REVISTA BIBLIOT3CA

Leituras Selecionadas do Editor-Chefe J.Filardo

A Gênese da Maçonaria Adonhiramita no Brasil: Uma pesquisa bibliográfica dos fatos anteriores ao GOB

 

Miguel Angel De Marchi Amarilla [1]

Os pesquisadores, de uma maneira geral, confessam as dificuldades insuperáveis de pesquisar e desvendar as verdadeiras origens da Maçonaria, pela falta de documentos e registros históricos. No Brasil, há um período nebuloso na história da Maçonaria, em virtude da inexistência de documentos históricos e comprobatórios que permitam estabelecer uma data oficial para a instalação da primeira Loja Maçônica no país. Com base no método de revisão bibliográfica de assuntos relacionados ou correlacionados ao tema, o presente trabalho tem por objetivo apresentar a gênese da Maçonaria Adonhiramita no Brasil, antes da criação do Grande Oriente do Brasil.

Introdução

O debate em torno das origens da Maçonaria sempre atraiu enorme interesse por parte dos pesquisadores maçons e não maçons. Porém, determinar as verdadeiras origens históricas da Maçonaria, e em especial, de um Rito, sempre foi um obstáculo aparentemente insuperável, pela falta de registros ou documentos históricos (COSTA, 2014). Ao estabelecer-se a Maçonaria como objeto de estudo, depara-se com o seguinte panorama: a diminuta presença do tema no meio acadêmico e o parcial acesso às fontes documentais a seu respeito, em função dos obstáculos inerentes à própria estrutura fechada ou secreta da Instituição. Ao contrário do que vem ocorrendo em alguns países europeus, no Brasil os arquivos maçônicos conservam-se inacessíveis aos pesquisadores profanos (GONÇALVES, 2012). Segundo Barata (2002), apesar dos avanços notáveis ocorridos nos últimos anos, a história da Maçonaria continua praticamente desconhecida, tanto no Brasil quanto fora dele.

A participação da Maçonaria em momentos cruciais da história de diversos povos se deu de maneira contundente e efetiva, porém, em muitas dessas situações, não há qualquer registro histórico dessa participação. Apesar das crenças e de especulações imaginativas dos historiadores alternativos, a origem da Maçonaria só tem significado histórico quando se fundamenta em pesquisa e registros documentais, que permitem uma consolidação de um saber histórico, fundado na construção real de sua história efetiva e dos fatos vivenciados no passado, que fortalecem e enobrecem a Ordem (BUCHAUL, 2011).

Segundo Azevedo (1997), as raízes da Maçonaria remontariam às passagens do Antigo Testamento tendo como personagem o Rei Salomão. O pesquisador Naudon (1980), acredita que a Maçonaria teria surgido durante o período medieval e na Renascença com a chamada Franco-Maçonaria. Já o processo de transformação da antiga Maçonaria na denominada moderna Maçonaria, desenvolveu-se durante o século XVII na Grã-Bretanha, incialmente nas Lojas escocesas e depois nas Lojas inglesas. Segundo a historiadora Margaret (1991), a moderna Maçonaria representava o surgimento de uma nova cultura secular, novos espaços de sociabilidade entre as elites, sendo o refúgio na qual ocorria a eleição dos representantes e a garantia de liberdade de expressão durante o período do antigo Regime Absolutista. O século XVIII foi marcado pela eclosão dos ideais iluministas, enfraquecimento do Regime Absolutista e explosão da revolução francesa. É consenso entre os pesquisadores atrelarem o surgimento da Maçonaria moderna durante esse período, sendo que de meados do século XVIII e início do século XIX, houve uma maior disseminação da Maçonaria, com a criação de várias Lojas Maçônicas em todo o mundo (SIQUEIRA, 2014). De acordo com Cavalcante (2013), a Maçonaria moderna tem sua origem com a fundação da primeira Loja de Londres no ano de 1717, exercendo grande importância nos acontecimentos históricos da época.

