REVISTA BIBLIOT3CA

Leituras Selecionadas do Editor-Chefe J.Filardo

Um ex-libris – maçônico de 1657?

Tradução J. Filardo

por Pierre Mollier

“Os ex-libris maçônicos” brasões do espírito” e marcas dos Irmãos” escrevíamos em uma crônica anterior (Revista Franc Maçonnerie No. 29, janeiro-fevereiro de 2014). Hoje, gostaríamos de acrescentar ao registro uma peça singular que levanta muitas questões para o historiador maçônico.  Trata-se de um ex-libris “tipográfico”, ou seja, que não tem um belo brasão ou um desenho específico, mas é apenas um rótulo com uma menção que indica o dono do livro. Seu interesse para nós é que ele é datado de 1657 e que o dono do livro se apresente como “Free-Mason”.

Pode-se realmente ler ali “Robert Trollap (de Yorke and Newcastle, Free-Mason) his booke, 1657”. Sem ser frequente, este ex-libris é conhecido por especialistas ingleses e encontra-se afixado a algumas obras ainda preservadas em coleções públicas ou privadas. Por que essa data, que é bastante incomum em ex-libris?  Pode-se imaginar que Trollap queria fazer um balanço de seus livros em 1657, talvez até mesmo um primeiro inventário.  Mas o que nos interessa, é claro, é essa qualidade exibida de “Free-Mason”, além disso, quando ela é associada à antiga cidade de York. O que se pode saber sobre Robert Trollap? Que tipo de “Free-Mason” poderia ter sido ele?

Nascido em Yorkshire, provavelmente por volta de 1620, ele vem de uma antiga família de canteiros de York. Ele também pertence ao “craft (oficio)” – ele é recebido “Freeman” da cidade de York em 1647 – mas se juntou à “elite” do mundo da construção tornando-se arquiteto. Ele trabalhou principalmente em Northumberland e Durham.  Ele está instalado em Gateshead, a cidade que se localiza em frente a Newcastle, do outro lado do Rio Tyne. Em particular, ele é responsável pela construção de várias casas senhoriais na região, bem como o mercado coberto e o Guilhall – sede das guildas – de Newcastle, construídas entre 1653 e 1658.  Em 1660, ele adotou o “estilo palladiano” para construir a nova Mansão de Esott Hall e introduziu elementos barrocos na construção do castelo de Capheaton Hall em 1667. Ele é um homem de cultura, a adoção de um ex-libris supõe uma relação particular com seus livros. Uma impressão distante de interesses diversos, a Biblioteca da Universidade de Harvard ainda mantém hoje uma partitura para viola da gamba de William Lawes que pertenceu a ele.

O “Free-Macon” do ex-libris pode, portanto, simplesmente referir-se ao seu status de maçom “operativo”. A expressão “Free-Mason”, derivada de “Free-stone Mason” – um pedreiro de pedra livre, uma qualidade de pedra particularmente própria para o corte – é tipicamente inglesa e permanece, por exemplo, ignorada pelos Escoceses. É ainda mais interessante que, se Newcastle ainda se situa na Inglaterra, a cidade é muito próxima da Escócia. A interpretação operativa de sua qualidade maçônica parece ser confirmada pela inscrição em uma rara régua de carpinteiro de três ramos, preservada no Museu Nacional da Escócia, em Edimburgo. Ali se pode ler, gravado em um dos ramos, “1655, Robert Trollap dos Franco Maçons de York” (“1655, Robert Trollap of Yorke Free Mason”). O caso seria finalmente bastante simples.  Em seu ex-libris, Robert Trollap apenas declararia sua pertença ao mundo dos maçons operativos usando a expressão inglesa “Free-Mason”.

No entanto, diferentes elementos convidam o historiador a continuar sua investigação.  De fato, o nome Trollap também aparece também em um contexto que parece mais “especulativo” do que “operativo”. Em 1671, o bispo (anglicano) de Durham enviou uma carta à “Guilda dos maçons, escultores, canteiros, fabricantes de tijolos, vidraceiros, pintores, fundidores, fabricantes de pregos, etc. da pequena cidade de Gateshead. Foi, aliás, por iniciativa de Trollap que a carta foi solicitada ao bispo. Por esse reconhecimento oficial e alguns privilégios, tratava-se de reviver a vida social e econômica da pequena cidade, muito enfraquecida pela guerra civil e pelo regime de Cromwell.  Entre os cinco nomes associados aos “Free masons” … quatro – incluindo o próprio secretário do bispo – não poderiam ser “operativos”. São pequenos notáveis ​​que deixaram vestígios na história local e que em nada se relacionam com o ofício. A rica personalidade de Robert Trollap faz, portanto, o elo entre a maçonaria operativa e os “maçons aceitos” do século XVII.  Esses maçons “não-operativos” ingleses que Robert Plot descreve tão bem em sua História Natural de Staffordshire em 1686.  O ex-libris testemunha este período intermediário e ainda um tanto misterioso na formação da Maçonaria moderna.  Nosso irmão Robert Trollup morreu em 11 de dezembro de 1686 e teve gravada esta pequena quadra em seu túmulo:

Here lies Robert Trollup
Who made yon stones roll up
When death took his soul up
His body filled this hole up.

Aqui jaz Robert Trollup / Que montou vossas pedras / Quando a morte levou sua alma / Seu corpo este buraco encheu.

 

Publicado na Revista FM – FRancMaçonnerie no. 63

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