Bibliot3ca FERNANDO PESSOA

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A Questão Templária na Maçonaria – III/V

Ivan A. Pinheiro***

– A “Hipótese-Brum” –

Knight in armor watches stonemason carving stone inside cathedral

Convém lembrar que foi a chegada dos Omíadas à Península Ibérica (séc. VIII), e não as Cruzadas (a partir do séc. XI), que foi a ponta de lança para a introdução, na Europa, do conhecimento greco-romano clássico, “lido-traduzido-interpretado-re(interpretado)” pelos árabes muçulmanos; todavia, o movimento das Cruzadas deu um novo e vigoroso empuxo à troca e à difusão dos saberes entre o Oriente e o Ocidente. E a expressão saberes é tão ampla quanto pode ser: inclui os que há muito, desde a Antiguidade, estavam em desenvolvimento com base no método científico e, mutatis mutandis, Aristóteles[1] teria sido a maior referência – Santos (1990, p. 67) o reconhece como o “primeiro racional moderno” – mas também tudo que, posteriormente, seria considerado como parte das “ciências ocultas”, do mundo para além dos sentidos, das crenças e tradições como formas explicativas da natureza e do homem em geral. A propósito, essa tem sido a dinâmica do mundo e das civilizações, e é importante tê-la clara para evitar a sobrevalorização de alguns eventos e personagens, ou mesmo para escamotear o que não se deseja ver sob os holofotes.[2]

            Além do já citado “O Choque de Civilizações”, de S. Huntington (1997), cujo teor, à luz de acontecimentos recentes, soa profético, é importante ter em conta que o inter-relacionamento de saberes (culturas) é histórico, ou melhor, pré-histórico, como apontam Brook (2012), Harari (2016), Hippel (2019), Neves, Rapchan e Blumrich (2020), Diamond (2020) e Cline (2023). As guerras, sobretudo as de longa duração, como as Cruzadas, sempre proporcionaram contatos civilizacionais com impactos recíprocos; todavia, considerando o relacionamento até então mantido pelos árabes-muçulmanos com a cultura greco-romana (Lyons, 2011), quanto à infusão cultural, a longa permanência daqueles na Península Ibérica e a natureza dos trabalhos realizados em Toledo (Espanha) não podem ser consideradas de escassa importância. Portanto, o que ora se segue é o deslocamento do foco: do papel dos Templários, ocupados com Jerusalém e os Cruzados, para a atuação dos Templários em Toledo. 

            Em vista do inescapável anacronismo que, em algum grau, a todos submete, os textos desta Série não têm poupado as referências bibliográficas que amparam a narrativa e o argumento do autor; assim, a qualquer momento o leitor poderá verificar, corroborar ou contestar. Dessarte, na perspectiva do autor, em síntese, da História complexa e multivariada, julgou-se importante destacar (Pinheiro, 2026a,b) os seguintes elementos estruturantes do cenário que abriga o fenômeno ora em foco: o surgimento da Ordem do Templo:

  • a estrutura sociopolítica do medievo organizada em torno do binômio suserania-vassalagem e do papel dos servos da gleba;
  • a cavalaria medieval, as justas e os torneios como partes dos usos e costumes para a solução de conflitos e alguma mobilidade social;
  • o marco regulatório, sobretudo o direito do primogênito, e suas consequências sobre o patrimônio, a família, a segurança interna e a paz social na sociedade medieval;
  • a centralidade, não sem resistências, da Igreja Católica Apostólica Romana e suas projeções sobre todos os aspectos da vida medieval;
  • os arranjos sociopolíticos: casamentos dinásticos, alianças matrimoniais, carreira eclesiástica, tolerância interreligiosa em algumas regiões;
  • o marketing estatal-religioso como instrumento de dupla finalidade: proselitismo e mobilização para as Cruzadas e que, pari passu, equacionava e encaminhava a solução de sérios problemas internos ao Velho Mundo; e,
  • a divisão da cristandade (Cisma do Oriente vs. Ocidente) seguida de tentativas de reaproximação.

            Frente a essa complexidade, em que pese a carga de religiosidade e crenças onipresentes durante o medievo, salvo melhor juízo, não é razoável atribuir apenas à fé, à defesa dos peregrinos em trânsito e da própria Cidade Santa as iniciativas que resultaram na criação da Ordem do Templo; portanto, independentemente da perspectiva, parece certo que outras variáveis e/ou motivações também concorreram para o fenômeno. É o que ora se busca também motivado pelo ceticismo do pesquisador.

            De outro lado, dada a associação simbólica entre as 2 (duas) Ordens ora em foco – a do Templo e a Maçônica –, é de esperar que qualquer novo olhar e entendimento sobre a gênese dos Templários tragam novas chaves para a análise e a interpretação do simbolismo que as conecta. Essencialmente cristã, mas eivada de elementos veterotestamentários, o fato de os monges-guerreiros (defensores do Templo) terem sido escolhidos como símbolos no seio da Maçonaria Especulativa é praticamente um corolário que decorre da amplitude das leituras simbólicas decorrentes do paralelismo “Templo de Salomão vs Templo Interno”. Entretanto, e se outros tivessem sido os motivos que levaram ao surgimento da Ordem do Templo? E se na origem, os “verdadeiros templários” (vide os textos anteriores da Série) não tivessem sido monges-guerreiros, mas antes filósofos e religiosos? Em síntese, essa é a tese defendida por Brum (2022), da qual, na sequência, alguns elementos também foram extraídos e comentados.

            Conforme já mencionado nesta Série, os estudos de Brum estimulam reflexões que colocam em xeque e trazem à disputa saberes ainda tidos como incontestáveis pela maioria dos pesquisadores sobre o templarismo. À guisa de introdução, não mais do que apenas algumas breves citações são suficientes para estimular a curiosidade, inferir o alcance e as repercussões dos seus achados de pesquisa:

  1. Os fundadores da Ordem nunca foram militares – estavam mais relacionados com monges cistercienses, e não com uma ordem militar (op. cit., p. 25);
  2. No primeiro momento, eram cinco cavaleiros. Ao voltarem à Europa, passaram a ser nove pessoas (id. ibid.);
  3. […] a forte relação dos templários com os cistercienses, com a kabbalah e o Talmude e com a tradição ismailita da Síria, da qual os nizaris-drusos são uma ramificação (op. cit., p. 26); e,
  4. Como autênticos templários, criaram um núcleo avançado de estudos que publicou tantas obras importantes da filosofia árabe, do sufismo, sobre cosmologia, astronomia e alquimia, que propiciaram o diálogo filosófico-religioso entre o mundo cristão e o mundo islâmico. E não há obras teológicas da patrística. Nenhuma!” (op. cit., p. 30).