No Brasil, em virtude da falta de documentos comprobatórios, não é possível estabelecer uma data oficial para a instalação da primeira Loja Maçônica no país. Porém, acredita-se que a sua chegada no Brasil, ocorreu através de estudantes brasileiros que ao estudarem na Europa trouxeram a Ordem ao Brasil, em virtude de a Instituição ser a principal divulgadora do pensamento liberal e iluminista da época (CAVALCANTE, 2013). Assim, segundo Colussi (2002), foi no início do século XIX que Maçonaria chegou ao Brasil, sendo que sua chegada pode ser entendida como um momento em que o Brasil buscava consolidar-se como um país moderno, em virtude dos ideais liberais e iluministas da época. Porém, para alguns pesquisadores, apesar de não haver consenso até mesmo entre historiadores Maçons em virtude da falta de provas documentais, as ideias Maçônicas ou até mesmo possíveis Lojas Maçônicas, já se encontravam presentes ao final do século XVIII (PIROZI, 2013).

Com fundamento no manifesto de José Bonifácio de Andrada e Silva, publicado em 1832 no Masonic World Wide-Register, sabe-se que a primeira Loja regular estabelecida no Brasil foi fundada no Rio de Janeiro, no ano de 1801, com o nome de Reunião, filiada ao Oriente da Ilha de França (GONÇALVES, 2012).

A Loja Comércio e Arte, fundada em novembro de 1815, foi importante para a Maçonaria do Brasil da época, pois se manteve de certa forma independente do Grande Oriente Lusitano. Segundo o pesquisador Maçônico Jurado (2004), o Rito inicial praticado pela Loja Comércio e Artes foi o Rito Adonhiramita. Em 30 de março de 1818, D. João VI, emitiu um Alvará Régio, obrigando as sociedades secretas, de qualquer denominação no território luso-brasileiro, a cessarem os seus trabalhos (MONTEIRO, 2009).

Dado a conjuntura política do país na época, em 17 de junho de 1822, com a reunião das três Lojas do Rio de Janeiro a Comércio e Artes, a União e Tranquilidade e a Esperança de Niterói, foi fundado o Grande Oriente Brasílico tendo como seu primeiro Grão-Mestre José Bonifácio de Andrada e Silva, Ministro do Reino e de Estrangeiros (GOB, 2016). O Grande Oriente do Brasil GOB, é a maior Obediência Maçônica do mundo latino, sendo reconhecida como regular e legítima pela Grande Loja Unida da Inglaterra em 1935 (GOB, 2016). Segundo o GOB (2016), atualmente reúne os seguintes ritos praticados: Adonhiramita, Brasileiro, de York (Emulação), Escocês Antigo e Aceito, Escocês Retificado, Moderno e Schroeder.

No rito Adonhiramita, as Lojas Simbólicas encontram-se sob jurisdição do GOB, e as Oficinas Litúrgicas, em seus graus superiores ou filosóficos, encontram-se sob a égide do Excelso Conselho da Maçonaria Adonhiramita ECMA (JUNIOR, 2013).

O objetivo do presente trabalho é apresentar a gênese da Maçonaria Adonhiramita no Brasil, antes da criação do Grande Oriente do Brasil, com base na pesquisa de bibliográfica existente a respeito do tema.

A Maçonaria no Brasil

Os historiadores, de uma forma geral, confessam as dificuldades em desvendar as verdadeiras origens históricas da Maçonaria, em virtude da falta de registros históricos, e principalmente, porque elementos lendários se fundem com fatos mais confiáveis (COSTA, 2009). De acordo com Ferré (2003), apesar de todo conhecimento existente a respeito da Maçonaria, não se conhece, ainda, sua verdadeira origem. Isso se atribui ao fato da Maçonaria, em tempos remotos, por ser secreta e sigilosa, ter transmitido seus conhecimentos de forma verbal, deixando de registrá-los documentalmente. Essa escassez documental, pertinentes a essa época, associada a uma abordagem superficial, contribuiu para o surgimento de ideias que não se relacionam com as origens reais da Ordem Maçônica, fazendo que a mesma permaneça sempre envolta de contradições e obscuridades.

