Bibliot3ca FERNANDO PESSOA

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A Questão Templária na Maçonaria – IV/V

Por Ivan A. Pinheiro  ***    

King in chainmail holding a glowing chalice surrounded by knights with red cross emblems in a stone chamber

            Os Contos Arthurianos e a Lenda do Graal [1]

Se até então os textos desta Série tiveram por base a historicidade documentada dos eventos, cuja validade, por analogia, pode ser dita concordante, pois obtida pelo cruzamento entre as fontes consultadas, o mesmo já não pode afirmar-se do texto que ora tem início, que adentra o campo da magia, das fábulas, das crenças, das lendas e de toda a simbologia que os constitui e lhes dá sentido. Todavia, é bom lembrar que por detrás dos mitos e símbolos, de regra, há uma realidade objetiva associada, ainda que muitas vezes enquanto produto da ignorância acerca da natureza última dos fenômenos, a exemplo das causa mortis, das doenças e dos eventos naturais (climáticos, celestes, etc.); assim, ao fim e ao cabo resulta um conjunto em que os dados históricos, que fundamentam e conferem credibilidade às narrativas segundo à razão objetiva, mais do que se entrelaçam, se tornam amalgamados às lendas, o que faz do intento de separá-los, uma missão impossível. Todavia, como alerta Arantes (2010, p. 43):

Não cabe ao estudioso questionar a objetividade das convicções religiosas. Possuam ou não lastro objetivo, tais ideias são sempre operantes, pois mobilizam o pensamento, a palavra e a ação de milhões de indivíduos.

Mas também é importante ter claro que as fontes primárias não podem ficar à margem do escrutínio metódico crítico e atento do pesquisador com vistas a evitar manipulações, desvios e até mesmo devaneios; assim, o que ora se refere é que, independentemente da veracidade das causas, míticas ou não, elas tendem a provocar efeitos, induzir comportamentos, etc., como é o caso, por exemplo, das fake news contemporâneas.

            De outro lado, na perspectiva do maçom estudioso que toma a História como base para a análise e a interpretação simbólica, parece não existir matéria-prima melhor. Entretanto, é preciso cautela, pois além do esforço e atenção para discernir o real vs imaginário (por vezes tornado real por incorporação às Tradições), a falta de clareza das fronteiras entre esses 2 (dois) mundos, assim como do caráter absoluto das respostas supostamente encontradas, constitui um ambiente tão fértil à imaginação quanto à exploração, quer dos demasiadamente crédulos, quer dos ingênuos e em todos os domínios, o que inclui a Maçonaria.  

            Este é o quarto de uma Série de 5 (cinco) ensaios, cada qual pensado para ser entendido em si mesmo; todavia, a apreensão e o entendimento compreensivo do conjunto e de cada peça per se serão alavancados mediante a leitura dos anteriores. Justificativa: não há razão para repetir, em cada um, ainda que resumidamente, o que já foi dito nos anteriores. Assim, o leitor que toma este como a primeira leitura da Série pode ter alguma dificuldade para entender: afinal, qual é a relação entre os Contos Arthurianos, a Lenda do Graal, a Ordem do Templo e a Maçonaria?

            Mas, para os que não estão familiarizados com os Contos Arthurianos (Reino de Camelot, Távola Redonda, Merlin, Excalibur, etc.) nem com a Lenda do Graal, julgaram-se oportunas algumas palavras à guisa de introdução, antes de explorar, agora por esta perspectiva, a “hipótese-Brum” (Pinheiro, 2026c).

            As referências mais antigas a Arthur (e é incerto se rei, general, comandante ou outro) datam do séc. VI, no período caótico e de construção da nova ordem que sucedeu à retirada dos romanos da Britânia para atender às demandas mais urgentes a Oriente. O foco dos textos, predominantemente, concentra-se na trajetória dos cavaleiros, seus sonhos, suas dificuldades, realizações e conquistas, a maioria envolvendo heroísmo (quando o real e o fantástico se encontram) nas frentes de batalha contra os novos invasores que procuravam preencher as lacunas (de poder e de espaço) deixadas pelos romanos. Há tempos presente na região, desde o Edito de Milão (instituído por Constantino[2]), em 313, o Cristianismo procurava expandir-se pela Britânia e, do mesmo modo, preencher as lacunas, só que as existentes nos corações e mentes, nas crenças e na fé dos pagãos anglos, saxões e celtas. É dessa época, por exemplo, um episódio citado por importantes autores maçônicos como Preston[3] (2017) e Scott[4] (2023): a missão evangélica determinada pelo Papa (São) Gregório Magno[5] a um monge beneditino que, a partir de então, entrará para a História como Sto. Agostinho da Cantuária[6].

            Alguns séculos se passaram até que, em 1135, Godofredo de Monmouth publicou a sua Historia regum Britanniae, que já refere um Arthur que chega até as portas de Roma, o que significa que não apenas defendia, mas também perseguia e atacava os inimigos. Todavia, é quando cruza o Canal da Mancha e é versado para o francês que os Contos Arthurianos ganham nova dimensão, inclusive a primeira referência à Távola Redonda, um dos mais conhecidos capítulos da história. As palavras de Bonnefoy (1997) são esclarecedoras quanto à amplitude da nova dimensão, notadamente para o tema ora em desenvolvimento (o simbolismo templário na Maçonaria):

Pode-se, legitimamente, afirmar hoje que grande número de mitos que afloram nos romances arturianos foram trazidos por harpistas galeses e por contistas. Talvez da antiga Irlanda ao País de Gales (se é verdade que muitos desses mitos são, afinal de contas, irlandeses), do País de Gales à França, no quadro histórico do reino anglo-romano, fossem estas as vias de expansão da lenda céltica. Acontece que – e isto é essencial – muitos outros elementos tiveram parte na criação dos romances bretões. De um lado, empréstimos da antiguidade, de uma mitologia clássica deformada, e empréstimos até de lendas orientais. De outro lado, e sobretudo, o espírito de galantaria. São notórias a nova ética e a civilidade requintada que se esboçaram, no início do século, entre os trovadores da Provença, a tal ponto que o século XII foi, na França do norte, uma quase Renascença; a influência das mulheres pode, então, conceder-se livre curso. Os primeiros romances bretões não cessam de oferecer o mais impressionante contraste entre seus temas frequentemente brutais e seu espírito de galantaria, de absoluta submissão aos caprichos da dama, de ligeira ironia que, com um traço de ceticismo, visa a corrigir o rude contorno dos antigos relatos. Tudo se passa, na verdade, como se a humanização buscasse, nessas aventuras mágicas e noctívagas, afrontar […] as mais desordenadas forças do inconsciente; e esta primeira espiritualização não deixa de evocar aquela que tentará mais tarde a Busca do Santo Graal, num sentido totalmente outro porque, desta vez, cristão (op. cit., p. 7-8).  

Fica claro que: 1) os Contos Arthurianos, pela influência e conteúdos reunidos a partir de múltiplas fontes, constituem um universo em si mesmo que, se de um lado é irredutível, do outro oferece uma riqueza sem igual à exploração simbólica; 2) e trata-se de um universo construído em sucessivas camadas, entre as quais se observa a crescente interpolação de elementos associados ao cristianismo; e talvez a mais importante, 3) a Lenda do Graal, foi uma incorporação ocorrida no tempo-espaço que abrange os eventos considerados nesta Série: na Baixa Idade Média e, como visto a seguir, a partir do eixo Troyes (França) – Toledo (Espanha).