      Mantida a correspondência, algumas breves considerações introdutórias:

  1. de regra a literatura cita os cistercienses quando introduz e destaca o papel de Bernardo de Claraval, senão o redator, o coordenador e o sistematizador da Regra do Templo. Todavia, para Brum, a relevância do abade e dos cistercienses em geral, para a Ordem do Templo, é bem anterior, inclusive porque Bernardo era sobrinho de um dos fundadores da Ordem, André de Montbard;
  2. terem sido 5 (cinco) ao invés de 9 (nove) fundadores não se resume a uma mera diferença quantitativa. Em primeiro lugar, não há consenso na literatura; o cruzamento das fontes converge para 3 (três), no máximo 5 (cinco) nomes dos quais se têm boas informações, o que leva a crer que o efetivo de 9 (nove) tenha sido “criado” posteriormente e para atender a outras finalidades. Pernoud (2025, p. 10), por exemplo, refere-se aos 9 (nove), mas só enumera 5 (cinco) – “Hugues, originário de Payens, na região de Champanhe, e de seu companheiro Geoffrey de Saint-Omers […] André de Montbard […]; Foulques d`Angers (em 1120) e Hugo I, o Conde de Champagne”, este último reuniu-se ao grupo entre 1120 e 1125. Haag (2009, p. 118), após trazer ao debate a questão da data de fundação (1118 ou 1119?), vai mais longe ao afirmar que “Nem mesmo sabemos quantos foram realmente os membros fundadores da ordem”. Portanto, neste texto, as considerações limitam-se aos nomes em torno dos quais há unanimidade: Hugo de Payens, Geoffrey de Saint-Omer e André de Montbard. Ademais, há uma razoabilidade nessa consideração, pois grupos menores tendem a ser mais homogêneos e harmônicos e, mais do que uma unidade fortalecida, torna-se mais fácil criar uma identidade de pensamento, de propósito e conduzir a ação prática, cabendo então, aos futuros entrantes, voluntários, pelo menos nos primeiros momentos, a submissão por adesão às bases já então estabelecidas: valores, princípios, missão, objetivos, etc.;
  3. e 4. a Ordem do Templo, quer no senso comum, quer entre os maçons, é praticamente um selo exclusivo, um símbolo incensado e quase um sinônimo da cristandade ocidental; todavia, não é o que revelam os primeiros movimentos dos Templários que, sim, estavam umbilicalmente ligados aos cistercienses (uma Ordem cristã), mas trabalhavam não apenas fisicamente próximos, mas em perfeita cooperação com os judeus, com os muçulmanos e com os moçárabes – a condição de filósofo, de amar e buscar saberes, sobrepunha-se às diferenças que aos outros eram motivos de separação. E lembrando que, à época, não era clara a separação entre astronomia-cosmologia e astrologia, e que esta última, com a alquimia e a magia, formava um conjunto maior, o das ciências ocultas, proscritas pela ICAR, essa proximidade é ainda mais surpreendente. Não obstante, também não pode deixar de ser registrado que, entre outros, Rodrigues (2020) relata a prática da alquimia tanto entre os monges quanto entre os Templários, pois tratava-se de conhecimento de ampla aplicação, seja para uso pessoal ou comercial – medicamentos, produção de alimentos, bebidas, tinturas, etc., e, é claro, também como veneno – à época, causa de várias mortes. De outro lado, surpreende (fato registrado por Brum com um ponto de “!”) que, mesmo ao abrigo de um templo cristão – uma catedral –, “o núcleo avançado de estudos” não tenha se dedicado às obras da Patrística. Por fim, à semelhança de Frale (2007, p. 111) que aludiu aos “verdadeiros templários”, Brum refere aos “autênticos templários”; assim, ambos reconhecem que a expressão “Templários” é insuficiente para exprimir e revelar a dinâmica interna experimentada pela Ordem ao longo da existência; todavia, conforme ficará claro, “verdadeiros” e “autênticos” não guardam qualquer relação de semelhança, antes, ao contrário, tendem ao distanciamento.

            E o centro de gravidade dessa conjunção foi a já tantas vezes citada cidade de Toledo – ex-sede visigótica, sede do Reino de Castela nos séculos XI e XII, marco da Reconquista cristã na Península Ibérica –, onde se estabeleceu, junto à catedral (antiga mesquita), uma Escola de Tradutores e um Núcleo de Estudos constituído por templários-cistercienses.

            Posteriormente, não por acaso, e é importante que se ressalte, mas por conta do que hoje seria considerado como uma verdadeira estratégia deliberada de política de Estado levada a efeito por 3 (três) monarcas, Toledo tornou-se um ambiente aberto à diversidade, um espaço sociopolítico mais do que favorável, convidativo e estimulante ao desenvolvimento do que hoje seria denominado de multiculturalismo: a confluência das culturas greco-romana, judaica, cristã-católica e muçulmana, o que a tornou um efetivo centro gerador e irradiador de conhecimentos que, em circularidade virtuosa, atraía mais e mais estudiosos de todas as partes da Europa, todos também ávidos pelo acesso às famosas bibliotecas indissociadas da tradição e a cultura árabe – entre tantos, vide, por exemplo, Lyons (2011).

            Em Toledo, “Os cristãos moçárabes também liam o Alcorão, e cristãos e árabes liam o Talmude” (Brum, op. cit., p. 46), o que significa que as fronteiras religiosas e culturais não eram absolutas, irredutíveis, e tampouco havia animosidades apriorísticas, generalizadas e insolúveis; ao contrário, prevaleciam a aceitação, a transigência e o diálogo objetivamente revelados nas realizações colaborativas. Essa observação, per se, convida a uma reflexão cujas ondas de choque se estendem até a Modernidade (para alguns até a Pós-Modernidade): a crise (rivalidade) entre as religiões do Livro não tem a sua origem propriamente nas crenças e doutrinas, ainda que cada qual sustente as suas diferenças com o vigor das convicções, mas quiçá nas vaidades, nas disputas pelo poder e nos conflitos de interesses geopolíticos e econômicos, muitos gerenciados à distância do epicentro geográfico dos acontecimentos. Decorre dessa linha de pensamento que nem as Cruzadas nem a Ordem do Templo podem deixar de ser pensadas, também como instrumentos a serviço de objetivos e interesses que, não podendo ser explicitados, foram escamoteados em meio à luz do alinhamento com os mais elevados interesses (espirituais) do principal Poder à época: a ICAR, o que não elide a convicção de que, em ambos os coletivos, tenha havido militantes idealistas. Por fim, é importante ter presente que a Catedral de Toledo, a Escola de Tradutores e o Núcleo de Estudos constituem a unidade de análise fundamental na “hipótese-Brum”: a de que os primeiros templários (acima referidos como autênticos), originalmente e antes de serem constituídos como uma Ordem militar com inimigos e objetivos bem definidos, formavam um grupo filosófico-religioso, diletante, fraterno, indiferente às fronteiras de toda natureza, e que sob vários aspectos, do organizacional ao simbólico, seguramente estão mais alinhados com a Maçonaria Especulativa contemporânea do que pela sua condição (e imagem) de monges-guerreiros.

