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Os Golpes Contra Hiram: Anatomia de uma Morte Iniciática na Cerimônia de Elevação ao Grau de Mestre
A descoberta da múmia de Sekenenre Taa (em 1881 ao lado da múmia de Ramsés II, cerca de 300 anos mais jovem), mostrou que esse faraó teve um fim violento.
Quando o papa morre, um alto funcionário segurando um martelo de marfim se aproxima do cadáver e o golpeia levemente uma vez em cada têmpora e outra vez no meio da testa. A cada golpe, ele convoca o papa a se levantar e só na terceira convocação inútil ele declara oficialmente a notícia: o papa está morto e seu sucessor deve ser eleito.
A cerimônia de recepção do mestre é mais eficaz, traz o mestre de volta à vida na terceira tentativa.
O terceiro grau não pode ser explicado. Ele deve ser experimentado. O psicodrama das cerimônias não é um teatro – é uma passagem. O maçom não observa o ritual: ele o vive, e algo dentro dele não volta intacto. É exatamente isso que os antigos egípcios chamavam de Portão da Morte : não uma metáfora, mas um limiar real e interior, onde a escuridão não é inimiga da luz, mas de sua condição.
Osíris cai. Hiram também. E nessa queda compartilhada ao longo dos séculos, é a mesma verdade solar que se transmite — a de uma morte que prepara o retorno, de uma noite que torna a manhã possível. Virgílio diz isso a Dante melhor que ninguém:
“Você viu o fogo eterno. Você viu o fogo efêmero. Você chegou àquele lugar onde eu não consigo mais ver nada… Você vê o Sol brilhando na sua testa. Você pode levantar e andar. Você está livre. Levante-se — você é seu próprio árbitro.”
Livre. A palavra cai sozinha. Pesada.
Porque é aí que surge a questão, neste espaço aberto após a travessia: o que realmente nos determina? Não em teoria — em carne e osso. O que se impõe a nós com a força de uma evidência que não escolhemos, e contra a qual ainda devemos lutar para nos tornarmos o que somos? O Uno, talvez. Mas qual deles? O significado absoluto de uma unidade metafísica? A sensível e trêmula experiência de um momento em que as fronteiras cedem? Eternidade — não como conceito, mas como um gosto na boca de um homem que acabou de morrer e ressuscitar?
Três batidas na câmara do meio, e algo cai — não no cenário, mas em quem observa e que, sem saber ainda, está morrendo. A cerimônia de elevação ao grau de mestre é o culminar dos três primeiros graus. Mas dizer que a conclusão não é suficiente. Essa palavra sugere uma ascensão gradual, um cume previsível. Mas o que está acontecendo aqui é de natureza diferente: é uma ruptura. Um antes e depois disso nada realmente anuncia. No centro dessa ruptura: Hiram.
Arquiteto do Templo de Salomão, ele cai. Três golpes, três agressores, três recusas em trair o que sabe. Sua morte não é um acidente da história — é uma necessidade simbólica. Pois não pode haver mestre sem uma parte do homem que entra na câmara do meio consentindo em desaparecer. É isso que as palavras que a morte iniciou tentam dizer, às vezes de forma desajeitada: não uma metáfora consoladora para enfeitar um ritual espetacular, mas uma transformação radical e irreversível do ser. Entramos como um aprendiz no sentido amplo da palavra — incompleto, em busca de informação, cheio do que ainda não se sabe. Saímos disso com outra coisa. O quê, exatamente?
É exatamente isso que o rito se recusa a dizer antecipadamente. A resposta não é transmitida. É vivida — na queda, no silêncio que se segue aos três golpes, naquele momento suspenso em que o candidato entende, talvez pela primeira vez, que algumas mortes são nascimentos disfarçados.
Para entender esse fenômeno singular, é necessário explorar não apenas o simbolismo dos próprios golpes, mas também seu contexto, sua evolução, seu significado metafísico e seu papel na transmutação do ignorante em sábio.
O contexto dramático: antes dos golpes
Antes que os três golpes sejam desferidos, o contexto dramático da lenda de Hiram deve ser estabelecido. Hiram, um artesão supremo de Tiro, supervisionou a construção do templo de Salomão. Ela incorporava tanto a excelência técnica, a iniciação nos antigos mistérios quanto a sabedoria divina tornada visível na pedra.
