REVISTA BIBLIOT3CA

Leituras Selecionadas do Editor-Chefe J.Filardo

Salvar a terra para salvar a humanidade

Tradução J. Filardo

por Henri Pena-Ruiz

A realização da humanidade em todo ser humano implica uma economia voltada para a justiça social, ao mesmo tempo que para a eficiência de uma produção ansiosa por satisfazer as necessidades básicas de todos. Mas também exige a preocupação em preservar a natureza, respeitando seus ciclos e equilíbrios. Por quê? Porque a natureza não é apenas nosso lar comum ao mesmo tempo a fonte de nossa riqueza, especialmente pelas fontes de energia e matérias-primas que ela nos permite dispor. Ela é também e sobretudo nosso ambiente de vida, tanto pelo oxigênio que ela deve renovar constantemente para nos permitir respirar, quanto elo conjunto dos metabolismos que nos ligam a ela, isto é, trocas multiforme entre ela e nosso corpo.

Karl Marx, mais atento à questão ecológica do que se pensa quando lido através das aberrações e crimes do stalinismo, escreve que a Natureza é “o corpo não-orgânico do ser humano” (1). Ele sonha em reconciliar o humanismo e o naturalismo mudando radicalmente o modo de produção para que finalmente uma humanidade reconciliada consigo mesma, ao final da exploração, também seja reconciliada com a Natureza, pelo advento da uma ecologia em ação. Voltemos a esse ideal voltando ao surgimento do humanismo na antiguidade e ao naturalismo que andava de mãos dadas com ele. Desde então, um desvio predatório atropelou o ideal que combinava humanismo e naturalismo. Hoje, o ecossistema global da Terra, sua biosfera, está em perigo. É urgente considerar a refundação do humanismo por um novo naturalismo, projetado contra os desenvolvimentos mais deploráveis ​​de um sistema produtivista obcecado pelo lucro imediato. Um sistema totalmente cego a seu custo tanto para a humanidade quanto para a natureza.

 

Prólogo: da hominização à humanização

A humanidade, inscrita no reino animal, difere de outras espécies por sua capacidade de agir sobre a natureza a partir do conhecimento de suas leis. Isto é adquirido através da razão pensante, a faculdade de compreender as relações constantes entre os fenômenos. O Homo sapiens é a principal referência do humanismo. Certas disposições animais do macaco antropoide não são apagadas, mas no curso da história elas foram enterradas, como se tivessem sido esquecidas. A sensibilidade, o sentimento da natureza experimentado pela primeira vez por uma espécie de osmose com o ambiente, o instinto de conservação combinado com a empatia por seres semelhantes, estão lá. Rousseau nos lembra dessas primeiras disposições que definem o humano nas fronteiras da animalidade. A hominização, no sentido biologico do advento do homo sapiens, introduz nele a autoconsciência e a inteligência reflexiva que modificam a relação com a natureza. Essa, em seguida, deixa de ser uma estrutura invariável, onde os seres vivos são governados apenas pelo instinto, um padrão inato de comportamento. O homem inscreve sua marca na cultura, um processo de transformação que faz surgir uma outra maneira de ser. Confome expressa simbolicamente o mito de Prometeu, a capacidade humana de distância e recuo reflexivos, fonte de atividade técnica e abordagem científica, autonomiza a humanidade da natureza, sem, entretanto, romper seu vínculo com ela. Representar a natureza, vive-la como um lar, mas também, mais ou menos frequentemente, como uma ameaça, leva à ambivalência. As ferramentas transformam a natureza, as cidades são projetadas como um mundo original, a arte, a tecnologia e a ciência gradualmente incluem a marca apropriada da ação humana. Uma história humana da natureza, então, substitui a história natural do homem. A humanização assume a hominização, para melhor e para pior. Com o mito de Prometeu, voltemos a essa mutação que faz com que a história humana transmita a evolução biológica.