            A partir de um robusto lastro bibliográfico e com base em acuradas observações – dos relacionamentos entre os personagens-chave, das respectivas agendas e da cronologia dos fatos – Brum defende a sua tese. No contexto, os personagens-chave correspondem aos idealizadores, aos fundadores ou aos que tenham atuado como dirigentes em uma das Ordens, a de Cister ou a do Templo, sobretudo se em ambas, durante as primeiras décadas de existência. A Figura 1, a seguir, introduz e situa geograficamente os principais eventos pertinentes ao tema:

Figura 1 (mapa) – Toledo no curso da Reconquista da Península Ibérica

Fonte: https://dicadehistoria.blogspot.com/2013/05/a-expansao-maritima-e-os-portugueses-no.html

  1. desde a Reconquista de Toledo, em 1085, seguida da conversão da antiga mesquita em catedral, a cidade passou a ser um símbolo da cristandade espanhola em franca expansão e que viria a ser consolidada com a união dos reinos de Leão e de Castela;
  2. em Saint-Nicolas-lès-Cîteaux, no Ducado de Borgonha (França), no ano de 1098, é fundada a Ordem de Cister que tem por regramento básico os princípios da Ordem de São Bento: ora et labora;
  3. em 1104, Hugo de Payens, vassalo de Hugo I, Conde de Champagne, o acompanha em peregrinação a Jerusalém, e de onde este regressa em 1107 e retorna em 1114;
  4. em 1109, o inglês Stephen (Estevão) Harding assume como Abade da Ordem de Cister;
  5. após curtíssima estada em Jerusalém, de onde retorna em 1115, Hugo I doa (para Stephen Harding) terras no Vale do Absinto, para a fundação, por Bernardo (de Fontaine), do Mosteiro de Clairvaux (Claraval) – uma expansão natural da Ordem Cisterciense. No futuro, dada a projeção de Bernardo, ambos, ele e o Mosteiro, viriam a ser conhecidos como “de Claraval”;
    1. além dos vínculos monásticos com Stephen Harding, Bernardo de Claraval, conforme já mencionado, era sobrinho de André de Montbard, um dos inequívocos fundadores da Ordem do Templo e presente na reunião com o rei Balduíno II, bem como amigo de Hugo de Payens e de Hugo I, que entraria para a Ordem do Templo ainda antes de 1125. Ademais, cogita-se que Geoffrey de Bisol (“um dos nove”) tenha sido primo de Bernardo. Portanto, são inequívocos os vínculos entre os primeiros templários e os cistercienses;
    1. Brum (op. cit., p. 96) utiliza a expressão

“[…] templários-cistercienses” para realçar esse propósito comum aos dois grupos, que era o de retomar na Europa o antigo espírito do cristianismo antigo e da vida filosófica contemplativa, sob a influência da tradição neoplatônica e da “teologia negativa” (a mística cristã).

  • Raimundo Bernardo, templário-cisterciense que, na condição de (segundo) líder da catedral de Toledo, em 1127, criou a Escola de Tradutores. A expressão “escola” não necessariamente corresponde a uma instituição formal com estruturas físicas[3]; pode também ser o designativo de um grupo de pessoas que comungam da mesma linha de pensamento, compartilham valores, expressam atitudes análogas, cooperam na realização de trabalhos que, com maior ou menor formalidade, são ensinados e transmitidos a terceiros – em grandes reuniões (palestras, preleções, etc.), orientações, acompanhamentos personalizados, etc. E, em Toledo, paralelamente eram desenvolvidas as atividades do Núcleo de Estudos – essencialmente filosófico, especulativo, eclético e gerador de conhecimento genuíno. Para ocupar e enriquecer os quadros (da Escola e do Núcleo) foi colocada em prática uma efetiva e exitosa política de atração de recursos humanos, o que resultou na chegada de inúmeros talentos (laicos ou não) provenientes sobretudo da França – que, cf. visto, era um polo cristão e em crescimento – e, dentre estes, monges provenientes das abadias de Cluny e Cister, ambas beneditinas, do mesmo tecido cultural;
    • a atuação de Raimundo Bernardo não era restrita à Catedral em Toledo: atuava (recebia doações, receitas, recrutava, inaugurava casas e postos avançados, etc.) em nome de Hugo de Payens em um vasto território cujo alcance atingia a Occitânia (França) e Portugal. Tais insígnias deixam claro que Raimundo Bernardo não era apenas mais um Templário, mas um dos dirigentes durante as primeiras décadas da Ordem, formalmente iniciada em 1118-20;
  • após as primeiras tratativas oficiais (1118-20), o grupo retornou à Europa em busca de apoio de toda a natureza, mas foram necessários dez anos até que a Regra do Templo, aos moldes de Cister (Cluny e São Bento) e que deve muito a Bernardo de Claraval, fosse finalmente aprovada no Concílio de Troyes, em 1128-9. O marco regulatório não apenas estabeleceu, em definitivo, o perfil da Ordem então constituída como uma milícia cristã conduzida por monges-guerreiros, como lhe deu as bases para promover um vigoroso empuxo de crescimento;
  • Juan Hispano[4] – templário, de cônego foi elevado a bispo, trabalhou como colaborador direto de Raimundo Bernardo, a quem sucedeu em 1153, um ano após a sua morte, e deu continuidade à sua obra; finalmente,
  • em 1181, com a morte de Gundisalvo[5], o sucessor de Juan Hispano, o espírito “templário-cisterciense” começa a esmorecer, todavia,

[…] o encontro entre uma vontade política […] e várias gerações de tradutores excepcionais gerou “a empresa cultural toledana que permitiu, em algumas décadas, que se assegurasse a passagem para o latim de uma parte notável do corpus filosófico grego-árabe” (Libera apud Brum, op. cit., p. 132);

  1. e conclui:

[…] não eram mais os três templários [Raimundo Bernardo, Juan Hispano e Gundisalvo] que coordenavam a escola de tradutores. Os templários tinham preferência pela filosofia árabe, sufismo, alquimia e filosofia judaica. É fundamental entender a temática priorizada na escola de tradutores (op. cit., p. 140).

