Bibliot3ca FERNANDO PESSOA

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O CHAMADO DO ANJO:  O ANJO E O PROCESSO JUNGUIANO DE INDIVIDUAÇÃO

Tradução J. Filardo

Por  Scott Duncan Gilliam

O Anjo de William Blake

CAPÍTULO I

Introdução

Vinde a mim, tu que te levantas dos quatro ventos, jubiloso Bom Daimon, para quem o céu é teu lugar de festa!… Tu és a poderosa serpente, o chefe de todos os deuses, ó tu que possuis o início do Egito, e o fim de todo o mundo! (Mead, 1992, p. 67)

Visão geral

Cada um de nós, seres humanos, tem um amigo invisível e um guia para nos acompanhar em nossa jornada pela vida e pela morte. Quer se manifeste como uma voz mansa e delicada, um desejo inato, uma intuição vívida ou uma entidade real, cada um de nós tem um teleos, ou propósito, específico para a jornada de nossa própria alma, negociando a relação entre o Self e o Ego de acordo com nossa singularidade. Esse amigo, às vezes chamado de “o Outro” pelos junguianos, irrompe na consciência em momentos cruciais para o equilíbrio da vida psicológica e o caminho até a individuação. Esse amigo, chamado O Sagrado Anjo Guardião pelos magos, ou praticantes da Cabala Hermética, é o Anjo (o termo que usarei neste artigo) que carrega a vocação e é identificado com o chamadopropósito de nossas vidas e nos orienta no caminho de nos tornarmos pessoas, o processo que Jung chamou individuação. Por meio desse processo misterioso, o Anjo negocia a tensão dos opostos a serviço do Self (eu) e, como guardião no limiar entre o consciente e o inconsciente, atua como hospedeiro dos invisíveis: mensageiro dos deuses.

Este artigo é um estudo do misterioso amigo chamado Anjo. O conceito do Anjo, ou Daimon, é um conceito antigo cujas origens chegam ao antigo patrimônio cultural da civilização. No mito de Ur de Platão, Sócrates descreve como as almas são enviadas para este mundo, cada uma com um Anjo ou Daimon, “que a alma escolheu para ser o guardião de sua vida e cumprir o que ele escolheu” (Shrine of Wisdom, 1984, p. 34). Em A República, Platão disse,

Quando todas as almas escolheram suas vidas, elas se apresentaram a Lachesis. E ela enviou com cada uma, como guardião de sua vida e realizador de sua escolha, o Daimon que ela havia escolhido, e esta divindade levou a alma primeiro a Cloto, sob sua mão e seu giro do fuso para ratificar o destino de sua sorte e escolha, e após o contato com ela, o daimon novamente levou a alma à fiação de Átropos para tornar a teia de seu destino irreversível, e então, sem olhar para trás, passou sob o trono da Necessidade. (citado em Hillman, 1996, p. x)

Assim, o Anjo ou Daimon não é apenas o guardião, mas também o guia durante nossas vidas humanas. Está ligado à vocação individual de cada um, o caminho que a individuação tomará. Em O código da alma, James Hillman (1996) explicou que o Daimon é a semente por trás do chamado que realiza o destino de alguém. Sua ‘teoria da bolota’ sustenta que “cada pessoa carrega uma singularidade que pede para ser vivida e que já está presente antes que possa ser vivida” (p. 6).

Este guardião da vida e mensageiro do chamado da alma é uma figura importante em inúmeras civilizações:

É ensinamento de Moisés que cada crente tem um anjo para guiá-lo como mestre e pastor” (São Basílio); e Cristo diz dos “pequeninos” que seus anjos no céu sempre contemplam a face do Pai. Na crença zoroastrista, a alma após a morte encontra uma bela donzela que anuncia: “Eu não sou outro senão sua própria consciência pessoal. Tu me amaste nesta forma de sublimidade, bondade e beleza em que agora apareço para ti”. No momento de sua ordenação, um mestre taoísta recebe um espírito guardião, chamado pen-ming, que atua como oficial de ligação especial para apresentar os documentos do padre aos senhores do cosmos. Alguns autores (incluindo Filo) acreditam que cada alma possui um anjo bom e um anjo mau, que lutam ao longo da vida por sua posse. (Wilson, 1994, p. 73)

Quer se manifeste como um espírito guardião, ancestral, familiar ou parte da alma, o Anjo é um arquétipo persistente em muitas civilizações. Devido ao escopo limitado deste artigo, e no interesse do foco, o estudo atual é limitado às manifestações ocidentais do Anjo: Daimon, Gênio e Anjo da Guarda.

Este artigo examina esse arquétipo multifacetado. Através das lentes da fenomenologia, a história e a presença desse guia e guardião interior são examinadas, e através das lentes da psicologia profunda, sua mensagem amplifica sua presença numinosa e impressionante. Dessa forma, estou cortejando o Anjo, tão crucial para a vida psíquica e o processo de individuação, e convidando sua presença para esta obra e para a vida de quem possa lê-la. Conforme apresentado aqui, o Anjo é um guia, comum a todos, que negocia o diálogo entre a verdade profunda das aspirações da alma e os desejos egoístas. Além disso, o guia é um guardião não apenas da vida física, mas também da vida psicológica. Este aspecto do Anjo traz não apenas respostas, mas também uma pergunta:

A pergunta do anjo é uma sobre a qual poderíamos refletir sem parar. De onde viemos? Para onde estamos indo? As respostas que você e eu damos a essas perguntas revelam nossos verdadeiros valores… o que realmente acreditamos ser o propósito da vida. (Finley, 1996, p. 15)

Declaração de tese

O Anjo é um arquétipo com profundo poder e tremenda importância para a psique. Ele é um mensageiro do chamado da alma e um arquétipo que orienta o processo de individuação. Este artigo examina sua origem e teleos à medida que ocorrem ao longo dos tempos e na vida cotidiana moderna. Sua mensagem misteriosa é destacada apontando para uma essência arquetípica que indica uma mensagem pessoal para cada pessoa.

Como arquétipo, o Anjo pertence à porção da psique que Jung chamou de inconsciente objetivo. Os arquétipos são fatores psicoides (Storr, 1983, p. 26), significando que podem se manifestar nos níveis físico e mental, e podem ser vivenciados em sincronicidades. O inconsciente é o lugar atemporal onde existem os arquétipos, unindo-se, na vida simbólica, aos antigos.

 Como símbolo, especialmente aquele que une os opostos, o Anjo tem vida e também um poder transformador na própria vida. Jung achava que os símbolos eram coisas vivas e que o propósito deles era transformar a libido, ou energia psíquica, de uma forma para outra (Eisendrath, 1997). Anthony Storr (1983) explicou que Jung descrevia o inconsciente coletivo como consistindo em motivos mitológicos, ou imagens primordiais às quais deu o nome de “arquétipos” (pp. 16-27). Esses potenciais se apresentam como ideias e imagens; sua presença é sentida como numinosa, como tendo um profundo significado espiritual e pode possuir uma pessoa, levando-a a se comportar de maneiras típicas. Os arquétipos são frequentemente descritos como filogenéticos em sua origem, mais próximo a instintos ou padrões de comportamento típicos do que a princípios metafísicos, porém este trabalho adota uma abordagem mais metafísica, descrevendo o Anjo como uma entidade que faz parte da vida psíquica do Self (Eu). Ele é autônomo e a serviço do Self, o que Jung chamou de princípio ordenador e integral da psique (Salman, 1999).

O Anjo é um símbolo reconciliador que resolve a tensão interior a serviço do Ser (Eu). Como mediador entre opostos, o Anjo serve como um mensageiro entre as posições conscientes e inconscientes às vezes opostas na vida. O Anjo se manifesta em pontos cruciais da vida de uma pessoa para amadurecer seu Self no caminho predeterminado pelos desejos mais íntimos da alma. Esses pontos cruciais, chamados naufrágios por Robert Romanyshyn (1994b) são pontos onde o ego é ameaçado de aniquilação e sua relação com o Self (Eu) é reajustada. Romanyshyn explicou que o Anjo traz um convite aos naufrágios na vida de uma pessoa. Este convite é uma oportunidade que o Anjo pode guardar, o processo transformador conhecido como função transcendente. C.G. Jung (1916/1969) disse que a função transcendente une os opostos de consciente e inconsciente de maneiras que afetam uma mudança psicológica de atitude.

As tendências do consciente e do inconsciente são os dois fatores que juntos compõem a função transcendente. Ela é chamada “transcendente” porque torna a transição de uma atitude para outra organicamente possível, sem perda do inconsciente. (pág. 279)

Essa mudança de atitude pode resultar em pequenas mudanças na personalidade, uma nova abordagem da vida ou mesmo uma nova identidade.

Embora o Anjo não seja idêntico à função transcendente, a mensagem que ele carrega e a experiência que transmite constituem um convite à transcendência. A presença do Anjo indica uma incursão do reino transcendente do Self, a psique objetiva, e serve para unir-se a ela. James A. Hall (1983) esclareceu ainda mais essa relação entre um símbolo reconciliador, ou Anjo, e a função transcendente que o precede. “A capacidade da psique objetiva de formar símbolos reconciliadores é chamada de função transcendente porque pode transcender a tensão consciente dos opostos” (p. 13). O símbolo reconciliador do Anjo atua como mensageiro e faz a interface entre o Self e o ego e, como tal, anuncia uma oportunidade de transformação.

Um estudo do Anjo é importante para aprofundar a psicologia e a formação da alma individual (a arte de interiorizar a vida através da reflexão) por muitas razões. Primeiro, como um Arquétipo de individuação e guardião de sua verdadeira natureza ou vocação particular, o Anjo é um importante aliado no trabalho de se tornar uma pessoa, e pode ser invocado para auxiliar no trabalho entre terapeuta e cliente. Outra razão pela qual o trabalho com o Anjo é importante é que ele ajuda no trabalho de trazer a alma de volta à psicologia e à vida cotidiana. Quando se invoca o Anjo, honra-se a terra de onde vem, o reino da imaginação, e, prestando atenção à vida simbólica, volta-se “ao reino intermediário da ficção, do mito [que] leva a uma familiaridade conversacional com o cosmos que habitamos” (Hillman, 1991, p. 58). Finalmente, estudar o Sagrado Anjo Guardião é participar do estudo dos antigos filósofos e mistérios que fizeram parte da recuperação da alma na psicologia a partir de Jung até os atuais pós-junguianos como James Hillman. “A reintrodução do imaginário na psicologia ocidental foi até mesmo chamada de o ‘próximo grande evento após os insights de Freud sobre a interpretação dos sonhos’” (Dennis, 2001, p. 46). Este trabalho é, portanto, parte de um grande renascimento da alma e da imaginação na psicologia.

Interesse pessoal

Estou interessado, até mesmo fascinado, pelas muitas facetas do Anjo. Fico mais possuído pela numinosidade de sua presença à medida que me aprofundo no Anjo e começo a saber o que significa manter uma conversa com esse guia invisível. Enquanto contemplo o Anjo e escrevo este artigo, sou puxado cada vez mais fundo no mundo do qual o Anjo, como Mercúrio, carrega sua mensagem: o mundo imaginário da psique. Meu próprio processo com o Anjo confirma minha crença de que é uma presença poderosa que deve ser encontrada. Através deste processo, minha vida tornou-se mais infundida com sua presença numinosa, à medida que sincronicidades e mensagens ocultas aparecem em todos os lugares. Estou possuído e fascinado pela forma como esse guardião e agente do Self aguça meu ouvido ao seu chamado enquanto prossigo com este trabalho. Por meio de exploração astuta e elucidação intelectual, espero capacitar o leitor a entrar neste reino e cortejar seu próprio Anjo.

Como um agente do Self, o Anjo pode usar qualquer uma das experiências de alguém para ligá-lo ao mundo oculto profundo sob todas as coisas: o inconsciente ou Alma do Mundo. Isso leva ao meu interesse adicional: trazer a alma de volta ao mundo, honrando a imaginação, a vida interior e a Alma do Mundo. Descobri que este Anjo é um psicopompos, servindo para criar sentido na vida do ser humano e plenitude em sua jornada de autodescoberta. O Anjo pode ou não responder diretamente às nossas perguntas, perguntando em vez de responder, ou apontando para um mistério que só a experiência pode revelar. Às vezes o Anjo aparece através de uma revelação feroz, outras vezes como uma intuição tênue. Desta forma, o Anjo é um guardião gentil ou uma presença impressionante que conduz a pessoa ao longo do caminho até seu destino interior.

Fui apresentado ao Anjo pelo título “O Gênio”, quando entrei para a Ordem Hermética da Aurora Dourada. Mais tarde me deparei com o título “O Sagrado Anjo Guardião” nos escritos de Aleister Crowley (1973), um adepto desta ordem. Ambos os títulos do Anjo, em última análise, vêm da Tradição de Mistério Ocidental conhecida como Cabala Hermética.

A Cabala Hermética nasceu no renascimento quando o Neoplatonismo, a Cabala Hebraica e o Hermetismo se juntaram à alquimia e à teurgia. “A Ordem Hermética da Aurora Dourada, uma moderna escola de mistérios da Cabala Hermética [foi] formada em 1887 por maçons e rosacruzes; ensinava uma técnica psico-espiritual que conduz à iluminação, à ilustração” (Regardie, 1997, p. 12). De acordo com Regardie, um dos objetivos de todas essas práticas é alcançar o Gênio Superior, ou Sagrado Anjo Guardião de cada um.

Os praticantes da Cabala Hermética às vezes são chamados de magos e a prática particular da Cabala Hermética na qual estou focando é denominada teurgia, ou magia. Aleister Crowley (1973), um cabalista vitoriano, deu esta definição: “Magia é a Ciência e Arte de fazer com que a mudança ocorra em conformidade com a Vontade” (p. 131). Ele também afirmou que “Magia é a ciência de compreender a si mesmo e suas condições” (p. 131). Embora existam muitos tipos de magia em todas as culturas, tanto primitivas quanto modernas, a forma de magia que os cabalistas herméticos praticam às vezes é chamada a magia da luz que denota um sistema de teurgia projetado para levar alguém à iluminação, ou à realização de sua própria vontade e natureza verdadeiras, através do conhecimento e conversação do próprio Anjo. Para uso em círculos esotéricos, prefiro a ortografia de Crowley de Magick com um k, para alinhar com esta forma mais sublime de arte cerimonial, embora eu prefira a definição dada por Jacob Boehme (1620), um místico do século XVI, “Magia é aquilo que atravessa a imaginação em direção ao Mysterium Magnum” (5:23). Neste trabalho utilizo a grafia “magia”, para maior clareza e consistência.

Um dos temas subjacentes a este trabalho é a semelhança entre a profundidade psicológica e a visão cabalística da psique e do universo. Ao fazer este estudo, invoco o Anjo para ajudar não apenas na reconciliação dos opostos dos humanos, mas também na reconciliação dos opostos da filosofia e da ciência, e dos mundos moderno e antigo. Este trabalho investiga a camada mágica profunda do inconsciente onde o tempo e o espaço se encontram e até mesmo os antigos vêm nos encontrar aqui no mundo de hoje em um terreno comum. Edward Whitmont (1961) escreveu sobre a camada mágica do inconsciente útil para esta pesquisa:

Magia… refere-se a certos fenômenos, físicos e psicológicos, que foram reconhecidos de uma forma ou de outra em todas as culturas passadas. Ele os postula, hipoteticamente, como expressões de um campo de energia específico – outra dimensão da experiência – subjacente à realidade familiar tangível…. Assim, refere-se a uma dimensão particular e típica do funcionamento psicológico. Sua expressão assume a forma de participação mágica, sincronicidade, ritos mágico-religiosos e fenômenos de transformação. Em suma, estamos investigando os campos objetivos da dynamis arquetípica. Isso não é meramente primitivo e regressivamente inferior; pode também, criativamente, estender e ampliar a consciência. (pág. 180)

A aplicação e exploração hermética desta camada é denominada magia, ou teurgia, que, como a Alquimia, intitula seus teleos “o summum bonum” ou “a grande obra” (Regardie, 1997) seu trabalho é realizado com a ajuda do próprio Anjo alcançado através do conhecimento e conversa do Sagrado Anjo Guardião. Conhecimento e conversae o trabalho finalde descobrir e realizar a verdadeira vontadee naturezaé alcançado por meio de um conjunto de iniciações graduais, que orientam o candidato em uma busca não muito diferente da individuação, que, “na visão de Jung, é uma jornada espiritual; e a pessoa que nela embarca, embora não subscreva nenhum credo reconhecido, estava, no entanto, perseguindo uma busca religiosa” (Storr, 1983, p. 229).

Este trabalho se desenvolveu a partir do meu desejo de reunir a linguagem e as práticas da psicologia e a prática da Cabala Hermética de uma maneira que nutrisse e aprofundasse ambos os sistemas de conhecimento de uma maneira comovente. Anos atrás, eu estava farto das tentativas de modernizar a magia helenística e neoplatônica, introduzindo a linguagem mecanicista e, mais recentemente, a linguagem do tipo computador, como a programação. Embora existam elementos técnicos e mecanicistas em qualquer sistema formalizado de pensamento, eu acreditava que também existem o que chamo de aspectos mais artísticos, imaginativos ou com alma, que não são adequadamente descritos apenas pela linguagem técnica. Achei que a Qabalah, como a psicologia estivesse perdendo sua alma e isso tinha a ver com a necessidade de uma linguagem poética, talvez uma linguagem do inconsciente que a psicologia junguiana, a Qabalah e a alquimia têm em comum.

Descobri que muitas das ideias por trás da psicologia profunda e da prática da Cabala Hermética são de natureza muito semelhante: ambas trabalham com o inconsciente e o imaginário de modo que podem mobilizar forças poderosas a serviço da transformação. Como Jung, encontrei um tipo de psicologia e uma maneira de imaginar que estava imediatamente à vontade com minha psique. Jung afirmou,

Eu logo vi que a psicologia analítica coincidia de uma maneira muito curiosa com a alquimia [e, a prática da Cabala Hermética no meu caso]. As experiências dos alquimistas eram, em certo sentido, minhas experiências, e o mundo deles era o meu mundo. Isso, é claro, foi uma descoberta importante: Eu havia tropeçado na contrapartida histórica da minha psicologia do inconsciente. (citado em Storr, 1983, p. 252)

Depois de entrar na pós-graduação e descobrir mais semelhanças entre a jornada do iniciado, o trabalho do alquimista e a Individuação Junguiana, decidi trabalhar no Arquétipo do Sagrado Anjo Guardião.