Quando Prometeu faz do homem um ser de cultura

A figura de Prometeu articula o humanismo e uma reflexão sobre o modo específico de ser do homem na natureza e em relação a ela. Em contraste com os animais naturalmente dotados de caracteres que lhes permitem sobreviver em seus respectivos ambientes de vida e cujos instintos regulam o comportamento invariável e espontâneo, os homens produzem suas condições de vida transformando a natureza a partir do conhecimento que adquirem pela razão, faculdade de adaptação e fonte de plasticidade. Sabemos que, segundo a lenda, Prometeu desafiou os deuses, dando aos homens nus e frágeis o que lhes permite sobreviver: o fogo divino, com o conhecimento das artes e das ciências.

O relato mítico da intervenção de Prometeu é relatado por Platão em Protágoras e por Ésquilo em Prometeu Acorrentado. Em nenhum momento Prometeu coloca o homem contra a natureza. Ele o coloca ali mais no modo dinâmico de um ser natural engajado em uma história a dominar. É uma história de longa data, que primeiro parece estar próxima dos ciclos naturais, antes de se acelerar com a transformação dos meios de produção e de comunicação no século XIX, com a primeira revolução industrial.

Lembremo-nos da lenda que comenta o segundo nascimento do homem, graças a Prometeu, (etimologicamente, aquele que prevê e fornece), depois de seu primeiro nascimento, de estar nu e desarmado por causa da estupidez de Epimeteu (aquele que pensa depois): Como Epimeteu não estava perfeitamente avisado, ele já havia, mesmo sem perceber, distribuído todas as habilidades disponíveis para dotar os animais, e é claro que ele tinha a espécie humana para prover; ele não sabia o que fazer. Em sua perplexidade, ele vê Prometeu chegando para controlar a repartição. Ele então observa que se as espécies animais são providas de tudo em boas proporções, o homem está nu, sem cobertura, sem armas; mas o dia fixado pelo destino para o homem sair da terra e aparecer à luz tinha chegado. Atormentado pela dificuldade de saber como salvar a humanidade, Prometeu decide roubar o domínio das artes de Hefesto e de Atena ao mesmo tempo que o fogo – sem o qual tal domínio seria impossível de adquirir e inútil – e para dar um presente ao homem. “(2)

A humanidade do homem, portanto, surgiu por um gesto inaugural. O fogo e o know-how técnico (em grego, tecnè, que designa a técnica artesanal, mas também artística), primeiro divina, tornou-se humano pela vontade de Prometeu. A destituição do homem, em seu primeiro nascimento, portanto, exige uma solução original, que lhe permita conquistar a si mesmo, o que lhe assegurará uma adaptação às exigências da vida: a cultura, como uma mistura de uma arma multivalente (o fogo) e conhecimento prático (técnicas baseadas ou não baseadas no conhecimento). O fogo é encontrado na forja de Hefesto, bem como o know-how hábil do Deus artesão também compartilhado por Atena, deusa da sabedoria. Prometeu os rouba e os entrega aos homens … “Eu tirei do caule de um ferrolho a semente de fogo que roubei, semente que é para os mortais a mestra de todas as artes e uma ajudante sem preço. »(3)

A aventura da cultura começa. Os homens não podem sobreviver da mesma maneira que os diferentes animais, dotados do que é necessário na competição vital. Por outro lado, eles têm o que lhes permite produzir sua própria existência, ao invés de desdobrar os recursos já constituídos de uma adaptação seletiva. A vida não é dada, mas a conquistar, a produzir e a reproduzir no trabalho sobre a natureza, mas também sobre si mesmo. Cultura. O homem cuida do que o rodeia para ali escolher sua casa. Ele também cuida de si mesmo e de seus pensamentos, para construir o mundo onde sua primeira liberdade é estabelecida: a de decidir sobre seu ser. Prometeu de certa forma remodela a condição humana, arrancando-a do sofrimento original. O jovem Goethe faz dizer em termos fortes este desafio a Deus que é também um novo nascimento da humanidade: “Ó Júpiter, abaixa o teu olhar sobre a minha criação: ela vive! Eu a criei à minha imagem; eu queria que uma raça semelhante a mim por sofrer, por chorar, por sentir e gozar e te desprezar, assim como eu o faço. (Nós vemos a raça de homens espalhada por todo o vale, eles subiram em árvores para colher frutos, eles se banharam nas águas, eles correram invejavelmente pelos prados, as garotas colhem flores e tecem coroas) “(4)