No entanto, uma situação de tensão gradualmente se instalou. Três companheiros – cujos nomes variam conforme a tradição – tentam forçar Hiram a revelar a eles a palavra sagrada, o segredo do mestre. Esse segredo não é mera informação; é a palavra criativa, a própria essência do poder iniciático.
Esses três companheiros representam aspirações vulgares, a busca profana por poder sem disciplina prévia. Eles querem acessar o conhecimento pela força, pela transgressão, pela impaciência. Hiram recusa, alegando que a sabedoria só pode ser dada com tempo, experiência e iniciação gradual.
A Defesa de Hiram: A Integridade do Mistério
Hiram, com sua recusa, incorpora um princípio fundamental de iniciação: o segredo não pode ser entregue ao louco. Não é uma recusa por orgulho ou mesquinharia, mas por respeito à própria ordem cósmica. A sabedoria, se estivesse disponível para todos sem preparação, se tornaria uma arma destrutiva em vez de um instrumento de edificação.
É diante dessa recusa justificada que a tragédia intervém. Os três companheiros, frustrados e enfurecidos, decidem montar uma armadilha para Hiram. Eles se colocam nos três portões do templo (norte, oeste e sul, segundo algumas tradições), esperando que ele passe para extorquir-lhe o segredo por meio de violência.
Os Três Golpes: Progressão para a Morte
O primeiro golpe
Existem variações para cada um dos dois primeiros movimentos, tanto das ferramentas quanto da área que recebeu os golpes.
O primeiro golpe soou com uma força destinada a surpreender, a interromper a marcha de Hiram, que não esperava essa agressão. A arma geralmente é a régua, mas talvez o esquadro, símbolo do ângulo reto, da perfeição geométrica, da retidão. O golpe do esquadro atinge a cabeça, o assento do intelecto, da razão, da consciência comum. Mesmo que o golpe desvie para o ombro esquerdo, significa que o primeiro golpe visava minar o que nos permite entender o mundo de forma habitual. O esquadro, um instrumento de medida e retidão, torna-se o instrumento que quebra essa retidão.
Simbolicamente, esse primeiro golpe representa o fim da compreensão racional. O iniciado, como Hiram, não pode mais avançar confiando apenas em sua capacidade intelectual para dominar o mundo. A razão profana desaba; não pode se defender contra esse ataque daqueles que acreditava serem irmãos.
O primeiro golpe também é um convite a renunciar ao orgulho do conhecimento solitário. Hiram, apesar de sua sabedoria, é vulnerável. Sua superioridade como mestre não o protege da traição. Nenhum conhecimento puramente intelectual pode nos salvar da morte e da dissolução. Esse golpe é o mais forte metaforicamente porque quebra a ilusão primária: a do nosso poder sobre o mundo apenas pelo conhecimento.
O segundo golpe
Hiram tenta escapar por outra porta, mas o segundo agressor está esperando por ele. Desta vez, é a alavanca que bate; o golpe desvia para o ombro direito. O segundo ataque ocorre por outra porta, simbolizando que o perigo vem de todos os lados. Aqueles que atacam Hiram não são inimigos externos distantes, mas parentes, companheiros, aqueles com quem ele trabalhou na construção do templo sagrado. É uma traição interna.
Esse segundo golpe força o iniciado a reconhecer que nenhum afeto humano pode nos proteger da morte. Mesmo aqueles que nos amam, até aqueles que tratamos como irmãos, podem nos trair. É o colapso da confiança cega, o abandono da ilusão de que o amor humano pode ser um refúgio supremo. A alavanca, que mede a terra, também simboliza o fim do nosso apego a esse mundo de medida e limites. O coração que para de bater, é o mundo sensível que se apaga.
O terceiro golpe: malhete – golpe no crânio
Hiram tenta fugir uma última vez, mas o terceiro atacante o chama na terceira porta. Desta vez, é o malho, o instrumento mais poderoso, que atinge a cabeça, o crânio, esmagando o último refúgio do ser consciente. O crânio é o assento da própria consciência, da identidade individual, da vontade pessoal. O terceiro golpe representa o fim completo do ego, do que nos permite dizer “Eu sou”. É a aniquilação da pessoa em sua totalidade existencial. O malho difere profundamente dos dois instrumentos anteriores. Enquanto o esquadro sugere uma ruptura dolorosa, porém precisa, o malho esmaga, desintegra, reduz a nada. É um golpe definitivo que não deixa espaço para racionalização, nenhum sentimento, nenhum pensamento.