            Conforme visto, o ponto de partida para o delineamento da tese de Brum é o relacionamento dos principais personagens, antes mesmo da Ordem ser criada, em Troyes (Condado de Champagne) e junto à Escola do Rabino Rashi, onde, ao tempo em que estudaram a kabbalah e o Talmude, conviveram com os monges cistercienses. Posteriormente, alguns dos futuros templários também passariam pela Escola e/ou pelo Mosteiro, a exemplo de Gundomar (ou Gondemar), um dos templários-cistercienses. Assim, e de acordo com o cronológico acima, ao contrário do que afirma a maioria dos autores, o projeto de concepção da Ordem não teve início em Jerusalém a partir do célebre encontro entre Balduíno II, Hugo de Payens e outros; já passavam alguns anos desde que havia sido idealizado, debatido, planejado, enfim, gestado por um grupo muito específico de amigos-estudantes-peregrinos que ora denomino Círculo de Troyes. Cientes de que se as atividades pouco ortodoxas do Círculo fossem tornadas públicas poderia haver, provocada pela ICAR, toda a sorte de problemas, a opção por Toledo passou a ser natural, pois,  mesmo católica e em meio à Reconquista, a cidade estava de braços abertos, oferecia um ambiente de tolerância e se afirmava como um polo cobiçado de desenvolvimento cultural-ecumênico – o leitor pouco familiarizado com as disposições geográficas e distâncias (Champagne, Troyes, Toledo, etc.) pode consultar Pinheiro (2026b). Por consequência, é mais adequado que a denominação Círculo de Toledo, doravante, seja referida como Círculo de Troyes-Toledo.

            Natural, portanto, que o núcleo Templário, ou melhor, templário-cisterciense, em Toledo, viesse a experimentar um desenvolvimento singular, diferenciado e quase à parte dos demais núcleos (casas, fortalezas, castelos, etc.) que, com celeridade, foram constituídos por toda a Europa, estes sim, de monges-guerreiros. Textualmente:

E serão alguns desses templários que atuarão em Toledo, refazendo na Espanha o mesmo processo que viveram nas terras do conde de Champagne. Assim, com certeza, esses templários não criaram uma ordem militar nem tinham objetivos semelhantes aos conquistadores francos que se dirigiram para o Oriente Médio. Eles, na verdade, procuraram repetir na escola de Toledo o exemplo que receberam de Hugo de Payens e Bernardo de Claraval, focando o interesse e o projeto de vida nas questões da alma, e não da política (Brum, op. cit., p. 97).  

            Feitas essas considerações, retorna-se à pergunta: a qual dos Templários a Maçonaria homenageia e os toma como símbolo: 1) os “verdadeiros templários” conforme o entendimento de Frale (2007), isto é, os monges-guerreiros; 2) os “templários-cistercienses” (já referidos como “autênticos”); ou, 3) os templários que, pouco a pouco, mas mais e mais e com celeridade foram se dedicando às atividades mundanas a ponto de, ao final, ser evidente o divórcio não só com os propósitos originais (o dos “templários-cistercienses”), mas também com o dos “verdadeiros templários”? É razoável e pertinente encapsulá-los e designá-los, sem prejuízo de entendimento, genericamente como Templários? As mudanças experimentadas pela Ordem devem ser lidas como sinais de sabedoria e evolução por adequação ao meio (pela reconfiguração das forças políticas, econômicas, usos e costumes, etc.) ou, ao contrário, como reiteradas traições aos princípios? Vale notar que, em geral e na essência, essa é uma questão que, em diferentes formatos, mutatis mutandis, tem estado presente em todas as instituições ao longo da História, como é o caso dos dilemas enfrentados pela própria Ordem Maçônica – o Paradoxo do Navio de Teseu.  

            O argumento da tese de Brum não se limita aos relacionamentos e às agendas entre os personagens-chave; e, como não cabe resumir o livro, cuja leitura é recomendada a todos os Irmãos de Ordem, o que segue são alguns tópicos complementares, como é o caso da

Regra dos Templários (em latim) aprovada no Concílio de Troyes que tem um Prólogo e 72 artigos. A primeira versão francesa já tem 76 artigos e foi sendo, aos poucos, ampliada cada vez mais, perdendo o seu espírito inicial” (Brum, op. cit., p. 119).

Na análise que se segue, o autor esclarece que:

No Prólogo é enfatizado que os cavaleiros de Cristo devem escolher apenas assuntos sagrados (religiosos). Isto não parece ser um manual de soldados ou um estatuto que apresenta o comportamento de militares. Na realidade, nem mesmo é uma regra religiosa tradicional, pois dá espaço aos gnósticos[6] e, em plena Idade Média, recomendava o vegetarianismo […] bem como não participar de caçadas[7]. Fica difícil imaginar que estes templários seriam os mesmos guerreiros que deveriam estar em combate com os muçulmanos e “eliminar” os infiéis, segundo os relatos tradicionais (op. cit., p. 120).

            Embora tenham se passado cerca de 10 anos entre as primeiras entabulações e a edição da Regra, tempo supostamente suficiente para as reflexões, debates e amadurecimentos no que se refere ao papel, à estrutura e ao funcionamento da Ordem, não foram necessários outros dez para que, já sob a gestão do Grão-Mestre Roberto de Craon (1136-1149), a Ordem passasse pelas transformações que a elevaram ao status de um poder militar crescente e paralelo ao dos reinos, pelo que, em que pese os bons serviços prestados, passaria a contar com a desconfiança dos soberanos. A ausência dos 2 (dois) grandes líderes, Hugo I (falecido entre 1125 e 1130, provavelmente na Palestina) e Hugo de Payens (morto em 1136 na Palestina), parece ter quebrado o equilíbrio entre os pesos e contrapesos (representados pelas ideias, interesses e propostas em jogo) e aberto espaço para a emergência das (novas?) diretrizes que orientariam a Ordem nas próximas décadas. A autonomia e os privilégios que lhe haviam sido concedidos implicaram ou se deram à custa, nos termos já empregados neste texto, da passagem de “autênticos templários” (Brum, op. cit.) a “verdadeiros templários” (Frale, op. cit.). A falta dos principais líderes iniciais, Bernardo de Claraval (morto em 1153), André de Montbard (que, inclusive, viria a ser Grão-Mestre de 1154 – 56) e Geoffrey de Saint-Omer (de quem pouco se sabe sobre os últimos dias), foi determinante para o esmorecimento do ideal, tendo faltado apoio para manter viva a chama do espírito de Círculo de Troyes-Toledo; assim, “os autênticos” pouco a pouco foram cedendo o lugar “aos verdadeiros” e a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão rapidamente ganhou peso como mais uma peça no xadrez das estruturas de poder que ditavam os rumos da geopolítica de então.