Observar como a natureza produz seus efeitos e escolher, conscientemente, os efeitos naturais que contribuem para a auto-realização: tal é a vocação prometeica, que Descartes reafirmará ao conceber o controle da natureza não como uma dominação predatória, mas como como um uso razoável de seus recursos. O homem é apenas à imagem da divindade que pelo domínio do gesto vital graças ao qual ele se afirma, e não pelo poder cego que ele usaria sem restrição. Em suma, ele se tornou um criador de si mesmo, como Pic de la Mirandola apontava em 1487: “Eu não de dei rosto, nem lugar próprio, nem nenhum dom que te seja particular, ó Adão, para que teu rosto, teu lugar e teus dons, tu os queira, os conquistes e os possuas por ti mesmo. A natureza inclui outras espécies em leis por mim estabelecidas. Mas tu, que nenhum limite estabelece, por teu próprio árbitro, em cujas mãos eu te coloquei, tu te defines tu mesmo. Eu te coloquei no meio do mundo para que pudesses contemplar melhor o que o mundo contém. Eu não te fiz celestial ou terrestre, mortal ou imortal, para que tu, livremente, à maneira de um bom pintor ou de um escultor habilidoso, completes tua própria forma. »(5)

A vocação prometeica de um ser também livre não implica cegueira aos limites presentes e futuros, nem ignorância dos requisitos a serem respeitados para viver para viver uma sabedoria humana. Prometeu não é Frankenstein. Mas é o mesmo fogo que aquece e nutre, ou que arde e destrói: tal é o raio das guerras humanas e os artifícios da morte. A vocação prometeica é desqualificada muito rapidamente em nome de desvios que os homens não sabem ou não querem controlar. Mas há um engano, por erro de diagnóstico. Os meios de poder e desolação existem na história somente dentro dos quadros sociais de sua apropriação, o que esquece a abstração, que questiona a “Ciência” ou a “Técnica” como tais, novas deusas malignas para o obscurantismo moderno. Hiroshima e Auschwitz, Chernobyl e Fukushima não são os descendentes de Prometeu, ou de uma Humanidade embriagada com seu poder, mas os efeitos que o poder de alguns homens pode produzir por meio de uma técnica cativa de seus próprios interesses. Mesmo as consequências de uma mística de raça, como a dos nazistas que usaram gás zyklon B para o genocídio dos judeus.