No Brasil, há um período nebuloso na história da Maçonaria, em virtude da inexistência de documentos históricos, mas que segundo alguns historiadores, em meados do século XVIII, já existiam Lojas na Bahia (CASTELLANI, 1993). Para alguns pesquisadores, os ideais Maçônicos já se propagavam no Brasil a partir da segunda metade do século XVIII, porém sem qualquer vínculo de regularidade, dentre os quais pode-se destacar: Academia dos Renascidos, fundada na Bahia em 1759; Academia Científica, fundada no Rio de Janeiro em 1772; Academia do Paraíso em 1802, em Recife; Academia Regeneração em 1809, em Olinda; a Arcádia Ultramontana em 1786, no Rio de Janeiro; e o Areópago de Itambé, em 1786, em Pernambuco (BARATA, 1999).

Segundo Barata (1999), até o final do século XVIII, não existia no Brasil a Maçonaria, do ponto de vista como uma organização institucionalizada e com funcionamento regular, semelhante a outras organizações maçônicas internacionais.

De acordo com Colussi (2002), foi no início do século XIX que a Maçonaria chegou ao Brasil, durante o período que o país passava por transformações políticas e sociais, buscando consolidar-se como um país moderno. Isso ocorreu devido ao fato de que muitos brasileiros foram estudar na Europa, onde tiveram seu primeiro contato com os ideais liberais e maçônicos, sendo que ao retornarem ao Brasil, criaram organizações que difundiam esses ideais (COLUSSI, 2002).

De acordo com Buchaul (2011), a suposição inicial é da existência em 1797, em Salvador, Bahia, de uma Loja Maçônica denominada Cavaleiros da Luz, sendo que sua origem estaria relacionada à chegada a Salvador em 1796, de um comandante francês, de nome Larcher. Ocorre que as informações sobre a existência dessa Loja são reduzidas e esparsas e, às vezes, contraditórias, fazendo com que alguns autores a definam, ora como uma sociedade literária, ora como uma sociedade secreta, mas sem referência explícita à Maçonaria.

Em 1800, surge a Loja Maçônica União, em Niterói, Rio de Janeiro (LOURO, 2012). Segundo Buchaul (2011), as referências sobre a existência da Loja União estão nas informações contidas nos Anais Maçônicos Fluminenses publicados em 1832 e na Obra Efemérides Brasileiras, de autoria de José Maria da Silva Paranhos, o Barão de Rio Branco, publicado no Jornal do Brasil, em 9 de abril de 1891. É unanimidade entre os autores, ao afirmar que a Loja União de fato existiu, e ela foi um momento anterior e irregular da Loja Reunião.

Segundo Gonçalves (2012), a primeira notícia escrita que se teve no estrangeiro sobre o estabelecimento da Maçonaria no Brasil, foi o manifesto de José Bonifácio de Andrada e Silva, publicado em 1832 no Masonic World Wide-Register. De acordo com o pesquisador Maçônico Castellani (1993), a primeira Loja regular do Brasil foi fundada em 1801, no Rio de Janeiro, com o nome de Reunião, com base no manifesto de 1832 lançado pelo então Grão-Mestre José Bonifácio de Andrada e Silva, sendo que a referida Loja era filiada ao Oriente da Ilha de França.

Visando corroborar com essas afirmações e de acordo com o também pesquisador maçônico Cortez (2004), pode-se destacar que a primeira Loja regular, fundada no Brasil, foi denominada de Loja Simbólica Regular Reunião, fundada no Rio de Janeiro em 1801 e filiada ao Grande Oriente da França. De acordo com outro pesquisador Maçônico Fachin (2015), os Maçons da Loja Reunião, provavelmente e devido a origem, praticavam o Rito Moderno ou Francês. Em 1802, foi fundada a Loja Virtude e Razão na província da Bahia, também subordinada ao Grande Oriente da França, praticando provavelmente o Rito Francês (FACHIN, 2015). Esta Loja não permaneceu ativa por muito tempo, tendo logo encerrado suas atividades, sendo que em 1807, foi reinstalada com o nome de Humanidade (MONTEIRO, 2009). No tocante ao Rito praticado pelas duas Lojas, o pesquisador Maçônico Cortez (2004) discorda sobre isso, pois acredita que essas Lojas na verdade praticavam o Rito Adonhiramita ao invés do Rito Francês, devido a uma questão de segurança dado os tempos difíceis daquela época, sendo que os Irmãos dessas Lojas eram conhecidos apenas por seus pseudônimos.