            De onde teria surgido o ecletismo filosófico-intelectual dos primeiros Templários e já tantas vezes apontado neste texto?

Mais uma vez, sugiro que a explicação para isto é o fato de os templários, que criaram a ordem e foram atuar em Toledo, terem vivido na Síria, onde tomaram contato com essas obras e mantiveram conexão com a tradição do ismailismo, que enfatizava o estudo de Avicena. A linha filosófica do ismailismo segue a gnosis shiita (com destaque à metafísica e à cosmologia) mais o neoplatonismo e o sufismo de origem persa […] Ao fazer um estudo adequado, vemos que é evidente a sintonia deste grupo dos templários de Toledo com a linha filosófica relacionada com o islamismo oriental (op. cit., p. 155).

            Algumas expressões utilizadas nesta Série exigem, agora, ainda que sucintos, esclarecimentos para que se possa acompanhar com proficiência a linha de pensamento de Brum, como é o caso de “ismailitas”, “nizares”, “drusos” e “sufis”.

            O islamismo, a exemplo das demais Religiões do Livro – o judaísmo e o cristianismo –, desde o início, mais exatamente após a morte do Profeta, em 632, tem apresentado sucessivos movimentos dissidentes, cujas motivações combinam elementos de ordem política (sucessão) com questões doutrinárias – interpretações divergentes acerca dos ensinamentos do Profeta. Não surpreende que esses movimentos, a exemplo de tantos outros análogos ao longo da História, tenham enfrentado resistências que, inicialmente veladas, evoluem para estados de beligerância explícita, perseguições e, no limite, tentativas de aniquilamento, como foi o caso do genocídio dos cátaros. A primeira grande ruptura, que até hoje persiste, levou ao surgimento dos xiitas e dos sunitas, os primeiros defendiam a sucessão familiar-consanguínea, no caso, o primo-genro de Maomé, casado com a sua filha Fátima; daí a expressão “fatímida” para designar os seus adeptos. Já os sunitas defendiam que o sucessor (califa) deveria ser escolhido entre os mais aptos. Derrotados, os xiitas-fatímidas em fuga desde a sede no Cairo, ocuparam várias regiões ao longo do norte da África; enquanto os sunitas lograram a sua expansão a partir de Bagdá, no atual Iraque. Os ismailitas e nizaris devem a denominação aos líderes (Ismael e Nizar) que estiveram à frente de novas disputas sucessórias no seio dos xiitas-fatímidas. Já no que tange aos drusos, revelam-se demasiado oportunas as palavras de Assrauy (1967):

Entre os anos 996 e 1021 governava o Egito o Califa […] o quinto da dinastia dos Fatimidas […] durante seu governo surgiu um movimento teológico de cunho reformista [dentro o islã] que obteve todo seu apoio e, mais tarde, transformou-se numa seita religiosa, também monoteísta, hoje conhecida como a dos Unitaristas[8] Druzos […] graças a seu cunho humano e seu conteúdo filosófico assentado nos princípios milenares dos árabes, enriquecido, ainda, pelos novos conhecimentos filosóficos que o livre pensamento havia trazido à humanidade, principalmente com as mensagens que transmitiam ao mundo, mestres como Platão, Aristóteles e Pitágoras, os quais, por suas ideias, alargaram, extraordinariamente, o campo do raciocínio dos homens, substanciando, assim, o conteúdo do movimento reformista recém-criado (op cit., p. 11);

[…] os fundamentos e textos dos Escritos Sagrados e da filosofia do credo […] além de alicerçar-se em virtudes as mais apuradas, e, finalmente, ser a síntese de todas as filosofias religiosas existentes, juntamente com a expressão pura do livre pensamento mundial (op cit., p. 13);

Quando a opinião pública se divide quer política quer religiosamente, enseja o atrito de ideias que só a filosofia pode sobrepujar, eis que tem ela o poder de libertar o raciocínio e lhe proporciona horizontes mais amplos que fazem desaparecer as questiúnculas, permitindo, finalmente, que a “razão”[9] predomine. Assim foi naquela época. Quando a “razão” adveio superou ao dogmatismo, e esse foi o princípio do movimento Unitarista Druzo (op. cit., p. 22);

Baseados na “razão” e na argumentação racional libertadas de toda ilusão e crença em milagres ou coisas que tais e que contrariam a Lei de Deus que tudo Criou […] (op. cit., p. 31);

O número dos Unitaristas Druzos no mundo árabe, atualmente, é estimado em 300.000, sendo que, mais de 120.000 deles povoam o Monte conhecido por seu nome “Monte dos Druzos”, hoje já denominado “Monte dos Árabes”, na Síria […] Uma pequena minoria estabeleceu-se em Damasco, capital da Síria e adjacências, enquanto outras povoam o Monte Alto, na região de Alepo […] Mais do que as demais tribos árabes, os Unitaristas Druzos mantiveram-se fiéis à sua origem e aos costumes árabes […] se opuseram a toda aliança com as outras tribos – casam-se entre si – preservando, assim, puro e inalterado o sangue primitivo (op. cit., p. 35).

Aos poucos fica, então, clara a motivação que levou o grupo de Troyes, em suas viagens ao Oriente, a buscar contato com os ismailitas-nizaris-drusos: o amor pelo saber livre de dogmas, orientado pelo pensamento crítico; a afinidade com a postura dos Antigos, que seria resgatada no Renascimento, é inequívoca. Finalmente, à guisa de complementação, considerando que o leitor médio ocidental não é familiarizado com esses termos, optou-se por solicitar o auxílio da IA[10] Gemini; assim, o que de imediato se segue é a mixagem dos extratos obtidos a partir das respostas à questão (prompt em 09.03.26): “quem são (foram) os …?”.