Ésquilo dá a palavra a Prometeu em Prometeu Acorrentado. Que crime ele cometeu para merecer seu suplício? Ter socorrido os mortais inicialmente frágeis, amedrontados, desprovidos de conhecimento sobre a natureza e, finalmente, pouco diferentes dos animais, exceto que, naturalmente, tinham menos meios espontâneos de defesa. Um “triste destino” antes da intervenção de Prometeu: “Ouçam, qual era o triste destino dos mortais, e como esses seres antes estúpidos, graças a mim, adquiriram razão e sabedoria? Não é que eu tenha que censurar os homens: falo apenas para lembrar quais eram os meus dons e minha bondade. Anteriormente eles enxergavam, mas enxergavam mal; eles ouviam, mas eles não entendiam. Como os fantasmas dos sonhos, eles viviam por séculos confundindo desordenadamente todas as coisas. Eles não sabiam usar nem tijolos nem madeira para construir casas iluminadas pelo dia. Como a frágil formiga, eles viviam nos subterrâneos, em cavernas profundas onde o sol não penetrava. Nenhum sinal certo que distinguisse em seus olhos o inverno, seja da primavera cheia de flores, seja do verão com abundantes colheitas. Eles agiam, mas sempre de forma aleatória, sem reflexão. (6) Qual é a contribuição prometeica? Três faculdades mais importantes, que caracterizam o homo sapiens: a faculdade de observar e pensar as relações constantes dos fenômenos, notadamente pela identificação astronômica; as matemáticas, uma ferramenta importante na ciência para enunciar as leis naturais e quantificar as relações das quais elas são a formulação; enfim, a memória encarnada por Mnemosine e, através dela, a faculdade de retenção, portanto de reflexão sobre os dados da experiência vivida, comparada, analisada, de tal modo que nenhum aprendizado existencial permaneça sem futuro. “Mãe de todas as musas”, a memória é tanto das belas artes quanto de todas as técnicas. Através da transmissão que torna possível, ela ajuda a formar a cultura que a aventura humana perpetua de geração em geração. Tal legado torna o progresso possível, mas não passa sem a sabedoria prática de que depende o uso adequado das conquistas realizadas. De todas as artes dadas aos mortais, Prometeu retém aquilo que mais radicalmente transforma a condição animal do homem, libertando-o de sua fraqueza primeira. Com o dom da medicina, a arte de curar, logo ligada à anatomia e à fisiologia, mas também à botânica e à química, Prometeu pôs fim à precariedade. Prometeu é “o inventor de todas as artes desfrutadas pelos mortais”. Mas para Zeus, isso já é demais. Como se dar aos homens fosse retirar dos deuses. Acorrentado em uma rocha do Cáucaso, Prometeu é condenado à tortura perpétua: uma águia vem devorar seu fígado, à medida que este se regenera. Lendo a evocação da lendária figura de Prometeu por Ésquilo, é difícil ver como alguém poderia lhe atribuir a responsabilidade pela destruição da natureza. Pelo contrário, o que dá o titã aos mortais é o conjunto de técnicas que lhes permitem usar bem a natureza, sem pilhagem ou degradação.

O Humanismo Epicurista: a Natureza Desdramatizada

Com Epicuro, o humanismo prometeico torna-se naturalismo hedonista, com o sentido da medida certa. A sabedoria da liberdade baseia-se, então, no esforço de depender apenas de si mesmo e no discernimento que nos permita viver felizes cultivando os diferentes registros do prazer. O prazer, guia da vida (“voluptas dux vitae” escreve Lucrecio). Essa confiança humanista descarta qualquer superstição religiosa e se recusa a obscurecer a vida pela temível referência a deuses antropomórficos, que interviriam incessantemente nos assuntos humanos. Epicuro concebe a ciência como um remédio contra a angústia produzida pela ignorância. A filosofia, que na antiguidade integra as ciências, de quem a física entendida como conhecimento das leis da natureza, permite livrar-se de toda superstição. Despida das projeções antropomórficas que tornam os fenômenos naturais manifestações mais ou menos formidáveis de divindades imaginárias, a natureza não é boa nem má. Os átomos se combinam de maneira variável, determinada por seu movimento, mas aleatória: nenhuma intenção e nenhuma finalidade habita seus movimentos. O homem, dotado de consciência e inteligência, deve esforçar-se por compreender as relações constantes dos fenômenos por meio de uma abordagem racional. Ele pode assim prever e parar de temer. As leis governam um mundo material pelo determinismo, mas esse determinismo é puro acaso em vista das intenções e objetivos que habitam os homens. Assim, os fenômenos naturais são desdramatizados. Uma vez que eu tenha entendido como o relâmpago se produz, posso me proteger dele, por exemplo, evitando ficar debaixo de uma árvore quando do rugido do trovão.