Teleos

O teleos ou objetivo deste trabalho é a ampliação do arquétipo do Anjo; o resultado pretendido é um conhecimento e uma conversa com o Sagrado Anjo Guardião. É mais do que um estudo de um arquétipo do Anjo ou do processo de individuação que ele orienta. É mais importante um estudo que aprofundará a própria experiência do Anjo dos leitores e o processo de ordenação que ele inicia de acordo com os ditames do Self. Ao olhar para o Anjo, desejo ajudar os outros a se envolver com seu próprio Anjo, a mensagem que ele contém e a jornada que ele conduz. Ao envolver o Anjo, espero estimular um relacionamento que ajude os outros a encontrar seu próprio relacionamento com esse guia interior. Esta não é apenas uma pergunta ou questionamento sobre o Anjo, mas é uma busca profunda por sua mensagem oculta. Esta é uma busca pelas águas da vida e da morte que recupera as memórias de seu verdadeiro destino, um destino que fica entre o mundo diurno do ego e a meia-noite da alma, no reino liminar do Anjo.

Este estudo hermenêutico participa do grande retorno à sabedoria dos antigos que a psicologia profunda está fazendo. Dois exemplos específicos são os trabalhos de Carl Jung e James Hillman: Carl Jung concilia seu trabalho sobre o inconsciente com os alquimistas medievais, e James Hillman enriquece sua pesquisa com as filosofias de Jâmblico, Heráclito e Platão. Conforme mencionado anteriormente, este trabalho pretende contribuir para esse renascimento da psicologia, um renascimento da alma no estudo da natureza humana que se realiza recuperando sensibilidades e valores mitopoéticos antigos. A obra de Jung é importante para este artigo, pois seu trabalho com o inconsciente, as imagens internas e seu próprio Daimon o convenceram da autonomia da psique e o levaram a criar um modelo do inconsciente e do processo de individuação que se encaixa bem o mundo dos filósofos herméticos. A obra de James Hillman reforça esse trabalho e meu chamado de várias maneiras: primeiro, ele chama a pessoa para a vida simbólica por meio de uma psicologia da alma que serve à alma e à imaginação; em segundo lugar, em O código da alma (1991), ele também identifica o chamado e o caráter da psique de uma pessoa com o Daimon, ou Anjo. Por fim, Hillman lembra que a imagem é o Anjo: “As imagens são daimones oferecendo indicações do destino” (p. 50), e de fato, todas as mensagens da psique são anjos, mensageiros dos deuses. “Uma imagem particular… é um anjo necessário esperando por uma resposta” (p. 51).

É minha esperança que este trabalho aumente o autoconhecimento e ajude no despertar espiritual do mundo. O movimento em direção ao autoconhecimento é um dos aspectos mais importantes da vida de uma pessoa e é cada vez mais importante hoje, dado o materialismo da ciência, filosofia e psicologia modernas. Concordo com filósofos antigos como Buda e Platão:

De todas essas calamidades, a causa última é a ignorância, “a negligência de nós mesmos”, como Platão a chama, a omissão de descobrir a natureza da alma e o propósito de sua vida na terra… . Além disso, está com ele o Anjo da Guarda que ele mesmo escolheu e que espera com paciência divina até que a alma de sua própria vontade queira começar com seriedade real o trabalho que veio fazer. (Santuário da Sabedoria, 1984, p. 38)

Escrever este trabalho me ajudou a conversar com meu próprio Anjo, a encontrar minha própria voz e responder ao meu chamado. Embora o conhecimento e a conversa com o Anjopossam ser uma única ocorrência discreta, o caminho ao qual ela conduz pode representar uma jornada sem fim.

Este trabalho é para o bem da alma do mundo em sua forma individual e coletiva: para o bem do indivíduo que busca significado, e a alma do mundo ressequida por humanos tentando conquistar em vez de cortejar os mistérios da natureza. Este trabalho está, portanto, de acordo com o lema do Pacifica Graduate Institute: Animae Mundi Colendae Gratia (Pelo Bem de Cuidar da Alma do Mundo).

Conclusão

Através de um encontro com o Anjo, a vida de uma pessoa pode ser transformada de maneira significativa. Um exame do Anjo é também um exame da vida interior, a natureza da alma e seu conteúdo, e isso inicia um poderoso processo de se tornar uma pessoa completa. Espera-se que este trabalho contribua para uma psicologia com alma e talvez um mundo mais com alma. Acredito que todos nós, como seres humanos, precisamos atender ao chamado do Anjo, aquela voz mansa e delicada, e acordar para a vida interior da psique. É hora de apreciarmos mais as coisas, começando com as nuances da vida e as sincronicidades significativas que nos esperam descobrir. Este trabalho também tem relevância para a terapia, pois o Anjo é um potente guia e anfitrião dos invisíveis que cortejamos na jornada do autoconhecimento. Isso foi comprovado em minha própria vida e prática, uma vez que o Anjo visitou meus clientes e eu mesmo em nossas vidas individuais e nosso trabalho em conjunto em várias ocasiões, criando maior profundidade e significado, auxiliando milagrosamente no trabalho enquanto me guiava na redação deste artigo.

À medida que a história do chamado do Anjo se desenrola, os leitores seguirão, juntando-se aos antigos naquela terra antiga e até atemporal da psique e talvez um milagre ocorra para o leitor: uma aceleração psíquica, até mesmo conhecimento e conversa com seu Anjo.

A revisão de literatura a seguir examina as raízes etimológicas e históricas do Anjo na Cultura Ocidental e explora a história de três manifestações persistentes do Anjo, a saber, o Daimon, o Gênio e o Anjo da Guarda. O trabalho de filósofos, poetas, místicos e psicólogos de profundidade antigos e modernos é apresentado e discutido em termos de como sua presença se manifestou à humanidade através dos tempos. O Capítulo III, “O Anjo e o Processo de Individuação”, revisa a individuação como uma jornada espiritual, o Anjo como seu guardião e guia, e como os encontros com o Anjo podem enriquecer nossas vidas enquanto indivíduos atualizados e terapeutas praticantes.

O Anjo andrógino nos guia aos mistérios ocultos que ele guarda. O Anjo ambíguo e às vezes até ambivalente pode nos desafiar a morrer para nossas velhas atitudes e encontrar uma nova vida em uma compreensão revisada. Em vez de fatos concretos, o Anjo fornece pistas misteriosas sobre o significado da vida e sua participação nela. Quando alguém explora, disposto a ser guiado, o Anjo participa voluntariamente: “Quando uma imagem é realizada – totalmente imaginada como um ser vivo diferente de mim – então ela se torna um Psicopompos, um guia com uma alma com sua própria limitação e necessidade inerentes” (Hillman, 1991, p. 56).

CAPÍTULO II

REVISÃO DA LITERATURA

Um arquétipo multifacetado

O Anjo, Gênio ou Daimon é um arquétipo de origem e tradição antigas. Ele se encontra na raiz da filosofia ocidental, esoterismo, misticismo, poesia e psicologia: filósofos, poetas, místicos e psicólogos cortejaram o Daimon desde o início da civilização. De fato, espíritos guardiões foram encontrados no mundo antigo em várias culturas; assim, o arquétipo do Anjo é multifacetado, indicado pelos muitos nomes e símbolos que os antigos atribuíam a este ser:

Durante séculos, procuramos o termo certo para esse “chamado”. Os romanos o chamam de seu gênio; os gregos, seu daimon; e os cristãos seu anjo da guarda. Os românticos, como Keats, diziam que o chamado vinha do coração, e o olho intuitivo de Michelangelo via uma imagem no coração da pessoa que estava esculpindo. Os neoplatônicos se referiam a um corpo imaginário, o oquema, seu suporte pessoal. Para alguns é a Dama da Sorte ou a Fortuna; para outros, um gênio ou jinn, uma semente ruim ou um gênio do mal. No Egito, pode ter sido o ka, ou o ba com quem você podia conversar. Entre as pessoas a quem nos referimos como esquimós e outras que seguem práticas xamânicas, é seu espírito, sua alma livre, sua alma animal e sua alma-alento. (Hillman, 1996, p. 9)

Os antigos da cultura ocidental, abrangendo as tradições egípcia, grega, judaica e cristã, todos concordavam que o homem tinha um destino guiado e guardado por uma espécie de espírito. Esse espírito aparecia como uma serpente para alguns e um pássaro alado para outros, enquanto outros simplesmente o chamavam de vocação, uma voz mansa e delicada que informava aos humanos a intuição mais profunda de sua alma. Este artigo aborda o arquétipo do Anjo através das lentes das tradições de mistério ocidentais, abrangendo especificamente três dos títulos mais usados do Anjo: o Daimon, o Gênio e o Anjo da Guarda.

Em Dicionário de Misticismo e Tradições Esotéricas, Neville Drury (1992) também conecta as ideias do Gênio, Daimon e o Sagrado Anjo da Guarda como um conceito explicando que o guardião vitalício, o Gênio da mitologia romana, se assemelha ao Daimon grego, e que na filosofia oculta uma pessoa de gênio é aquela que está em contato com sua verdadeira vontade e mantém conversas com seu Sagrado Anjo da Guarda.

As páginas seguintes descrevem o que os antigos ancestrais da civilização ocidental disseram sobre o Anjo. Esta viagem hermenêutica estende-se desde a Grécia e Roma Antigas até o Egipto, e depois, antes de iniciar uma resposta criativa, faz uma parada na presença desta imagem em algumas das importantes histórias, vidas de personagens famosos e obras religiosas da nossa cultura.

O Anjo através dos tempos

Raízes do Anjo

A história do Anjo é realmente antiga.Ele aparecia nas escrituras religiosas, como o Bíblia como a voz ou presença do senhor, e era conhecido como Ka e às vezes Ba pelos egípcios.

Provavelmente o primeiro encontro registrado com o Anjo ocorreu na época de Zoroastro, por volta do século V aC. Um anjo chamado Boa mente, ou Mana, veio ao profeta como um mensageiro de Deus.Desde esse relato antigo, a função dos anjos tem sido a de mensageiros.De fato, Robert Hauck (1994) disse: “Eles basicamente não têm essência, mas têm uma função.E a função é sempre inseparável de Deus” (p. 109).

“O termo anjo deriva de uma tradução grega do original hebraico Mal’akh que originalmente significava o ‘lado sombrio de Deus’, mas mais tarde veio a significar mensageiro” (Godwin, 1999, p. 7).A palavra anjo foi introduzida através da tradução grega da Torá conhecida como Septuaginta:

Em sânscrito, [o termo para anjo] é Angeres, um espírito divino ou celestial que se torna o persa angaros que significa “mensageiro”, que aparece em grego como Angelos. É por esses caminhos que finalmente chegamos ao conceito moderno de anjo como intermediário ou interveniente entre o Todo-Poderoso e os mortais humanos, entre a Eternidade e nosso Universo do Tempo. (Godwin, 1999, p. 66)

O Daimon Grego

O Daimon grego, como o Anjo da Guarda, é um tipo específico de mensageiro enviado para realizar a missão particular de cada alma individual. No Webster’s New World Dictionary (Guralnik, 1970), diz-se que daimon significa um poder divino, destino ou deus, e veio a ser conhecido como um espírito maligno. No mito grego, é qualquer uma das divindades secundárias classificadas entre os deuses e os homens. Ele é um espírito guardião; espírito inspirador ou interior e às vezes é confundido com Demônio. Finalmente, um daimon possui a pessoa com poder e visão.

Na literatura grega, Homero faz referência ao espírito Guardião, o Daimon, como Atena (Sabedoria), na antiga saga da Odisseia. Atena atua como agência dos deuses e detentora do destino de Ulisses. Nessa saga, Atena chama Ulisses para fazer a viagem de volta para casa e trazer ordem de volta ao mundo. Merlin Stone (1988) escreve sobre o julgamento de Sócrates que em sua primeira desculpa da Apologia ele afirmou que seu Daimon, a voz interior de advertência privada, ou espírito orientador que ele afirmava possuir) o advertira contra seu envolvimento na política.

Na filosofia grega, Platão discute o Anjo sob o título, o Daimon. Algumas das primeiras referências ao Daimon podem ser encontradas nos escritos de Platão, um antigo filósofo nascido em Atenas (c. 427-347 aC), que possivelmente influenciou o pensamento ocidental mais do que qualquer outro filósofo. Os escritos de Platão assumem a forma de diálogos usando linguagem simbólica e mitológica; ele menciona o Daimon em A República, O Fédon, e O Timeu.

Em O Timeu, Platão (Taylor, 1976) explica como as hierarquias do universo e como os daemons são encarregados da “fabricação da natureza e do cuidado dos corpos” (p. 284) e explica como seu professor Sócrates descrevia, no mito da Ur, como as almas são enviadas cada uma com um Anjo ou Daimon:

Quando, portanto, todas as almas escolheram suas vidas de acordo com suas sortes, elas foram em direção a Lachesis, e ela enviou com cada um o anjo (daimon) que a alma havia escolhido para ser o guardião de sua vida e cumprir o que ela havia escolhido. E o anjo primeiro conduz a alma a Cloto para ratificar sob sua mão e pelo turbilhão do vórtice de seu fuso o destino que ela escolheu em seu turno; e tendo passado de sua presença a traz de volta ao tear de Átropos para que ela torne seu destino irrevogável. (Santuário da Sabedoria, 1984, p. 34)

Platão também descreve o Daimon ou o Anjo como um psicopompo que nos guia por um caminho traiçoeiro e sinuoso pelo submundo:

Assim se diz: que o daimon de cada pessoa, que lhe foi atribuído em vida, compromete-se a conduzir cada um a um determinado lugar, onde é necessário que todos reunidos, depois de julgados, procedam ao Hades, juntamente com seu líder, que é ordenado a conduzi-los dali em diante… . A viagem, portanto, não é como Télefo afirma ser em Ésquilo. Pois ele diz que um caminho simples leva ao Hades: mas parece-me que o caminho não é simples nem um só. Pois não haveria necessidade de líderes, nem ninguém poderia se desviar do caminho certo, se houvesse apenas um caminho. Mas agora parece ter muitas divisões e reviravoltas duvidosas: e isso eu conjecturo a partir de nossos ritos sagrados e legais. (Platão, 1976, 149-150)

Em A alma humana nos Mitos de Platão (1984), explica-se que, em Timeu e Fédon, Platão sugere que o verdadeiro filósofo deve cultivar uma relação com o Belo e que a maneira de fazer isso é cultivar uma relação com o Anjo. Esta relação com o Daimon nos dá a capacidade de exaltar nossas almas à compreensão de nossa própria natureza e da natureza do Mistério Divino. Muitos comentaristas das obras de Platão também escreveram sobre o Daimon, ou Anjo: Filo iguala o Anjo à razão e o logos ao Self (Mead, 1992, 161), e Xenócrates diz que

Platão afirma expressamente que a alma individual ou pessoal é o principal Daimon guardião de cada homem, e que nenhum Daimon tinha mais poder sobre nós do que o nosso. Assim, o Daimonian de Sócrates é o deus ou Entidade Divina que o inspirou durante toda a sua vida. (Blavatsky 1931, p. xx)

O Gênio Romano

O gênio romano deriva do antigo culto das forças geradoras da natureza na forma de um totem familiar. O conceito mais antigo do Gênio é aparente nas origens da palavra do latim, gignere, significando ‘gerar’ e sugerindo gerar filhos ou descendentes. Segundo Janice Nitzsche (1975) o Gênio representava literalmente o esperma ou semente do patriarca da família. A família e, eventualmente, o Gênio pessoal derivaram da ideia de um genial loci que poderiam ser cultuados para tornar a terra fértil, proteger o lar e a família. Seus símbolos são a cornucópia, a serpente e o genialis lectus ou lugar do Gênio (termo atribuído a Cattullus c. 84-54 aC usado até o século XIII) o leito nupcial referente ao casamento sagrado em que a palavra é feita carne (Nitzsche, 1975, pp.8-9).

O Dicionário do Novo Mundo de Webster (Guralnik, 1970) explica que o Gênio, de acordo com os antigos romanos, era considerado um espírito guardião atribuído a uma pessoa no nascimento e que às vezes é dual em aspecto, manifestando-se como um dos dois espíritos, um bom e outro mau, ambos tendo uma influência sobre o destino da pessoa. Uma pessoa de gênio é aquela dotada de dons especiais, talentos ou conhecimento além dos humanos comuns.

As primeiras alusões literárias ao Gênio vêm de Plauto no século III aC. Ele disse que cada homem tinha um Gênio e que ele representava sua virilidade e energia. Nessa época, considerava-se que somente os homens, e não as mulheres, podiam ter um Gênio. Nitzsche (1975) diz que esse conceito também estava relacionado à ideia inicial do animus de um indivíduo. O Gênio passou a representar ainda a sorte pessoal e o temperamento de um indivíduo e, eventualmente, passou a representar sua individualidade, personalidade, alma e livre arbítrio (Nietzsche, 1975, p. 41). Horácio (65-68 aC), um filósofo romano escreveu: “O deus Gênio nasceu com cada homem, viveu até sua morte, foi celebrado em seu aniversário e controlou sua fortuna pessoal e destino” (p. 39).

Segundo Nietzsche (1975, p. 14), a evolução do Gênio foi promovida no século II a.C. pelo influxo da filosofia grega que assumiu a importância do individual e dos conceitos estrangeiros de espíritos guardiões, tais como os deuses antigos (ver Figura 3 na página 83), Daimon grego, o fravashi persa, e o ka egípcio. Calcídio (300 d.C.) em seu comentário sobre O Timeu descreve esses mensageiros que são chamados:

Daimones porque eles sabem todas as coisas. Mas então ele discute o angelus, intermediário entre Deus e o homem, que interpreta e relata a Deus as nossas orações, desejos e necessidades mais íntimos, e que nos entrega a ajuda divina: é um tipo de Daimon (angeli-tumquam Daimones dici, 132) . Chamados angeli do grego άγγελος, angelos, ou anunciador, mensageiro, eles cumprem assiduamente o dever de anunciar e relatar (“officium nuntiandi”, 132). Uma conexão ainda mais forte entre o gênio (Daimon) e o angelus é estabelecida por Marciano (423 dC): o gênio, “este protetor mais fiel”… uma vez que ele anuncia ao poder celestial os segredos e pensamentos poderá até mesmo ser chamado Anjo (2.152-53). Os gregos, continua Marciano, chamam esses espíritos de Daimones (medioximi em latim) de “o que compartilha” (δαιομένος), presumivelmente porque, enquanto mediadores ou intermediários, eles compartilham os segredos do céu e da terra. (Nietzsche, 1975, p. 39)

O Anjo em Alexandria

Ambas as facetas do Anjo, do Daimon grego e do gênio romano foram influenciadas por um fenômeno multicultural que ocorreu em Alexandria, Egito, durante o primeiro ao terceiro séculos d.C. Aqui, sistemas ricos e sincréticos de filosofia e prática desenvolvidos a partir dos hebreus, gregos, romanos e egípcios que compartilhavam esta cidade. Isso deu origem a sistemas como a Teurgia Neoplatônica, Gnosticismo e Hermetismo, que são precursores da Cabala Hermética hoje. Os gregos têm uma longa tradição de atribuir seu conhecimento esotérico aos antigos egípcios. De acordo com Heródoto e os alexandrinos posteriores, os gregos devem muito de seu conhecimento esotérico, os mistérios ocultos por trás de sua mitologia e religiões, aos sábios egípcios.