[…] é importante observar que o escritor francês que usou o pseudônimo Chrétien de Troyes e o alemão Wolfram von Eschenbach, os grandes divulgadores da literatura do Santo Graal no século XII, estiveram em Toledo e foi lá que estudaram e tiveram contato com o “Círculo do Graal” (Brum, 2022, p. 140);

Chrétien de Troyes (nascido por volta de 1130 e falecido entre 1180 e 1190) foi um escritorpoeta, romancista e trovador francês. Considerado o fundador da literatura arturiana em francês antigo, ele foi um dos primeiros autores de romances de cavalaria. Chrétien de Troyes serviu na corte de Champagne durante o reinado de Henrique, o Liberal […] O nome “Christian” é revelado no prólogo de Erec e Enide, onde ele se apresenta ao leitor como um Cristão de Troyes[7]

            Assim, e mais uma vez, as cidades de Toledo e de Troyes estão no epicentro das narrativas. O curioso é que, apesar do pseudônimo, Béguin (1997, p. 17) afirma que “[…] Chrétien de Troyes foi um dos espíritos mais profanos da Idade Média”, o que também surpreende porque colide com a informação geral de que pouco se sabe sobre a sua vida. Não obstante, dadas as condições geográficas e cronológicas, ficam autorizadas as primeiras conexões, ainda que conjecturais; afinal, sendo os Templários cavaleiros originários de Troyes, local em que, à mesma época, viveu um dos principais romancistas e trovadores da cavalaria, era de esperar que este (Chrétien) tomasse aqueles (cavaleiros, Cruzados em geral ou Templários em particular) como inspiração e tivesse a cristandade, que a tudo e todos circunscrevia, como grande pano de fundo.

            Assim, a partir do séc. XII a fusão já estava consolidada, e é possível apreender: 1) que os cavaleiros do Rei Arthur, sobretudo o seleto grupo da Távola Redonda, eram fervorosos cristãos que viajavam pelos reinos em busca do Graal, a recompensa maior – a salvação, a Jerusalém Celeste, etc.; e que, 2) além da fé, nas suas andanças, genericamente referidas como “aventuras”, as justas e os torneios eram meios para solucionar toda sorte de conflitos, “fazer justiça”, virtude à qual, pouco a pouco, outras deveriam ser acumuladas por todos os que almejassem o Graal. Sim, o leitor contemporâneo, familiarizado com o Mito (trajetória) do Herói (Campbell e Moyers, 1990; Campbell, 2007), não terá dificuldades em reconhecer e estabelecer várias associações entre aquele, os Contos Arthurianos e a Lenda do Graal, todos hoje incorporados e vistos como partes da cultura mítica-iniciática. As semelhanças se estendem ainda a Pressfield (2020).

            Em meio a tanto “[…] Chrétien morreu sem terminar sua história, de modo que outros escritores tentaram completá-la[8]” (Ralls, 2004, p. 155), o que contribuiu para que se tenha acumulado uma grande diversidade de histórias sobre o mesmo tema, afinal, como diz a sabedoria popular, “quem conta um conto acrescenta um ponto”:

A ideia de uma única história sobre o Graal é um erro comum hoje em dia. Não existe isso. Os romances sobre o cálice sagrado são muitos e variados e, quase sempre, não concordam entre si. Poder-se-ia dizer que há uma história geral e prototípica, mas até essa deve ser uma fusão de temas, pessoas e lugares extraídos de diferentes manuscritos (id. ibid.).

Na mesma linha, segue Hoog (2002, p. 14), comentarista: “Não é minha intenção discutir aqui todas essas versões diferentes, às vezes contraditórias […] são infindáveis as diferenças que separam uma versão da outra”. Um dos exemplos mais evidentes emerge da comparação entre os textos de Troyes (2002) e Eschenbach (1989) e o de Béguin-Bonnefoy (1997): nos 2 (dois) primeiros, em meio a tantos personagens, o protagonista-herói é Perceval (ou Parsifal), enquanto, no segundo, o papel coube a Gallad[9] e, em meio a outros, a Persival, a coadjuvância. E não se trata apenas de uma troca de nomes: são personagens-heróis cujas histórias passaram por elaborações para transmitir mensagens (significados, objetivos) diferentes porque assim eram os interesses originais, quer de Chrétien (supõe-se), quer dos demais. E mais: o Perceval (de Troyes) não é o Parsifal (de Eschenbach), pois este já é uma elaboração posterior sobre o primeiro e com vistas a determinados propósitos, como adiante ficará mais claro.  

            Há textos, como os de Béguin e Bonnefoy (1997), que se assemelham a antologias, textos (contos) escritos por diversos autores, porém versando sobre o mesmo tema, nos quais, circunstancialmente, os personagens se encontram e participam da mesma aventura. O romance-novelesco, em linguagem popular, atrativa, envolvente, com suspense e interrupções entremeadas de idas e vindas – sucessos e fracassos – dos protagonistas, é o estilo dominante. Troyes e Eschenbach, os autores mais citados, ora se colocam como partícipes do romance, ora como espectadores oniscientes, sugerindo, mas não explicitando os próximos acontecimentos, atitude que cativa e mantém a expectativa do leitor.

            Mas ainda que tantos tenham se dedicado a completar a obra de Chrétien, é possível observar um traço comum: nas suas mais diversas manifestações, a espiritualidade cristã aparece como elemento transversal que permeia praticamente todas as aventuras.

            Mais do que provável, é certo que, por entre os relatos dos usos e costumes efetivos, se encontram, diluídas, crenças e lendas que, quando plenamente integradas, confundem-se com a própria realidade, transformadas elas mesmas em usos e costumes efetivos – vide, acima, Arantes (op. cit.). É o caso, por exemplo, das referências veladas à lenda de Tristão e Isolda incorporadas por Eschenbach. Ademais, outra fonte de possíveis desvios e exageros é o fato, comum à época, de muitas histórias conterem traços biográficos encomendados pela aristocracia e pelo mecenato, cavaleiros, alguns participantes das Cruzadas, mas todos ávidos para o registro e a eternização das suas façanhas “heroicas”:

O poeta borgonhês Robert de Boron escreveu duas narrativas sobre o Graal […] Walter de Montbeliard, seu protetor – que, assim como o mecenas de Chrétien, era um cruzado – incumbiu De Boron de escrever ambas. De Boron atribuiu um tom definitivamente cristão à sua história do Graal, mostrando a demanda dos cavaleiros como uma busca espiritual em vez da aventura cortesã empreendida pelo amor de uma dama ou pela honra do rei (Ralls, op. cit., p. 156).

Por oportuno, da citação acima é importante destacar o seguinte trecho: “[…] um tom definitivamente cristão à sua história do Graal […] uma busca espiritual em vez da aventura cortesã empreendida pelo amor de uma dama ou pela honra do Rei”. Parece claro que: 1) cada um, se não tinha, poderia escrever “a sua história do Graal”; 2) esta poderia ou não estar a serviço de uma causa, de interesses pessoais ou institucionais; e, 3) em que pese o ambiente como um todo estar envolto pelo que se pode denominar de “espírito da cristandade” (que sempre esteve em luta para se afirmar, ganhar terreno entre os pagãos, gnósticos e ocasionalmente enfrentava os problemas decorrentes do Cisma), o surgimento do Graal foi um ponto de inflexão no sentido ao discurso afirmativo, ao convencimento por indução e à conversão.

            E some-se à informação sobre Robert de Boron, a declaração do próprio Eschenbach (1989) que revela que estava a serviço do Conde de Wertheim, e a sobre Chrétien de quem se diz que não apenas viveu em Champagne, mas que

Sabemos com certeza que teve sucessivamente dois patronos: a corte de Champagne e a corte de Flandres. O brilho inigualável da rainha Leonor da Aquitânia, a atração que exercia, sua soberania nas letras levam a crer que primeiramente Chrétien foi tentado por esse patronato tão disputado.[10]

            Ademais, à diversidade de origem, soma-se outra: a dos compiladores tardios, a exemplo de Malory[11], que ao introduzir as suas próprias interpolações nas histórias e lendas mais antigas sobre o Rei Arthur – séc. VI – deu origem ao já clássico “A Morte de Arthur” (Malory, 2020).