Vamos habitar o mundo com a curiosidade que ele merece e a sede de aprendizado que nos familiarizará com ele, para que possamos nos orientar, como permite o arranjo constante de estrelas no céu. Saibamos usar nossa liberdade, que tornou possível o movimento dos átomos. A explicação pela causa produtiva que faz uma coisa existir, portanto eficiente, é suficiente, porque a explicação pela causa final, sendo ordenada a uma hipótese impossível de demonstrar, ou seja a crença em um deus criador com intenções é arbitrária. Esse materialismo aleatório remove dos homens toda razão para temer a natureza, e os ensina a fazer o que depende deles para melhor compor com suas leis.

A natureza não é um ambiente hostil que deve ser combatido. É o lar da humanidade, cuja neutralidade deixa o homem livre e inteiramente responsável pelo que acontecerá em seu relacionamento com ela. O humanismo intervém como confiança no poder de auto-produção da humanidade e promoção de condições que lhe permitam fazer tão bem quanto possível. O homem não está sozinho consigo mesmo. Ele deve ser entendido na relação que tem com a natureza total, da qual faz parte, especialmente na diversidade de trocas com ela que condicionam sua própria sobrevivência. Esta vocação para compreender a natureza é ampliada pela aplicação de sua racionalidade interna na conduta a ter para viver da melhor maneira possível, esforçando-se para não depender muito de condições externas.

Se eu souber me contentar com pouco para me alimentar, não estarei sujeito à flutuação das situações. Para saciar minha sede, a água fresca de uma fonte, recolhida na palma da minha mão, me dará prazer tão puro quanto simples. O sábio epicurista não é austero, mas ele sabe que o excesso pode prejudicar o prazer. Nada demais, apenas o suficiente: a justa medida é fonte de alegria e felicidade duradoura. A regra da vida é evitar o excesso (em grego, hybris). Cultivando a serenidade, os homens em busca da sabedoria praticam a filosofia como remédio da alma e se livram de medos infundados. Assim, uma liberdade ativa é forjada, que não é construída contra a natureza ou diante dela, mas de acordo com sua ordem. Essa profissão de fé naturalista é preciosa tanto para a ética existencial quanto para o entendimento que o homem pode adquirir de sua relação com a natureza como ambiente vivo.

Qual naturalismo?

O naturalismo, portanto, não é um refúgio retrógrado ou uma negação da especificidade do homem. Ele é o reconhecimento da unidade do mundo real, uma espécie de lembrete para a totalidade em que o homem se desenvolve de uma maneira original, mas da qual ele é inseparável. A descoberta biologica do metabolismo fornece este lembrete uma tradução concreta, enfatizando o elo vital de toda a humanidade à natureza que ela habita, vive e desfruta. Um elo esquecido ou minimizado sempre que os homens confundem o meio e o fim, por exemplo, saqueando irresponsavelmente a natureza. Assim, eles destroem uma estrutura essencial de sua vida, de acordo com uma figura muitas vezes não reconhecida pela alienação da natureza a a espoliação humana e os próprios homens a um sistema econômico que os despoja de registros essenciais de realização. O hedonismo racional de Epicuro, transposto para a relação da Humanidade com a natureza, pode fornecer uma espécie de modelo de controle não da própria natureza, mas da relação humana com a natureza.

Compreendido assim, o naturalismo é uma forma de materialismo, se o entendemos como um desejo de compreende o que é a partir das causas-raízes que o determinam concretamente. Referindo o homem à natureza, os filósofos estoicos e epicuristas fizeram-no constantemente, sem nunca isso significar uma falta de conhecimento do fato de que o homem é também um ser cultural. A oposição entre natureza e cultura é, portanto, sem sentido. É uma questão de conceber dialeticamente uma interdependência essencial.