Quando o Grande Oriente Lusitano descobriu a existência no Brasil de uma Loja regular, sob jurisdição a uma Obediência francesa, enviou ao Brasil em 1804, um delegado visando garantir a adesão e a fidelidade dos maçons brasileiros, não tendo, porém, alcançado êxito em suas pretensões (BARATA, 2002).

De qualquer maneira, foram fundadas as Lojas Constância e Filantropia, ambas jurisdicionadas ao Grande Oriente Lusitano, sendo que juntamente com a Loja Reunião, congregaram todos os Maçons do Rio de Janeiro, visando fortalecer a Maçonaria no Brasil (CASTELLANI, 1993). Segundo Monteiro (2002), estas foram consideradas as primeiras Lojas oficiais e regulares do Brasil, sendo que após a fundação dessas Lojas, o Grande Oriente Lusitano e o Grande Oriente da França, deram apoio na criação de Lojas maçônicas que começaram a se espalhar principalmente pelas províncias do Rio de Janeiro, Pernambuco e Bahia.

Segundo Cortez (2004, p.105), um fato importante e incontestável para a Maçonaria brasileira, foi o surgimento da Loja Maçônica Comércio e Artes: ―Apesar de haver indicações de Lojas espalhadas pelas mais diversas partes do Brasil, o fato incontestável e indiscutível é o da fundação da Loja Maçônica Comércio e Artes, no Rio de Janeiro, em 1815.‖ Corroborando com a afirmação acima, a Loja Comércio e Artes, fundada em novembro de 1815, foi importante para a Maçonaria do Brasil da época, pois se manteve de certa forma independente do Grande Oriente Lusitano, dado que seus membros buscavam fundar uma Obediência brasileira, visando atender as causas do nosso país. De acordo com o pesquisador maçônico Jurado (2004), o Rito inicial praticado pela Loja Comércio e Artes foi o Rito Adonhiramita. Em 30 de março de 1818, D. João VI, emitiu um Alvará Régio, obrigando as sociedades secretas, de qualquer denominação no território luso-brasileiro, a cessarem os seus trabalhos (MONTEIRO, 2009).

Apesar da proibição, no início do ano de 1820 é possível constatar uma continuidade da atividade Maçônica no Rio de Janeiro (COSTA, 2009) mas de maneira discreta. Assim, em 24 de junho de 1821, a Loja foi reinstalada com o nome de Comércio e Artes na Idade d’Ouro, sob os auspícios do Grande Oriente de Portugal (ARLS Comércio e Artes, 2016). Segundo Costa (2009), nela ingressaram funcionários públicos, militares, eclesiásticos, homens do comércio, em que muitos deles acabaram por atuar na defesa da autonomia e, posteriormente, na Independência do Brasil.

Para atingir esse objetivo, era indispensável que a Loja Comércio e Artes ficasse independente do Grande Oriente Lusitano, sendo necessário instalar um Grande Oriente no Brasil. Para isso, foi necessário criar no mínimo mais duas lojas, sendo que em 28 de maio de 1822, foram fundadas as Lojas União e Tranquilidade, e Esperança de Niterói (COSTA, 2009). Assim, em 17 de junho de 1822, foi criado o Grande Oriente do Brasileiro, com a participação das três Lojas Comércio e Artes na Idade d’Ouro, União e Tranquilidade e Esperança de Niterói, adotando o Rito Francês como prática (PIROZI, 2013). A Loja ARLS Comércio e Artes, desde a sua fundação até os dias de hoje mantém seus trabalhos regulares e atualmente encontra-se localizada na Rua Do Lavradio, nº 097, Centro, Estado do Rio de Janeiro (ARLS Comércio e Artes, 2016).