            Embora Ralls tenha referido anteriormente ao Graal como “o cálice sagrado”, como resultado dessa diversidade autoral, adiante ela esclarece que

Várias narrativas apresentam o Graal como diferentes objetos: uma taça ou um cálice, uma relíquia do Precioso Sangue de Cristo, um caldeirão da abundância, uma travessa de prata, uma pedra do céu, um prato, uma espada ou lança, um arpão, um peixe, um pombo com a hóstia no bico, uma lança branca que sangra, um livro ou evangelho secreto, o maná do céu, uma luz resplandecente, uma cabeça decepada, uma mesa e muito mais. Uma verdade sobre o Graal é que ele assume diferentes formas (Ralls, op. cit., p. 160).

            Nesse universo, quem parece ter ido mais longe foi Weston (2005), que, além de salientar as 2 (duas) grandes vertentes que reúnem a literatura mítica em torno do Graal, identificou mais uma: a de que os contos carregam (uns mais, outros menos) elementos que, desde priscas eras, estão, antes, relacionados aos cultos à natureza. Assim, à vertente que aponta “que a legenda do Graal é ab initio[12] uma lenda cristã e eclesiástica” (op. cit., p. 18), ou de que a sua natureza é folclórica, notadamente de proveniência céltica, soma-se então a terceira, que leva a um novo nível de análise, anterior e mais abrangente do que os demais: a explicação acerca dos fenômenos naturais, uma das bases dos sistemas de crenças, que acompanham mas propriamente não se confundem com as religiões. Portanto, à luz de todas as vertentes encontradas na literatura: 1) se, de um lado, qualquer afirmativa peremptória referente aos Contos Arthurianos & a Lenda do Graal comete erro de origem, quer pela multiplicidade quer pela absoluta falta de comprovação categórica; 2) de outro, há que se reconhecer que se está frente a um universo quase infinito à especulação interpretativa, um campo fértil à exploração simbólica pela Maçonaria, sobretudo pela sua vertente declaradamente cristã, como é o caso do Rito Escocês Retificado.

            Por fim, para concluir essas palavras introdutórias, não custa lembrar, para não perder de vista a sua extraordinária importância, que os trovadores não eram apenas músicos e animadores ambulantes por entre os reinos; com intencionalidade ou não, atendendo ou não a interesses de terceiros, exerciam as funções hoje desempenhadas pelos observadores sociais (cronistas), comunicadores, jornalistas e até mesmo pelos historiadores, perante um público predominantemente analfabeto e orientado pelas crenças, daí a prevalência da comunicação oral, da recitação pública (em praças, tavernas, igrejas, etc.) de versos rimados com vistas ao melhor entendimento, à memorização e à ampla difusão. Ademais, os trovadores, enquanto pessoas, pelas suas atitudes, indumentária, etc., eram veículos que poderiam apoiar ou não a mensagem difundida.

            Não cabe aqui, seja pela delimitação do escopo, pela necessária exiguidade do texto, discorrer por completo sobre as obras, ainda que se restrinja às mais citadas, a exemplo de “Perceval ou o Romance do Graal”, de Troyes (2002) ou “Parsifal”, de Eschenbach (1989); mas não há exagero em afirmar que os Contos Arthurianos & Lenda do Graal, sem perder de vista a observação de Arantes (op. cit.)[13] e eventuais exageros, constituem um dos mais ricos “retratos da época”, dos valores, dos usos e costumes – capturaram o espírito e a alma do seu tempo, são efetivos arquétipos da natureza humana, em todas as suas dimensões, daí a facilidade de identificação (já há séculos) encontrada pelos leitores, senão com os protagonistas, com algumas das dezenas de personagens e/ou circunstâncias que transitam pelas obras em aventuras, pois é fácil, em meio a elas, reconhecer-se ou a alguém conhecido. O leitor com conhecimentos básicos de História não terá dificuldades para identificar e estabelecer correspondências entre os fatos históricos à luz da cristandade ocidental e as aventuras relatadas por Chrétien, Eschenbach e outros. Todavia, e talvez o que mais importa, é perceber que, sobretudo, a narrativa de Eschenbach tem acentuado caráter Iniciático.

            Destarte, saber que foi nesse ambiente que a Ordem do Templo foi concebida, gestada, fundada e cresceu, per se, justifica estudá-lo em dimensão ampliada enquanto esforço para a compreensão das apropriações simbólicas que, séculos após, foram promovidas pela Ordem Maçônica. E mesmo tendo em conta os riscos do anacronismo, a cristianização dos Contos Arthurianos parece ter sido um caminho natural porque, simultaneamente, atendia a múltiplos objetivos[14]:

  1. é razoável admitir que, ao invés de construir um novo ethos, aproveitar uma tradição oral já integrada à memória e à cultura popular adaptando-a para novos propósitos, sobretudo em versos rimados e em estilo novelesco assimiláveis pela maioria inculta da população, tenha sido avaliada como a alternativa viável, talvez até considerada a mais fácil. Não é possível excluir a hipótese de que a interpolação do Graal nos Contos Arthurianos tenha sido mais uma ferramenta do Plano de Marketing já comentado em Pinheiro (2026a)[15], o que não significa dizer que tudo tenha sido uma estratégia deliberada, mas que pode ter emergido à luz das circunstâncias, oportunidades e convergência de interesses;
  2. os poetas, os cantores e os trovadores constituíam o que hoje corresponde à grande mídia; alguns com projeções analogadas aos formadores de opinião (influencers), aproveitá-los, como agentes, também parece natural;
  3. identificados os veículos (trovadores) e o público-alvo, faltava, senão elaborar (originalmente ou mediante interpolação), influenciar o conteúdo das novas mensagens (a principal e as acessórias) na forma de versos a serem introjetados na sociedade, o que foi levado a efeito:
    1. pelos patrocinadores-protetores-mecenas cristãos devotos, a exemplo, conforme visto, de Chrétien e Eschenbach:
      1. o editor de Troyes esclarece:

Quem pouco semeia colhe pouco […] Chrétien faz aqui a semeadura de um romance […] trabalha para o mais nobre que já existiu no império de Roma: o conde Filipe de Flandres [que] ama justiça reta e lealdade e santa Igreja […] Por que o Evangelho diz: “Que tua mão esquerda não saiba o que faz tua mão direita”? Porque a mão esquerda significa glória falsa que vem de hipocrisia enganadora. Já a direita representa caridade que não se vangloria de suas boas obras; ao contrário, dissimula-as tão bem que ninguém fica sabendo, exceto aquele que tem por nome Deus e caridade […] e quem vive em caridade, segundo escreve São Paulo (em quem vi e li isso), permanece em Deus e Deus nele” (Troyes, 2002, p. 25-6);

  • além de deixar à evidência a troca de favores, a interpretação do autor de uma das mais conhecidas citações bíblicas (Mateus 6:3), conscientemente ou não, contribuiu para sedimentar um cacoete cultural: a de que tudo o que se refere ao lado esquerdo tem associação negativa (maus agouros, errado, defeitos, inspirado pelos maus espíritos, etc.), daí a conotação, ainda hoje, atribuída à palavra “sinistro”;
    • Eschenbach (1989, p. 111), ao declarar que “Só a contragosto meu amo, o conde de Wertheim, se tornaria um cavaleiro a soldo da soberana local […]” sugere que o conhecia muito bem e, dada a natureza das relações de vassalagem à época prevalentes, é razoável que ele (Eschanbach) não pouparia talentos (de escritor) para atender às solicitações do Conde. Contudo, como adiante será visto, Eschenbach também tinha outras motivações e objetivos;
    • e, naturalmente, pelos clérigos da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) dado que os versos poderiam contribuir, se não para solucionar, ao menos para equacionar importantes questões-problemas da época: (i) aumentar o número de adeptos e convertidos (pois não se pode perder de vista o proselitismo que é próprio do cristianismo); (ii) pacificar a sociedade (ampliando, assim, as “tréguas de Deus”); (iii) superar as fraturas do Cisma de 1054; e, (iv) aumentar a sua projeção sociopolítica. Ademais, o ethos da cavalaria regulamentada, em que pese a persistência das contradições internas, em parte ia ao encontro do ethos cristão; tratava-se, pois, de aproveitar o momento – vide (Pinheiro, 2026a, b);
      • as digitais da ICAR foram claramente identificadas por Béguin e podem ser vistas nas citações a seguir:

