REVISTA BIBLIOT3CA

Leituras Selecionadas do Editor-Chefe J.Filardo

Medo: o Assassino da Mente

 

Poe  Kristine Wilson-Slack 

Tradução J. Filardo

 

Não devo temer.  Medo é o assassino da mente. Medo é a pequena morte que traz obliteração total.  Eu enfrentarei o meu medo. Permitirei que ele passe sobre mim e através de mim.  E quando tiver passado, eu vou virar o olho interno para ver seu caminho.  Onde o medo desapareceu, não haverá nada.  Só eu permanecerei.

Frank Herbert, Duna

Em nossa juventude, combatemos a injustiça do mundo. Ao desenvolver nossas filosofias, também desenvolvemos nossos medos.  Em um grupo de discussão recente sobre o simbolismo específico da Maçonaria, foi feita a pergunta: como podemos nos livrar dos medos que são realmente os falsos deuses? O medo, alguém postulou, é aquilo que motiva comportamento negativo. Outro postulou que o medo motiva os comportamentos. Mesmo depois de muita discussão, nunca chegamos a uma conclusão sólida sobre como aplacar o medo.

O medo é a sensação desagradável causada pela crença de que alguém ou algo é perigoso, ameaçador ou susceptível de causar dor.  Esta definição já está suficientemente desenvolvida para que a dissequemos, separando as partes que criam razões filosóficas para o medo.

Primeiro, é uma sensação desagradável, e os humanos odeiam sensações desagradáveis. Ninguém realmente quer passar por experiências desagradáveis e, não obstante, essa sensação desagradável se baseia em uma crença – não é necessariamente baseada em fato ou razão. É simplesmente uma crença.  Por definição, uma crença é “confiança, ou fé em algo”. Separado e remontado, podemos dizer que o medo é um sentimento desagradável causado por uma confiança ou fé em que alguém ou algo está ali para causar algum tipo de dano à nossa pessoa, nossas relações ou, talvez, nosso modo de vida.

Esta explicação não se destina a banalizar o medo ou algumas manifestações importantes de medo, como a síndrome de estresse pós-traumático.  É simplesmente para discutir os medos comuns que a maioria, se não todos nós, sente. Os medos têm fundamento? Alguns deles, sim. Outros, talvez não. Diante de um desastre iminente, o medo certamente é apropriado.

MEDO

A reação à ameaça

Sigmund Freud disse a respeito de medo real vs. medo neurótico:

“Você me entenderá sem mais informações quando eu chamar esse medo de medo real em contraste com medo neurótico. O medo real parece bastante racional e compreensível para nós.  Podemos testemunhar que é uma reação à percepção de perigo externo, ou seja, danos que são esperados e previstos. Ele está relacionado ao reflexo de fuga e pode ser considerado como uma expressão do instinto de autopreservação. E, portanto, as ocasiões, isto é, os objetos e as situações que despertam o medo dependerão em grande parte do nosso conhecimento e do nosso sentimento de poder sobre o mundo exterior…

Prosseguindo agora para o medo neurótico, quais são suas manifestações e condições…? Em primeiro lugar, encontramos uma condição geral de ansiedade, uma condição de medo flutuante ao redor, por assim dizer, que está pronto para se unir a qualquer ideia apropriada, influenciar o julgamento, dar origem a expectativas, de fato aproveitar qualquer oportunidade para se fazer sentir. Chamamos essa condição de “expectativa medrosa” ou “expectativa ansiosa”. As pessoas que sofrem deste tipo de medo sempre profetizam as mais terríveis de todas as possibilidades, interpretam todas as coincidências como um presságio maligno e atribuem um significado terrível a toda incerteza.  Muitas pessoas que não podem ser chamadas de doentes mostram essa tendência de antecipar o desastre.”

Ou seja, o medo é simplesmente a falta de nos sentirmos poderosos sobre nosso próprio mundo, seja causado por um furacão que se aproxima ou por sentimentos de inadequação. O que estamos preocupando aqui é com o que Freud chamou medos neuróticos. No entanto, a base para nossas reações, aquela falta de controle, vem do mesmo processo de sobrevivência “lutar ou fugir”. Ambos têm suas raízes no controle.

