pela loja Phoenix no. 257 de Portsmouth.
Em O Vale do Medo, que narra uma história de assassinato contra o pano de fundo de uma conspiração esotérica, encontramos esse diálogo entre um trabalhador e a personagem  principal da trama:

“[…] Por que você veio ao vale?  
– Porque me disseram que sempre havia trabalho para um homem de boa vontade.
– Você é sindicalizado?
– Claro!
– Então você encontrará trabalho, eu acho.  Você tem amigos?
– Ainda não, mas tenho os meios para os fazer.
– Como é isso?
– Eu sou um membro da Antiga Ordem dos Homens Livres.  Há uma loja em cada cidade e onde há uma loja eu encontro amigos. “

[…] Ele se aproximou do jovem, sentou-se perto dele e estendeu-lhe a mão.
“Aperte-a para mim”, diz ele. 

Eles trocaram um certo aperto de mão […].

Antes de Doyle, seu compatriota Walter Scott (1771-1832),  embora impregnado de “escocismo” literário, nada escreveu sobre a Ordem. Um pioneiro do romantismo britânico, o autor de Ivanhoé foi iniciado em 1801 pela Loja Saint-Davi no. 36 de Edimburgo. Ele se recusou a ocupar o grão mestrado da ordem paramaçônica dos “Cavaleiros da Escócia”.

Na mesma época, mas de uma maneira completamente diferente, Donatien Alphonse François de Sade (1740-1814)  escreveu  Infortúnios da Virtude e as Prosperidades do Vício, títulos eminentemente maçônicos. Ele era um maçom?  É mais que provável.  Se não há dúvida de que seu pai pertencia à Ordem, Donatien de Sade mostra um certo conhecimento dos rituais maçônicos.  Foi afirmado sem realmente se provar que o “divino marquês” era membro da loja Os Amigos da Liberdade criada em 1791. Ele teria ali defendido a abolição da pena de morte.

Também contrário à pena de morte, José Marti (1853-1895)  é considerado a “alma” de Cuba. Sua condição de membro explica em parte que Cuba seja o único estado do campo “socialista” que nunca baniu a Maçonaria. José Marti, patriota e emancipador, foi iniciado maçom pela loja Cavaleiros Cruzados no. 62 de Madri, em 1871. Seu apego aos ideais da Maçonaria transparece nessa profissão de fé: “Não há ódio racial porque não há raças.  Os pensadores fracos, os pensadores em sala, descobrem e requentam raças livrescas. […] Aquele que fomenta e propaga a oposição e o ódio das raças, peca contra a humanidade.”

 

Publicado na Revista FM Franc Maçonnerie

 

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