Enquanto os demais cavaleiros representam os degraus místicos que, segundo São Bernardo, são acessíveis na terra, Gallad chegou ao mais elevado estágio que mal podemos imaginar. Por causa disso, Galaad morre logo após o êxtase que o introduz nos supremos arcanos (Béguin, 1997, p. 26);

[…] indicou-se claramente o objetivo da nova cavalaria: trata-se de conseguir ver as “coisas espirituais”, os arcanos de nosso Senhor, as maravilhas “que nenhum coração mortal poderia imaginar nem língua humana pronunciar”. A Busca terminará quando um cavaleiro tiver obtido, por seu próprio anelo, por sua vontade e pelo socorro da graça, a visão que continua inefável, o conhecimento que se dá ao amor e não só à inteligência. Todo esse assunto se inspirou literalmente na teologia mística de São Bernardo a qual determina também o exato sentido conferido ao símbolo do Graal (id. ibid.); 

“Romance da graça e romance do êxtase” – diz Étienne Gilson -, a Busca do Graal é obra cisterciense […] Tem muito do espírito de São Bernardo para se privar totalmente do mundo onde vivem os homens […] Também isto está dentro do espírito de São Bernardo, incentivador da expedição à Terra Santa e mentor da “nova milícia” dos cavaleiros do Templo […] A Busca do Santo Graal é, portanto, uma obra de literatura espiritual, cujos detalhes todos têm um “significado” e servem para transmitir alguma mensagem […] E explicação dos símbolos é necessária a uma obra onde toda a imaginação se orienta para a compreensão dos sinais ocultos nos acontecimentos, nas refregas e nos sonhos (Béguin, 1997, p. 27-8);

[…] a mística cisterciense é um dos elementos mais permanentes da obra civilizadora que foi a da França nos grandes séculos XII e XIII. Esta mística nos proporciona, tanto na Busca como nos escritos de São Bernardo, o exemplo de um esforço que, orientado primeiro para a vida interior, se aplica, depois, à vida terrena da comunidade humana, numa expansão necessária e, de certa forma, espontânea (op. cit., p. 29-30).

  • a Estratégia: a permanente exaltação, ao longo dos contos e aventuras, da vida virtuosa lastreada, sobretudo, nas virtudes teologais (fé, esperança e caridade) e cardeais (prudência, fortaleza, temperança e justiça), com notável destaque à última, mas também salientando outras, como a misericórdia, a compaixão, a castidade, a humildade, a lealdade, a honra da palavra empenhada, etc.

            Parecem, seja pela coexistência espacial-temporal, seja, sobretudo, pela mentoria temática-institucional, evidentes as conexões entre os Contos Arthurianos & Lenda do Graal sob os auspícios cistercienses e a gênese da Ordem do Templo – seus princípios, valores, missão, etc. Tendo o contexto histórico (as grandes questões em debate, etc.) como perspectiva, é razoável pensar que ao invés de um movimento espontâneo, a cristianização dos Contos Arthurianos (pela incorporação do Graal) tenha sido parte de um efetivo projeto de revolução cultural – concebido para atingir os corações e as mentes do povo –, complementar e de sustentação à teologia moral da Ordem do Templo em um espaço-tempo em que sobressaíram, em todos os domínios, a intelectualidade e a liderança de São Bernardo de Claraval. E quanto aos predicados de Bernardo, a literatura é unânime: inteligente, obstinado, envolvente, persuasivo, articulador, etc.; assim, se o projeto não foi deliberado, poderia, naturalmente, ter emergido como produto das forças e interesses políticos de então.  

            Se, como visto, a condição de ser cavaleiro, em que pesem os códigos de honra, as gestões da ICAR, etc., não assegurava que o titular seguisse os bons caminhos, induzi-lo e incitá-lo a encontrar o Graal poderia ser mais um instrumento em favor da paz social e também atuar como alavanca motivadora à participação nas Cruzadas. De outro lado, nessa sociedade considerada patriarcal e machista[16], surpreende a relevância dos papéis conferidos às mulheres (muito além de musas inspiradoras) que, inclusive, na narrativa de Eschenbach poderiam ser guardiãs do Graal.

            À luz do que se encontra disponível em várias obras reitera-se, com maior convicção, que não é razoável, hoje, pensar a Ordem do Templo apenas como um produto da fé, da crença na transcendência e dedicada à defesa dos peregrinos, e tampouco como um ator institucional que age isoladamente, como se não estivesse em meio a tantos outros (interesses); seria o mesmo que acreditar que à época não havia jogos de poder, pensamento estratégico e decisões geopolíticas conduzidas pelas lideranças de então. E nem mesmo o fato de a Ordem responder diretamente ao Papa arrefeceu o ímpeto muito próprio, quase inerente às instituições, no sentido de lograr maior autonomia e independência, o que a levou a ser e a atuar, de fato, como mais uma peça no xadrez global, ora a serviço daquele, ora em defesa dos seus próprios interesses.

            A Tabela 1, a seguir, destaca a contemporaneidade dos atores e das institucionalidades relacionadas ao Graal:

Tabela 1 – Eventos e Personagens Relacionados ao Graal

                  Evento          Período (aprox.)
Fundação da Ordem de Cister                1098
“Criação” da Ordem do Templo            1118-1128
Chrétien de Troyes (Champagne)          1130-1180/90
Robert de Boron (Borgonha)           Séc. XII – XIII
Wolfran von Eschenbach (Toledo)       1160/1180-1220/30

            À vista de várias citações, sobretudo as últimas, mas também a de Ralls (op. cit., p. 156)[17], às quais ora se junta a fala de Parsifal, que diz: “Se um cavaleiro atuante, usando escudo e lança, pode alcançar tanto as glórias deste mundo quanto a eterna bem-aventurança, então posso dizer que sempre fiz o humanamente possível” (Eschenbach, op. cit., p. 247), torna-se oportuno resgatar uma das questões deixadas em aberto: a que refere ao segundo significado do Selo dos Templários – a imagem dos 2 (dois) cavaleiros sobre o mesmo cavalo. Antes, não é demais lembrar que Haag (apud Pinheiro, 2026a) afirmou que “A pobreza da irmandade é representada pela insígnia dos dois cavaleiros, talvez Hugo de Payns e Godofredo de Saint-Omer, montados no mesmo cavalo”. Apesar de esse significado ser encontrado em diversas fontes, como é o caso de também em Demurger (2010), ele não resiste à análise crítica: em primeiro lugar, todos os fundadores da Ordem do Templo eram nobres, membros das aristocracias regionais e cavaleiros (o que, como visto, exigia muitos recursos); em segundo, o fato de terem viajado ao Oriente diversas vezes é evidência das condições econômicas e financeiras diferenciadas deste grupo. Em terceiro, a crer na fé e no comprometimento com a causa, é difícil imaginar que os fundadores, pelas posses, não teriam sido os primeiros doadores para suprir as necessidades mais imediatas da Ordem nascente, a exemplo de um plantel de cavalos e acessórios. Ademais, era habitual que os cavaleiros de maior posse tivessem mais de um cavalo à disposição, prática adotada pela Ordem em favor dos Iniciados de maior Grau; entre outros, vide Rodrigues (2020).  E ainda que a pobreza fosse um dos 3 (três) votos, a Ordem, sobretudo após o Concílio de Troyes, em curto espaço de tempo, acumulou enorme riqueza. Criado tardiamente, em 1158, talvez em homenagem póstuma a São Bernardo, falecido em 1153, o Selo é, efetivamente, um símbolo que carrega, antes e acima de tudo, a mensagem da dualidade em suas diversas manifestações: monge-guerreiro; espírito-matéria; vício-virtude, entre outras, a exemplo da convivência entre cristãos e muçulmanos na Terra Santa[18] – uma análise mais completa sobre os símbolos da Ordem pode ser vista em Reis (2021).