A evolução natural estudada por Darwin leva a um momento em que surge um ser que se reapropria da natureza através da cultura. Colere, em latim, é cuidar, cultivar. O agricultor cuida dos campos arando e por isso ele respeita a temporalidade cíclica das estações. Este gesto vital não pode ser depredação. Pelo contrário, ocorre em uma proximidade, ou mesmo uma osmose que serve como guia. A tradição milenar de pousio, com a rotação trienal, atesta bem essa consciência humana dos ciclos naturais. Trata-se de uma questão de administrar um tempo de descanso antes de solicitá-lo novamente por novas sementes. A questão ecológica é aqui claramente resolvida por uma consideração cuidadosa das leis da natureza e da melhor maneira de usá-las para alcançar a vida humana sem comprometer o equilíbrio da terra cultivadora. O gesto vital assim concebido permite que o homem se auto-produza sem esquecer as condições que lhe permitem fazê-lo e deve permitir-lhe indefinidamente para as gerações que o sucederão.

Na esteira de tal pensamento, Spinoza construiu sua filosofia incluindo também o homem como parte da natureza total, em latin Natura, a maiúscula enfatizando a unidade dessa Natureza. Não é necessário para isso personificar a Natureza, com o faz o animismo, nem divinizá-la, sob risco de cair em uma abordagem irracional, como o faz o panteísmo, que vê Deus em toda parte, em toda a realidade. Quanto ao Deus dos dois Testamentos, o velho e o novo, o filósofo remove dele toda a transcendência em relação ao conjunto de seres e coisas que concretamente definem a Natureza. Ele escreve: “Deus sive Natura”. Literalmente: “Deus, isso é, a Natureza”. Em outras palavras, ele não define a Natureza como a criação de um deus. Ele compara deus a essa mesma natureza, em sua dinâmica produtiva onde os três reinos coexistem mineral, vegetal e animal. Isso quer dizer que a filosofia em sua busca pela lucidez deve se esforçar para entender as leis da Natureza como um todo, a fim de traçar referenciais fundamentais para a conduta humana. A ecologia como ciência e como um projeto de refundação prolongará essa abordagem.

O advento de uma consciência ecológica

Lembremo-nos que o termo ecologia foi cunhado em 1866 por Haeckel (1834-1919), médico e biólogo alemão, discípulo de Darwin (1809-1882), em sua obra Morfologia geral. Para ele, a ecologia é a ciência das relações entre os seres vivos e seus respectivos ambientes. Haeckel escreve oecologie com referência à etimologia grega oikos, que significa morada, ambiente de vida particular (biótopo). Paralelamente, Darwin (1809-1882), autor de A Origem das Espécies publicado em 1859 e A descendência do homem e a seleção sexual, publicado em 1871, coloca a questão da relação de cada ser vivo com o seu ambiente de vida natural. Isso mostra que este seleciona as espécies cujas mutações genéticas vão na direção de uma adaptação mantida ou melhorada às restrições do ambiente.

Mais especificamente, os efeitos da atividade humana sobre os equilíbrios naturais são considerados em relação à agricultura intensiva e à poluição industrial do ar e da água. Os trabalhos de Justus von Liebig (1803-1873), bioquímico e agrônomo, destacam os malefícios da agricultura moderna sobre a fertilidade do solo. Sua crítica é principalmente da agricultura intensiva britânica, que seca a fertilidade do solo, exigindo sem qualquer medida ou preocupação com a recomposição mínima. A primeira revolução industrial, a transformação da agricultura tradicional e um urbanismo desprovidos de qualquer preocupação com o meio ambiente levaram ao surgimento do problema ecológico como um problema maior, que não pode mais ser marginalizado.