Com esse terceiro golpe, toda resistência cessa. Hiram não pode mais fugir. Ele não pode mais discutir. Ele não pode mais amar nem odiar. Ele simplesmente – está morto.
A Sequência dos Três Golpes: Simbologia Profunda
A ordem dos três golpes não é arbitrária. Segue uma progressão de destruição que começa com o centro de tomada de decisão (o intelecto), depois se estende ao centro emocional (o coração) e, por fim, aniquila o centro existencial (a própria consciência).
É uma gradação de dissolução : primeiro o abandono de nossas certezas racionais, depois o abandono de nossos vínculos afetivos e, por fim, o abandono de nossa identidade pessoal. Metaforicamente, essa progressão também corresponde à ordem em que um ser se desintegra diante da morte: primeiro perde-se a capacidade de entender o que está acontecendo (o choque mental). Então sentimos a dor física e a emoção (o coração afunda). Finalmente morremos, a consciência se apaga (o crânio é esmagado)
Os três instrumentos usados para golpear Hiram correspondem a uma cosmologia tradicional:
O esquadro (primeiro golpe): instrumento da terra, da estrutura, da materialidade. Ele representa o ângulo, a ordem geométrica, o mundo físico organizado.
A alavanca (segundo golpe): Ela representa a alma, o mundo dos relacionamentos e conexões.
O malho (terceiro golpe): instrumento de trabalho, de vontade, de transformação. Representa o espírito, a ação transcendente, a revolução completa.
Esses três instrumentos também correspondem aos três mundos da Cabala: Assiyah (manifestação física), Yetzirah (formação, alma), Briah (criação, espírito).
Entre cada golpe, há um intervalo dramático crucial. Após o primeiro golpe, Hiram não morre imediatamente. Ele se levanta, reconhecendo que não pode se defender com razão. Ele tenta escapar. Entre o segundo e o terceiro golpe, tentou fugir novamente, mas agora sabia que nenhuma emoção, nenhuma súplica, nenhuma humanidade comum poderia salvá-lo.
Esses intervalos representam a última oportunidade de renunciar voluntariamente em vez de sofrer a morte forçada. Mas Hiram não desistiu. Ele continua fugindo, resistindo, até que o golpe final o derruba.
É uma lição iniciática profunda: a morte pode ser sofrida ou aceita. Quem se opõe até o fim sofre violência; quem aceita transcende isso.
A Morte de Hiram: Um Momento de Passagem
Após o terceiro golpe, Hiram desaba. Seu corpo se torna um cadáver, um cadáver inanimado jogado sem honra em um buraco (segundo diferentes tradições, ele é enterrado sob os escombros do templo, ou jogado no mar, ou enterrado secretamente no deserto).
Essa morte do corpo é a manifestação externa de uma morte interna que já ocorreu. Hiram não morreu por causa das agressões; os golpes simplesmente externalizaram uma morte que já havia ocorrido nele – a de seu ego, sua resistência, seus apegos ao mundo profano.
Um detalhe crucial: Hiram não revela a palavra sagrada quando morre. Ele morre mantendo isso em segredo. Essa integridade, mantida até a morte, é fundamental. Ela afirma que alguns segredos não podem ser desvendados, que existe uma resistência espiritual que transcende o poder físico. Aqueles que o mataram não possuem a sabedoria que tanto cobiçavam. Eles pegaram o cadáver, mas não o ensinamento. A palavra perdida permanece perdida – até ser encontrada de outra forma, de outras formas, por meio da verdadeira iniciação.
Depois dos três golpes, vem o silêncio. Esse silêncio na cerimônia é sagrado. O candidato, que seguiu o ritual como um Hiram figurativo, deve experimentar esse silêncio absoluto da morte. Nenhuma palavra vem quebrar esse momento. É o silêncio do além, aquele onde a consciência comum não existe mais.
É um momento de morte verdadeiramente simulada, onde o candidato é convidado a contemplar, através da experiência dramática, o que poderia ser a extinção final de seu ser. É o confronto com o nada.