            Entretanto, nada impede que o Selo também e subsidiariamente represente a pobreza e a humildade, o que, inclusive, aumentaria a eficácia e a potência das mensagens subjacentes: a dupla luta cotidiana do Cavaleiro (Templário ou não) contra os males que desafiam a matéria (no mundo secular) e as tentações do espírito. Subliminarmente, todos, independentemente das posses, que desejarem a eterna bem-aventurança, devem, diuturnamente, buscar inspiração, lutar e seguir os passos de Parsifal. Tudo, cabe observar, encontra-se, intencionalmente ou não, alinhado ao projeto cultural já referido. A citação a seguir, também de Béguin, ajuda à extensão do entendimento: 

[…] uma, aquela de Roberto de Boron que, no seu “Romance da história do Graal”, procura, com ingente esforço de imaginação, mostrar os laços que ligam a história humana à encarnação e à redenção; a outra, aquela de nossa “Busca do Santo Graal” que visa a espiritualizar as duas éticas humanísticas do heroísmo e do amor, bem como colocá-las em seu devido lugar, para demonstrar que a ética da salvação e da contemplação as transcende (Béguin, 1997, p. 19).

Figura 1 – Os Pobres Cavaleiros de Cristo

Fonte: https://picryl.com/topics/knights+templar+in+art

            Assim, por óbvio que seja, não é exagero lembrar: se há a busca pelas virtudes, é porque estas se encontram, senão perdidas, escamoteadas em meio aos vícios da carne e às dúvidas existenciais que se estendem à fé. Assim, traições, dissimulações, inveja, ciúmes, volúpia, cupidez, descrença, entre outros, são desvios que dão azo às narrativas, o que ressalta o aspecto demasiado humano de que se reveste a Busca.

            Ademais, como produtos do cristianismo, as aventuras, sobretudo em Béguin e Bonnefoy (1997), muitas vezes são antecedidas de cerimônias religiosas, seja na forma de bênçãos, seja na de missas e, eventualmente, por profundos solilóquios (com Deus). Já em “Parsifal”, onde Eschenbach (1989) reúne na mesma história – a busca – os encontros e os desencontros de 2 (duas) estirpes, a de Arthur e a de Parsifal, os elementos cristãos assumem outros formatos. Os festejos de Pentecostes, em todas as versões, mereceram destaque à parte. A vida simples, a sabedoria da senioridade e da experiência são igualmente valorizadas – com frequência os eremitérios isolados aparecem como locais de repouso e de recuperação tanto dos ferimentos físicos (sofridos nas lutas) quanto dos da alma, com o auxílio dos sábios, alguns com dons proféticos, aos quais cabe esclarecer os mistérios existenciais que assombram os cavaleiros na forma de aparições e/ou pela sucessão de eventos que lhes escapam ao entendimento lógico porque a conexão que os une é de natureza simbólica e só acessível a poucos: aos Iniciados merecedores do Graal. Em se tratando de uma obra Iniciática, é frequente a relação Mestre-Aprendiz.

            A exemplo de várias obras, os Contos Arthurianos e a Lenda do Graal admitem múltiplos níveis de leitura: podem ser apreciados como literatura infanto-juvenil-ficcional[19] destinada ao entretenimento, mas também como literatura Iniciática na qual se combinam elementos exotéricos e esotéricos, o que significa dizer, por exemplo, que é também um campo aberto à análise e à interpretação simbólica (Pinheiro, 2023) por iniciativa do Iniciado (maçom) que pretende ir além dos Rituais, notadamente os praticantes dos Ritos assumidamente cristãos, mas também dos místicos e ocultistas, para o que basta lembrar que a alcunha de Parsifal, o herói de Eschenbach, é Cavaleiro Vermelho. O leitor Iniciado não terá dificuldades em reconhecer episódios e lições da sua trajetória na Ordem Maçônica, todavia, somente para alguns, pois “Os lábios da sabedoria estão fechados, exceto aos ouvidos do Entendimento” (Três Iniciados, 2015, p. 13).  

            Além de todas as evidências já destacadas acerca das conexões entre “Troyes-Toledo”, “Chrétien-Eschenbach”, “Cavalaria-Contos Arthurianos-Lenda do Graal”, “Ordem de Cister-São Bernardo”, as citações a seguir aproximam ainda mais as conexões do conjunto com a Ordem do Templo e, desta, “para os ouvidos com Entendimento”, com a Ordem Maçônica:

Mas, se bem ouvi, estais igualmente empenhado na busca do Graal. Ó grande insensato! Essa é uma pretensão que devo lamentar. Conquistar o Graal é privilégio exclusivo daqueles predestinados para essa missão […] Conheço bem essa questão e sei que em Munsalvaesche[20], junto ao Graal, vivem muitos valorosos cavaleiros que com frequência de lá se ausentam em busca de aventuras. Esses templários consideram o combate – quer para eles resulte em fama ou decepção – um ato de expiação de seus pecados. Ali se concentra uma aguerrida milícia e agora vou vos revelar donde lhes provém o sustento. Eles são alimentados por uma pedra e se dela nunca tivestes notícia eu vô-la descreverei agora. Ela é chamada Lapsit exilis […] Suas virtudes miraculosas permitem que a fênix seja reduzida a cinzas e delas renasça para uma nova vida […] A pedra é chamada também “o Graal”. Hoje é o dia assinalado em que o mensageiro descerá sobre ela, renovando-lhe a força miraculosa. Hoje é Sexta-feira Santa, dia em que pode ser vista uma pomba descendo dos céus para depositar sobre a pedra uma pequenina e branca oferenda. Depois de havê-la depositado ali a alvíssima pomba regressa ao empíreo celeste […] toda a Sexta-feira Santa ela deposita sobre a pedra essa oferenda […] Assim a força do Graal provê de alimentos essa fraternidade cavaleirosa […] (Eschenbach, op. cit., p. 246).

Textualmente, Eschenbach estabelece a associação direta: os Templários eram os Cavaleiros do Graal (protetores do Munsalvaesche); do que segue que os seus legatários, ainda que simbólicos, como se cogita que seja o caso da Ordem Maçônica, deveriam igualmente buscar e defender os sentidos e os significados do Graal. E aqui é importante que se tenha claro: nem todos os que participavam da Ordem eram efetivamente Iniciados nos seus mistérios maiores; somente Templários stricto sensu, integrantes do Colégio de Arcano, com acesso à Távola Redonda (um símbolo) poderiam pretender e alcançar o Graal após longa trajetória de superações e demonstrações de valores e virtudes.

            Do leitor Iniciado na Ordem Maçônica, sobretudo se no Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA) ou no Escocês Retificado (RER), ou versado na alquimia, espera-se que tenha despertado a sua curiosidade ao saber que, na versão de Eschenbach, o Graal é uma pedra (lapsit exillis) com propriedades (virtudes) que a assemelham à lendária Fênix. As especulações se ampliam quando se consideram os esclarecimentos trazidos ao texto pelo tradutor de Eschenbach (op. cit., p. 426, Nota 145):

Lapsit exillis. Nome latino do Graal tal como aparece no texto do “Parsifal” […] É um latim indecifrável que resultou possivelmente de um erro do copista ao reproduzir o original do poeta. No contexto da narrativa poderiam ser admitidas duas hipóteses para se chegar à forma que Wolfram usara ou teria querido usar: 1) Lapis ex caelis (pedra caída do céu). É uma possibilidade coerente, por remeter à origem celeste do Graal; 2) Lapis exilii (pedra do exílio), visto terem sido seus primeiros guardiães aqueles anjos desterrados por Deus para este mundo, em virtude de terem permanecido neutros ao eclodir a revolta de Lúcifer.