  • ismailitas:
    • o termo ismailita (ou ismaelita) refere-se a dois grupos distintos[11] dependendo do contexto histórico ou religioso: 1) no contexto islâmico, os ismailitas são um ramo do islã xiita, constituindo a segunda maior comunidade dentro desta vertente, com cerca de 15 milhões de seguidores em mais de 25 países. A comunidade é conhecida por sua interpretação moderada e intelectual do islã, focada em justiça social e desenvolvimento humano;
  • nizares:
    • os nizares (ou nizari) são o maior ramo do ismailismo dentro do islã xiita. Eles surgiram de uma disputa de sucessão no Califado Fatímida no final do século XI e são conhecidos historicamente por terem fundado o “Estado de Alamut” e a ordem dos “Assassinos”. Os nizares estabeleceram um estado independente centrado na fortaleza de Alamut (no atual Irã) em 1090. Devido à sua inferioridade numérica contra impérios como o Seljúcida, eles adotaram uma estratégia de assassinatos seletivos de figuras políticas hostis para defesa, o que gerou lendas e o termo moderno “assassino”. Apesar da fama guerreira, suas fortalezas eram centros de saber com bibliotecas vastas e laboratórios frequentados por filósofos e cientistas. Hoje, os nizares representam a vasta maioria dos ismailitas no mundo. Diferente de outros ramos xiitas que aguardam um “Imã Oculto”, os nizares acreditam na presença de um Imã vivo e presente para guiar a comunidade em questões espirituais e temporais;
  • drusos:
    • os drusos são uma minoria étnico-religiosa árabe que habita principalmente o Levante (Síria, Líbano, Israel e Jordânia). Eles se autodenominam Muwahhidun (“Unitaristas”) e possuem uma identidade cultural e religiosa única que os distingue de outras comunidades muçulmanas. A fé drusa surgiu no Egito no ano 1017, durante o Califado Fatímida, como uma dissidência do islamismo xiita ismaelita. Sua teologia inclui influências do neoplatonismo, gnosticismo, pitagorismo e até hinduísmo. Veneram figuras bíblicas e corânicas, como Adão, Abraão e Jesus, mas têm uma devoção especial por Jetro (sogro de Moisés). Sua fé é secreta; apenas uma elite religiosa (os Uqqal ou “Sábios”) tem acesso total aos textos sagrados, conhecidos como as Epístolas da Sabedoria. Hoje podem ser encontrados na Síria, no Líbano e em Israel […]; 
  • sufis
    • os sufis são os praticantes […] dimensão mística, interior ou espiritual do Islã. Eles não são uma seita separada (existem sufis tanto entre sunitas quanto xiitas), mas sim uma abordagem que busca a proximidade direta com Deus através do amor e da disciplina espiritual. Enquanto a lei islâmica (Sharia) foca nas ações externas, o sufismo foca na purificação do coração e na busca pela “Verdade” (Haqiqah). Eles buscam transcender o ego para alcançar a união espiritual com o divino. Práticas e Rituais: 1) dhikr: a recordação rítmica dos nomes de Deus, muitas vezes através de cantos ou meditação; 2) sama: cerimônias que envolvem música e poesia. O exemplo mais famoso são os Dervixes Rodopiantes da ordem Mevlevi; 3) poesia: o sufismo produziu alguns dos maiores poetas da humanidade, como Rumi e Hafez, cujas obras focam no amor incondicional. Em resumo: o sufi é aquele que busca ver Deus em todas as coisas e agir no mundo com compaixão e humildade extrema. 

            À guisa de uma síntese esquemática, a Figura 2, a seguir, é um esforço no sentido de reunir e relacionar os grupos islâmicos apresentados acima, bem como para destacar o grupo focal do encontro com os Templários:

Figura 2 – O Islã Dividido e o “Encontro” com os Templários

Observação: as áreas das figuras não guardam proporcionalidade em relação a quaisquer aspectos de cada grupo. Se originalmente integrados ao islã, hoje os drusos são considerados um grupo à parte.

            Ainda que sucintas, as informações permitem ter clara não apenas a contemporaneidade dos eventos (surgimento da Ordem do Templo, início do movimento das Cruzadas, dissidências e guerras no seio do Islã) em meio à mesma geografia, mas também, contrário ao senso, a grande diversidade interna de pensamento (e iniciativas) entre os muçulmanos. Essa realidade, quer pela geografia, quer pela multiplicidade e afinidade de interesses, faz crer que os 2 (dois) grupos – “o Círculo de Troyes-Toledo” e os “ismailitas-nizaris-drusos sírios” – efetivamente tenham se encontrado e, mais do que planejado, desenvolvido trabalhos em conjunto.

            Os primeiros Templários (os “autênticos”, de acordo com Brum) não eram apenas nobres e religiosos, mas também intelectuais, filósofos, o que significa dizer: amantes do saber, pelo que não surpreende que tenham buscado no Oriente contatos de natureza e propósitos diversos dos alvos daqueles tidos como “verdadeiros” (de acordo com Frale). Ralls (op. cit., p. 28-9) vai ao encontro da “hipótese-Brum”:

Há evidência de ligações dos templários medievais com o mundo muçulmano, especialmente com os ismaelitas nizaritas, um grupo islâmico político-religioso que ainda cresce sob a liderança de Aga Khan. Os ismaelitas nizaritas, também conhecidos nos tempos medievais como Assassinos, eram treinados como guerreiros sagrados – de modo não muito diferente dos Cavaleiros Templários. Os cruzados cristãos tiveram contato com os Assassinos no início do século XII, antes ainda da fundação da Ordem do Templo, em 1119;

e citando J. Wasserman, conclui que “O mítico Velho da Montanha … era o chefe sírio da Ordem (Assassina) … O primeiro contato documentado entre Assassinos e cruzados se deu em setembro de 1106” (op. cit., p. 29).

            Conforme já mencionado, desde a morte do Profeta Maomé o Islamismo se apresenta dividido; ainda que as partes guardem semelhanças, as diferenças, por vezes acentuadas, têm levado a conflitos e, circunstancialmente, um ou o outro lado ganha apoios externos. Pinheiro (2026a) destaca que os Cruzados, auxiliados pelos Templários (hábeis diplomatas e negociadores – não só pelo domínio de técnicas, mas, sobretudo, pela honra da palavra empenhada, pelo compromisso), ao constituírem alianças ad hoc com este ou aquele grupo, souberam, das divisões, colher vantagens. Conforme se observa, à época (e provavelmente bem antes) já prevalecia a máxima: “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”.

            Por oportuno, cabe lembrar que os Omíadas (sunitas), quando invadiram a Península Ibérica, estavam em fuga (do Oriente) porque haviam sido derrotados pelos Abássidas (também sunitas); assim, embora grosso modo alinhados no que tange à sucessão do Profeta (divergindo dos xiitas), disputavam a hegemonia política[12]. Enquanto a luta pela Reconquista na Península Ibérica se dava contra um Califado[13], no Oriente era contra outro (“primos”). Toledo, conforme já mencionado, por décadas foi um oásis neste cenário. Outro exemplo que vai ao encontro do que ora se argumenta, mas que não cabe explorar, são os feitos de Rodrigo Díaz de Vivar[14], mais conhecido como El Cid Campeador, nos quais a realidade se combina à fantasia.