A criação do Grande Oriente Brasileiro foi essencial para a consolidação e expansão dos ideais Maçônicos e facilitou a propagação dos ideais liberais, funcionando como processo de pressão pró independência (COLUSSI, 2002). Porém, em 4 de outubro de 1822, após a declaração de Independência do Brasil, o Grão-Mestre José Bonifácio de Andrada e Silva foi substituído pelo então Príncipe Regente e, logo depois, Imperador D. Pedro I (GOB, 2016). Este, em virtude da instabilidade dos primeiros dias da nação independente e considerando a rivalidade política entre os grupos de José Bonifácio e de Gonçalves Ledo, mandou em 25 de outubro de 1822, suspender os trabalhos do Grande Oriente Brasileiro (GOB, 2016; COSTA, 2009). Em 7 de abril de 1831, após a abdicação de D. Pedro I, os trabalhos maçônicos foram retomados com a reinstalação da Obediência, agora com a denominação de Grande Oriente de Brasil (GOB, 2016).

A Origem do Rito Adonhiramita no Brasil

Segundo o pesquisador maçônico Junior (2013, p.290):

A adoção dos Ritos pela Maçonaria se perde no tempo, e foge aos registros históricos, que seriam os maiores testemunhos de suas “origens”, todavia é possível afirmar com relativa segurança, invocando o pensamento do autor Nicolas Aslan em Os Landmarks, que foi durante a Idade Média que mais se desenvolveram os principais Ritos Maçônicos que embasaram os existentes na atualidade.

Rito é um conjunto de regras com as quais se praticam com certa regularidade um complexo de cerimônias, sendo que na Maçonaria, cada Rito possui um conjunto de regras para a prática do seu cerimonial, sem, no entanto, haver qualquer diferença quanto à ideologia e aos Princípios Gerais da Ordem (CORTEZ, 2004). Ainda segundo Cortez (2004), cada Rito mantém sua própria identidade, sendo dirigido por um corpo administrativo exclusivo que assume o poder central, tanto no aspecto jurídico, legislativo e administrativo.

Conforme já foi citado anteriormente, no Grande Oriente do Brasil são praticados atualmente os seguintes Ritos: Adonhiramita, Brasileiro, de York (Emulação), Escocês Antigo e Aceito, Escocês Retificado, Moderno e Schroeder (GOB, 2016). No rito Adonhiramita, as Lojas Simbólicas encontram-se sob jurisdição do GOB, e as Oficinas Litúrgicas, em seus graus superiores ou filosóficos, encontram-se sob a égide do Excelso Conselho da Maçonaria Adonhiramita ECMA (JUNIOR, 2013).

De acordo com Jurado (2004), estabelecer as origens históricas de um Rito Maçônico é um assunto de extrema complexidade:

Tentar situar as origens históricas de um Rito Maçônico de forma documental é assunto de tão grande complexidade que entendo ser necessária uma vida de pesquisas bem-sucedidas e, mesmo assim, a probabilidade de êxito, pelas controvérsias que são geradas pelas “janelas” de olhar o antigamente com os olhos do presente, seria muito pequena (JURADO, 2004, p.119).

Ainda segundo Jurado (2004), o Rito Adonhiramita ou Maçonaria Adonhiramita surgiu em 1758, em decorrência da reforma do Rito de Heredon. De acordo com Jurado (2004),

O Barão de Tschoudy teve um importante papel para a Maçonaria Adonhiramita: O Barão de Tschoudy, com a experiência adquirida no Capítulo dos Cavaleiros do Oriente, para o qual escrevera Rituais de Iniciação e Catecismos de Instrução, preparou-se para empreender sua obra maior. Fecundo e incansável, baseando-se na tradição e na excepcional cultura que acumulara, forneceu o material para compilação de Louis Guillermain de San Victor, intitulado Recueil Prècieux de La Maçonnerie Adonhiramite (Compilação Preciosa da Maçonaria Adonhiramita), cuja consequência foi o florescimento de inúmeras Lojas (JURADO, 2004, p. 128).