Alexandria, fundada por Alexandre, o Grande, em 332 aC, tornou-se o centro cultural, filosófico e místico do mundo. Se as verdadeiras raízes da filosofia grega se originaram ou não no Egito (que era a suposição de muitos), a nova cultura que nasceu continuou ambas as tradições antigas em uma nova forma. O clima alexandrino de especulação filosófica e mística continuou ao longo dos impérios romano e cristão primitivo.

Os egípcios podem ter equiparado o Anjo da Guarda a uma parte da alma conhecida como o ka (Sam Webster, 2004, comunicações pessoais), embora alguns estudiosos como Blavatsky (1931) o equiparem ao ba, ou elemento reencarnacional da alma. Os alexandrinos igualavam as facetas do Daimon e do Gênio a essas partes da alma. Eles também equiparavam o Anjo ao psicopompo Mercúrio, o egípcio Tehuti, alma. Eles também equiparavam o Anjo ao psicopompo Mercúrio, o egípcio Tehuti, Anúbis (ver Figura 4 na p. 84), e o misterioso personagem Hermes Trismegisto.

Em sua tradução do Corpus Hermético, uma obra teosófica escrita por volta de 300 d.C. misturando antigas ideias gnósticas, herméticas e egípcias, G. R .S. Mead (1992), diz que os egiptólogos equiparavam o Anjo, a quem ele chama de Agathodaimon, a Hermes e Thoth de Hermópolis e, finalmente, Hermes Trismegisto: “Thoth é caracterizado como o Aeon dos Aeons que se transforma em todas as formas em visão, … [O] Bom Daimon, que tem nomes diferentes dados a ele nas diferentes horas, [e] é chamado de ‘Aeon da Riqueza’” (pág. 280). Ele também é “a poderosa serpente, o chefe de todos os deuses… que possui o início do Egito e o fim de todo o mundo” (p. 67). O Egito é uma antiga metáfora para a vida física, por isso esta poderosa serpente carrega os segredos da jornada entre o início e o fim da vida: o destino humano.

O Daimon de Jâmblico

A imagem do Anjo continuou a evoluir à medida que o neoplatonismo de Jâmblico evoluiu a partir de Alexandria (veja a Figura 5 na página 85). “Porfírio, discípulo de Plotino, em sua Vida de Plotino, o menciona como um sacerdote do Egito que revelou seu Daimon familiar, ou, em linguagem moderna, o Anjo da Guarda do filósofo” (Blavatsky, 1931, p. xliii.). Jâmblico (250-330 dC), ou o Professor Abammon, foi o autor de Teurgia, e De Mágica. Ele foi o fundador da escola neoplatônica de filosofia na Síria e transformou o neoplatonismo do filósofo antigo Plotino em um sistema de teologia e teurgia fundindo ritos bárbaros com filosofia helenística. Ele encorajou a participação nos poderes do Universo, incluindo os Deuses e os daimons (Shaw, 1995).

Para atingir o objetivo desses ritos teúrgicos, “para alcançar o uno, a alma tinha que ser assimilada ao todo e isso era realizado apenas honrando todos os deuses” (Shaw, 1995, p. 156). Não só os deuses eram invocados, mas também o Daimon de uma pessoa, já que o Daimon representava um intermediário para os deuses. Jâmblico acreditava que cada um de nós tinha um Daimon pessoal, e que o Daimon existia entre o reino dos deuses e dos homens. Eles “eram meramente invisíveis aos sentidos, mas… [não] ao ‘conhecimento racional’ e à inteligência material” (p. 218) e podiam transmitir o que antes era ininteligível: a saber, o conhecimento dos deuses. “Jamblichus afirma explicitamente que a alma tem apenas um Daimon governante e que ele é bom. Para cumprir os encargos de seu guardião, no entanto, a alma primeiro tinha que reconhecê-lo e depois desenvolver uma relação” (p. 218). Em seu De Mysteria (283, 19-284) Jâmblico disse:

A invocação desses Daimones guardiães é efetuada através de seu único Deus governante que, desde o início, distribuiu Daimones individuais a cada alma, e nos ritos sagrados, ele revela o Daimon individual a cada alma de acordo com sua própria vontade… Quando o Daimon familiar aparece para cada alma, então ele revela seu modo particular de culto, bem como seu nome, e ensina a maneira particular de o invocar. (pág. 219)

Gregory Shaw (1995) explicou ainda mais a relação dos Daimons, citando as palavras de Jâmblico em De Mysteria:

Geralmente, o divino é o líder e está acima da ordem dos seres, mas a natureza daimônica espera e recebe de bom grado tudo o que os Deuses a instruem a fazer, e elabora manualmente as coisas que os Deuses concebem, desejam e comandam intelectualmente. Certamente, é por isso que os Deuses estão livres dos poderes que beiram a geração, mas os Daimones não estão completamente livres deles. (pág. 139)

Jâmblico envolvido em ação teúrgica conhecida como filia, um “tecido demiúrgico dos opostos, cabendo lembrar que os ritos teúrgicos eram performances que iniciavam as almas humanas na atividade dos deuses” (p. 153). Não só os deuses eram invocados, mas também o Daimon da pessoa. Embora Jâmblico distinguisse entre almas que encarnavam voluntariamente, para preservar o mundo, e aquelas involuntariamente, para se aperfeiçoar, ele acreditava que ambas poderiam participar da criação do mundo ou das atividades dos deuses se realizassem “teurgias materiais” (p. 157). Dessa forma, cultivava-se uma vida moldada pelo Daimon. Em última análise, até mesmo o Daimon de alguém pode ser transcendido: “A transição mais marcante no progresso da alma foi o raro momento em que ela recebeu um deus como guardião para substituir seu Daimon pessoal” (p. 281).

O ensinamento platônico padrão é que aquele que constantemente cultua seu Daimon poderia participar da imortalidade. Jâmblico ensinou que “a tarefa de cada alma era alinhar-se e às suas atividades com seu deus governante, e quando isso era alcançado, o Guardião Daimon dava lugar a um guia superior” (citado em Shaw, 1995, p. 218). Jâmblico continuava:

O Daimon supervisiona a vida composta da alma [e corpo] e a vida individual da alma, e tudo o que pensamos, concebemos devido aos princípios que ele implantou em nós. Fazemos as coisas que ele sugere à nossa mente, e ele continua a governar os seres humanos até que, por meio da teurgia sagrada, chega o momento em que nos é confiado um Deus como guardião e guia da alma. (pág. 218)

O Anjo judaico-cristão

Na teologia judaica e cristã, um dos tipos de anjos que existem são os Anjos da Guarda. Uma vez que o anjo da guarda judaico e cristão evoluiu ao longo dos impérios egípcio, grego e romano, não é de admirar que ele compartilhe em comum muitas das funções do Daimon e do Gênio (veja a Figura 6 na página 86). Conforme mencionado anteriormente, a palavra anjo foi emprestada da palavra grega angelos. O Anjo da Guarda, outro tipo de mensageiro, está ligado a outra palavra grega, Daimon, e ao Gênio romano. No entanto, o antigo Daimon grego foi diluído e dividido em Daimon e Demon. Os primeiros cristãos, como seus ancestrais modernos, tinham dificuldade em conciliar os opostos.

Os Anjos da Guarda são geralmente vistos sob o domínio de Miguel, Rafael, Gabriel e Uriel, os quatro arcanjos. “O Talmud fala de cada judeu que recebe onze mil anjos da guarda no nascimento” (Godwin, 1999, p. 69). Muitas das histórias bíblicas envolvendo anjos são de pessoas com problemas que são consoladas ou aconselhadas por eles. A história do anjo que apareceu e mostrou a Hagar um poço de água quando ela e seu filho Ismael estavam morrendo de sede no deserto é um exemplo (Gênesis 16).

No Antigo Testamento, cada nação tem seu próprio anjo. Langmuir (1999) afirmou que Michael é o protetor de Israel (Daniel 12:1). Wilson escreveu que

grandes profetas ou santos podem ter grandes Arcanjos como seus guardiões, pois suas missões terrenas envolvem o bem-estar espiritual de segmentos inteiros da humanidade. Assim, o guardião de Maomé é Gabriel, e o de Arjuna, em certo sentido, é Krishna…. Anjos, em vez de mestres humanos, às vezes iniciam grandes místicos. São Francisco era protegido por um dos Serafins, que lhe deu os estigmas. O rei Salomão e Padmasambhava (fundador do budismo tibetano) eram servidos por hordas de anjos. (1994, pág. 74)

Mitch Finely (1996) deu uma história concisa do Anjo da Guarda na Igreja Católica:

São Tomás de Aquino ensinou que Deus é nosso guardião primário, ‘agindo sem intermediários e instilando em [nós] graça e virtude’. Aquino acreditava, no entanto, que cada pessoa tem um anjo da guarda: ‘Como nossa vida atual é uma espécie de estrada ao longo da qual muitos perigos, internos e externos, estão à espreita, um anjo guarda é nomeado para cada homem [e mulher] enquanto ele [ou ela] for um viajante’. (pág. 22)

Finley (1996) relatou que o calendário oficial da igreja reconhece os Anjos da Guarda em 2 de outubro. Ele afirmou que, de acordo com o Almanaque Católico, o dia da festa dos Anjos da Guarda comemora “os anjos que protegem as pessoas dos perigos espirituais e físicos e as ajudam a fazer o bem” (p. 22).

Muitas autoridades acreditam que “Esta passagem do Evangelho de São Mateus é a primeira sugestão, em um texto bíblico, de um anjo no céu dedicado permanentemente a cada alma da terra:

‘…Como esta criança, o mesmo é o maior no reino dos céus…Vede que não desprezes nenhum destes pequeninos; porque eu vos digo que no céu os seus anjos sempre contemplam a face de meu Pai que está nos céus’. (Matthew 18:1-10). (Langmuir, 1999, p. 67)

Dessas fontes, combinadas com as histórias dos arcanjos e especialmente o conto de Tobias e Rafael (um livro dos Apócrifos), nasceu a noção do Anjo da Guarda (ver Figuras 7 e 8 nas páginas 87-88). Muitos retábulos católicos romanos dos séculos XVII e XVIII são dedicados ao Anjo da Guarda e lembram as imagens devocionais de Rafael e Tobias.

Peter Wilson (1994) conclui que  o guardião também é, em certo sentido, o Amado. O filósofo persa Avicena, falando do anjo, explica que “a alma deve captar a beleza do objeto que ama; a imagem dessa beleza aumenta o ardor do amor; esse ardor faz a alma olhar para cima… Assim, a imaginação da beleza causa o ardor do amor, o amor causa desejo e o desejo causa movimento” no nível tanto das esferas (que são atraídas pelo amor para seus Intelectos Arcanjos) quanto das almas humanas (que são atraídas pelo amor por seus guardiões). (págs. 74-75)

A Tradição Cabalística e o Anjo

A Tradição Cabalística é uma tradição de mistérios vivos, que remonta aos mistérios antigos, unindo todas as suas imagens no Anjo dos dias atuais. Na tradição cabalística, a história da odisseia ocidental do Anjo está unida no que é conhecido como A Grande Obra. Madame Helena Blavatsky (1931), fundadora da Sociedade Teosófica em 1875, e autora de um clássico ocultista, Ísis Revelada, disse que homens como Jâmblico e Plotino, os pitagóricos, os essênios e os apóstolos de Cristo eram “mediadores, guiados apenas por seu próprio espírito pessoal (Daimon), ou alma divina” (p. 488). Foram homens como esses, ou pelo menos histórias sobre eles, que ajudaram a desenvolver o conceito do Sagrado Anjo da Guarda e a arte esotérica ou mágica usada para obter suas recompensas. Talvez Jâmblico tenha sido o primeiro filósofo a ritualizar formalmente a invocação do Anjo. Invocando e consumindo (integrando e ingerindo) o Anjo, pode-se alcançar o status de Daimon e, além disso, alcançar finalmente o conhecimento dos Deuses.

A Ordem Hermética da Aurora Dourada foi formada em 1887, por um pequeno grupo de maçons e rosacruzes. Seu sistema de magia forma a base do movimento pagão moderno hoje. Baseia seus ensinamentos na Cabala Hermética, que segundo Adam Forrest (1998), nasceu no Renascimento quando a Cabala Hebraica e o Hermetismo se uniram à Alquimia. Alega ter laços com as mais antigas escolas de mistérios da tradição esotérica ocidental, particularmente as do Egito e da Grécia. Esta “Ordem foi baseada no antigo processo de trazer Luz ao homem natural. Em outras palavras, ensinou uma técnica psico-espiritual que leva à iluminação e à ilustração” (Regardie, 1997, p. 12). O Summum Bonum ou Ótimo trabalho do Aurora Dourada, era alcançar o “conhecimento e conversação do Sagrado Anjo Guardião, ou às vezes chamado de Gênio Superior e Divino” (Regardie, 1997, p 48). Gareth Knight (1993), um moderno estudante de ocultismo explicou que a verdadeira experiência de Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião não é uma visão astral, mas uma consciência do verdadeiro destino que cada ser humano tem para cumprir sua tarefa evolutiva. Normalmente isso se manifestará como um desejo interior dentro de um homem, e tal pessoa passa pela vida física com uma missão, ele é um “homem de destino”. De vez em quando isso. . . pode ser concebido como uma entidade separada como no caso de Sócrates e seu “Daimon”, que provavelmente era um aspecto de seu Sagrado Anjo Guardião. (pág. 202)

Knight também associou o arquétipo junguiano do amigo com o Sagrado Anjo Guardião e explica ainda que o Sagrado Anjo Guardião pode ser a parte dos seres humanos que lhes revela seu propósito de acordo com o plano divino: cada Sagrado Anjo Guardião é “um Oráculo dos Deuses … [e] um Filho da Voz, Palavra ou Logos… [também conhecido como] O Gênio do Destino” (p. 207).

A Magia Sagrada de Abramelin, o Mago, A tradução inglesa de S.L. Macgregor Mathers (1975) de um manuscrito oculto encontrado na Biblioteca do Arsenal, Paris, supostamente foi escrita em 1457, entregue por Abraham, o judeu, a Lamech, seu filho. Este livro relata as viagens e experiências de Abraão em sua busca pelo conhecimento mágico:

Nesse período, acreditava-se quase universalmente que o Conhecimento Secreto só era realmente obtido por aqueles que estavam dispostos a deixar sua casa e seu país para enfrentar perigos e dificuldades em sua busca. Depois de anos vagando, sua busca culminou no encontro de Abramelin, um mago egípcio. Foi de Abramelin que Abraão aprendeu a Magia Sagrada particular ao Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião. (pág. xx)

No sétimo capítulo do manuscrito, Abraão relatou a operação para se preparar para encontrar o Anjo:

[Era] necessário para esta operação, [para] levar uma vida solitária. . . . Por fim, resolvi seguir o exemplo de Abramelin e dividi minha casa em duas partes. . . e comecei a me acostumar à vida solitária… Então, primeiro no dia seguinte, em nome e em honra de Deus Todo-Poderoso, o Criador do Céu e da Terra, comecei esta operação sagrada, e continuei por seis luas sem omitir o menor detalhe, como você entenderá mais tarde. E tendo expirado o período das Seis Luas, o Senhor me concedeu Sua Graça por Sua Misericórdia; conforme a promessa feita aos nossos antepassados, visto que enquanto eu orava a Ele, Ele se dignou conceder-me a visão e aparição de Seus santos anjos, juntamente com os quais experimentei tão grande alegria, consolação e contentamento de alma, que não podia expressá-lo nem o pôr por escrito. E durante os três dias, enquanto eu desfrutava dessa doce e deliciosa presença com um contentamento indizível, meu santo anjo que Deus o Misericordioso havia destinado desde minha criação como meu Guardião, falou-me com a maior bondade e afeição; que não só me manifestou a Verdadeira Magia, mas até facilitou para mim os meios de obtê-la. (págs. 24-26)

Aparentemente, a experiência mística de Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião era pré-requisito para a habilidade de dominar os poderes da luz e das trevas. Após a realização da operação de conhecimento e conversação, Abraão se tornou um sábio capaz de realizar muitos milagres e viajou por muitas terras realizando proezas para nobres de muitas terras. Através da conversa com seu Anjo, ele se tornou capaz de ligar, o que ele chamou de forças demoníacas, ao serviço da luz. Ao fechar o primeiro livro, Abramelin fez seus comentários finais sobre a operação do Anjo, afirmando que as instruções deveriam ser lidas por seis meses, durante os quais “nenhum pecado contra a Lei ou os Mandamentos de Deus” poderia ser cometido (Mathers, 1975), págs. 43-44). Aconselhou ao filho que a pureza era o fator determinante para o sucesso ou fracasso nesta operação, pois quanto mais pura a alma, maior a afinidade com o Anjo.

O Anjo dos Psicólogos das Profundezas

Nas profundezas do inconsciente coletivo, atemporal, onde jaz o Anjo e os modernos encontram os antigos, o Anjo de hoje encontra o Gênio e o Daimon da antiguidade. Jung e os psicólogos profundos (psicólogos que reconhecem a importância e autonomia do inconsciente) têm muito a dizer sobre o Anjo e sua importância para a vida psíquica. Como os ocultistas, os psicólogos profundos traçam a história do Anjo em uma linhagem ininterrupta através das antigas tradições de mistério. James Hillman e Carl Jung foram particularmente responsáveis por trazer a sabedoria dos antigos alquimistas e filósofos ocultistas para a psicologia moderna.