Certa vez me foi explicado que todos os vícios – Preguiça, Inveja, Ganância, Avareza, Gula, Orgulho e Luxúria – são as principais manifestações do medo. Aristóteles, em Ética a Nicômaco, fez afirmações semelhantes – explicando que as virtudes e os vícios eram um espectro, e as deficiências eram expressões no final do espectro. Em muitos lugares há cursos de gestão que falam sobre como lidar com os medos dos funcionários usando algumas dessas mesmas técnicas, mas, uma vez mais, ninguém realmente consegue chegar ao cerne de como lidar de frente com o medo. Então, sabemos o que o medo pode ser e como ele se manifesta. Mas como lidamos efetivamente com ele?

Na minha juventude, li uma série de livros baseados em “As Lições de Michael“.  Esses ensinamentos são pensamentos canalizados sobre vida e viver, como e por que as pessoas fazem o que fazem e as relações humanas em geral. Um aspecto que retive tinha a ver com medos. Muitas pessoas têm uma atitude negativa dominante que devem superar em suas vidas.

Alguns exemplos disso são 1) auto depreciação, 2) autodestruição, 3) martírio, 4) teimosia, 5) ganância, 6) impaciência e 7) arrogância. Muitos de nós passamos por todos esses em algum momento de nossas vidas, mas, em geral, ficamos com um (talvez dois) deles quando estamos cansados, deprimidos, sentindo-nos oprimidos ou trabalhando aquém de nossa capacidade. Quando nosso senso de conforto, nossa criança interior, é atacada ou se sente vulnerável, recorremos a essas atitudes que são realmente manifestações de medo.

Elas vêm da nossa infância e são decorrentes de nossas reações ao ambiente e experiências. Cada um desses blocos construtivos baseia-se em um medo muito específico e pode ser superado com esforço consciente. Estas são as atitudes negativas dominantes com seu espectro de manifestação, para usar a ideia de Aristóteles de uma escala móvel de virtudes e vícios.

  1. Auto depreciação é o medo de não ser suficientemente bom – manifesta-se como Humildade (positivo) até Auto Aviltamento (negativo).
  2. Ganância é o medo de não ter o suficiente – manifesta-se como Egoísmo | Desejo (positivo) até Voracidade | Gula (negativo).
  3. Autodestruição é o medo de perder o controle – manifesta-se como Auto sacrifício (positivo) até Suicídio | Imolação (negativo).
  4. Martírio é o medo de não ser digno – manifesta-se como Desinteresse (positivo) até Mentalidade de vítima (negativo).
  5. Teimosia é um medo da mudança, de novas situações – manifesta-se como Confiança | Determinação (positivo) até Obstinação (negativo).
  6. Impaciência é o medo de perder oportunidades – manifesta-se como Audácia (positivo) até Intolerância (negativo).
  7. Arrogância é o medo de ser vulnerável – manifesta-se como Orgulho (positivo) até Vaidade (negativo).

Ao dar uma olhada mais profunda em nosso próprio comportamento, pode ser mais fácil ver como uma reação a uma situação ou outra está ligada a uma dessas atitudes negativas e o medo que a justifica. Quando alguém vai do orgulho por um trabalho bem feito até acreditar que o trabalho feito é o melhor trabalho jamais visto, pode haver algum medo acontecendo ali. Essa linha que separa os dois extremos pode ser diferente para diferentes pessoas, e é claro que todos nós temos diferentes níveis de tolerância e habilidade para processar reações quando encontramos o medo. Quando começamos a mergulhar além da superfície de nossa própria psique, a introspecção descobre, talvez, aquelas atitudes negativas baseadas em experiências da infância.

As crianças criam visões distorcidas do mundo, dependendo da experiência ambiental e das tendências pessoais. Todos nós criamos essas distorções (grandes e pequenas) e elas acabam se tornando nossos mitos pessoais. Pense bem: “Eu sou feio”, “eu sou estúpido”, ou “eu não vou comer hoje”.  Situações repetidas ou eventos traumáticos reforçam esse mito.  Motivada por um medo profundo e conduzida por uma visão de mundo distorcida, a atitude negativa dominante emerge e entra em ação em suas vidas, mesmo até a idade adulta.