O trabalho do Barão de Tschoudy permitiu o surgimento de inúmeras Lojas praticantes do Rito Adonhiramita, tanto na Europa como no Oriente, chegando o Rito a ser o mais difundido de todos (JURADO, 2004).

É um Rito histórico, característico e essencialmente metafísico, esotérico e místico, tornando-se exotérico quando exerce o magistério de sua liturgia.

Segundo Jurado (2004), o Rito Adonhiramita se fundamenta teologicamente no Antigo e no Novo Testamento:

Tem por bases teológicas as verdades bíblicas reveladas no Antigo e no Novo Testamento, particularmente, no que concerne à Construção do Templo de Salomão e às origens do Cristianismo com relação ao período das Cruzadas. Sua denominação deriva do personagem central da Construção do Templo de Salomão, Adonhiram, também insistentemente proclamado no Ritual de Instalação dos Mestres (JURADO, 2004, p. 129).

Consagra e pratica intransigentemente os princípios da Constituição de Anderson e os Landmarks da Maçonaria Universal. Propugna pelo aperfeiçoamento moral da Humanidade visando uma harmonia de vida justa e perfeita sobre a terra, como forma de alcançar a suprema felicidade para o Oriente Eterno (JURADO, 2004).

A Maçonaria Adonhiramita iniciou-se com 12 graus, sendo três simbólicos, Aprendiz, Companheiro e Mestre, e 9 filosóficos. Posteriormente, com a publicação do Cavaleiro Noaquita, foi introduzido o grau 13 (JURADO, 2004). Em 2 de junho de 1973, o Sublime Grande Capítulo passou a se chamar Excelso Conselho da Maçonaria Adonhiramita, e o Grande Inspetor Aylton de Menezes assumiu o título de Grande Patriarca Regente e os altos graus foram ampliados de 13 para 33 graus (ECMA, 2016).

O Rito Adonhiramita teve ampla explosão na França, difundindo-se para Portugal, onde chegou a dominar o Grande Oriente Lusitano. Porém, em virtude de dispersão de seus praticantes, lutas partidárias e eventos políticos que repercutiam negativamente contra as organizações, deixou de ser praticado, sendo que em 1821, o Grande Oriente Lusitano reformou sua constituição passando a adotar um Rito único, o Rito Moderno ou Francês (JURADO, 2004).

No Brasil, o Rito Adonhiramita foi introduzido regularmente em 15 de novembro de 1815, com a fundação da Loja Comércio e Artes, na cidade do Rio de Janeiro, desenvolvendo-se regular e continuamente no nosso país até os dias de hoje (JURADO, 2004).

Apesar de tantas perseguições na época, os nomes dos fundadores de 1815 da Loja Comércio e Artes aparecem por extenso, não com os nomes simbólicos típicos do Rito Adonhiramita que se tem como certo o rito praticado pela referida Loja na época (ARLS Comércio e Artes, 2016). Essas afirmações são corroboradas por Fachin:

Dessa forma, expandiu-se na Europa e, através de Portugal, a Maçonaria Adonhiramita chegou ao Brasil com a fundação da Loja Comércio e Arte, de forma regular, em 15 de novembro de 1815, que passou a congregar as mais fortes lideranças políticas da época (FACHIN, 2015, p. 196).

Segundo Jurado (2004), no que diz respeito ao Rito Adonhiramita, é historicamente confirmada a sua participação contínua e efetiva em nossa Pátria, a partir de 15 de novembro de 1815, tendo a Loja Comércio e Artes recebido na ocasião do Grande Oriente Lusitano os primeiros exemplares dos Rituais Adonhiramita. Ainda segundo Jurado (2004), em 17 de junho de 1822, através de sorteio, os membros da Loja Comércio e Artes foram divididos, formando mais duas Lojas: União e Tranquilidade, e Esperança de Niterói. A criação dessas Lojas permitiu o suporte legal para a criação do Grande Oriente Brasileiro. O Grande Oriente Brasileiro foi fundado no Rito Adonhiramita e funcionou dessa forma até o seu fechamento em 25 de outubro de 1822 (JURADO, 2004).