À luz desse quadro, há séculos configurado, surpreende que os Contos Arthurianos & a Lenda do Graal sejam praticamente ignorados como objeto de estudo pelos Iniciados na Maçonaria, mesmo que esta tenha adotado a Ordem do Templo como matriz simbólica. Com efeito, a partir da palavra-chave “Graal” (no título), uma rápida busca nos principais blogs de divulgação maçônica no Brasil retornou o seguinte resultado:

  1. Bibliot3ca Fernando Pessoa: https://bibliot3ca.com/:
    1. “O Graal, busca cristã e templária, o Enigma a decifrar”, de Jean Poyard, traduzido por J. Filardo, (https://bibliot3ca.com/o-graal-busca-crista-e-templaria-o-enigma-a-decifrar/), 31.10.17;
    1. “Os Cátaros no Santo Graal – a construção de um mito moderno”, de Jean-Moise Braitberg, traduzido por J. Filardo, (https://bibliot3ca.com/os-cataros-no-santo-graal-a-construcao-de-um-mito-moderno/), 22.11.16;
  2. Freemason: https://www.freemason.pt/:
    1. nenhuma publicação; e,
  3. Maçonaria com Excelência: https://www.maconariacomexcelencia.com/:
    1. nenhuma publicação.

Em suma: as fontes consultadas confirmam que o Graal efetivamente não tem sido objeto de estudos e pesquisas no universo da maçonaria brasileira, quando muito, indiretamente, como elemento complementar ou subsidiário em meio a outros temas.

            Por oportuno, cabe lembrar que a questão central enquanto objeto de estudo desta Série é a identificação, entre os Templários, posto que o todo admite partições, daqueles que mais propriamente poderiam ter sido tomados como símbolos pela Ordem Maçônica (Pinheiro, 2026a). Ora, esse achado intermediário e não intencional de pesquisa só aumenta a surpresa, pois, sob todos os aspectos, o teor da literatura dos Contos Arthurianos & Lenda do Graal é inequívoco: claramente refere e aponta para “os autênticos”, e não para “os verdadeiros” templários (Pinheiro, 2026b,c), e tampouco para os que a estes sucederam. Não obstante, e por isso a maior surpresa, não são “os autênticos” que têm sido o objeto de estudos e frequentes menções, mas antes “os verdadeiros” (a milícia cristã) e os seus sucessores (empresários e financistas), com destaque à extinção da Ordem e ao martírio de Jacques De Moley; o que leva a pensar que, a juízo da maioria, foram estes, e não aqueles, os eleitos como símbolos pela Ordem Maçônica, as referências e imagens idealizadas que deveriam nortear os Iniciados.

            O quadro é de um aparente paradoxo, pois, até o momento e à luz das transformações experimentadas pela Ordem do Templo, as evidências sugerem o contrário: que o legado a ser tomado pela Maçonaria se encontra a montante no curso da História, quando a Ordem, é provável, já era cogitada (ainda no Círculo de Troyes), mas que ainda sequer havia sido fundada, muito embora já estivesse prenhe do espírito do Graal. Ademais, a “hipótese-Brum”, como se pretende demonstrar, considera que a própria Ordem do Templo é legatária de outra, situada no Oriente e, conforme já antecipado, no contexto dos “muçulmanos-nizaris-ismailitas-drusos-sufis”, em meio aos quais também havia uma elite de sacerdotes-guerreiros (os “assassins”) que (coincidência!) atuavam como os Guardiões da Montanha – figura (a montanha) que desde as tradições mais antigas tem sido tomada como símbolo com múltiplos significados.

            E como essa cultura teria chegado ao Ocidente, mais especificamente à região de Troyes-Toledo? Trazida por nobres (cavaleiros) europeus que embora profundamente religiosos, cristãos, eram também estudiosos ecléticos, receptivos a todos os saberes e tradições, religiosas ou não (a gnose, a alquimia[21], a astronomia, a astrologia e outras ciências ditas ocultas), o que lhes favoreceu mais do que o contato, mas o convívio e a aprendizagem ativa junto aos povos em geral – é razoável admitir que buscavam a grande síntese do conhecimento, o entendimento do mundo, das relações e da união entre o inefável e o tangível, dos relacionamentos entre o que está acima e o que está abaixo – e vice-versa. E em meio às bagagens (livros, manuscritos, documentos, anotações, etc.) que transitavam entre o Ocidente e o Oriente, e vice-versa, teriam chegado a Toledo os manuscritos (originais) da Lenda do Graal, de provável origem iraniana. A propósito, “os empréstimos até de lendas orientais” já foram observados por outros autores, a exemplo de Bonnefoy (1997) e Ralls (2004). 

            A esses nobres, aos quais outros se reuniram, denominei Círculo de Troyes-Toledo, integrado por pessoas que reuniam muitos atributos, a começar pelo amor à sabedoria, o que as tornava de “mente aberta”, livres de preconceitos, de dogmas e de ideologias, mas que à época, pela natureza das atividades e à luz do ambiente sociopolítico, deveriam tê-las desenvolvido sob o sigilo só assegurado no âmbito de um círculo bastante restrito – os Templários de mais alto escalão (integrantes do Colégio de Arcanos) que atuavam junto à Escola de Tradutores e ao Núcleo de Estudos.

            As citações a seguir são fulcrais para a conciliação e o entendimento de todos os temas tratados neste e nos demais textos da Série:

Tudo o de que aqui vos dou notícia é uma reprodução fiel do texto de Kyot (Brum, op. cit., p. 227);

Através dele é que Parsifal seria iniciado nos mistérios do Graal […] Foi Kyot quem me pediu que mantivesse esse assunto em segredo, pois a natureza do enredo requeria tal procedimento até que a narrativa se aproximasse do ponto em que a revelação se impusesse. Kyot, o renomado mestre, encontrou em Toledo, num manuscrito pagão [leia-se: árabe], o original desta narrativa, que havia sido posto de lado como coisa sem valor. Inicialmente teve que aprender o alfabeto [árabe], sem, contudo, assimilar as sutilezas mágicas de que estava impregnado. Nesse empreendimento foi bem-sucedido porque era batizado, caso contrário, o texto teria permanecido indecifrável até hoje. Nenhuma ciência pagã é capaz de decifrar a natureza do Graal e de penetrar seus mistérios. Outrora vivia um pagão chamado Flegetanis, afamado por sua notável sabedoria. Esse naturalista era israelita de raça e descendia de Salomão. Sua origem recuava ao tempo em que o batismo se tornara nosso escudo contra as penas do inferno. Foi esse homem que redigiu os originais do Graal […] (Eschenbach, op. cit., p. 239);

O pagão Flegetanis possuía profundos conhecimentos acerca do movimento dos astros e de suas revoluções. Sabe-se que o movimento circular dos astros se acha diretamente ligado ao destino dos homens. Foi assim que o pagão Flegetanis descobriu numa constelação da esfera celeste um segredo ao qual sempre se referia a tremer. Ele explicou que havia um objeto chamado “o Graal”. Esse nome ele viu claramente inscrito nas estrelas. “Uma legião de anjos haviam-no depositado na terra, antes de regressar ao empíreo celeste […] Desde então, pessoas de coração puro iniciadas pelo batismo deviam encarregar-se de sua guarda. Quem for convocado para o Graal deve ter alcançado elevado grau de perfeição. Era disso que se tratava o manuscrito de Flegetanis (op. cit., p. 240);

Tudo indica que o mestre Kyot introduziu Wolfram nessa fraternidade e deu a ele a missão de dar notícia da íntima relação dos templários com a mística do Graal através de um romance trovadoresco. Buscava corrigir o erro de Chrétien de Troyes, que apresentou o Graal como um simples jogo literário amoroso, sem mostrar que existia algo real por trás do relato romanceado – a presença de uma linhagem viva do Graal […] (Brum, 2022, p. 353);