Significados alquímicos e metafísicos dos três golpes
Na alquimia, a Grande Obra segue várias etapas, incluindo nigredo (escurecimento), albedo (clareamento), citrinitas (amarelo) e rubedo (avermelhamento). Os três golpes correspondem à fase de putrefactio, o momento em que a matéria-prima (o candidato como ego profano) se decompõe completamente antes de poder renascer purificada.
Cada movimento é um passo nessa decomposição:
- O primeiro golpe inicia a putrefação (a razão desaba)
- O segundo golpe a aprofunda (a alma é separada do corpo)
- O terceiro golpe a acaba (o corpo morre, o ego se desintegra completamente)
Só depois dessa dissolução por morte é que a transformação se torna possível.
A morte de Hiram não é mera metáfora. É uma morte completa operando em três níveis simultaneamente:
No nível físico: O corpo morre e se decompõe. É a morte comum que todo ser vivo experimenta. Os três golpes são o mecanismo concreto que leva o ser vivo ao estado de cadáver.
No nível psíquico: O ego morre, os apegos emocionais se dissolvem, a vontade pessoal é extinta. É a morte do que pensamos ser. A alma gradualmente se desliga de suas identificações com o plano físico e emocional.
No nível espiritual: A consciência comum é extinta, mas, paradoxalmente, é neste momento que uma consciência superior pode emergir. Não é a alma que morre, mas sua identificação com o tempo, o espaço e a individualidade separada. Uma morte para a pequenez para nascer para a universalidade.
A sagrada aritmética dos três
O número três, repetido três vezes (três golpes, três agressores, três portões de templo), cria uma harmonia numérica singular. O três é o número do divino nas tradições monoteístas, o número de retorno (são necessários três movimentos para completar um ciclo), o número da ressurreição. Três golpes atingidos: 3 – Três agressores que batem: 3 – Três portas do templo: Total: 9, número de realizações na numerologia ocidental, mas também 3 × 3, o divino multiplicado pelo divino. Isso sugere que essa morte, embora trágica em aparência, obedece a uma harmonia metafísica perfeita.
Imersão dramática: Mais do que teatro
Durante a cerimônia de elevação ao grau de mestre, o candidato não apenas assiste à morte de Hiram. Em muitos rituais, ele é colocado no papel do mestre que é executado. Os três golpes ecoam na oficina. Embora o candidato saiba racionalmente que esses não são golpes reais, em um nível emocional e psíquico, ele experimenta algo genuinamente aterrorizante. É um assassinato psíquico do candidato, bastante distinto e muito mais profundo do que um simples espetáculo teatral. O candidato deve encarar, pessoalmente, a realidade de sua mortalidade, o desaparecimento de tudo em que se acreditava fundado.
Terror Sagrado: Catarse Iniciática
Os três golpes provocam um verdadeiro terror no candidato. Esse terror não é o objetivo, mas é necessário. Ela opera uma catarse iniciática – uma purga das ilusões pela emoção bruta. Esse momento de verdadeiro pavor desprende o candidato de seus hábitos mentais, de suas certezas diárias, de sua convicção comum de que a vida continuará indefinidamente. Por alguns segundos, ele encara o abismo. É nessa imersão traumática que começa o verdadeiro ensino. Pois nenhum discurso racional sobre a morte pode competir com essa experiência direta e involuntária.
Morte Aceita: Um Prelúdio para a Ressurreição
Após os três golpes, após o assassinato dramático, vem um silêncio profundo. O candidato permanece “morto” por um período. Este momento de morte aceita, essa imobilidade, essa ausência de qualquer resistência é fundamental. É o momento em que o candidato para de lutar, quando aceita a morte que acabou de ser dramatizada. Essa aceitação cria o vazio necessário para a “ressurreição”. Enquanto o candidato se defender, enquanto buscar manter sua antiga identidade, a transformação é impossível.
Apenas aquele que realmente “aceitou” morrer pode renascer diferente, purificado, iniciado.
Variações rituais: Tradições diferentes, a mesma essência
Diversos ritos maçônicos oferecem variações sobre o tema dos três golpes.
No Rito Francês: Os três atacantes atacam com instrumentos distintos, geralmente em ordem: esquadro, esquadro de topógrafo, malho.
No Rito Escocês: Algumas variantes mudam os nomes dos atacantes (Fanor, Hetho, Adonhiram nas tradições antigas), mas mantêm a essência dos três golpes.