            E apesar do risco, devido ao reducionismo que toda síntese carrega, cabe ressaltar outros pontos em comum entre os saberes aos quais se dedicavam os “ismailitas-nizares-drusos-sufis”: são saberes iniciáticos que transitam no limiar da transcendência, já no domínio da metafísica:

  • […] neoplatonismo, gnosticismo, pitagorismo […];
  • […] busca a proximidade direta com Deus através do amor e da disciplina espiritual […];
  • […] purificação do coração e na busca pela “Verdade” (Haqiqah) […] transcender o ego para alcançar a união espiritual com o divino […] recordação rítmica dos nomes de Deus, muitas vezes através de cantos ou meditação; e,
  • […] amor incondicional […] o sufi é aquele que busca ver Deus em todas as coisas e agir no mundo com compaixão e humildade extrema.

E, salvo melhor juízo, trata-se do desenvolvimento de um rol de saberes, valores e virtudes que, à luz da Maçonaria Especulativa, se sobrepõe com larga margem de importância a quaisquer atributos vinculados à condição de guerreiros integrantes da Ordem do Templo pós-Concílio de Troyes. E ainda que também fossem monges, a menos, é claro, que se estenda o significado: guerreiros contra os vícios na luta interna e pessoal de cada um com vistas a alcançar a Jerusalém Celeste. Além de iniciáticos, são antes saberes esotéricos do que exotéricos, o que, em princípio, levaria ao afastamento dos praticantes face às instituições religiosas, a exemplo da ICAR[15], o que aponta para o provável caráter clandestino de algumas atividades do Círculo de Troyes-Toledo. É certo que, aqui, há um conflito interno, praticamente insolúvel, como aliás apontado por Rodrigues (2020), e que, posteriormente, teria levado à desconfiança mútua e ao rompimento (velado) dos Templários com a Igreja. Não por acaso, Brum esclarece que 

Havia três níveis de recepção […] um primeiro, oficial, tornou-se conhecido e tinha regra pública. Um segundo era para alguns “irmãos” (é assim que São Bernardo chama Hugo de Payens). E, por último, um terceiro (secreto) era reservado apenas a uns poucos membros do Capítulo. Nele o candidato era reservadamente conduzido ao rito do Graal (op. cit., p. 29 Nota 51).

Havia, pois, no coração da Ordem, um Colégio de Arcanos, dos Iniciados nos mais elevados saberes e mistérios. Será que isto soa familiar a algum Rito maçônico?

            Os excertos a seguir, extraídos de Brum, dão sentido aos questionamentos e às respectivas respostas da IA Gemini, bem como ilustram como os saberes do Oriente, relativos ao Islã, em Toledo, se encontraram com o judaísmo e o cristianismo e, ao fim e cabo, se abraçaram. Antes, porém, sempre baseado em várias fontes, com cruzamento de informações, Brum alerta para uma armadilha metodológica (muito comum quando a fonte é bibliográfica) e esclarece as origens históricas acerca do mal-entendido no que concerne à expressão “assassinos”:

[…] os cronistas dos cruzados se basearam nos relatos de historiadores sunitas, hostis ao ismailismo fatímida, gerando uma visão distorcida desta corrente do islamismo” (op. cit., p. 293);

Não levaram em conta ou desconheciam que o termo “assas”, em árabe, significa “guardião”, sendo “assassins” a transliteração a partir da fonética, no plural, e uma referência aos guardiões das montanhas da Síria, onde viviam os drusos e os nizaris, cujos líderes eram guardiões de uma antiga tradição (op. cit., p. 294);  

É claro que o termo “assassino” fica por conta das crônicas medievais europeias, que transformavam os invasores francos em protetores da Terra Santa, enquanto os defensores das suas próprias terras passavam a ser fanáticos e violentos guerreiros (id. ibid.);

O termo assassins foi também relacionado com a palavra hashish e criou-se a imagem, errônea e maldosa, de que os nizaris eram uma sinistra ordem de drogados assassinos que lutavam contra os puros cristãos francos (op. cit., p. 297).    

            Conforme visto, os “xiitas-ismailitas-nizaris-drusos”, por motivos que fogem à análise mais detalhada no âmbito deste escopo, foram (são) minorias que, devido às perseguições, foram (são) levadas, por motivos de sobrevivência, a viver e a cultuar as suas tradições ao abrigo de refúgios seguros, como é o caso da vida retirada nas montanhas, os quais, por sua vez, a todo custo devem ser defendidos e ter o acesso restrito: “[…] o ismailismo shiita não tinha nada de ortodoxo, sendo mais uma escola filosófica e mística do que um grupo de simples seguidores do Alcorão” (Brum, op. cit., p. 303). Em outros termos, a comunidade dedicava-se a saberes, práticas, enfim, tradições consideradas heréticas (contrárias à ortodoxia) que transitavam por domínios que fugiam à cognição ordinária, razão pela qual deveriam ser postas ao abrigo dos olhares públicos e mantidas em sigilo ritualístico-iniciático. Não surpreende, pois, que esses saberes tenham encontrado calorosa acolhida entre os filósofos cristãos e os estudiosos da kabbalah e do Talmude do Círculo de Troyes-Toledo. Ratificando, com citações de F. Daftary e J. Wasserman, Brum (op. cit., p. 300) destaca que eles “[…] realçam a conexão dos templários com os nizaris ismailitas e estes, por sua vez, com o antigo gnosticismo, com o que é chamado de “tradição joanina” e com a linhagem do Graal”. Portanto, confirmando Maalouf e Said, citados por Pinheiro (2026a), havia também semelhanças que, deliberadamente omitidas, resultaram na distorção das imagens que as comunidades mantinham entre si, que, estimuladas, acirraram o antagonismo Ocidente vs Oriente.

            Ora, salvo melhor juízo, esta é mais uma oportunidade para reiterar: de tudo o que foi dito, não há nada mais alinhado com a Maçonaria Especulativa contemporânea do que o espírito e as ideias do Círculo Troyes-Toledo, dos “autênticos”; o mesmo, na totalidade da sua extensão, não pode ser afirmado em relação aos “verdadeiros” – os monges-guerreiros, os soldados de Deus. Talvez aos integrantes do Colégio de Arcanos, aos Iniciados nos mais elevados graus, fosse revelado o conhecimento das Tradições, dos saberes imemoriais, isto é, “aos verdadeiros” que chegavam ao Colégio de Arcanos era dado o saber “dos autênticos”.