Através da experiência de Jung com seu Anjo, Filemon, ele confirmou a autonomia da alma. James Hillman afirma que a experiência de Jung “conectou novamente o reino dos daimons com o da alma. E desde seu movimento, alma e daimons implicam, até exigem um ao outro” (1993, p. 56). Hillman afirmou que o Anjo vem de uma camada profunda da psique que é atemporal, e caracterizou os daimons como “espíritos guardiões, figuras através das quais o transcendente se torna imanente” (p. 59). O psicólogo de profundidade Thomas Moore (1994) disse: “O anjo é conhecido por sua saudação” (p. 13).

No artigo “O que é um anjo?”, Paco Mitchell (1994) fez a importante afirmação de que quando um anjo “aparece” a um ser humano, podemos dizer que um fator transcendente do reino arquetípico (celestial) se manifestou no limiar da consciência do ego. É um evento liminar (limen = limiar); acontece com o ego em estado de consciência liminar ou periférica (aquele estado de espírito tantas vezes cortejado pelo artista criativo). É um agente do Ser (= agente de Deus, faz a vontade de Deus). Além disso, tem uma mensagem para o ego… servindo assim como um elo comunicativo entre ego e Self, homem e Deus, temporal e eterno. (pág. 65)

Mitchell afirmou ainda que “O aparecimento de um anjo em sonhos . . . anuncia uma possibilidade de cura, um vínculo com o Self que aliviaria a disfunção neurótica” (p. 65) (veja a Figura 9 na página 89). O Anjo pode ser visto como uma expressão da necessidade de Deus de se individuar ou encarnar através do contato com a consciência humana. “É parte da tendência autorreguladora dentro da psique individuante, uma comunicação necessária entre as partes de um todo, um vislumbre do espírito do todo” (p. 67).

Peter Wilson (1994) disse que os gnósticos chamavam o Anjo de “’o Chamado’ [que] desperta a alma da identificação com o mundo físico seu sono inútil… e a chama para cima para seu verdadeiro lar” (p. 43) e que o Anjo aparece trazendo um livro ou carta, ou é o livro ou uma carta. “O Anjo é um ‘mensageiro’, movendo-se entre o céu e a terra [e…] ele é a Mensagem, como a Mensagem se manifesta ao homem” (p. 43).

Jung (1938/1983a) equiparou o Daimon com o mana, Deus e o inconsciente, e o chamou de meridiano do Sol, que no mito de Osíris é o Anjo que detém as misteriosas águas da vida e da morte. Ele também representa esta própria substância. O meridiano é o canal ou caminho do sol, e pode ser retratado como a iluminação da iniciação e o circuito da individuação. Ele é “um verdadeiro Hermes Psychopompos e iniciador, que dirige o trânsito espiritual do adepto” (p. 80), (ver Figura 1 na página 81).

“O anjo, como ser alado ou espiritual, representa, como Mercurius, o pneuma, o desencarnado” (Jung, 1938/1983a, p.75) e em numerosos textos alquímicos é identificado como a substância arcana. Jung escreveu ainda que do homem e da gnose nasce a árvore, que também é chamada de gnose. . . [É também] o anjo, Baruch, chamado de “madeira da vida”, … o anjo da revelação, assim como a árvore do sol e da lua no romance de Alexandre prediz o futuro. (1943/1983, págs. 338-339)

Segundo Jung (1938/1983b), o Anjo é mostrado acordando um adormecido, com uma trombeta. Ele equiparou o estado não desperto à inconsciência e o estado desperto à totalidade. Mais uma vez, ele equiparou o anjo a Mercurius, a Árvore Filosófica, e o “lapis philosophorum, que representa o processo de individuação” (p. 195).

Jung amarrou vários nomes do Anjo sob um símbolo reconciliador do Self:

Cristo como Logos é sinônimo de Naas, a serpente do Nous entre os ofitas. O Agathodaimon (bom espírito) tinha a forma de uma cobra, [veja a Figura 2 na página 82], e em Filo, a cobra era considerada o animal ‘mais espiritual’. (1943/1983, pág. 333)

 Poetas e o anjo

Naturalmente, os Poetas cortejaram o Anjo, pois pode-se dizer que ele vive no reino imaginário no qual poetas, artistas e visionários se inspiram e apreendem o abstrato. Robert Romanyshyn afirmou: “Rilke disse que, ‘Todo Anjo devido à sua beleza é terrível’” (1994b).

Rilke invocou o Anjo em sua segunda Elegia com as seguintes palavras:

Um anjo sozinho está coberto de pavor. Ai de vós, ainda vos invoco, aves mortais da alma, que vos conhecem bem. Oh, onde estão aqueles dias de Tobias em que um, mais luminoso, parava em uma soleira simples, vestido para uma viagem, não mais assustador (um jovem para o jovem que olhava de dentro). Deixe que aquele arcanjo agora aquele perigoso além das estrelas desça: então, batendo para cima, supere nossos próprios corações. Quem é Você? (1957, págs. 7-10)

Em Os anjos, Rilke comunicou como deve ser contemplar esse mensageiro invisível movendo-se silenciosamente no mundo:

Todos eles têm bocas cansadas

e almas brilhantes sem limite.

E um anseio (como para o pecado)

às vezes passa por seu sonho.

Quase todos eles são iguais;

nos jardins de Deus se calam,

como muitos, muitos intervalos

em seu poder e melodia.

Só quando abrem suas asas

eles são os despertadores de um vento;

Como se Deus fosse com suas amplas

mãos de escultor através das páginas

no livro escuro do primeiro começo. (1938, pág. 45)

Finalmente, Rilke descreveu Jacob lutando com o anjo em “The Man Watching”:

…O que escolhemos lutar é tão pequeno!

O que briga com a gente é tão grande!

Se ao menos nos deixássemos dominar

como as coisas fazem por alguma imensa tempestade.

nos tornaríamos fortes também, e não precisaríamos de nomes.

Quando vencemos é com pequenas coisas,

e o próprio triunfo nos torna pequenos.

O que é extraordinário e eterno

não quer ser dobrado por nós.

quero dizer o anjo que apareceu

aos lutadores do Antigo Testamento:

quando os tendões do lutador

cresceram como cordas de metal,

ele os sentiu sob seus dedos

como acordes de música profunda.

Quem é espancado por este Anjo

(que muitas vezes simplesmente recusou a luta)

foi embora orgulhoso e fortalecido

e grande daquela mão dura,

que o amassava como se fosse mudar sua forma.

Vencer não tenta aquele homem.

É assim que ele cresce: sendo derrotado decisivamente

por seres constantemente maiores. (1981, p. 105-107).

Os antigos teurgistas, ou magos de quem os praticantes da Cabala Hermética são herdeiros, invocavam o Daimon com louvor poético. De fato, as palavras instrutivas dos antigos, “inflame-se com a oração” (autor desconhecido) são repetidas até hoje. Abaixo está um exemplo antigo do Corpus Hermeticum, que usa imagens mitopoéticas para tornar esse guardião invisível tangível ao coração:

Vinde a mim, tu que te levantas dos quatro ventos,

jubiloso Bom Daimon, para quem o céu é o teu lugar de festa!…

Tu és a poderosa serpente, o maior de todos os deuses,

Ó tu que possuis o início do Egito e o fim de todo o mundo!

(Mead, 1992, p. 67)

A presença de uma imagem

As muitas facetas do Anjo podem ser observadas na sua presença na vida dos indivíduos nas histórias e obras de arte da humanidade (ver Figuras 1-10 nas páginas 81-90). A imagem do Anjo representa mais do que apenas a forma que assume. A imagem que revela a mensagem é uma forma arquetípica, ou ideal, que é numinosa, ou um numinosum. Como um numinosum, o Daimon fascina e domina totalmente um indivíduo: “Como misterioso tremendum, ele move, compele, atemoriza, domina e constela a urgência” (Rank, 1952, p. 12). Hillman (1993, p. 50) diz: “Imagens são daimons oferecendo indicações de portão”. A ideia de que anjos são imagens e imagens, anjos, é uma velha intuição; por exemplo, a palavra para ícone ou imagem em siríaco significa anjo, e a noção sufi de Khidr, um guia angélico invisível pessoal, é considerado a imagem pela qual Allah se mostra. Em sua obra visionária, Aurora, Jacob Boehme (1612) uniu anjo e imagem, dizendo que tanto os anjos quanto os homens são criados à imagem de deus, assim o anjo é o irmão dos homens. Finalmente, Jacó, da história bíblica, chama o lugar em que lutou com o Anjo “a imagem de Deus” (Gênesis 32:22-30, tradução Lamsa).

Os exemplos abaixo representam uma seleção da tradição bíblica, literatura clássica e a vida de alguns indivíduos notáveis. Quando se olha, parece que o Anjo não é tão invisível, afinal, tendo se manifestado de tantas formas. Peter Wilson (1994) escreveu,

Quando o homem abre seu coração, mesmo que por um instante, a figura que ele percebe é o seu Anjo da Guarda. Quando ele ouve o chamado para a vida espiritual, quando sua substância psíquica é protegida do mal, quando ele encontra certas figuras misteriosas em sonhos, ou mesmo no dia de vigília, que representam a ele o drama de sua própria vida interior – este é o Anjo da Guarda no trabalho. (pág. 73)

Tobias e Rafael

Muitas ideias e imagens dos primeiros cristãos sobre o Santo Anjo Guardião vêm da história de Tobias e Rafael, que faz parte do cânon do Antigo Testamento para católicos e cristãos ortodoxos, Os Apócrifos, o Livro de Tobias. Peter Lastman (2003) disse que a história conta como Tobit, um judeu piedoso, mas pobre e cego, orou a Deus por ajuda. Ao mesmo tempo, Sarah, a filha de Raguel reza a deus pela morte ou alívio de Asmodeus, um demônio apaixonado por ela. Ele matou sete noivos em potencial. Sarah é culpada por essas tragédias, pensa em se enforcar e ora a Deus pela morte ou pelo fim desse tormento. Deus ouve sua oração e envia o anjo Rafael para resolver tanto o problema de Sara quanto o de Tobit.

Enquanto isso, Tobit envia seu filho, Tobias, a Raguel, um parente em Média, para cobrar uma dívida. Como Tobias não conhece o caminho, ele contrata um guia chamado Azarias, que acaba sendo o anjo Rafael disfarçado.

Rafael guia Tobias em sua jornada e, no caminho para a Média, Tobias, seguindo as instruções de Raphael, pesca um peixe, que eles cozinham e comem depois de remover e manter o coração, o fígado e a vesícula. Raphael sugere que ele se case com a filha de Raguel e diz a ele como livrar Sarah de seu amante demônio ciumento. Tobias visita Raguel e propõe casamento. Ele queima o coração e o fígado de peixe em brasas de incenso, criando uma fumaça fétida que repele o demônio Asmodeus, que então foge para as partes mais distantes do Egito, onde Rafael o prende.

Tobias e Sarah, depois de orarem para que envelhecessem juntos, agora consumam o casamento. Quando Tobias finalmente chega em casa com Sarah, ele usa a bílis de peixe, como Raphael o instruiu, para restaurar a visão de seu pai Tobit.

Guardiões da “Presença”

Muitas vezes o Anjo é visto como uma figura dupla. O antigo Daimon grego pode ter contido tanto o potencial para a escuridão quanto para a luz, mas o aspecto do anjo da guarda judaico-cristão geralmente retrata isso como uma dualidade. Os Manuscritos do Mar Morto falam de dois guardiões, um da verdade e outro da injustiça, e os primeiros registros cristãos “sugerem que dois recebem a missão de guiar cada cristão: um para a mão direita, que o inspira para o bem, e outro para a esquerda, que o empurra para o mal” (Godwin, 1999, p. 69).

Este par de anjos pode ser visto na descrição da Arca da Aliança dada a Moisés no Monte Sinai, no auge de seu Êxodo no deserto, quando Yahweh estabelece sua aliança com Israel e dá instruções para adorá-lo:

Para as duas extremidades do trono de misericórdia, você deve fazer dois querubins de ouro; você deve fazê-los de ouro batido. Faça o primeiro querubim para uma extremidade e o segundo para a outra, e prenda-os nas duas extremidades do trono da misericórdia, de modo que eles formem uma única peça com ele. Os querubins devem ter suas asas estendidas para cima, de modo que cubram o trono da misericórdia. Eles devem estar de frente um para o outro, seus rostos voltados para o trono da misericórdia. Você deve colocar o trono da misericórdia no topo da arca. Dentro da arca, você deve colocar o Testemunho que eu vos darei. Lá irei ao vosso encontro; ali, do meio dos dois querubins que estão sobre a arca do Testemunho, vos darei todas as minhas ordens para os filhos de Israel. (Êxodo 25:10-22)

Em A Bíblia e a Psique, Edward Edinger (1986, pp. 56) disse: “Os dois querubins, como espíritos guardiões do limiar, expressam o fato psicológico de que o numinoso se manifesta entre os opostos”. Eles se encaram, as asas se tocando, criando um espaço vazio, e talvez representando a potencial dinamis da função transcendente, que acompanha uma experiência do Self. Talvez este par represente um símbolo reconciliador, o poder do Anjo segurando a tensão dos opostos que cria um vazio grávido, chamado pelos gnósticos de Pleroma:

O Anjo e a Virgem estão sempre em constante diálogo: o anjo anunciando alguma impossibilidade, a virgem surpreendida, questionando, concordando. Neste evento particular a alma-virginal, paciente, expectante, preparada, receptiva, modesta – começa a carregar nova vida e personalidade, uma criança, como as pinturas muitas vezes mostram, milagrosamente formada desde a concepção (Moore, 1994, p. 12).

De acordo com Willow Young (2003, comunicações pessoais), esses dois anjos podem ser manifestações do par anterior de opostos: Ísis e Néftis, que figuram nos mistérios da morte e renascimento de Osíris.

Escada de Jacob

A aparição de um anjo em sonhos… anuncia uma possibilidade de cura, um vínculo com o Self que aliviaria a disfunção neurótica. Ironicamente, a figura angelical é muitas vezes a coisa mais temida (Mitchell, 1994, p. 66).

A escada de Jacó é um dos relatos bíblicos de uma visão envolvendo anjos unindo céu e terra:

Ele teve um sonho: uma escada estava ali, de pé no chão com o topo alcançando o céu; e havia anjos de Deus subindo e descendo. E Yahweh estava ali, de pé sobre ela, dizendo: “Eu sou Yahweh, o Deus de Abraão, teu pai, e o Deus de Isaque. Eu darei a você e seus descendentes a terra em que você está deitado. Seus descendentes serão como partículas de pó na terra; você se espalhará para o ocidente e o oriente, para o norte e para o sul, e todas as tribos da terra se abençoarão por você e seus descendentes. Certificai-vos de que estou convosco; Eu vos manterei seguro aonde quer que vá, e vos trarei de volta a esta terra, pois não vos abandonarei antes de ter feito tudo o que vos prometi. (Gênesis 28:10-22)

O analista junguiano Edward Edinger afirmou que esta é uma imagem clássica do eixo Ego-Self. Caracteristicamente, o grande sonho ocorre em um determinado momento em uma sequência de eventos. A ação heroica de Jacó para afirmar seu destino é seguida por um perigo mortal e exílio. Nesse ponto baixo de aniquilação, o ego recebe uma visão de sua conexão com o Self. (1986, pág. 38)

 O Anjo como Adversário

Anjos e imagens perturbam e destroem a narrativa, como no caso de Jacó quando ganhou seu novo nome enquanto lutava com um anjo. (Miller, 2003, frtpc)

Esta história fala do pedido de Jacó por ajuda para seu povo. Ele ora a Deus para que este possa livrá-lo de seu irmão Esaú. Parece que Deus lhe concede a sagacidade, seu gênio para proteger seu povo, dizendo-lhes para dizer que eles e seus animais são um presente de Jacó, e faz com que um anjo o visite com quem ele luta, quando deixado sozinho, do outro de um limiar, representado pelo riacho. Aqui no estado liminar, ele luta com sua própria consciência, o Daimon que se torna guardião e guia para ele e seu povo.

E houve um que lutou com ele até o amanhecer e que, vendo que não podia dominá-lo, golpeou-o na articulação do quadril, e o quadril de Jacó foi deslocado enquanto lutava com ele. Ele disse: “Deixai-me ir, pois o dia está raiando”. Mas Jacó respondeu: “Não vos deixarei ir se não me abençoares”. Ele então perguntou: “Qual é o vosso nome?” “Jacó”, ele respondeu. Ele disse: “Seu nome não será mais Jacó, mas Israel, porque você foi forte contra Deus, você prevalecerá contra os homens”. (Gênesis 32:26-32)

Edinger (1986) apontou quatro características dessa história – encontro com um ser superior, ferimento, perseverança e revelação divina – que juntas formam o “tema do encontro com a Personalidade Maior” (p. 39).

A Vida Alada

Apolônio de Tiana foi o filósofo mais famoso do mundo greco-romano no primeiro século (Mead, 1901). Diz-se que, embora tenha estudado as escolas de filosofia platônica, estoica, peripatética e epicurista, estas caíram no esquecimento quando ele encontrou as lições da escola pitagórica. “Ele voou para a vida pitagórica, alado por alguém maior; nomeadamente, a ‘memória’ dentro dele, ou seu daimon [itálico adicionado]” (pág. 66).

 A maioria dos milagres registrados de Apolônio são casos de profecia ou previsão; de ver à distância e ver o passado; de ver ou ouvir na visão; de curar os doentes ou curar casos de obsessão ou possessão. “Ele podia ler pensamentos e impressões psíquicas tão bem que parecia que ‘ele conhecia não apenas a linguagem de todos os homens, mas também a dos pássaros e animais’” (Mead, 1901, pp 111-112). Todos esses poderes foram atribuídos não somente a ele, mas ao Daimon sob cuja asa ele voou. Apolônio não era apenas guiado por um Daimon, mas de alguma forma tornou-se um Daimon, um mediador entre deuses e homens:

Apolônio era mais que um filósofo; ele era “um termo médio”, por assim dizer, entre deuses e homens… significando assim presumivelmente aquele que atingiu o grau de ser superior ao homem, mas ainda não igual aos deuses. Isso foi chamado pelos gregos de ordem “Daimônica”. (Mead, 1901, p. 39)

A Possessão Daimônica: RG Collingwood

James Hillman (1996) ofereceu uma história para ilustrar como as circunstâncias da vida preparam uma pessoa para um destino já nascente. Ele explicou que quando o Daimon do filósofo inglês RG Collingwood invade sua vida aos 8 anos de idade, algo dentro dele o compeliu a pegar a Teoria da Ética de Kant da biblioteca substancial de seu pai. Collingwood relatou que de repente ele “foi atacado por uma estranha sucessão de emoções” (citado em Hillman, 1996, p. 15), incluindo uma sensação de intensa excitação, uma urgência de que ele deveria aprender tudo o que pudesse sobre aquilo e um sentimento de que era pessoalmente importante para si mesmo dominar este assunto. Hillman refletiu que o pai de Collingwood “fornecia os livros e acesso a eles, mas o Daimon escolheu aquele pai, e sua curiosidade alcançou aquele livro” (p. 15).