No Rito de York (Grande Capítulo Maçônico): Tradições auxiliares detalham ainda mais as circunstâncias da morte de Hiram, adicionando detalhes dramáticos adicionais, mas mantendo os três golpes como o momento cardinal.
No REAA: A leitura alegórica do mito mostra que Hiram perde a vida por três golpes infligidos pelos dois Vigilantes e pelo Venerável, na garganta ou ombro direito (vida física), no ombro esquerdo (vida sentimental) e na testa (vida espiritual). Esses oficiais representam os maus companheiros, as personificações da ignorância, fanatismo e ambição. Hiram renascerá, como anuncia a acácia, graças às suas qualidades antitéticas: conhecimento, tolerância e distanciamento.
No RER: Antes de contar a história mítica do grau, é o respeitabilíssimo mestre quem desfere os três golpes (no ombro direito, no ombro esquerdo, na testa) que “matam” o companheiro, assim recebido por esse mestre da morte.
No Rito Escocês Primitivo, os três golpes são desferidos apenas na testa pelo respeitável mestre enquanto ele narra a lendária morte de Hiram.
| Rito Escocês Retificado | ||
| Portas | Ferramentas | Partes do corpo atingidas |
| Sul | Martelo | Ombro Esquerdo |
| Norte | Maço | Ombro Direito |
| Oriente | Malhete | Fronte |
| Emulação | ||
| Portas | Ferramentas | Partes do corpo atingidas |
| Sul | Perpendicular | Têmpora Direita |
| Norte | Nível | Têmpora Esquerda |
| Oriente | Malhete | Fronte |
| Rito Francês (Regulateur 1801) | ||
| Portas | Ferramentas | Partes do corpo atingidas |
| Ocidente | Régua | Ombro |
| Sul | Alavanca | Nuca |
| Oriente | Maço | Fronte |
| Segundo Gérard De Nerval | ||
| Portas | Ferramentas | Partes do corpo atingidas |
| Ocidente | Martelo | Crânio |
| Norte | Cinzel | Flanco |
| Oriente | Compasso | Coração |
Assim, ferramentas, áreas onde os golpes eram desferidos e o número de mestres variam conforme os ritos ou lendas.
Variações na rota da fuga de Hiram
Os companheiros maus se posicionam nas três portas do Templo. O Templo tinha apenas três portas. Encontramos: a primeira, a do norte, era reservada para o povo; a segunda dava passagem ao rei e seus guerreiros; o portão do leste era o dos levitas. Também encontramos: um no oriente, que comunicava com a Câmara do Meio e era reservado aos mestres; outro ao sul e o terceiro ao norte; essa era a entrada comum para todos os trabalhadores. O Regulador de 1801 informa: “Entrava-se no templo por três portas: aquela destinada aos aprendizes e, depois, ao templo ficava no ocidente; aquela destinada aos companheiros, e após o acesso ao templo pelos levitas, estava ao sul; e aquela destinada aos mestres e depois aos pontífices estava no Oriente.”
O problema é que, provavelmente quando Newton o reconstruiu em 1728, dentro do recinto do Templo não havia portão para o ocidente (oeste). Como os conspiradores estão bloqueando três portões, isso significa que efetivamente não havia outros.
O caminho do mestre não é o mesmo dependendo dos ritos.
Por exemplo: segundo a REAA, sua jornada começa no sul, pois está escrito: “tendo concluído a inspeção do trabalho do dia, Hiram iria se recolher pelo Portão Sul” e então segue em direção ao Portão ocidental [?]. No Rito Francês tradicional, Hiram, tendo ido ao Templo por uma porta secreta, dirigiu seus passos para o Portão Ocidental, onde o primeiro assassino o esperava, então tentou sair pelo Portão Sul e acabou correndo em direção ao Portão Oriental, onde encontrou o 3º Mau Companheiro. No entanto, no Rito de Referência Francês do GODF, edição de 2009, Ocidente, Norte e Oriente são, em ordem, as portas da jornada de Hiram. Mas no Rito Antigo e Primitivo de Memphis-Misraïm, bem como no Rito Operativo de Salomão: com a visita encerrada, Hiram deixou a Câmara do Meio e foi para o Portão Ocidental, depois continuou até o Portão Norte.