A criança pensa, por exemplo, “Eu impedirei que a vida me machuque, assumindo o controle da minha dor. Eu me machucarei mais do que qualquer outra pessoa pode”. A estratégia de sobrevivência escolhida da criança envolve algum tipo de conflito, uma guerra contra si mesma, contra os outros ou contra a vida. É um padrão de comportamento defensivo que parece irracional visto de fora, mas a partir da perspectiva da criança é perfeitamente racional. À medida que amadurecemos, precisamos abordar essas atitudes negativas dominantes ou elas colocarão em risco qualquer possibilidade de auto aperfeiçoamento. Eles escondem nossa verdadeira natureza.*

– Trecho de As Lições de Michael

Quando alguém ataca, a mim ou a outros, acredito que o motivo é sempre medo. O medo não é o motivador de todas as nossas atividades. Parece, porém, que o medo é o núcleo de comportamentos verdadeiramente negativos e destrutivos.  O ódio, as mentiras e o fanatismo são verdadeiras reações e atitudes baseadas no medo.  Ao lidar com essas reações no mundo, precisamos ter em mente que o medo é o motivador, e que, talvez, fazendo com que a pessoa se sinta segura, deixando-as expressar seus verdadeiros medos, a cura pode começar.

Em outro grupo de estudo, discutimos o medo e como usá-lo para desvendar a verdade.  Pareceu-me então que a Maçonaria nos forneceu oportunidades de enfrentar os nossos próprios medos e o medo de outros. Desde falar diante de um grupo até assumir o controle de trabalhos ritualísticos ou de criar lideranças para trabalhos voluntários, a Maçonaria nos oferece a chance de transmutar continuamente os medos no ouro dos relacionamentos, proporcionando o tipo de experiência que nos testa e nos força a enfrentar aqueles medos.

Por que o Maçom deve se preocupar com os medos?  Há muita coisa no mundo que funciona com uma dieta constante de medo. A única forma de encontrar um mundo melhor e melhorar a humanidade é elevar-se acima das coisas que nos fazem viver uma vida medíocre, irracional e mundana. Identificando e reconhecendo quando as pessoas estão agindo por medo, talvez possamos interromper o ciclo, tanto para eles e para nós mesmos.

Além disso, os maçons se esforçam para serem líderes.  Liderar é aprender o que motiva as pessoas; ao aprender sobre seus medos e ajudá-las a lidar com deles, encontramos talentos e habilidades esperando para serem descobertos. Liderar é lançar luz sobre o que impede as pessoas de serem as melhores que podem ser. Tratar os medos é difícil, a menos que criemos um diálogo verdadeiro e honesto. A Maçonaria oferece um ambiente para expressar honestidade e ser apoiado.

Esse diálogo sincero se estende a nós mesmos.  Quais são os nossos medos?  Qual é a minha atitude negativa dominante e como isso afeta a mim, à minha família e meus relacionamentos? Quais relacionamentos são saudáveis ​​e positivos e quais não são?

Perguntar “por que” é um bom começo.  Talvez, ao analisar as motivações dentro de nós que nos levam a ter relações dolorosas com outros, possamos enfrentar o nosso medo. Para fazer isso, precisamos ser capazes de analisar ativamente nosso comportamento, avaliar qualquer dano que causemos a nós mesmos, e como Paul Atriedes da série Duna, dirigir um olhar interno para o caminho que ela tomou, e nos encontrarmos em seu despertar.

Tente olhar para aquele lugar onde você não ousa olhar!

Você vai me encontrar lá, olhando para você!

– Paul-Muad’Dib à Reverenda Mãe, de Duna de Frank Herbert

 

Publicado em SOCIEDADE FILOSÓFICA MAÇÔNICA

 

Um comentário em “Medo: o Assassino da Mente

  1. Ao enfrentarmos tudo o que a vida ou melhor nossa existência nos apresenta devemos caminhar sob a luz fria do dever ou a serenidade que a Fé nos dá (Não qualquer fé produzida pelas religiões mas obtida pela entrega total do ser como Cristo Jesus de Nazaré no Jardim das Oliveiras) pois assim fazendo conseguiremos não apenas superar as adversidades mas sobretudo vencê-las ou sucumbirmos na batalha.

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