[…] Pierre Ponsoye […] mostra que a origem das lendas do Graal poderia ser iraniana. Wolfram fazia dos templários os guardiões, do mesmo modo que os assassins (nizaris) eram os guardiões do Templo da Montanha […] que em Flegetanis se encontra atestada expressamente a fonte islâmica da noção do Graal, relacionada com a Ordem do Templo […] Ponsoye faz um estudo do personagem Kyot, que é o autêntico revelador da história do Graal, a partir de uma tradição árabe […] “se Kyot não representa simplesmente a autoridade espiritual do Templo […] ele devia ter com ela laços bem estreitos. Este é um ponto fundamental para entendermos a conexão de Wolfram com os templários e o papel a ser desempenhado pelo seu romance como divulgador da tradição […] (op. cit., p. 354);

Mas, sem surpresa, encontrei neste autor o que para mim era algo bastante claro – que o nome “kyot” era, na verdade, um título ou pseudônimo[22] de um templário franco que vivia em Toledo […] Portanto, o “renomado mestre Kyot” seria um dos templários da escola de tradutores que examinou e usou antigos manuscritos da coleção de textos reunidos em Toledo […] era preciso preserva e manter no anonimato quem era seu mestre templário, pois a atividade relacionada ao rito do Graal era algo de cunho reservado, só tendo acesso os cavaleiros consagrados e com o voto de sigilo (op. cit., p. 355);

e, finalmente:

Com todos esses dados é possível supormos, com boa chance de acerto, quem era o “mestre Kyot”: um cristão que falava francês do norte, mestre-instrutor, um cavaleiro templário que vivia em Toledo (onde teve acesso aos manuscritos “secretos” dos templários), “bem conhecido”, “renomado”, uma autoridade espiritual e alguém com liderança. Certamente, era um dos templários francos que vivia e atuava na escola de Toledo. E, sendo alguém do norte, há uma grande chance de ser o próprio Gundisalvo (Geoffrey de Saint-Omer). Este, com certeza, era um mestre renomado e tinha uma posição de liderança e autoridade no círculo interno da Ordem do Templo em Toledo, mantendo o esforço iniciado por Raimundo Bernardo e Juan Hispano (op. cit., p. 356).

            As peças começam a ocupar os devidos lugares no quebra-cabeça: em primeiro, os idealizadores e fundadores da Ordem do Templo, em laço estreito com a Ordem de Cister (o Círculo Troyes-Toledo), também estiveram por detrás da incorporação da Lenda do Graal aos Contos Arthurianos. Ralls, que já havia comentado a relação Oriente-Ocidente mediada pelos Templários, vai ao encontro de Brum[23]:

A Espanha medieval testemunhou uma situação única, na qual eruditos cristãos, islâmicos e judeus viviam e trabalhavam juntos, quase sempre traduzindo textos importantes, em centros culturais como Toledo. Wolfram de Eschenbach, por exemplo, alegava que a verdadeira fonte de inspiração para seu romance sobre o Graal, Parzival, foi um culto astrólogo judeu de Toledo que havia registrado a história do Graal em uma língua estrangeira pertencente aos mouros – muito provavelmente árabe (Ralls, op. cit., p. 90-1);

para adiante acrescentar e esclarecer:

Os temas do Graal e dos templários mesclam-se mais estreitamente no Parzival de Wolfram. Wolfram é o único autor de romances do Graal a insinuar que os guardiões fossem Cavaleiros Templários […] O foco único nos templários de Parzival em parte se deve talvez ao fato de Wolfram e seu mecenas, Hermann I, da Turíngia, estarem encantados pelo Oriente. Em obra anterior, Willeham, Wolfram revela interesse pela cultura muçulmana […] Também o fascinava [a Hermann I] a astrologia, tema que estava ganhando popularidade nas cortes européias no século XII, seguindo a afluência de textos árabes traduzidos para o latim oriundos da Espanha. Estudiosos acreditam que o Monte da Salvação de Wolfram – sobre o qual fica o Castelo do Graal e onde vivem os Templeisen – é uma alusão velada ao Monte Sião de Jerusalém […] Entretanto, diferentemente dos templários, os escudos dos Templeisen exibiam uma pomba – um símbolo da paz, não da guerra santa (op. cit., p. 169).  

            Em segundo lugar, Wolfram, além de escritor (trovador), foi Templário; assim, melhores predicados não havia para estar a serviço, quiçá sob orientação direta do Círculo Troyes-Toledo para não apenas completar a obra de Chrétien de Troyes, mas, nos termos de Brum, corrigi-la, reorientando-a no sentido de um cristianismo multicultural. Com efeito, embora a obra de Eschenbach seja mais volumosa, porque completa, ao contrário da de Chrétien, são frequentes as menções que sugerem, se não um ambiente de universalismo cultural, um intenso intercâmbio entre diversas localidades da Europa, da Ásia e da África de então.

            As palavras iniciais deste texto, citando Ralls (op. cit.), esclareceram que a ideia de uma única história sobre o Graal é um erro comum, e as justificativas para a diversidade têm por base o fato de a “obra-fonte-original” ter ficado incompleta, razão pela qual foi seguida de vários empreendimentos no sentido de concluí-la, o que explica os elementos idiossincráticos e alguns híbridos culturais nesse universo. Todavia, até então, a origem cristã-europeia da Lenda do Graal não havia sido questionada, o que, conforme visto acima, foi agora colocado em xeque por 3 (três) autores-pesquisadores: Pierre Ponsoye, Ralls e Brum. Essa constatação descortina novas perspectivas de análise e desdobramentos fáticos, pois são grandes as semelhanças, no que tange aos meios, fins, usos e costumes, etc., entre os Templários “autênticos” e os Guardiões da Montanha.   

            Em terceiro lugar, das longas citações acima se extrai que Wolfram fora Iniciado na Ordem do Templo (e na do Graal) e o seu herói-protagonista, Parsifal, era integrante de uma linhagem, já de longa data, de buscadores-guardiões do Graal, crença originária no Oriente (escrita pelo pagão Flegetanis) e que teria entrado no Ocidente pelas portas da Península Ibérica (Toledo?) pelas mãos de Kyot. Vale lembrar que, à época – séc. XI/XII – na Europa, ao contrário do que ocorria no Oriente, o conhecimento astrológico-astronômico (dominado por Flegetanis) era incipiente – o que vai ao encontro da narrativa de Eschenbach, onde o Graal, conforme visto, é representado como uma pedra: lapis ex caelis (pedra caída do céu) ou lapis exilii (pedra do exílio). Nessa linha, o Graal na sua versão oriental teria alguma relação com a pedra negra guardada na Caaba (em Meca, Arábia Saudita) ou ainda com a Cúpula (Domo) da Rocha (em Jerusalém, Israel)? A ver.  

            Por fim, diferentemente dos outros 2 (dois) líderes (Hugo I e Hugo de Payens) cujas saídas de cena já foram comentadas, porque amplamente documentadas, sobre Geoffrey de Saint-Omer resta um mistério, não se sabe ao certo quando e em que circunstâncias teria morrido, lacuna então utilizada por Brum para fortalecer a sua tese, pois, se o mestre Kyot e o templário-viajante Geoffrey de Saint-Omer forem a mesma pessoa, a figura do quebra-cabeça fica, então, completa e, se non è vero, è ben trovato. Todavia, há um impasse cronológico à espera de esclarecimento, senão, vejamos:

  • estima-se que Eschenbach teria vivido entre 1160-80/1220-30;
  • de Saint-Omer não se sabe a data de falecimento, mas teria nascido em 1075-6 na região de Flandres (norte da atual França);
  • Brum (op. cit., p. 352) afirma que “O encontro [de Eschenbach] com seu mestre Kyot ocorreu quando Wolfram era mais jovem e, necessariamente, antes de 1181, quando já começou a escrever o futuro clássico da literatura do Graal”.