No Rito Escocês Primitivo, Ocidente, Sul e Oriente é o caminho de Hiram. No Rito de Emulação, eles [os maus companheiros] estavam emboscados nas entradas a leste, norte e sul do Templo, onde nosso Mestre havia se retirado para fazer suas devoções ao Altíssimo, como era costume ao meio-dia; o primeiro golpe é desferido para ao sul, então o Mestre avança em direção ao portão norte e recebe o golpe final a caminho do leste [mais de acordo com a planta do Templo].
Para o Rito de Misraïm, o percurso é: sul, ocidente, oriente, conforme indicado no Ritual de 1820 desse Rito.
No RER, Hiram, que entrou pelo portão do ocidente, dirige seus passos para o portão sul, onde encontra o assassino, depois foge para o portão norte e termina no portão do oriente. (Ritual do grau de mestre no RER, Escrito no Convento de 1782).
O percurso sempre termina no Oriente da câmara funerária da loja. A narrativa do assassinato nem sempre se refere à orientação do Templo de Salomão, mas sim à da loja onde o épico é encenado.
Apesar dessas variações, a essência permanece constante : três golpes simbolizando a dissolução gradual do ser comum, um prelúdio para sua ressurreição em um novo estado.
A universalidade da morte tripla
O motivo dos três golpes não é uma invenção maçônica isolada. Em várias tradições espirituais e religiosas, esse tema da morte tríplice ou julgamento triplo pode ser encontrado :
Nos mistérios egípcios, as provas iniciatórias eram divididas em três fases de destruição progressiva. No xamanismo, a morte-renascimento passa por três estágios distintos.
No cristianismo, a crucificação de Cristo representa uma morte tripla: morte do corpo, separação da alma do corpo, descida do Espírito ao Inferno
No Budismo, a destruição dos três venenos (ganância, ódio, ilusão) corresponde a uma estrutura tripartida semelhante
Os três golpes em Hiram fazem, portanto, parte de uma sabedoria universal : que a verdadeira transformação exige a morte completa em todos os níveis do ser.
Da Morte à Ressurreição: O Ciclo Iniciático Completo
Embora o detalhe dos três golpes se concentre na morte, nunca devemos nos esquecer de que essa morte é apenas metade do mistério iniciático. Os três golpes são seguidos, na cerimônia, pela ressurreição.
Hiram não está definitivamente morto. Após o tempo de descanso no túmulo simbólico, ele é redescoberto. Após três dias (de acordo com a lenda completa), seu corpo foi exumado e ele foi elevado a uma nova vida, não como um retorno à existência anterior, mas como uma passagem para um estado superior.
É essa compreensão de todo o processo que determina o significado mais profundo dos três golpes. Analisados isoladamente, são simplesmente tragédias. Integradas ao ciclo iniciático completo, eles constituem a fase necessária da transformação. O iniciado mestre não é quem sobreviveu aos três golpes. Ele é quem aceitou morrer pelos três golpes e que volta transformado, realizado.
Na continuação do ritual de exaltação, o candidato é elevado pelos irmãos. Frequentemente, são os próprios três agressores que o ressuscitam, simbolizando que aqueles que desferem os golpes também têm o poder de ressuscitar. Esse paradoxo é fundamental: não existe uma dualidade irremediável entre agressores e a vítima. Todos participam do mesmo drama iniciático. Os agressores não são vilões; Eles são agentes de transformação, desempenhando o papel que o drama cósmico exige.
O Significado Cósmico e Temporal dos Três Golpes
Hiram não é simplesmente um homem que morre. Na cosmologia maçônica, ele representa o Logos criativo, a palavra divina que se encarna na matéria para criar o templo (o universo, o microcosmo humano). Sua morte é, nesse sentido, uma representação da morte cósmica : a retirada do princípio criativo da manifestação visível. Essa morte não é o oposto da criação; é o seu ritmo. Como o oceano que flui para dentro e para fora, a criação emana do centro divino e está constantemente sendo absorvida por ele. Os três golpes são os três ritmos deste movimento cósmico:
O primeiro golpe: a primeira criação, a emanação do Um para os Muitos.
O segundo golpe: a diferenciação progressiva, a manifestação cada vez mais densa.