Segundo Castellani (2001), em 1837 acaba havendo uma reintrodução do Rito Adonhiramita, com a fundação da Loja Sabedoria e Beneficência de Niterói, e em 1839, com a Loja Firmeza e União, sendo que nesse mesmo ano, a Constituição do Grande Oriente do Brasil instituía o Grande Colégio dos Ritos, visando abrigar os Altos Graus dos Ritos praticados até então no Brasil: o Moderno, o Adonhiramita e o Escocês Antigo e Aceito.

De acordo com Fachin (2015), em 1951, o Grande Oriente do Brasil, transformado em Potência Simbólica, deixou os Altos Graus para Obediências dos Ritos. Assim, o Grande Capítulo Adonhiramita organizou os Ritos e a partir de 1953 passou a se denominar Muito Poderoso e Sublime Capítulo dos Cavaleiros Noaquitas para o Brasil. Ainda segundo Fachin (2015), em 1973, foi modificado a estrutura administrativa e da graduação do Rito para 33 Graus, já que ficara sendo apenas no Brasil. Por fim, em 2 de junho de 1973 o Sublime Grande Capítulo passou a se chamar Excelso Conselho da Maçonaria Adoniramita, o qual é responsável pelos Graus Filosóficos para o Rito Adonhiramita (FACHIN, 2015).

Conclusão

Este trabalho foi realizado com base na bibliografia disponível de pesquisadores maçons e não maçons. Contudo, é possível verificar que não há unanimidade entre os pesquisadores em estabelecer a data de criação da primeira Loja maçônica no Brasil, dado a precariedade ou a falta de documentos comprobatórios e confiáveis a respeito do tema. No entanto, acredita-se que a sua chegada no Brasil, ocorreu através de estudantes brasileiros que ao estudarem na Europa trouxeram a Ordem ao Brasil, em virtude de a Instituição ser a principal divulgadora do pensamento liberal e iluminista durante o século XVIII.

Apesar de haver indícios do funcionamento de Lojas em várias partes do Brasil, sabe-se que a primeira Loja regular no país foi fundada em 1801, no Rio de Janeiro, com o nome de Reunião, tendo como base dessa afirmação o manifesto de 1832, lançado pelo então Grão-Mestre José Bonifácio de Andrada e Silva. O tocante ao Rito praticado pela Loja Reunião, não se tem convicção quanto ao tema, em virtude da divergência entre os pesquisadores, podendo ter sido o Rito Francês ou o Rito Adonhiramita.

O Rito Adonhiramita ou Maçonaria Adonhiramita surgiu em 1758, em decorrência da reforma do Rito de Heredon, tendo o Barão de Tschoudy um importante papel para o desenvolvimento da Maçonaria Adonhiramita. No Brasil, apesar da possibilidade de a Loja Reunião ter praticado o Rito Adonhiramita, somente em 15 de novembro de 1815 foi introduzido regularmente o Rito, com a fundação da Loja Comércio e Artes, desenvolvendo-se regular e continuamente no nosso país até os dias de hoje.

O Rito Adonhiramita é histórico e tradicional, pois foram preservadas em toda a sua essência, mantendo preservadas suas tradições ritualísticas e práticas iniciáticas da antiguidade, algumas das quais, datam do surgimento da própria maçonaria operativa. É um Rito metafísico, esotérico e místico. A beleza e esoterismo do Rito Adonhiramita, tem atraído um número cada vez maior de obreiro em busca de desenvolvimento e espiritual e filosófico. Enfim, os mistérios do Rito Adonhiramita fazem parte da história brasileira sendo praticado por aqueles irmãos que lutaram pelos ideais da Independência, da República e da Libertação de escravos, provavelmente tendo por base o movimento iluminista da época trazido da Europa.

 

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NOTAS

[1] Miguel Angel de Marchi Amarilla é Bacharel em Segurança Pública pela APMG; com graduação em Sistemas de Informação pela Universidade do Contestado e Mestrado em Informática pela UFPR—Universidade Federal do Paraná.

 

Publicado na Revista Ciência & Maçonaria em 2015 sob uma Licença Creative Commons Attribution 3.0 

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