A Divina Comédia de Dante

 O Anjo aparece na Divina Comédia de Dante como guia através de uma jornada pelo inferno, purgatório e céu. Esta história começa no anoitecer da Sexta-feira Santa do ano de 1300, quando o poeta Dante Alighieri se encontra em um Bosque Escuro (que os teólogos dizem simbolizar o bosque do pecado e, pelos psicólogos, o inconsciente), ameaçado por feras. Virgílio, o poeta pagão, aparece quando Dante, em meio à confusão e ao desespero, não sabe para onde ir. Virgílio se oferece para dirigir seus passos e guiá-lo na jornada pelo Inferno e Purgatório, dizendo a Dante que ele veio a pedido de Beatrice. Dante concorda em aceitar a orientação de Virgílio e começa sua busca.

Virgílio guia Dante pelos nove anéis do Inferno, Inferno e Purgatório. Eles descem pelo inferno e depois sobem ao cume de uma montanha, no Purgatório. Aqui Virgil deixa Dante dizendo-lhe que daqui em diante Beatrice será sua guia. Sob a orientação de Beatrice, ele ascende às nove esferas do Paraíso e obtém permissão para habitar com as hostes do céu:

Tendo alcançado o Primum mobile, os limites mais distantes do cosmos, Dante faz uma pausa e olha nos olhos de sua amada guia, Beatrice. Ele vê refletido neles um ponto de luz: “de um raio tão intenso que precisa que todos os olhos em que ele ardeu sejam fechados diante de sua pungência extrema”. Este ponto é de fato a própria luz divina. Dante experimenta o Céu em Beatrice. Ela é, de fato, a teofania pessoal de Dante, seu Anjo da Guarda. (Wilson, 1994, p. 91)

Em um estado psicodélico

Em Anjos, uma espécie em extinção, Malcolm Godwin (1990), descreveu a experiência de John C. Lilly com um par de anjos da guarda. Lily é conhecida por sua pesquisa em comunicação entre espécies com golfinhos e estados alterados de consciência através de uma variedade de meios, incluindo LSD. Godwin recontou o seguinte incidente descrito por

Lily em seu livro, O Centro do Ciclone. Durante uma sessão de LSD, Lily tornou-se um centro de consciência focado, viajou para outros espaços, e conheceu outros seres, entidades ou consciências em uma luz dourada que parecia permear em todas as direções, ele conheceu, o que parecia ser, dois anjos da guarda que diziam que ele não costumava estar em estado de percebê-los e que ele está em tal estado quando está perto da morte do corpo. (pág. 231)

Lily afirmou ainda que “neste estado não há tempo [e que] a pessoa é lembrada da descrição do céu de Cristo, ou do pintor William Blake, em seu leito de morte, cantando ‘gloriosamente’ as visões dos anjos no céu” (Godwin, 1990, pág. 231).

Jung e Filemon

Carl Jung é outro cientista, um psicólogo, que encontrou o Anjo. Pode-se dizer que o Anjo, na forma de Filemon, influenciou a obra de Carl Gustav Jung. Na verdade, foi o confronto de Jung com o inconsciente, no qual ele conheceu figuras como Filemon, que provaram a autonomia do inconsciente e das figuras psíquicas, os arquétipos, que ali habitavam. Mitchell (1994) afirmou que Jung insistia na autonomia e objetividade dos pensamentos, “que ele aprendeu com seu próprio guia espiritual Philemon. De fato, toda a história de Jung e Filemon pode ser tomada como um exemplo de encontro com um anjo” (p. 65).

Após seu rompimento com Freud, em sua autobiografia, Memórias, Sonhos, Reflexões, Jung (1989) descreveu no capítulo “Confronto de com o inconsciente”, como ele mergulhou em uma relação profunda e avassaladora com o inconsciente. Ele explicou como teve que se submeter conscientemente aos impulsos do inconsciente para descobrir seu próprio trabalho de vida em seu relacionamento com o inconsciente. Ele teve dois sonhos, um em que teve a visão de um escaravelho, que tomou para representar a morte e o renascimento, e outro com Siegfried, que “mostrou que a atitude encarnada por Siegfried, o herói” (p. 180) precisa morrer. Após essas experiências, Jung conheceu um casal em um sonho: Salomé e Elias, os arquétipos da anima e do sábio. Elias transformou-se em Filemom que “era pagão e trazia consigo uma atmosfera egipto-helenística de coloração gnóstica…. Psicologicamente, Filemon representava uma visão superior… e para mim ele era o que os indianos chamam de guru” (p. 183).

Philemon foi companheiro e professor de toda a vida de Jung, guiando-o em seu trabalho e em sua própria jornada para se tornar uma pessoa completa. Jung foi orientado por Filemon a compor um conjunto de poemas místicos de sabor gnóstico: Septem Sermones ad Mortuos (Os Sete Sermões aos Mortos). Jung disse sobre esse trabalho: “Fui compelido de dentro, por assim dizer, a formular e expressar o que poderia ter sido dito por Filemon. Foi assim que o Septem Sermones ad Mortuos com sua linguagem peculiar surgiu” (1989, p. 190). O Anjo de Jung, Filemom, foi tão importante para seu próprio trabalho que ele dedicou a Torre que construiu em Bollingen, descrita como um lugar de amadurecimento onde poderia “renascer em pedra” (p. 225) a Filemom. Ele colocou esta inscrição sobre o portão da Torre: “Philemonis Sacrum–Fausti Poenitentia” (Santuário de Filemom–Arrependimento de Fausto) (p. 235).

O próprio Jung reconheceu a importância e a realidade de seu relacionamento com seu Anjo e a série de imagens: “Filemon e outras figuras de minhas fantasias me trouxeram a percepção crucial de que há coisas na psique que não produzo, mas que se produzem e têm vida própria” (1989, pp. 182-183).

 Conclusão

Como esta pesquisa mostrou, o arquétipo do Anjo tem uma longa e fascinante história. O Anjo apareceu através dos tempos em muitas formas. Foi chamado por muitos nomes. Foi louvado por poetas, discutido por filósofos, cortejado por místicos e teorizado por psicólogos profundos. No próximo capítulo este artigo dará uma resposta criativa a este material, invocando o Anjo na busca de uma relação mais profunda com importante figura de origem antiga.

CAPÍTULO III

O ANJO E O PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO

Visão geral

O Sagrado Anjo Guardião, mais simplesmente denominado “o Anjo”, é um arquétipo multifacetado. Através de minha pesquisa e meu próprio trabalho com o anjo, em ritual, em oração e em contemplação, descobri que o Anjo chama a pessoa para despertar para uma vida de maior profundidade e significado, uma vida única para o propósito primário de sua alma para essa encarnação. Descobri que a intervenção do Anjo é um convite ao destino da pessoa e, embora possa ocorrer a qualquer momento, geralmente acontece em momentos cruciais da vida de uma pessoa, como uma crise de meia-idade, morte de um familiar ou batalha com uma doença.

O Anjo é um arquétipo com profundo poder e enorme importância para a psique, especialmente para o processo de individuação, conforme explicado por Carl G. Jung. Na verdade, acredito que o confronto de Jung com o inconsciente e seu próprio Daimon interior, Philemon, formam a base de suas teorias sobre a psique: “Jung confirmou a autonomia da alma. Sua própria experiência conectou novamente o reino dos daimons com o da alma. E desde seu movimento, alma e daimons implicam, até exigem um ao outro” (Hillman, 1993, p. 56).

O Anjo é um símbolo antigo que ocorre ao longo da história da humanidade. Ele tem muitos nomes em muitas culturas e, embora sua função e propósito possam diferir um pouco, geralmente aparece como um guardião e protetor individual que pode estar ligado à preservação do bem-estar e ao cumprimento do destino da pessoa. Quer seja chamado de Anjo, Daimon ou Gênio, ele aparece como um mensageiro, guardião e guia que conecta o indivíduo com o cosmos. Em termos religiosos monoteístas, ele conecta o indivíduo com Deus e, em termos junguianos, conecta o ego com o Self.

O Anjo é um símbolo misterioso, paradoxal e até ambíguo. Embora existam semelhanças nos relatos de como o Anjo aparece para as pessoas, como uma criatura alada, e como guardião e guia, também existem muitas diferenças. O Anjo pode aparecer como amigo de uma pessoa, como adversário para outra, na meia-idade para uma pessoa e na infância para outra. O Anjo pode aparecer como uma vaga intuição, como sincronicidade ou como um encontro psíquico completo. O Anjo foi encontrado através de revelação, oração e invocação e até mesmo em experiências psicodélicas. O Anjo pode abençoar alguém com uma sensação de paz interior, ou levá-lo à beira da loucura. Encontros com o Anjo são eventos incríveis que tanto são esperados quanto temidos. Visões acordado e sonhos com anjos podem anunciar possibilidades de cura, mas às vezes temos medo e até lutamos com eles como Jacó fez, e sempre somos transformados. Todos esses tipos díspares de experiências parecem ter uma coisa em comum: o Chamado do Anjo é um convite para uma nova perspectiva de vida. Rainer Maria Rilke disse que “Todo Anjo, por sua beleza é terrível” (citado por Romanyshyn, 1994b); terrível porque o chamado para uma nova perspectiva de vida pode significar a morte da atual posição do Ego.

Este estudo hermenêutico do Anjo começou no capítulo anterior com o processo de ampliação: revendo numerosos relatos do Anjo na história, mitologia e arte da civilização ocidental. Na Grécia, Platão escreveu sobre o Anjo, a quem chamava Daimon, como o guardião do destino da alma nesta jornada terrena entre a vida e a morte. Em Roma, o antigo guardião da família, o Gênio, evoluiu de protetor da família, para representar a semente do progenitor masculino e, finalmente, representar o caráter e a constituição do indivíduo. Em Alexandria, os conceitos de Daimon, Gênio, Anjo, Khu egípcio e talvez incontáveis outros estavam ligados ao egípcio Tehuti e ao helenístico Hermes Trismegisto. Isso deu origem ao Hermetismo e à teurgia de Jâmblico, que juntos influenciaram o nascimento da Cabala Hermética no renascimento. É em Alexandria, e finalmente durante o Renascimento, que as muitas formas do Anjo se juntaram, juntamente com a Cabala Hermética, que chama um de seus principais objetivos, o conhecimento e conversação do Sagrado Anjo Guardião.

Em meus estudos, descobri que as imagens e muitas histórias das três facetas desse arquétipo – o Anjo, Daimon e Gênio – apoiam minha afirmação de que este é um arquétipo importante para a vida da psique e o processo de autoconhecimento que Jung chama de individuação. Isso significa que o Anjo é um guardião e guia do desejo mais íntimo da alma, a missão e propósito que os seres humanos são chamados a cumprir nesta terra, e nos foi designado para cumprir essa missão e nos guiar em direção ao nosso propósito enquanto viajamos através desta vida. Concluí que o Anjo é um arquétipo que carrega a própria vocação ou chamado verdadeiro e, como agente de si mesmo, orienta na jornada entre a vida e a morte, manifestando-se de tempos em tempos para transmitir sua mensagem. A mensagem que este Anjo carrega é o logos ou centelha da verdadeira natureza da própria humanidade: a palavra da criação com a qual estamos investidos.

As seguintes perguntas serão consideradas neste capítulo: Como explicar o fenômeno que se encontra referenciado em todo o mundo? Quem ou o que é o Anjo que falaria aos humanos? Qual é a sua mensagem? Por que alguém deveria se preocupar com sua orientação? Por que as pessoas não ouvem e confiam nisso o tempo todo? Por fim, como o conhecimento e a conversa se relacionam com a individuação e como se pareceria uma pessoa realizada? Em vez de oferecer respostas definitivas a essas perguntas, este trabalho é uma exploração de possíveis interpretações que ajudam a trazer foco, em vez de literalização, à misteriosa imagem do Anjo. Acredito que as respostas definitivas sobre o Anjo e a interação de um indivíduo com ele só podem vir através da experiência pessoal e que, de fato, o Anjo de cada pessoa é único para ela.

As páginas a seguir exploram aspectos da hipótese deste estudo usando as lentes da psicologia profunda, que inclui as teorias de C.G. Jung e James Hillman, para examinar essas questões. Em particular, este capítulo explica como o Anjo se relaciona com as ideias de individuação, os arquétipos e o elemento transformador conhecido como função transcendente. A primeira seção demonstra como o Anjo é um arquétipo e explica em termos junguianos como ele funciona no processo de individuação. Este processo é retratado a partir da perspectiva da tradição cabalística, traçando uma analogia entre o processo de iniciação e a prática da Cabala Hermética e a jornada espiritual de individuação. A próxima seção explica como o Anjo é o Chamado, como ele se manifesta como agente do Ser e como pode ativar a função transcendente. Finalmente, a terceira seção, “Lutando com o Anjo”, explora a relevância do Anjo para a terapia, como se pode hospedar o Anjo como uma ponte para o mundo interior, como o Anjo se manifestou para mim e alguns de meus clientes, e como o trabalho com o Anjo é importante para o trabalho de cuidar da Alma do Mundo.

O anjo como arquétipo

A onipresença do Anjo e a semelhança de sua função ao longo da história ocidental reforçam a tese de que o Anjo é um arquétipo e, como tal, é crucial para a vida da psique. O Anjo se manifesta na arte, mitologemas e símbolos de muitas culturas. Junto com sua própria experiência de imagens internas em confronto com o inconsciente (Jung, 1989, pp. 170-199), o aparecimento de símbolos historicamente persistentes nos sonhos de seus pacientes levou Jung a formular sua teoria do inconsciente coletivo e a reconhecer a presença de um arquétipo. O ego se conecta ao Self através desses arquétipos. A linguagem do inconsciente é a vida simbólica. Os arquétipos são símbolos vivos que Jung descobriu serem autônomos.

Talvez a razão pela qual o Anjo aparece em diversas culturas se deva à natureza do que Jung chama de “inconsciente coletivo”.(citado em Storr, 1983, p. 26). Anthony Storr relatou que o estágio primitivo do inconsciente que fundamenta e une todos os fenômenos do universo foi denominado por Jung Mundus Unus, ou Um só Mundo. Esse inconsciente coletivo ou racial pode ser equiparado ao que os alquimistas e os filósofos herméticos chamam de Alma do Mundo, a Anima Mundi, às vezes personalizada como Sophia, figura arquetípica que representa a Anima Mundi. Robert Johnson explicou que a ideia de arquétipos é antiga. Ela está relacionada com o conceito de Platão das formas – padrões ideais já existentes na mente divina que determinam de que forma o mundo material virá a existir. No entanto, devemos a Jung o conceito de arquétipos psicológicos – os padrões característicos que preexistem na psique coletiva da raça humana, que se repetem eternamente nas psiques de seres humanos individuais e determinam as formas básicas que percebemos e funcionamos como seres psicológicos. (1986, pág. 27)

O Anjo é um arquétipo e como tal emerge da profunda porção atemporal da psique, o inconsciente coletivo. Os arquétipos emergem sincronisticamente desse reino atemporal, transmitindo forças inconscientes profundas. Arquétipos, como o Anjo, manifestam-se em sonhos e circunstâncias da vida, na mente, através da imaginação e do mundo físico, através da sincronicidade. Como símbolo arquetípico, o Anjo tem vida própria e um poder transformador sobre a vida dos humanos. Existindo no limiar entre o consciente e o inconsciente, o Anjo une o ego com o Self, o indivíduo com o cosmos, e como mensageiro antigo, a sabedoria antiga com a sensibilidade moderna. Como porteiro e guia, o Anjo não apenas inicia o processo de individuação, mas engendra o discurso com a vida da psique e a alma do mundo.

O arquétipo do Anjo pode se manifestar como um guia e amigo que mantém o propósito e o bem-estar de uma pessoa em seu interesse ou, como daimon, uma imagem ameaçadora com a qual se deve lutar às vezes na vida. O Anjo ensina, informa e guia um indivíduo ao longo da vida, às vezes através de uma pequena voz interior, outras vezes através de uma experiência espiritual ou em sonhos. Ele é o mensageiro do propósito da alma de alguém e, de acordo com Platão, foi enviado para nos ajudar, humanos, porque esquecemos nosso propósito e nos perdemos na jornada tortuosa da encarnação.

O arquétipo do Anjo é um tipo especial de mensageiro que tem como mensagem o propósito ou a natureza única de cada um. A presença do Anjo é como nenhum outro arquétipo.

Qualquer um que tenha experimentado essa paixão clara e constante que vem com uma profunda aceitação da totalidade do seu ser, na qual se vê a “correção” das coisas – em termos junguianos, talvez um estado de relação com o Self – pode ser dito como estar testemunhando a presença de um anjo. (Mitchell, 1994, p. 65)

O Anjo é um símbolo reconciliador, pois é capaz de fazer a ponte entre os opostos como mediador e mensageiro: é um mensageiro do todo. Jung (1943/1983), discutindo a imagem do Anjo despertando um adormecido, com uma trombeta, equiparou o estado adormecido à inconsciência e o estado desperto à totalidade. Ele também equipara o Anjo a Mercúrio, a Árvore Filosófica, e o “lapis philosophorum, que representa o processo de individuação” (p. 195). O Anjo é um ser vivo capaz de chamar a pessoa à sua verdadeira natureza, ao fazê-lo transformando a energia psíquica de um nível para outro. Anthony Storr (1983) explicou que Jung descrevia o inconsciente coletivo como consistindo em motivos mitológicos, ou imagens primordiais às quais deu o nome de arquétipos. Esses potenciais se apresentam como ideias e imagens – sua presença é sentida como numinosa, ou tendo um profundo significado espiritual. O Anjo aparece quando algo precisa ser conhecido, da mesma forma, “um arquétipo aparece quando algo precisa ser comunicado. O Anjo parece aparecer só quando tem uma mensagem a transmitir” (Godwin, 1990, p. 209) e mais comumente é um convite, para um processo e uma jornada.