O terceiro golpe: a reabsorção
O uso especial dos rolos de papel
A legenda de uma gravura do século XVIII, Assembleia dos Maçons para uma Recepção de Mestres, explica o lugar de três “Irmãos com Rolos de Papel”: entre os irmãos reunidos ao redor do “desenho”, há três, um estacionado ao sul, outro ao norte e o terceiro no ocidente, cada um segurando um rolo de papel escondido sob seu avental (Louis Travenol, Novo Catecismo dos Maçons, p.78

Considerando os vários textos que evocam o uso desses rolos de papel (ou papelão), podemos identificar dois usos diferentes: substituição de ferramentas, ou acompanhamento de uma provação.
A substituição das ferramentas (malhos), usados para golpear o candidato antes ou durante a narração mítica.
Pode-se supor que o uso de rolos de papel, durante a cerimônia épica da concessão do grau de Mestre, substitui o das ferramentas que atingem o Mestre Hiram, de modo que, sem dúvida, é menos doloroso; “Assim, em vez de um malho, os vigilantes seguram nas mãos um rolo de papel grosseiro (nove polegadas de circunferência e dezoito polegadas de comprimento [na narrativa do mitodrama. Eles substituem, durante o ritual, a régua e o esquadro de ferro colocados em cada altar de seus oficiais], […] enquanto o Venerável enfeitou seu malho em ambas as extremidades” F.-T. Bègue-Clavel, Histoire pittoresque de la Franc-maçonnerie et des sociétés secrètes anciennes et modernes (ilustrada com 25 belas gravuras em aço, 2ª ed. Paris, 1843).
O acompanhamento de uma provação no momento em que o destinatário pisa sobre o cadáver do Mestre Hiram. Até o século XVII, em toda a Europa, entre todas as ordálias (julgamentos de Deus), acreditava-se que, se o corpo de um homem assassinado fosse colocado próximo ao suposto assassino, o corpo sangraria se o suspeito fosse realmente culpado; Era “a voz do sangue”, a acusação pela vítima.
Esse uso dos rolos de papel é confirmado no Ritual do 3º grau do Marquês de Gages : “O destinatário tendo respondido que não sente nada em sua consciência que pudesse censurá-lo com a menor indiscrição, o Mestre diz: É demais e, como sua obstinação continua até este ponto, Venerável Irmão 1º Vigilante.·. tragam este infeliz Companheiro até mim aos pés do trono da verdade e da justiça pela marcha dos Mestres. O 1º. vigilante o conduz até o altar, passando-o sobre o túmulo pelo Ocidente com o pé direito em direção ao sul. Em seguida, aplica-se um grande golpe com o rolo de papelão ou papel sobre o ombro esquerdo do candidato e então ele é obrigado a partir com o pé esquerdo do Sul para ir ao Oriente pelo Norte; ele recebe um golpe semelhante no ombro direito e depois deixa o Norte para ir para ao Oriente onde recebe um golpe semelhante na cabeça no Oriente.”
Já em 1758, a divulgação do abade Pérau, A Ordem dos Maçons Traídos e o Segredo dos Mopses revelado indica que, antes do início da cerimônia de exaltação, “três irmãos são destacados para o norte, sul e oriente, cada um segurando um rolo de papel ou algum outro material flexível, escondido sob a roupa” (pp. 97 e 98). Durante a passagem sobre o esquife, enfatiza-se que “é necessário observar que, a cada passo do candidato, os três irmãos de quem falei, que seguram um rolo de papel, cada um lhe dá um golpe nos ombros quando passa por eles.” O Regulador da Grande Loja de 1801 confirma essa prática.
Ainda hoje, encontramos no ritual do RER: três rolos de papel ou papelão serão colocados sobre o tapete no Ocidente, Sul e Norte, com os quais o Candidato será levemente golpeado nas costas, ao dar os três passos do Mestre, pelos Irmãos que receberam a ordem do Venerável Mestre (Ritual do grau de mestre no RER, escrito no Convento de 1782, concluído por J.-B. Willermoz em 1802).
Esses golpes são um lembrete das três estações da via sacra onde Jesus cai (estações 3, 7 e 9) Pode-se até pensar que foi sob o efeito de golpes cruéis que Jesus caiu, não apenas sob o peso de sua cruz; isso pode ser visto na interpretação dada pelos Catorze esmaltes conhecidos como de Limoges, representando as estações da via sacra na igreja do século XVII de Notre-Dame-des-Champs em Avranches.

O significado desses golpes permanece incerto e não exclusivo: suavizar os golpes infligidos pelos três maus companheiros, lembrar as Estações da Via Sacra de Jesus, …?
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