Ora, em 1181, Wolfram teria, no máximo, 21 anos, enquanto Saint-Omer mais de um século. É razoável? Admitindo, por hipótese, que o encontro entre Eschenbach e Kyot (Geoffrey de Saint-Omer) em Toledo tenha ocorrido aos 25 anos de idade do primeiro, ainda assim o segundo estaria beirando quase um século. É possível? Sim! Porém … Isso, per se, não invalida os aspectos centrais da tese, pois Eschenbach poderia ter se encontrado não com Saint-Omer, mas com um dos seus discípulos (Iniciado), de elevado Grau e integrante do Colégio de Arcanos que, ao repassar os manuscritos (recebidos por Kyot = Saint-Omer, e este de Flegetanis) estaria efetivamente realizando um pedido, quiçá uma determinação deste último, o que equivaleria a agir por procuração. Assim, salvo melhor juízo, esse aspecto permanece em aberto à espera de mais estudos para compreendê-lo.

            Ao longo deste texto foi defendido que o Graal, sobretudo o visto em “Parsifal”, de Eschenbach, foi uma obra sob encomenda para atender a vários propósitos (vide acima); a citação a seguir parece não deixar dúvidas bem como aponta um dos motivos, a insuficiência (por incorreção) do texto original (de Troyes).

Se Mestre Chrétien de Troyes não se mostrou muito fiel ao contar esta mesma história, então Kyot pode zangar-se com ele com razão […] Tendo isso em boa consideração eu, Wolfram von Eschenbach, nada quero acrescer às palavras daquele Mestre. Fiel a esse texto contei-vos a história da estirpe e dos filhos de Parsifal […] (Eschenbach, op. cit., p. 413).

            Este ensaio, embora parte integrante de uma Série exclusiva (“A Questão Templária na Maçonaria”), segue também uma linha de estudos que, inaugurada por Pinheiro e Dutra (2025), já reúne mais 5 (cinco) artigos (Dutra e Pinheiro, 2025a,b,c,d,e) que, com algumas extensões (a exemplo da aplicação da Inteligência Artificial), chamam a atenção para o potencial de um nicho de aprendizagem também ainda inexplorado pela Maçonaria: a “Literatura como Instrumentos de Trabalho do Maçom Contemporâneo”, seja como auxiliar à viagem interior, mas também trazendo ensinamentos e desafios à análise e à interpretação simbólica à luz do contexto histórico.

            No próximo e último texto desta Série serão resgatados os principais tópicos já discutidos, ressaltadas as conexões entre ambas as Ordens – a do Templo e a Maçônica – vis-à-vis as mudanças institucionais havidas no curso da existência da primeira, bem como explorado o alcance das lições que podem ser extraídas da Literatura, a exemplo do Graal, que a partir do enfrentamento de questões e dilemas do cotidiano se estendem para muito além da continuada reafirmação da primazia das virtudes sobre os vícios e dos reiterados aforismos bíblicos.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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CAMPBELL, Joseph; MOYERS, Bill. O Poder do Mito. São Paulo: Palas Athena, 1990. ISBN 978-85-7242-008-2.

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DUTRA, Lucas V.; PINHEIRO, Ivan A. A Inteligência Artificial (IA) e a Literatura como Instrumentos de Trabalho do Maçom Contemporâneo – I. In: Maçonaria com Excelência. 12 nov. 2025a. Disponível em: https://www.maconariacomexcelencia.com/post/a-inteligencia-artificial-e-a-literatura-como-instrumentos-de-trabalho-do-macom-contemporaneo-i. Acesso em: 08 abr. 2026.

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*** Ivan A. PinheiroMM, Pesquisador Independente, e-mail: ivan.pinheiro@ufrgs.br. Porto Alegre-RS, 04.06.26. O autor não só agradece a leitura e as considerações do Irmão Lucas V. Dutra, Mestre Maçom do Quadro da ARLS Presidente Roosevelt, 75, Or. de São João da Boa Vista, jurisdicionada à GLESP – psicólogo, professor doutor em psicologia, especializado em maçonologia (UNINTER), e-mail: dutralucas@aol.com, como também reafirma a responsabilidade pelos erros e omissões remanescentes


Notas

[1] Para o melhor entendimento deste texto sugere-se a leitura de Pinheiro (2026a, b, c).

[2] Imperador Romano, 272-237.

[3] William Preston: 1742 – 1818.

[4] Leader Scott é o pseudônimo de Lucy Emily Baxter (1837 – 1902), escritora inglesa dedicada sobretudo à arte.

[5] 540 – 604.

[6] Ano provável da morte: 604.

[7] Fonte: https://fr.wikipedia.org/wiki/Chr%C3%A9tien_de_Troyes. Acesso em: 23.03.26. Considerando que a biografia de Chrétien de Troyes, per se, é de somenos importância, admite-se que não há prejuízo em recorrer à Wikipedia como fonte biográfica.

[8] Entre as tantas, uma das obras consultadas e citadas – TROYES, Chrétien (2002), a partir da p. 155 traz 2 (duas) continuações possíveis: o manuscrito de Mons e o texto de Gerbert de Montreuil.

[9] Filho do literariamente famoso Lancelot, Cavaleiro da Távola Redonda. O triângulo amoroso formado por Lancelot, o Rei Arthur e a Rainha Guinever constitui um dos capítulos mais conhecidos dos Contos, do qual, de toda a história e da forma do desenlace, é possível tirar muitas lições acerca das relações humanas.

[10] Informação do editor de TROYES, Chrétien (2002, p. 249-50).

[11] Sir Thomas Malory (1415-1471).

[12] Desde o início, desde o princípio.

[13] Primeiro parágrafo deste texto.

[14] Conforme já esclarecido, não cabe repetir o contexto apresentado nos textos anteriores (Pinheiro, 2026a,b,c) desta Série.

[15] Trata-se de estratégias e práticas mais antigas do que se pensa. Assim como hoje os Movimentos Sociais se valem do aparelho cultural para sensibilizar o público-alvo, à época não era diferente. Os atos, o mais famoso, o dos Apóstolos, foram largamente utilizados para disseminar e esclarecer as novas ideias (a Boa Nova), divulgar realizações, convencer indecisos, etc., tudo com o intuito de converter, ampliar o contingente de adeptos e modificar os usos e costumes.

[16] Com o apoio da ICAR, vide, por exemplo, as Cartas de Paulo (Novo Testamento).

[17] “[…] um tom definitivamente cristão à sua história do Graal, mostrando a demanda dos cavaleiros como uma busca espiritual […]”.

[18] Esta interpretação, não encontrada em outros textos, pode ser vista em https://www.holyart.pt/blog/religiao/simbolos-templarios-historia-e-significado-destes-simbolos-antigos/. Acesso em: 29.04.26.

[19] Os mais idosos, da geração dos anos 60, certamente terão a lembrança de “A Espada Era a Lei”, um “clássico da animação” de Walt Disney cujo tema é a infância do Rei Arthur sob a tutela do mago Merlin.

[20] Munsalvaesche. Do francês “Mont Sauvage” e do latim “Mons silvaticus” […] Nos textos tardios, aparece a denominação “Mont Salvat” (mons salvationis). Nota (95) do tradutor (Eschenbach, 1989, p. 422). Há quem pergunte: seria a Jerusalém Celeste?

[21] Conforme já apontado, vários Templários eram alquimistas (Rodrigues, 2020).

[22] Ainda hoje, faz parte de várias tradições, a exemplo da Maçonaria, a adoção de um novo nome após a Iniciação na Ordem.

[23] Embora o trabalho de Brum tenha sido publicado após o de Ralls, até onde se sabe, teve início antes.

[24] Uma versão adaptada e bem reduzida pode ser vista em: MALORY, Sir Thomas. A Rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda. Trad. e adaptação de Ana M. Machado. São Paulo: Scipione, 1997. Série Reencontro Literatura. ISBN 978-85-262-4197-8.


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