Individuação: A Jornada do Iniciado

A entrada no caminho da individuação é uma iniciação, o início de um processo semelhante à busca do herói retratada em muitas tradições mitológicas. Jung explicou que o desenvolvimento da personalidade não é um empreendimento popular. Figuras históricas que diferem do convencional às vezes são consideradas loucas e possuídas por um Deus ou Daimon (Storr, 1983). “A individuação, na visão de Jung, é uma jornada espiritual; e a pessoa que o empreende, embora não subscreva nenhum credo reconhecido, estava, no entanto, perseguindo uma busca religiosa” (p. 229). Um dos termos que os cabalistas dão a este processo é “a circunvolução do sol” (Regardie, 1997, p. 28), sendo o objetivo a criação de um homem solar ou pessoa integral. Esse “grande trabalho”, ou “Pedra filosofal” é alcançado através da “conhecimento e conversação do Sagrado Anjo Guardião” (pág. 11). Assim como no processo de individuação, o objetivo deste trabalho é alcançar a união consciente com o Self através do conhecimento da lei do ser de cada um, do lugar e da participação no cosmos. Através desse processo, a busca de individuação do herói é uma circunvolução do sol, “o eu escondido nas sombras renasce e se reafirma” (Evola, 1995, p. 71). Na iniciação alquímica, o iniciado foi nomeado “o meridiano do sol” (Jung, 1938/1983a, p. 72), antigo título do Anjo que porta o segredo, nos mistérios de Ísis e Osíris, representando também o canal ou caminho do sol também chamado de “circuito de individuação” por Jung (1938/1983a, p. 72).

O Anjo aparece na vida de uma pessoa para sacudir e amadurecer a relação entre o ego e o Self ao longo das linhas de sua vida pessoal teleos ou chamando na vida. Teleos é o termo de Jung para a direção que a vida tende a tomar. O chamado do inconsciente, que pode ser um impulso inicial para esse propósito era, segundo Jung, primariamente a prerrogativa dos maduros em anos; entretanto, os terapeutas descobriram desde então que essa oportunidade de mudança pode ocorrer a qualquer momento, pois “nossas vidas passam continuamente por períodos de crise, fases de transição, em que o equilíbrio alcançado até então deve ser destruído e outro criado” (Carotenuto, 1989, pág. 125). O aparecimento dessa mensagem do eu é um “convite ao destino [e]… também pode ser interpretada como um convite à morte” (p. 122). Ela encarna “a relação entre o homem e Deus; personifica essa relação e dá um rosto ao destino de cada um” (Mitchell, 1994, p. 65).

O Anjo funciona muito como o eixo self-ego. Como arquétipo, conecta o ego com o Self e pode ser imaginado como se colocando ao longo do eixo Self-ego. Segundo Edward Edinger (1972), o eixo Self-ego é necessário para a saúde psíquica. Edinger afirma que a maturação ao longo do eixo ego-self ocorre em pontos da vida de um indivíduo quando o ego se sente alienado do self. Durante esta noite escura da alma, onde o ego é receptivo, o Anjo pode ser encontrado. A psique é como uma roda de bicicleta com muitos raios. O Self é a roda em sua totalidade, mas se manifesta ao ego como o centro ou eixo da existência de alguém. O ego viaja sobre a borda da roda circundando o centro, pensando a si mesmo como separado até perceber toda a roda da qual faz parte. Os raios, que conectam o centro com a circunferência, representam o Anjo unindo os opostos de centro e circunferência, ego e Self. Os raios operam como um terceiro fator que muda a consciência da circunferência para o centro e finalmente para a roda completa, o todo. Edinger refere-se a um processo alternado de separação ego-self e união Self-ego como um desenvolvimento psicológico em espiral ao longo de toda a vida.

Alguém pode-se perguntar por que os humanos precisam de um anjo para falar com o Self e guiá-los para sua própria verdade. Nos mitos de Platão estava escrito que a descida da alma não é antinatural, pois é somente procedendo, em um sentido místico, do UM que ela pode se tornar totalmente autognóstica e autoconsciente, pode vir a conhecer sua relação com o Um e o Todo, e tomar seu verdadeiro lugar no cumprimento do Grande Propósito. (Santuário da Sabedoria, 1984, p. 25)

Ele explicou, no entanto, que nesse processo a pessoa esquece sua verdadeira natureza e a alma perde suas asas quando ela cai no corpo. Ignorantes de nossa verdadeira natureza, nós, seres humanos, precisamos de um guardião que nos dê uma mensagem, um chamado, para uma vida mais nobre, onde encontramos nosso nascimento das estrelas e nosso lugar no Cosmos. Não é de admirar que precisemos de um guia para nos levar de volta das trevas para a luz, uma vez que o caminho de volta ao nosso verdadeiro destino é descrito por psicólogos, filósofos e cabalistas como um caminho perigoso e sinuoso:

Assim, diz-se: que o Daimon de cada pessoa, que lhe foi atribuído em vida, compromete-se a conduzir cada um a um determinado lugar…. A viagem, portanto, não é como Télefo afirma ser em Ésquilo. Pois ele diz que um caminho simples leva ao Hades: mas parece-me que o caminho não é simples nem um só. Pois não haveria necessidade de líderes, nem ninguém poderia se desviar do caminho certo, se houvesse apenas um caminho. Mas agora parece ter muitas divisões e reviravoltas duvidosas: e isso eu conjecturo a partir de nossos ritos sagrados e legais. (Platão, 1976, 149-150)

 “Individuação é um processo, não uma meta realizada” (Edinger, 1972, p. 96), portanto cada novo nível de integração deve se submeter à transformação. No processo, a cisão entre consciente e inconsciente e entre sujeito e objeto é curada: “o objetivo do processo de individuação é alcançar uma relação consciente com o Self” (p. 261). Edinger afirmou que “a dicotomia entre a realidade externa e interna é substituída por um senso de realidade unitária”, que pode ser imaginado para coincidir com a Alma do Mundo. Por meio de experiências com o Self, o indivíduo passa a perceber que “há uma diretividade interna, interna autônoma, separada do ego e muitas vezes antagônica a ele” (p. 97). O ego, tendo esquecido seu verdadeiro lar, enfrenta um confronto consigo mesmo e é convidado à morte e talvez a uma nova vida pelo Chamado.

O Chamado do Anjo

A aparição do Anjo pode ser um evento incrível, e a entrega de sua mensagem uma ocorrência de mudança de vida. Sua presença pode colocar a pessoa no caminho da individuação. O convite do Anjo geralmente vem no deserto. É uma visitação da verdade profunda na psique e carrega o poder de criar e destruir, pois segundo os alquimistas (Evola, 1995), o Anjo carrega as águas que matam para trazer nova vida. O Anjo se manifesta de duas maneiras importantes para a individuação: como Chamado e como agente do Self. Como a mensagem, o Chamado, o Anjo se manifesta como aqueles fortes impulsos e sincronicidades persuasivas que podem ser chamados de chamado. Como agente do Self, o Anjo carrega uma mensagem numinosa do self para o ego. “O Anjo como imagem arquetípica do chamado inicia a individuação” (Edinger, 1983, p. 25) e como agente do Self, serve para transformar a posição do ego, a atitude consciente e a relação com o Self, de maneiras que servir ao Ser.

O chamado

Um encontro com o Anjo é tradicionalmente definido como o conhecimento do destino ou destino de uma pessoa, seu propósito na vida. Aldo Carotenuto (1989) relatou que em sua obra, O castelo, Franz Kafka retratou o chamado do inconsciente como aquilo que “obriga todos nós a iniciar o caminho da individuação” (p. 110). A experiência do Anjo como Chamado, de ser chamado, geralmente é descrita como acontecendo no deserto, em um momento de alienação do ego, um momento em que o ego está disposto a sucumbir a uma perspectiva mais ampla. “[Ela] sempre se origina de uma situação tenebrosa, de uma cegueira interior” (p. 110). Edward Edinger (1986) disse: “A experiência de ser chamado é uma característica crucial da individuação. Traz uma consciência irrefutável do centro transpessoal da psique, o Self e seus imperativos” (p. 26).

A mensagem que o Anjo, a voz interior da pessoa, carrega representa a verdadeira voz ou vocação de uma pessoa na vida: este é o seu destino ou chamado. A pequena voz interior lembra a pessoa de ser fiel ao seu Gênio, e se manifesta sempre que uma mudança de direção ou alguma outra transformação é necessária para atingir esse propósito. Em O código da alma, James Hillman (1996) explicou que o Daimon é a semente do destino que um indivíduo possui, que “cada pessoa carrega uma singularidade que pediu para ser vivida e que já está presente antes que possa ser vivida” (p. 6).

O Chamado pode ser uma proposta ambígua e até perigosa. “Honrar a autoridade interna, a fonte do Chamado, pode exigir a negação da autoridade externa ou projetada, expondo-se assim a represálias perigosas e tremendo conflito interno” (Edinger, 1986, p. 26). Isso é especialmente verdadeiro em uma sociedade, como nos Estados Unidos, onde a conformidade com uma norma externa é valorizada. No entanto, chega um momento na vida de todos em que é preciso questionar se eles estão sendo fiéis à sua própria natureza, que é expressa pela voz interior. “O sentido original de ter uma vocação é ser dirigido por uma voz” (Storr, 1983, p. 200). O chamado leva a pessoa a integrar seu eu interior e exterior em um todo abrangente. “A voz interior é a voz de uma vida mais plena, de uma consciência mais ampla e abrangente” (pp. 208-9). Se alguém sucumbe, pode assimilar a voz, unindo os aspectos mais altos e mais baixos de sua psique.

A aparição do Anjo como Chamado exige que se deixe para trás o país de nascimento, as crenças mais valorizadas e os relacionamentos mais íntimos. Isto é uma reminiscência da viagem de Abraão ao Egito para a magia sagrada de Abramelin, o mago, e seu isolamento voluntário, que culminou em “o conhecimento e a conversação de seu Sagrado Anjo Guardião” (Mathers, 1975). Ele separa uma pessoa de amigos e familiares e a envia para buscar uma nova vida. Por causa de seu poder demoníaco Jung chamou o chamado ou voz interior de “um Lúcifer” (citado em Edinger, 1983, p. 26). O Chamado não é apenas a missão da vida, ou a verdadeira vocação, é também a identidade.

Assim, o logos-anjo aparece muitas vezes carregando um livro, ou de alguma forma é um livro ou uma carta. Os gnósticos o chamam ‘o Chamado’, a convocação de além das esferas que desperta a alma de seu sono inútil, seu sonho demoníaco, e a chama para seu verdadeiro lar. (Wilson, 1994, p. 43)

Embora o Chamado seja no melhor interesse da pessoa, o ego nem sempre o experimenta dessa maneira. Conforme mencionado anteriormente, embora o Chamado sirva à vida do Self, pode parecer e até ser experimentado como a morte para o Ego. O Anjo serve à beleza do Self e à totalidade psíquica e não às atrações imaginadas do ego, que podem ou não se encaixar no quadro mais amplo do Self. O Anjo é assim experimentado como terrível e belo. Terrível para o ego e sua própria perspectiva limitada, que deve morrer para um novo, e bela para o self, de quem ele é um agente.

Agente do Self

O Anjo é um agente do Self. O Chamado do Anjo é a manifestação externa da mensagem que ele carrega para uma pessoa até que ela esteja pronta para recebê-la. Como agente do self, sua presença é transformadora. O processo de comunicação de sua mensagem altera a relação entre o ego e o Self, que serve como base da própria estrutura psíquica. O conceito do Anjo como agente do Self é sustentado por Edinger que disse que “sempre que o homem encontra conscientemente uma agência divina, que auxilia comandos ou dirige, podemos entendê-lo como um encontro do ego com o Self” (1972, p. 70).

O Anjo serve à totalidade da Psique e mobiliza as forças da psique, os arquétipos, para servir ao processo integral de individuação. Através de sua intervenção, o Anjo, ou talvez mais precisamente chamado de Daimon nesta capacidade, fornece ao ego experiências necessárias para produzir um estado de equilíbrio entre o Ego e o Self, integrando diversos elementos em um estado de totalidade. Como arquétipo, sua presença pode ser sentida como numinosa: “Em 1937, Jung descreveu o numinoso como ‘uma agência dinâmica’ [que] apreende e controla o sujeito humano, que é sempre mais sua vítima do que seu criador” (Dennis, 2001, p. 49). O Anjo pode estar por trás dos vícios dos humanos, bem como de suas recuperações, tanto demoníacas quanto salvíficas: o Anjo possui uma pessoa para servir o self e essa possessão pode ser moral ou imoral com base nas necessidades da alma. O Anjo pode assumir qualquer forma de obsessão, boa ou má. Pode se manifestar como o estudo voraz de uma arte ou filosofia, ou como um vício, como o alcoolismo, que força a pessoa a se ‘entregar’ a uma nova vida.

Como o eixo Self-ego, o Anjo é importante para a saúde psíquica, em particular, na capacidade das partes operarem como um todo: “Sem comércio entre o humano e o angélico, não pode haver conexão com o fundamento da vida de alguém” (Moore, 1994, p. 15). Além disso, ela tem uma mensagem para o ego, servindo assim como um link de comunicação entre ego e Self [e Alma], homem e Deus, temporal e eterno” (Mitchell, 1994, p. 65). Isso o iguala ao eixo Self-ego, que é importante para a saúde e integridade psíquica. “Se o ego é capaz de experimentar sua conexão com o Self, um eixo Self-ego é formado e o ego a partir de então tem um sentido mais permanente de sua relação com o próprio núcleo da psique” (Hall, 1983, p. 13) .

O Anjo não é apenas um agente do Ser, mas também um Agente da própria mudança. Ele pode ser comparado ao arquétipo de Mercúrio que une os opostos dentro de si e é mensageiro dos Deuses, mas também é uma substância química que pode atuar como remédio ou veneno, e é equiparada à produção da Pedra Filosofal. Como psicólogo profundo e cabalista, comparo esta pedra à obtenção do equilíbrio psíquico e totalidade, que ocorre através do autoconhecimento e é alcançado seguindo um guia, o Anjo. A natureza desta pedra viva é a vida conscientemente vivida de uma pessoa individuada, que, graças ao Anjo, alcançou uma relação desperta com o Ser.

Como agente do Self, o Anjo é um guia natural através do processo de individuação, uma vez que tem conhecimento do padrão de totalidade, que se manifesta como o teleos, ou propósito, por trás da vida da pessoa. Quando esse se torna relacionado a uma pessoa, o processo conhecido como conhecimento e conversa ocorre e a sabedoria nasce, a pedra pode ser produzida. A pedra é o alimento do Anjo. O Anjo nos ajuda a carregar esta pedra, o peso do próprio destino e a matéria prima a partir do qual o trabalho aperfeiçoado é forjado.

Carl G. Jung conecta seu trabalho com o Anjo-Gênio quando equipara o desenvolvimento da personalidade com a obtenção da “Fidelidade do Ser” (conforme citado em Storr, 1983, p. 197). A verdade da natureza humana, meta do processo de individuação, está relacionada ao antigo deus Fides, uma das muitas imagens antigas do Gênio (p. 197). Como mensageiro e agente dos deuses, o Gênio ou Anjo preenche a lacuna entre o consciente e o inconsciente, repousando no local do potencial de mudança e revelação, o eixo Self-ego. Como agente do Ser, o Anjo liga o potencial de uma pessoa ao seu lugar real no mundo e acena para o limiar do autoconhecimento e da revelação: “Do homem e da gnose nasce a árvore, que eles também chamam… o Anjo” (Jung, 1943/1983, pp. 338-339).

O Convite

O Chamado do Anjo não é apenas uma mensagem do self, mas a aparição do Anjo também traz um convite para um processo que pode transformar a relação consciente com o subconsciente, mudando completamente a vida da pessoa. Os teóricos junguianos chamam essa experiência potencialmente transformadora a função transcendente. A função transcendente surge da união de atitudes conscientes e inconscientes e pode ocorrer pela presença de um símbolo reconciliador, como o Anjo. Quando a função transcendente se manifesta, uma terceira coisa nasce, simbolizada por um símbolo reconciliador, o Anjo. Isso pode criar uma mudança psicológica na atitude e causar uma profunda transformação na vida de uma pessoa. A. Hall (1983) esclarece ainda mais a função transcendente e sua relação com o Anjo: “A capacidade da psique objetiva de formar símbolos reconciliadores é chamada de função transcendente porque pode transcender a tensão consciente dos opostos” (p. 13).

Robert Romanyshyn (1994b) menciona que o Anjo traz o convite aos naufrágios da vida e que esse convite é uma oportunidade de transformação. Esse convite ocorre em momentos em que o ego está disposto a renunciar a seu domínio sobre a realidade e os conteúdos inconscientes podem irromper a serviço do que Jung chama de Self, a totalidade psíquica do ser. A função transcendente une o consciente e o inconsciente de maneiras que afetam uma mudança psicológica de atitude:

As tendências do consciente e do inconsciente são os dois fatores que juntos compõem a função transcendente. Chama-se “transcendente” porque torna a transição de uma atitude para outra organicamente possível, sem perda do inconsciente. (Jung, 1916/1969, p. 279)

A união do ego e do self é afetada por uma mudança na natureza e no relacionamento do ego com o self. A reconciliação e transformação do ego e do self também se estende ao Self e ao cosmos. O Conhecimento e conversação do Anjo podem produzir a função transcendente e assim é um convite à união e integração da mensagem, do chamado ou logos que é levado pelo Anjo.

O Anjo é um símbolo reconciliador, auxiliando no diálogo entre consciente e inconsciente, o mundo diurno do ego e o noturno da alma. “Quando nos unimos à imagem daimônica, permitimos que a imagem se transforme, altere completamente – alquimicamente – nosso senso de identidade” (Dennis, 2001, p. 13). Como guia ao longo da jornada sinuosa, que os cabalistas chamam de “caminho da serpente” (Gilliam, 2000, p. 7), o Anjo é também a serpente do Jardim do Éden que tenta e o messias que redime, oferecendo alternadamente obstáculos e removendo-os a serviço do Self. Este é o caminho para o autoconhecimento, ou sabedoria através da transformação e é semelhante ao conceito junguiano de individuação.

