REVISTA BIBLIOT3CA

Leituras Selecionadas do Editor-Chefe J.Filardo

A Futuridade do Arquétipo

Tradução J. Filardo

Contribuição Bro. John Slifko

 

Por Cologero

 

Em verdade, em verdade vos digo que quem não recebe o reino de Deus como uma criança não entrará nele.
~ Marcos 10:15

O clímax da Carta sobre o Mago é a transformação do arquétipo Criança ou Puer no arquétipo do Eu representado pelo Mago.

Analogia e Brincadeira

O valor de uma analogia depende da qualidade da experiência de alguém.  Mas o método de analogia corresponde à “concentração sem esforço”. Especificamente, a analogia é diretamente intuída ou não é.  O intelecto racional não é de ajuda, exceto como trabalho preparatório.  Essa preparação exige o acúmulo de experiências e estudo dos ensinamentos. Só assim a faculdade de percepção imediata de correspondências análogas pode ser desenvolvida.  Nós lemos na Carta:

A prática da analogia no plano intelectual da consciência não exige, de fato, nenhum esforço; qualquer um percebe (“vê”) correspondências análogas ou não as percebe ou as “vê”. Assim como o mágico ou malabarista teve que treinar e trabalhar por um longo tempo antes de atingir a capacidade de concentração sem esforço, similarmente, aquele que faz uso do método de analogia no plano intelectual deve ter trabalhado muito – ter adquirido longa experiência e ter acumulado os ensinamentos que ela exige – antes de atingir a faculdade de percepção imediata de correspondências análogas, antes de se tornar um “mago” ou “malabarista” que faça uso da analogia dos seres e das coisas sem esforço como em um jogo.

Como uma forma de “brincadeira”, o método de analogia se torna quase infantil.  A criança brinca em vez de trabalhar, mas está concentrada, com uma atenção completa e indivisa.  Assim, o Arcano do Mago representa o gênio intelectual que Tomberg define como a visão da unidade de seres e coisas através da percepção imediata de suas correspondências – através da consciência concentrada sem esforço.

A Criança Interior

Analogamente, a atitude da criança precisa ser nossa atitude quando nos aproximamos do reino de Deus: para mais uma vez se tornar inteiro e indiviso.  Para ter certeza, isso não significa, em absoluto, tornar-se pueril; parecer infantil não é o mesmo que ser infantil.

Há conversas hoje sobre o despertar da “Criança Interior” como se isso fosse algo difícil, para não dizer um resultado desejável. Se você faz beicinho quando não consegue o que quer, você a acordou.

Não, prática psicocirúrgica é a transformação da consciência subindo de um plano a outro. Assim, tornar-se novamente como uma criança significa recapitular as qualidades infantis em um nível mais elevado de consciência, isto é, o gênio intelectual.  A criança “carrega apenas cargas fáceis e torna todos os seus jugos leves”.

Harmonia e Equilíbrio

Tomberg refere-se a Carl Jung e Friedrich Schiller para ilustrar seu ponto.  O Mago representa o homem

  • Que alcançou harmonia e equilíbrio
  • Entre a espontaneidade do inconsciente (conforme entendido por Jung)
  • E a ação deliberada da consciência (como um “eu” ou ego)

Em outras palavras, esse estado é a síntese dos elementos conscientes e inconscientes da personalidade.  Isso corresponde ao processo de “individuação” conforme descrito por Jung. Esta é a passagem de Ensaios sobre uma ciência da mitologia de Jung e Kerenyi referenciada na carta.

A Ciência da Mitologia[1]

Uma das características essenciais do tema criança é sua futuridade. A criança é um futuro em potencial, portanto, a ocorrência do motivo criança na psicologia do indivíduo significa, via de regra, uma antecipação de desenvolvimentos futuros, embora à primeira vista possa parecer uma configuração retrospectiva.  A vida é um fluxo, um fluxo para o futuro, e não uma parada ou retorno de líquido, portanto, não é surpreendente que muitos dos salvadores mitológicos sejam deuses crianças. Isso corresponde exatamente à nossa experiência na psicologia do indivíduo, que mostra que a “criança” abre o caminho para uma futura mudança de personalidade.