O reenquadramento ecológico de como produzir torna-se urgente. É nesse nível que a regra verde pode ser evocada. Ela exige da economia que sejam restituídos à natureza os elementos que lhe são “emprestados” pelas produções humanas, a fim de preservar as condições de vida na terra e, assim, respeitar a solidariedade intergeracional. Estudos recentes estabeleceram o conceito de dívida ecológica a esse respeito, assim o fez a Organização Não Governamental, que em 1986 assumiu o nome de WWF (World Wide Fund for Nature – Fundo Mundial pela Natureza). Segundo Arnaud Gauffier, WWF França, é segunda-feira, 8 de agosto de 2016, que a humanidade gastou e ultrapassou o nível de recursos naturais que a Terra pode renovar em um ano. Em outras palavras, nesse ritmo, é preciso mais que 1,6 planetas para que a humanidade possa sobreviver por um ano. O alerta está, portanto, dado: tal modo de produção e consumo não é viável, também se diz “sustentável” porque ele leva ao esgotamento definitivo dos recursos necessários para a sobrevivência humana. A solidariedade intergeracional, nas fronteiras do humanismo e do naturalismo ecológico não pode ser assim sacrificada.

A deriva predatória da economia, uma tendência resistível

Em uma economia de escassez, que durante muito tempo foi o quadro da atividade humana, o aumento quantitativo da produção se fez sem qualquer preocupação real pela preservação da natureza. O preconceito produtivista foi então associado a uma ilusão enganosa, imaginando erroneamente que os recursos naturais são ilimitados. A gravidade dos efeitos da ação humana sobre a natureza foi ignorada ou deliberadamente minimizada. Daí a poluição, a degradação ambiental, os resíduos e, especialmente, a extensão quantitativa da produção sem um princípio de precaução ou princípio de responsabilidade em relação às gerações vindouras.

Ideologicamente, em lugar do naturalismo próprio do humanismo antigo, há então uma exaltação sem medida do progresso técnico e uma máxima implícita de que tudo o que é possível deve ser realizado. Como resultado, os danos causados à natureza são sistematicamente subestimados, e tudo acontece como se os homens esquecessem ou ignorassem o papel protetor e até mesmo organicamente necessário de elementos naturais intactos: entre outros, a água, o ar, a floresta . O aquecimento global, a tendência ao desaparecimento de espécies animais e vegetais valiosas para o equilíbrio do ecossistema global da biosfera, entre outros, são deploráveis.

Os efeitos desse produtivismo são conhecidos e se tornaram ainda mais dramáticos com a energia nuclear. Depois da bomba de Hiroshima, uma catástrofe humana e um desastre ecológico, Chernobyl e Fukushima mostraram que um certo modo de produzir, sem respeitar pelos princípios de precaução e responsabilidade, não podia mais se perpetuar. É também neste nível que a economia social e colaborativa se cruza com a preocupação ecológica. A implementação de curtos-circuitos, a realocação de empregos, a regra verde que visa equilibrar a retirada pela restituição, se combinam sem precedentes com a exigência de justiça social. Acabar com o desperdício e a irresponsabilidade de uma economia financeira estranha a qualquer finalidade social também é essencial para a refundação ecológica.

O humanismo como uma preocupação com o humano e o naturalismo como uma preocupação com a natureza estão, portanto, ligados. Já é tempo de perceber isso para reconstruir a economia em bases sustentáveis, mas também essenciais para a sobrevivência da Natureza e, portanto, da Humanidade.

 

 

Notas:

1: Manuscritos de 1844, Tradução Emile Bottigelli, Paris 1962 Edições Sociais page 87

2 : Platon Protagoras, 321 cd, tradução inédita

3 : Ésquilo, Prometeu acorrentado. Alexis Pierron Tradução, Paris 1870, Edições Charpentier.

4 : Goethe, Prometeu no Teatro, tradução por Jacques Porchatteatro Livraria Hachette, 1860, Volume I (pp. 87-98).

5: Oratio de hominis dignitate (Discurso sobre dignidade humana) Tradução de Marguerite Yourcenar em L’Œuvre au Noir

 

Publicado na Revista FM Franc Maçonnerie

 

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