As indicações do Anjo podem ser vistas como um símbolo reconciliador quando é representado como um par, como o par de querubins que guardam o propiciatório sobre a Arca da Aliança (Edinger, 1986). Isso representa o numinoso que existe entre dois opostos em equilíbrio e que oferece uma oportunidade de transformação para um novo nível de consciência. No Corpus Hermético, está escrito,

Os nomes do Deus da Luz e do Deus das Trevas mudam assim, mas o que não muda é o nome do Árbitro ou Mediador, “cujo dever era impedir que um ou outro Deus obtivesse uma vitória decisiva e destruísse um ao outro”. Este Equilibrador era Thoth, que tinha que manter os opostos em equilíbrio. (Mead, 1992, p. 40)

Robert Romanyshyn (1994b) descreveu o Anjo como um símbolo de reconciliação dizendo: “O Anjo está tão profundamente abaixo de nós quanto está acima”. Ele declarou: “Anjo e verme, eles são todos iguais…. [e] a Serpente é o Messias”. Em outro lugar Romanyshyn (1994a) disse que o Anjo é “simultaneamente, o ser que valida nossas aspirações mais altas, mas mais obscuras, e que nos lembra da distância entre o que somos e o que seríamos” (p. 31). Esses sentimentos são refletidos nos livros sagrados da Qabalística, ou tradição mágica, particularmente em Liber Tzaddi (Crowley, 1987) onde o Anjo é encontrado como uma “Imagem brilhante no lugar sempre dourado” (p. 97) e como “Criatura Cega do Slime” (p. 97), e é proclamado estar “além da Sabedoria e Loucura” (p. 97), chamando-nos, humanos, a nos unirmos com aspectos angélicos e demoníacos, assim “o equilíbrio (ou totalidade) se tornará perfeito” (p. 98).

Quer seja chamado Agathodaimones, o Daimon, o Gênio ou simplesmente o Anjo, é o chamado para uma nova vida e para a morte de um velho, como agente do self, uma bela e terrível presença e, finalmente, arauto da oportunidade de nos transformarmos em seres completos. Este convite, no entanto, é simplesmente o começo de um processo com o qual muitos de nós lutamos. A oportunidade de uma nova vida significa deixar para trás velhos padrões de hábitos e juntar-se ao Anjo em um processo que chamo de “Lutando com o Anjo”.

Lutando com o anjo

As pessoas lutam com o Anjo quando lutam com as questões mais cruciais da vida. As mesmas coisas que levam as pessoas à terapia, as levam a buscar a mensagem oculta do Anjo. Esta é uma resposta ao chamado e ao chamado de que este artigo falou anteriormente. Em apoio a isso, Rilke (1981) disse que quando lutamos com o anjo, e finalmente somos derrotados, é como se alguém fosse “fortalecido… daquela mão dura, que o amassava como se fosse mudar sua forma (p. 107). O Anjo, com o qual lutamos, não apenas nos dobra para nos ajustarmos à nossa verdadeira forma, mas também pode ser um poderoso aliado e amigo. Como agente do Self, o Anjo, não só tem o poder de nos transformar poderosamente, mas também de nos auxiliar no trabalho de transformação.

Relevância para o Aconselhamento Psicológico

O Anjo pode ser um poderoso aliado na busca do autoconhecimento, seja realizado sozinho ou na presença de um terapeuta. Como o Anjo é um companheiro que carrega a verdadeira palavra do destino e é também um agente de mudança, capaz de transformar a vida, faz sentido que seja sábio trabalhar com ele. James Hillman sugeriu que devemos ir a si mesmo para saber o que ele quer, independente do relato do paciente e do diagnóstico do médico…. A tradição de falar diretamente com a alma remonta ainda mais longe: ao homem cansado do mundo no Egito conversando com seu Ba, a Sócrates com Diotima, e depois Boécio na prisão, consolado pela voz da filosofia; Polifilo, entre outros, na Renascença, que conversa com sua Polia, até finalmente em nosso tempo o método terapêutico da imaginação ativa. (1993, pág. 86)

Falar com o Anjo e reconhecer sua presença abre a mente para o mundo dos invisíveis, dos símbolos vivos que residem na psique. O Anjo pode falar com uma pessoa em sonhos, em fantasias de vigília e através da sincronicidade. Pode-se responder, convidando sua mensagem ou comunicando suas próprias preocupações enquanto negocia a mensagem que ela contém. Ao cortejar o Anjo, seja por meio de poesia, invocação ou expressão artística, convida-se seu poder transformador e auxílio que pode despertar a imaginação, trazendo profundidade e sentido à vida, cuidando da Alma. Isso também leva a um modo de viver a vida mitologicamente, que Hillman (1991) chama de “o reino do meio … [que] leva a pessoa à familiaridade conversacional com o cosmos em que habita” (p. 58).

Para o Bem de Cuidar da Alma do Mundo.

O Anjo pertence ao mundo da psique, que é o mundo da alma e da imaginação. Quando nós, como terapeutas, encontramos e convidamos o Anjo em nosso trabalho psicológico, individualmente ou com clientes, estamos ajudando a cuidar da Alma do Mundo. A Palavra Alma aponta para a vida interior que se encontra na imaginação, sonhos e pesadelos. Os psicólogos profundos, como os antigos, entenderam a importância das necessidades da alma e, ao contrário da vida moderna, encontraram maneiras de alimentá-la e reverenciá-la. Assim, o trabalho com o Anjo, que conecta os dois mundos como arauto e mensageiro, faz parte da regeneração da alma na psicologia e no mundo.

Na sociedade moderna, muitas pessoas se sentem desconectadas de seu senso de mito e significado. O Anjo pode ser um guia para a vida simbólica, que, embora não seja obviamente importante para o mundo diurno do ego, é crucial para o bem-estar psicológico. “A vida simbólica é um pré-requisito para a saúde psíquica” (Edinger, 1972, p. 117).

É evidente que um senso de mistério e a exploração do mito pessoal são importantes na vida e que está faltando na vida moderna. A ausência de mito e significado na vida moderna resulta em consumismo guloso, alcoolismo e dependência de drogas e bons negócios Nova era e de Autoajuda. As pessoas procuram fora de si algo que lhes dê um senso de propósito. Em última análise, é o confronto com o próprio Anjo que preencherá essa necessidade de cada indivíduo. Em última análise, é o próprio Gênio da pessoa, o Anjo em seu coração, que abrirá os olhos da alma e fará a imaginação voar de uma maneira que honre a natureza individual. Carl Jung explicou a necessidade do mistério e do desconhecido:

É importante ter um segredo, uma premonição de coisas desconhecidas. Isso preenche a vida com algo impessoal, algo numinoso. Um homem que nunca experimentou isso perdeu algo importante… O inesperado e o incrível pertencem a este mundo. Só assim a vida é completa. (1989, pág. 356)

Outros psicólogos profundos concordam com essas linhas. Paco Mitchell afirmou:

Ter consciência desse nível de realidade psíquica e responder a ele de alguma maneira apropriada pode muito bem ser uma tarefa crucial, não apenas para o destino do indivíduo, mas possivelmente também nos níveis coletivos da vida humana. Blake chama isso de “vida alada”. Nossas vidas podem muito bem depender de seu bem-estar. (citado em Mitchell, 1994, p. 67)

A imaginação mítica fornece outro modo de percepção, dando vida e profundidade às imagens do inconsciente. Hillman disse que “nossa vida na alma é uma vida na imaginação” (1993, p. 56).

Além de despertar para cuidar da alma, o Anjo pode auxiliar no trabalho de negociação com o inconsciente e seus habitantes. Através do Anjo como mediador do mundo inconsciente, pode-se conhecer os outros arquétipos e dialogar com eles. Isso é benéfico porque “no trabalho de individuação a chave é efetuar uma relação consciente com a psique para não ficar simplesmente à sua mercê” (Young-Eisendrath, 1997, p. 94). O Anjo é um símbolo de reconciliação com cuja moeda se pode comprar passagem para o reino interior. O Anjo é um guia potente, manifestando-se no mundo diurno e no mundo noturno, em sonhos, visões e sincronicidade.

O Anjo e Meus Clientes

O Anjo pode ser cortejado de muitas maneiras, em muitos níveis, em última análise, guiado pelo próprio Anjo. Os três relatos a seguir mostram como o Anjo se manifestou em minha vida e prática como psicólogo de aconselhamento.

Suzanne – Angel Tunes

Suzanne, uma mulher sem-teto de 40 anos, me foi encaminhada pela agência onde fiz meu estágio. Ela foi diagnosticada com depressão dupla e transtorno de personalidade limítrofe. Após cerca de 8 semanas em sua terapia, para facilitar o processo de ligação, mencionei meu curso de pós-graduação. À medida que discutíamos meu trabalho, Suzanne perguntou sobre minha tese. Eu mencionei que era sobre O anjo e como ele se manifestou de diferentes maneiras ao longo da vida. Suzanne ficou encantada e mais animada com o conceito do Anjo do que eu imaginava! Semanas depois, fiquei ainda mais surpreso quando Susan me presenteou com Angel Tunes, um CD de canções de rock apresentando o conceito do Anjo (ver Apêndice A nas pp. 79-80). Eu fiquei maravilhado! Através do Anjo, Suzanne deu a si mesma e a mim um presente: ela ficou possuída pelo desejo de produzir uma peça criativa que a ajudasse a sair de uma depressão profunda e facilitou nosso trabalho juntos. O processo de compartilhar sobre o Anjo e sua resposta ao convite que ele representava (o CD) significou uma conexão de cura com o Anjo, levantando sua depressão e reforçando uma valiosa troca de self-objeto entre cliente e terapeuta.

Audrey – A Voz Interior.

Audrey, uma atriz de meia-idade, veio me pedir ajuda para deixar um relacionamento com um namorado abusivo. Ela trouxe o Anjo ao meu escritório várias vezes antes mesmo que eu percebesse. Depois de alguns meses de terapia, Audrey passou a confiar em mim o suficiente para mencionar sua voz interior, a quem ela consultava com frequência para obter conselhos. Encorajei-a a dialogar com essa voz e a trabalhar com ela em meditação todos os dias, pois parecia ser uma porta de entrada para sua intuição. Continuamos a trabalhar por vários meses antes que eu percebesse a identidade de seu “amigo interior”. Isso ocorreu de repente quando ela estava me relatando um sonho especialmente vívido. O Anjo veio na forma de um golfinho, um psicopompos comum, e falou com a autoridade de sua voz interior. Quando ela descreveu a figura e a cena, quase sem pensar, soltei: “Esse é o seu anjo!” Depois que Audrey concordou, ela me contou animadamente a história de sua voz interior e Anjo que ela aprendeu na escola católica e costumava abrir portas.

Minhas experiências do anjo

Meu Anjo apareceu-me através de uma série de sincronicidades, em um ponto crucial da minha vida, e posso dizer honestamente que mudou o rumo da minha vida, e ainda muda até hoje. Quando eu tinha 18 anos, fui expulso da casa dos meus pais por mentir para eles e abandonar a faculdade. Logo depois, vi-me sem-teto, envolvido com drogas e traficantes, e enfrentando uma possível sentença de prisão. Felizmente, o destino jogaria uma mão e meu Anjo veio me salvar do caminho que eu havia escolhido. Através da intervenção oportuna de um amigo, meus pais foram chamados e eu fui resgatado da prisão. Como condição para minha liberação, eu tinha que ficar com um dos pais, e como minha mãe e meu padrasto estavam a caminho da Europa, decidiu-se que eu deveria ficar com meu pai biológico, que eu não via há 11 anos. Através do meu reencontro com meu pai, fui apresentado a um conjunto de workshops que viraram de cabeça para baixo a minha visão de mundo e minha autoimagem. Esses workshops me ajudaram a examinar minha vida, minhas crenças e minha autoimagem, e alcançar avanços catárticos e transformadores. Como resultado dessas experiências, tive uma experiência espiritual e vi uma luz branca envolvendo cada um dos participantes do workshop. Logo descobri que essa experiência era única para mim, e desde então passei a entender isso como um presente do meu Anjo. Através desta experiência fui conduzido ao meu primeiro mestre espiritual, um médium, que me ensinou a ouvir e sentir a presença do meu guia etéreo. Desde então, meu Anjo se manifestou para mim de muitas maneiras diferentes. Às vezes sinto que entidades, que às vezes chamo de guias espirituais, me são enviadas pelo meu Anjo; às vezes sinto um pequeno tapinha no ombro, outras vezes até vejo luzes coloridas.

Hoje eu trabalho com meu Anjo de muitas maneiras. Na meditação e contemplação, e na invocação poética. O Anjo evoluiu de um guia externo para um aspecto do meu verdadeiro gênio como homem. Passou de uma vaga intuição para a minha própria voz através do meu trabalho com este artigo, à medida que atingi o meu próprio Conhecimento e Conversação. Cada vez que escrevo sobre o Anjo e exploro suas imagens, estou cultivando o daimônico em minha vida, tornando-me possuído por sua presença. Quanto mais eu trabalho com o Anjo, mais clara e profundamente meu caminho e processo de vida se desenrolam.

Conclusão

Quando se contempla o Anjo, convida-se a sua presença à sua vida e apreende-se as mensagens que ele transmite do Self. Os poderes dinâmicos do inconsciente, que são os poderes de regeneração são então bem-vindos. Ao iniciar o trabalho nesta tese, iniciei um novo relacionamento com meu próprio Anjo e convido meus leitores a fazerem o mesmo. Embora eu tenha explorado muitas facetas do Anjo, existem muitas dimensões não descobertas. Embora eu tenha apontado as possíveis razões para a presença do Anjo e as maneiras pelas quais ele pode funcionar, a resposta final sobre o que é o Anjo e sua mensagem, como ele pode possuir alguém e o que se pode exigir dele, é uma descoberta pessoal.

Este capítulo explorou o Anjo como um arquétipo crucial para a vida psíquica e a Grande Obra conhecida como a jornada da individuação. Descobri que o Anjo, como o Chamado, convida ao caminho da autodescoberta, e como o Chamado convida ao destino da pessoa. Conhecimento e conversação é o processo de diálogo com o Anjo, um processo que é transformador. Este é um fenômeno arquetípico e universal que tem implicações únicas para a consciência coletiva e individual; ele relata a mensagem do relacionamento correto da pessoa com o Ser e o universo, iniciando a pessoa em um relacionamento criativo com um cosmos vivo.

Através do meu trabalho com o Anjo, descobri que tanto a Grande Obra da Cabala Hermética e a grande obra da psicologia profunda chamada individuação são processos semelhantes. O Anjo é um guia poderoso, não importa como esse processo seja chamado. Descobri que o Anjo carrega grande profundidade e sabedoria, não apenas individualmente, mas também coletivamente, para a psicologia e também para o mundo. O Chamado do Anjo pode ser comparado a um convite ao próprio destino: o teleos, significado ou propósito por trás da existência. Esta iniciação é o primeiro passo na jornada do que Jung chama de individuação e os antigos chamavam de circunavegação do sol. A jornada espiral do Ser, guiada pelo Anjo, é a busca pelo belo, a harmonia da totalidade da própria vontade e natureza verdadeiras.

Descobri que o Anjo é um companheiro constante nesta jornada na vida e às vezes pode parecer nos desafiar. A aparição do Anjo ocorre na meia-idade, ou em algum outro momento crítico, quando alguém pode dizer como disse o Jó bíblico: “Minha alma está cansada de suas angústias, eu lamento como um bêbado na minha aflição” (Jó 6:7). Esta é a “selva oscura” onde Dante, em seu Inferno, encontra Virgílio seu guia enviado por seu anjo Beatrice. Esse convite, como a função transcendente da teoria junguiana, oferece o potencial de transformação. Encontros com o Anjo naturalmente desafiam as ideias sobre significado e podem induzir a pessoa no esforço de construção de significado, bem como na automudança. A individuação, disse Edinger (1972), é uma maneira de viver a vida. Aceitando a si mesmo, aprende-se a aceitar a vontade de Deus e se tornar quem é mais capaz de ser.

Conhecimento e conversação do Anjo significa aceitar o convite para dialogar com a mensagem do Self e abraçar a oportunidade de transformação. Isso representa uma relação consciente com o Anjo, o cosmos e nós mesmos e transforma isso em uma unidade consciente. A ingestão do Anjo transforma a pessoa em um modo de viver, de estar no mundo chamado apocosmose ou união com o cosmos, que experimento como participante de um universo criador como uma parte desperta e consciente dele, como uma estrela em um corpo de estrelas, cada uma unida, mas individual e única, participando de um todo orgânico interconectado. Essa percepção da capacidade de participar da criação traz asas de volta à alma, poder à imaginação e profundidade à vida. Essa experiência foi expressa poeticamente por Platão:

Quando, portanto, é perfeita e alada, ela se eleva às alturas e governa todo o cosmos, mas quando perde suas asas; ela é empurrada para baixo até ser levada contra algo sólido, no qual ela habita tomando um corpo terreno. (Santuário da Sabedoria, 1984, p. 52)

No final, o importante é como se responde ao convite quando ele chega. Alguém luta com ele ou aceita seu próprio destino? Está alguém preparado para o Anjo e a mudança que ele anuncia? Tais perguntas são relevantes para a própria resposta à voz mansa e delicada que pode se manifestar como convite.

CAPÍTULO IV

CONCLUSÃO

A Obra

O trabalho com o Anjo é importante para nós individual e coletivamente, enquanto psicólogos profundos e leigos igualmente. O Chamado do Anjo é mais do que apenas o chamado de nossos destinos pessoais: é um chamado a um sentido mais profundo de significado e pessoa, de identidade e relacionamento com nosso eu mais íntimo e o Cosmos em que vivemos. Não é apenas o chamado pessoal do indivíduo, mas também o chamado da alma do mundo para se lembrar de toda a psique, não apenas da parte que a tecnologia moderna e a mente racional podem entender.

Quando o Anjo aparece, ele nos chama a despertar para uma nova visão e uma nova vida. Quando nosso Gabriel, nosso anjo da revelação, toca sua trompa, ele revela nossa natureza infinita inscrita nas profundezas de nossas almas e somos arrebatados. Se aceitarmos este convite para a morte, podemos ressuscitar e descobrir uma maneira de estar no mundo que transcende as velhas perspectivas limitadas e abraça todo o nosso potencial. O Anjo como mediador reconcilia os opostos e une as coisas. Ele não apenas nos une à nossa própria vocação, o ego ao self, mas também o inconsciente individual ao coletivo, a alma pessoal à alma do mundo. Além disso, o Anjo une o mundo dos antigos e a imaginação ao nosso mundo moderno do intelecto.