            Finalmente, uma perspectiva geográfica: a rota Toledo-Troyes-Oriente e vice-versa:

Em 1124, os ismailitas que ainda viviam em Aleppo [Síria] foram expulsos da cidade e, conduzidos por um líder religioso persa, se dirigiram para o sul, pois a população sunita era hostil aos nizaris. No ano seguinte, em 1125, os francos conquistavam Damasco […] Bahram de Astarabad, um líder persa dos nizaris, atuou secretamente em várias partes da Síria como líder espiritual ismailita e que ocupou uma posição de destaque em Damasco, onde desempenhou muitas atividades quando os francos controlavam a cidade. É justamente neste período que o núcleo fundador dos templários está na Palestina e na Síria, ocorrendo um contato direto e pessoal entre Hugo de Payens, Geoffrey de Saint-Omer e o grupo original da Ordem do Templo com líderes do movimento nizari ismailita presentes na Síria, posteriormente chamados pelos europeus de “assassins”. Na medida em que os francos deram proteção aos nizaris, o convívio tornou-se viável e possível tanto em Damasco como nas regiões mais ao sul. O pequeno grupo dos nizaris ismailitas não era uma força inimiga dos francos (Brum, op. cit., p. 309).

            Lembrando que havia 2 (duas) rotas básicas para os Cruzados chegarem à Terra Santa, via Mar Mediterrâneo e, ao norte, via Turquia, a Figura 3, a seguir, fornece uma ideia das distâncias relativas entre as principais localidades citadas (Aleppo e Damasco) em relação a Jerusalém:

Figura 3 – Localização Geográfica: Aleppo, Damasco e Jerusalém

 Fontes:
Fig. 3aFig 3b
https://www.terra.com.br/noticias/mundo/siria-em-mapas-quem-controla-o-pais-apos-queda-de-assad,cf9e3229b6007e7bb82caae62db7c6d4gk89vx9z.html  https://www.abiblia.org/public/caricate/big/Jerusa_Damasco.jpg  

            Por oportuno, não custa relembrar que os fatos narrados acima ocorreram em 1124-1125, portanto, antes do Concílio de Troyes, em 1128-9, a partir do qual, conforme visto, os Templários, pouco a pouco, ganhariam nova configuração. Do início (1118-1120) até então (1128-9) não havia institucionalidade; todavia, tão logo esta foi assegurada, a Ordem foi capturada pelo establishment político-clerical e instrumentalizada para outros fins e interesses (pessoais e corporativos), não sem, e vários estudos o revelam, ter colhido tão grandes vantagens que fundamentaram o surgimento e a união de poderosos adversários internos e externos. Nesse cenário, o Círculo Troyes-Toledo resistiu até quando e quanto foi possível.

            Feitas essas considerações a partir da “hipótese-Brum”, parece claro que a expressão “Templários”, per se, é insuficiente para exprimir toda a riqueza, a diversidade e as contradições experimentadas pela Ordem do Templo ao longo da sua existência, razão pela qual não há como não retornar ao ponto de partida desta Série constituída por 5 (cinco) ensaios: afinal, a qual dos Templários a Ordem Maçônica rende homenagens e os toma como símbolos?

            O próximo texto, que também é produto das observações de Brum e Ralls, explora o papel dos Contos Arturianos e da Lenda do Graal, ora considerados o ponto de convergência entre os Templários, os Cruzados e os usos e costumes da cristandade medieval (apontados nos textos anteriores da Série), todos elementos constituintes de um conjunto cujas partes, ora isoladas, ora combinadas, ora mais por um, ora mais por outro Rito, é tomado como símbolo da Ordem Maçônica.


*** Ivan A. Pinheiro  – MM, Pesquisador Independente, e-mail: ivan.pinheiro@ufrgs.br. Porto Alegre-RS, 01.06.26. O autor não só agradece a leitura e as considerações do Irmão Lucas V. Dutra, Mestre Maçom do Quadro da ARLS Presidente Roosevelt, 75, Or. de São João da Boa Vista, jurisdicionada à GLESP – psicólogo, professor doutor em psicologia, especializado em maçonologia (UNINTER), e-mail: dutralucas@aol.com, como também reafirma a responsabilidade pelos erros e omissões remanescentes.


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Notas

[1] 384 – 322 a.C.

[2] Para o melhor entendimento deste texto, sugere-se a leitura de Pinheiro (2026a,b).

[3] Vide, por exemplo, a Escola Socrática, alicerçada na maiêutica.

[4] Traduziu clássicos de Avicena, Al-Farabi, Qusta ibn Luqa, Al-Ghazali, Ibn Gabirol e outros.

[5] Em meio às lacunas de informações e às dificuldades de tradução de nomes próprios, há fortes indícios de que Gundisalvo seja o nome espanhol de Geoffrey de Saint-Omer, um “Templário-raiz”.

[6] Em Nota de Rodapé o autor acrescenta: “Nesse período são principalmente os cátaros que estudam e preservam os textos de Tomé (que eram considerados heréticos na visão da ortodoxia), defendem o vegetarianismo e mantêm tradições relativas ao Graal”.

[7] Conforme mencionado por Pinheiro (2026b), à época as caçadas faziam parte do treinamento militar.

[8] “[…] a seita haver proclamado existir um só Deus, uma só Religião de Deus com muitas seitas e que os Reformadores e Profetas provêm de um Espírito só e que toda a humanidade vem de um só Todo (Assrauy, 1967, p. 30)”.

[9] Destaque no original consultado.

[10] Inteligência Artificial. Conforme pode ser visto na sequência do texto, utilizada com critério, a IA pode ser uma ferramenta auxiliar.

[11] No caso, apenas o primeiro é de interesse ao tema ora desenvolvido.

[12] À época, e há indícios de que, como hoje, as alianças de conveniência, tinham duração temporária: tendo atingido o objetivo maior (contra o inimigo comum), não resistiam e davam origem às lutas internas pelo poder.

[13] Durante a ocupação árabe foram instituídos 3 (três) califados entre outras unidades político-administrativas de maior ou menor autonomia e independência. 

[14] Que teria vivido entre 1043 – 1099.

[15] Por exemplo: apesar dos esforços no sentido da defesa do que alguns referem como “gnosticismo cristão”, o “cristianismo-gnóstico” em parte carrega uma contradição interna, desafia a lógica; mas são expressões aceitáveis, passíveis de conciliação e entendimento em um ambiente de especulação plural.