No processo de individuação, ela antecipa a figura que vem da síntese de elementos conscientes e inconscientes na personalidade. Ela é, portanto, um símbolo unificador que une os opostos; um mediador, portador de cura, isto é, aquele que faz o todo. Por ter esse significado, o motivo criança é capaz das numerosas transformações mencionadas acima: ele pode ser expresso pela redondeza, pelo círculo ou esfera, ou então pela quaternidade como outra forma de totalidade.  Eu chamei de  “eu” essa totalidade que transcende a consciência. O propósito do processo de individuação é a síntese do eu.  De outro ponto de vista, o termo “enteléquia” pode ser preferível a “síntese”.  Existe uma razão empírica pela qual “enteléquia” é, em certas condições, mais adequada: os símbolos da totalidade frequentemente ocorrem no início do processo de individuação, na verdade, eles podem ser observados nos primeiros sonhos da primeira infância.

Essa observação diz muito sobre a existência a priori da totalidade potencial, e, por isso, a ideia de enteléquia se recomenda instantaneamente. Mas na medida em que o processo de individuação ocorre, empiricamente falando, como uma síntese, parece, paradoxalmente, que algo já existente estava sendo montado.  Desse ponto de vista, o termo “síntese” também é aplicável.

Enteléquia e Síntese

Essa passagem de Jung e Kerenyi ilustra lindamente os pontos de Tomberg. A criança não é o objetivo, mas ao invés, ela aponta o caminho até o objetivo. De uma forma instintiva, a criança une os opostos dos elementos conscientes e inconscientes. Isto é, ela é a analogia do Eu, que é a culminação do processo de individuação.

O eu é o resultado de uma síntese, isto é, dos elementos conscientes e inconscientes.  É também uma enteléquia, isto é, aquela atualização de um potencial. Em outras palavras, o Eu existe primeiro como uma possibilidade, mas o trabalho de síntese o torna real.

Note como essa compreensão esotérica da atualização difere das concepções comuns hoje em dia.  O Eu representa a Totalidade; ele é transcendente, não empírico. O caminho Hermético leva à totalidade, a um único ser unificado.

Os ideais contemporâneos de auto-realização envolvem a realização de diferentes possibilidades empíricas em si mesmas.  Assim, pode-se ser um padeiro ou um cientista de foguetes, um amante e uma mãe, um homem ou uma mulher, à vontade.  As únicas exigências são desejo e oportunidade. No entanto, é claro que nenhuma dessas escolhas representa a totalidade, mas apenas uma abundância de partes.

O Verdadeiro e o Belo

Friedrich Schiller descreve o mesmo processo de maneira diferente como a síntese de:

  • Consciência intelectual que impõe deveres e regras
  • A natureza instintiva como a motivação para brincar (Spieltrieb)

verdadeiro e o desejado [a palavra é “intenção” em alemão] encontra sua síntese no belo, que tem dois efeitos:

  • Ele alivia o fardo associado aos deveres do verdadeiro
  • Ele levanta a escuridão das forças instintivas ao nível da luz e da consciência

Então, quem vê a beleza no que é verdadeiro, não pode deixar de amá-la.  Então o elemento de restrição imposto pelo dever desaparecerá, tornando-se, ao invés, um deleite. Ter em mente que não é todo desejo que é belo, mas apenas aqueles que correspondem à verdadeira natureza das coisas. Quando isso é alcançado:

O trabalho é transformado em brincadeira e a concentração sem esforço torna-se possível.

 


 

 

Publicado originalmente em  MEDITAÇÕES SOBRE O TAROT

 

Nota:

[1] de Ensaios sobre uma ciência da mitologia de Jung e Kerenyi
Agradecemos a Matthew Anderson por localizar a passagem de Jung / Kerenyi.

 

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