Este trabalho também foi minha resposta ao meu próprio chamado para realizar meu próprio Anjo, descobrir minha própria voz como escritor, unir as obras da Cabala Hermética e dos alquimistas à da psicologia profunda e servir ao Self amplificando o símbolo do Santo Anjo da Guarda. Este estudo do Anjo originou-se de minhas próprias experiências com a Cabala Hermética e da minha percepção de que o trabalho dos cabalistas e dos psicólogos profundos tinha muitas semelhanças que valem a pena estudar. A Cabala Hermética é digna de estudo porque, como a psicologia profunda, ela se comunica com o inconsciente por meio de uma linguagem simbólica. A Cabala Hermética usa os veículos do ritual, metáfora e mito para alcançar o conhecimento e a conversação do Anjo.

As origens da Cabala Hermética e da Santo anjo da guarda, que combinou muitas faces anteriores desse arquétipo, repousam no sincretismo de Alexandria, Egito, durante os séculos I e III dC. Na prática atual, o candidato é guiado por um conjunto gradual de iniciações para criar equilíbrio na psique. Neste espaço sagrado, o Anjo é invocado através de métodos que são, em última análise, únicos para cada indivíduo, embora a invocação ritual seja frequentemente usada como ponto de partida. Todos esses processos são projetados para guiar um iniciado através de uma jornada não muito diferente da individuação, onde o ego renasce em um estado de cooperação consciente com o Self.

Em minha pesquisa, descobri que o Chamado do Anjo é consistente em todas as civilizações e sua mensagem é semelhante a muitos tipos diferentes de pessoas. O Anjo aparece como um espírito guardião, que também pode ser um guia pessoal e uma voz interior. A presença do Anjo marca um momento de transformação e é vivida como incrível e acolhedora. Quer o Anjo esteja envolvido com um poeta, mágico ou psicólogo, quer seja chamado de Gênio, Anjo ou Daimon, ele nos desperta para uma jornada ao coração de quem somos, à nossa verdadeira natureza, e nos desafia a encontrar nossos destinos.

 A mensagem do Anjo

O Anjo é um mensageiro e carrega uma mensagem importante que tem importância crucial para nossas almas. Ela nos leva ao seu propósito, a razão de estar na vida, que se manifesta como o que Jung chama de teleos, um movimento de avanço que se move para algum objetivo oculto. O Anjo também atua para nos atrair por esse caminho que a alma escolheu e para nos iniciar em vigília às vezes ao longo do caminho. Dessa forma, imagino o Anjo se manifestando como o Chamado, realizando seu trabalho como agente do Self, oferecendo o convite à transformação chamado Conhecimento e Conversação o que leva às possibilidades de individuação e de encontrar seu lugar no universo.

O Anjo é uma imagem persistente que se manifesta em muitas tradições de várias formas, porque é um arquétipo e, como tal, pertence ao inconsciente coletivo, que une toda a vida psíquica. O Anjo como arquétipo é um numinoso e um símbolo reconciliador que carrega o potencial de nos levar adiante no caminho de nos tornarmos uma pessoa, um caminho que Jung chama de individuação. A revisão da literatura mostrou que o Anjo é um símbolo antigo relacionado a um aspecto numinoso do Self que une o ego ao Self ou o indivíduo a Deus. A pesquisa descobriu que o Anjo auxilia no desenvolvimento da personalidade, e que os antigos e Jung tinham ideias semelhantes.

O processo de individuação que constitui o desenvolvimento da personalidade é semelhante aos antigos chamados de circunvolução do Sol. Ele é uma jornada espiritual possibilitada através do Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião, culminando na manifestação do destino de um determinado indivíduo, a participação consciente na criação contínua do universo. Na linguagem da Cabala, diz-se que se torna um homem solar, ou soberano (Regardie, 1997).

O Anjo é um guia importante em uma jornada árdua. O Anjo, como o Kerux nos mistérios gregos de Elêusis, segura a lâmpada acesa pela chama oculta do self e nos guia em nosso caminho. Cabalistas, filósofos antigos e psicólogos profundos descrevem o caminho para a individuação como difícil e traiçoeiro. Todos concordam que precisamos de um guia nesta jornada em que somos desafiados a reconciliar os opostos e uni-los a serviço do autoconhecimento através da experiência pessoal. Como Hermes, o Anjo conhece o caminho através da natureza paradoxal da psique para o enigma do Self.

Seja um ser espiritual vivo, ou simplesmente uma metáfora para uma função do eixo do ego-self, o Anjo é real. Todos os símbolos, como Jung descobriu, têm vida nas profundezas da psique e são autônomos e reais. O Anjo é um amigo lindo e terrível no caminho para se tornar uma pessoa inteira, uma inteligência que pode nos guiar e desafiar. Como o Anjo conecta o ego com o Self e carrega o propósito de nossa própria alma, ele também nos conecta com nossos destinos, oferecendo-nos o desafio de negociar nossas preocupações egoístas pessoais com os ditames do Self.

Honrando a alma

Encontrei muito suporte para minha tese de que o Anjo é um arquétipo importante para o processo de individuação e como mediador entre o ego e o Self, crucial para a vida da Psique. Mesmo assim, encontrei muito mais que não pode ser explicado neste pequeno artigo, e muito mais que pode não ser explicado em palavras. O Anjo é um mistério vindo de uma dimensão que os psicólogos profundos chamam de alma, o mundo interior da psique que cresce através da reflexão, interiorizando nossa vida pela imaginação e dialogando com os conteúdos dentro dela. Esta alma está conectada à Alma do Mundo, e assim o Anjo também conecta a todos nós, alma a alma. Este trabalho é para trazer a alma de volta à psicologia e de acordo com o lema de Pacifica, Colendae Gratia Animae Mundi (Para cuidar da Alma do Mundo).

Ao encontrar o Anjo, cuidamos da alma porque o Anjo e nosso diálogo com ele estimulam a imaginação e despertam a vida psíquica interior. Thomas Moore (1994) disse para falar com o Anjo, como em qualquer trabalho de alma, devemos “desistir da racionalização e fazer o que os pintores fazem ‘traçar a cena’, amplificar o cenário e o diálogo, e participar poeticamente da anunciação” (página 21). Robert Sardello (1994) sugeriu: “A partir de um pensamento do coração, é possível dizer mais sobre a presença do anjo da guarda” (p. 247). Os cabalistas e hermetistas invocavam o Anjo com frequência, inflamavam-se em belos louvores e, finalmente, os poetas cortejavam sua beleza e se tornavam canais de seu reino celestial.

Quando encontramos e convidamos o Anjo em nosso trabalho psicológico, convidamos os imaginativos, os trans racionais e até os irracionais para a sala de aconselhamento. Convidamos uma dimensão extra da psique para o nosso trabalho. O Anjo aponta para este reino, vem deste reino e pode ser um guia até ele. A alma, juntamente com a imaginação, tem o poder de trazer maior profundidade e significado ao mundo. Na sociedade moderna, muitas pessoas se sentem desconectadas de seu senso de mito e significado. O trabalho com o Anjo pode ajudar neste processo e através dele ajudar a cuidar da alma do mundo.

É minha convicção, juntamente com a de James Hillman (1993), que devemos cultivar a alma em nossas vidas e na vida de nossa sociedade e cultura. Em uma época em que o ego e o intelecto ameaçam dominar à medida que a ciência aplica seus poderes irrefletidamente, podemos nos encontrar diante da ameaça de extinção. Nos mitos de O Fédon e As Górgias está escrito: “Aquele que negligencia sua alma está em terrível perigo” (Shrine of Wisdom, 1984, p. 39). Precisamos do Anjo, pois quando estudamos tal arquétipo servimos à alma, conectando-nos com toda a psique, dando-nos a oportunidade de recuperar nosso equilíbrio e deixar o mundo inteiro falar.

Quando convidamos o Anjo, despertamos a imaginação, os olhos da alma e participamos do que os Hermetistas chamam de “A vida alada”. Aceitamos o psicopompo que pode ser revelado como Hermes Trismegisto, oferecendo uma sabedoria profunda que transcende as sensibilidades modernas e a experiência pessoal. Podemos ser levados a uma vida úmida de profundidade e significado, participando de um universo cheio de profundidade e significado, se apenas deixarmos que a alma e a imaginação tomem seu lugar em nossa vida.

O Anjo na Psicologia do Aconselhamento: Um poderoso aliado

O Anjo é um poderoso aliado para o campo da psicologia profunda e a obtenção do autoconhecimento e da transformação. O Anjo é um guia e anfitrião para o reino oculto dos invisíveis que vivem na vida da psique e ele carrega a chave para os mistérios da existência humana. Como mensageiro do Self, é um mediador da verdadeira natureza da pessoa. Como agente desse Self, carrega um potencial de transformação. Como símbolo reconciliador, sua presença representa o objetivo do trabalho analítico, para iniciar o processo de individuação em que a função transcendente pode fazer sua presença conhecida. Destas e de inúmeras outras maneiras, o Anjo é de fato um poderoso aliado no desenvolvimento de uma personalidade, para criar o homem solar perfeito. Certamente, o namoro com este poderoso guia é útil para a arte do aconselhamento psicológico.

O Anjo pode ser encontrado em sonhos, fantasias e invocações cerimoniais. Pode-se dizer ao Anjo que sabemos que ele está lá e que estamos prontos a ouvir. Nossos clientes ou simplesmente aqueles que buscam o autoconhecimento podem conhecer o Anjo com uma variedade de técnicas: imaginação ativa, análise de sonhos, magia cerimonial, visualizações guiadas e mediações. Um relacionamento pessoal pode ser nutrido com este poderoso aliado e professor que ajudará a acelerar o processo de Individuação e exploração criativa de nosso potencial.

De muitas maneiras, o Anjo pode representar um poderoso agente de mudança e um aliado no trabalho terapêutico. Na terapia, o Anjo pode se manifestar como o símbolo de reconciliação entre o consciente e o inconsciente do paciente, bem como entre o paciente e o terapeuta. O Anjo pode fornecer clareza e guiar o processo, dando uma face ao destino de cada um. Ele pode dar voz às profundezas desconhecidas do subconsciente que são exploradas no processo analítico. O Anjo também é um mensageiro dos deuses e pode ajudar a estabelecer um diálogo com o hospede invisível que vive na psique.

O Anjo é um aliado benéfico da terapia por outro motivo. Como um arauto do passado antigo e habitante da psique, ele é um iniciador no mundo da imaginação, despertando os olhos da alma para a vida alada que conduz à totalidade. O Anjo nos ajuda a manter o equilíbrio e evitar uma psicologia egocêntrica, que negligencia o Self, ou a fraqueza das técnicas cognitivo-comportamentais que carecem de imaginação e ignoram a Alma. O Anjo preserva um senso de profundidade e mistério que nos desafia a sermos nós mesmos, não como centros de nosso próprio universo, como o ego gostaria, mas como estrelas dentro do corpo da Alma do Mundo, cada uma um centro completo apenas em sua relação com o todo e serviço à alma.

Tanto Carl G. Jung (1989) quanto Joseph Campbell (1988) reconheceram que, para nos tornarmos pessoas inteiras e uma sociedade inteira, devemos recuperar um senso de significado pessoal e propósito na vida coletiva e individualmente. Carl Jung explicou a necessidade do mistério e do desconhecido:

É importante ter um segredo, uma premonição de coisas desconhecidas. Isso preenche a vida com algo impessoal, algo numinoso. Um homem que nunca experimentou isso perdeu algo importante… O inesperado e o incrível pertencem a este mundo. Só assim a vida é completa. (1989, pág. 356)

Com toda a falsa certeza da ciência moderna e as ilusões externas do controle do ego sobre a natureza, não nos sentimos à vontade com o desconhecido e o incognoscível; consequentemente, o mundo do mito e da magia e da vida religiosa é negligenciado. James Hillman (1993) afirmou que

ter consciência desse nível de realidade psíquica e responder a ele de alguma maneira apropriada pode muito bem ser uma tarefa crucial, não apenas para o destino do indivíduo, mas possivelmente também nos níveis coletivos da vida humana.

Futuros Caminhos de Pesquisa

Esta exploração do arquétipo do Anjo é o primeiro de vários trabalhos planejados para explorar o Santo anjo da guarda da Cabala Hermética e a tecnologia envolvida no encontro e na conversação com o Anjo. Um estudo transcultural mais amplo do Anjo certamente é garantido. Outro trabalho que eu gostaria de fazer seria um estudo mais detalhado do ritual e do processo de conhecimento e conversa do Santo anjo da guarda, e como isso opera para reordenar a consciência ao longo das linhas da função transcendente.

O trabalho com o Anjo também é um começo para uma visão mais ampla: falar sobre antigas tradições de mistério na linguagem da psicologia profunda, tornando seu poder transformador mais facilmente acessível à humanidade moderna, ao mesmo tempo em que reverencia sua natureza criativa e imaginativa. A linguagem da psicologia profunda, incluindo a psicologia analítica de Jung e a psicologia arquetípica de Hillman, é perfeita para esse propósito, pois usa a linguagem simbólica para transmitir fatos psicológicos. Um trabalho que eu gostaria de realizar um dia seria intitulado “Os Hierógamos e a Função Transcendente”, que analisaria a arte e a tecnologia rituais em termos psicológicos e transculturais. Espero que tais trabalhos possam ajudar a animar o mundo, assim como psicólogos e teóricos como Jung e Hillman tentaram fazer. É minha esperança que obras como essas possam ajudar a promover o trabalho de unir esses mundos e levar a humanidade ao seu pleno potencial, que acredito que deve vir de honrar as sensibilidades antigas e modernas.

Para concluir: Um Mistério Vivo

O Anjo é um mistério vivo que nos conecta ao mistério do nosso eu mais profundo. Ele é uma ponte para aquele mundo desconhecido interior e a voz do Self para o mundo exterior. É o mensageiro e a mensagem, agente do Ser e agente alquímico. O símbolo do Anjo é misterioso e, como tal, contém um paradoxo e é ambíguo como a psique de onde vem. Como todos os símbolos, ele aponta para algo desconhecido, um fenômeno que nunca pode ser completamente revelado, exceto dentro da própria experiência (veja a Figura 10 na página 90). “O anjo também protege o mistério, [e] mesmo quando ele revela, ele oculta” (Moore, 1994, p. 26). Esta tese é uma investigação hermenêutica sobre uma figura ambígua e misteriosa. O ego precisa de interpretação para lidar com uma quantidade desconhecida, um símbolo como o Anjo, ou uma metáfora como Conhecimento e Conversação, para ajudá-lo a compreender o que está além de seu alcance.

Percebo o quanto não foi dito: o Anjo ainda é um mistério profundo com muitas outras dimensões ainda inexploradas. O Anjo, afinal, é um mistério que quando comunicado talvez só possa ser parcialmente revelado. Este mistério, pertencente a dois mundos, o interior e o exterior, pode ser unido e realizado na própria relação pessoal com o Anjo. Ao responder ao Anjo, escolhe-se prestar atenção a uma mensagem do Self, um imperativo para iniciar uma jornada que honre todo o indivíduo que se pretende ser, incluindo pontos fortes e fracos, aquilo que o ego vê como perfeito e falho, e entrar no processo que produz a Pedra Filosofal individual, o alimento do Anjo, a própria natureza individualizada. O Chamado do Anjo é um chamado para a verdade, na alma, de sua verdadeira vontade e propósito, e um convite para participar e ajudar a criar esse destino.

Ao encerrar este trabalho, quero enfatizar o quão apaixonadamente acredito que ele pode servir ao trabalho da Alma e ao grande trabalho dos psicólogos antigos e modernos. Vejo que este mundo está sofrendo, reagindo aos abusos passados da autoridade religiosa jogando fora toda especulação imaginativa em nome da superstição, jogando fora o bebê com a água do banho. A humanidade moderna perdeu sua alma, preferindo a mente racional e a ciência positivista para excluir o mundo intuitivo e alegórico dos antigos. Este trabalho, como o da psicologia profunda, não apenas ajudará a curar essa divisão nos indivíduos, tornando-os inteiros, mas também tenderá à totalidade da Alma do Mundo.

APÊNDICE A

ANGEL TUNES

Índice de 4 páginas do CD que minha cliente Suzanne fez para mim.

Apêndice B

ALGUMAS IMAGENS DO ANJO ATRAVÉS DOS TEMPOS

Figura 1 -Hermes Trismegisto e o fogo criador que une as polaridades.

Figura 2 – Agathosdaimones da Estela Egípcia.

Figura 3 – Ártemis alada.

Figura 4 -A Pesagem do Coração.

Figura 5 – O nascimento do ovo do mundo de Phane.

Figura 6 – Sereia pássaro do céu.

Figura 7 – Tobias e o Arcanjo Rafael retornando com o peixe.

Figura 8 – Cartão sagrado austríaco antigo

Figura 9 – Anjos aparecendo ao rei em um sonho.

Figura 10 – Cartas de alma.

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ESBOÇO AUTOBIOGRÁFICO DO AUTOR

O Anjo conduziu minha vida nos últimos 18 anos, desde que se apresentou a mim, na forma de uma visão. Eu moro em Culver City, sul da Califórnia, onde pratico os sistemas místicos orientais, bem como a Cabala Hermética, na busca pela autodescoberta, cura e revivificação tanto da psicologia quanto da Tradição do Mistério Ocidental.

Minha vida me levou em muitas direções. Em 1986, aprendi a ler cartas de tarô, desenvolvi minha clarividência e fui ordenado ministro na The Aquarian Fellowship, uma igreja metafísica não-denominacional; logo depois, fui apresentado à Cabala Hermética e ao conceito de “O Sagrado Anjo Guardião”, que se tornou meu foco central desde então.

Entrei no Pacifica Graduate Institute depois de me encontrar no meu próprio naufrágio na vida. Estava insatisfeito com minha carreira de técnico de informática, divorciado, deprimido e prestes a me destruir com o álcool. Descobri que uma separação precisava ser consertada e decidi voltar à escola para me tornar uma psicóloga de profundidade, para que pudesse servir minha verdadeira vocação.

Essas experiências formativas, meu crescente interesse pelo esoterismo ocidental e seus paralelos com a tradição da psicologia profunda me levaram ao Pacifica Graduate Institute e a este trabalho. Pretendo me tornar um terapeuta praticante usando minha ampla gama de conhecimentos e talentos como cabalista hermético e psicólogo para ajudar os outros a encontrar significado e propósito em suas vidas de maneira criativa e comovente.


Apresentado em cumprimento parcial dos requisitos para o grau de MESTRE EM ACONSELHAMENTO EM PSICOLOGIA

Pacifica Graduate Institute

17 de março de 2004, rev 8 maio de 2004

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