REVISTA BIBLIOT3CA

Leituras Selecionadas do Editor-Chefe J.Filardo

Teogonias e terapias: Uma Perspectiva Junguiana sobre o Lado Escuro da Humanidade

Tradução J. Filardo

Dr. James Hollis

■ Analista junguiano
■ Diretor Executivo da Jung Society of Washington
■ Autor de 14 livros

Há algumas horas, encontrei-me com uma mulher de sessenta e um anos, filha de um casal militar, cujo abuso de substâncias e relacionamento conjugal contencioso fizeram com que ela e seus cinco irmãos vivessem um inferno.

Um dos muitos amantes visitando sua mãe a estuprou quando tinha onze anos.

Ela não contou esses traumas a ninguém até chegar aos quarenta anos de idade, pois sabia que seria duplamente violada, pois seu desprezo e culpa seriam lembrados contra ela, em vez de contra seu atacante. Ao longo da infância, ela se levantava às 5 todas as manhãs para despertar, alimentar e vestir seus irmãos mais novos, até sair para a faculdade. Impulsionada por um tom constante de ansiedade, vergonha e auto-aversão, ela prontamente encontrou um homem para afastá-la de tudo isso, mas que previsivelmente abusaria dela e a trairia. Seu plano de auto-tratamento também incluia residir por décadas no submundo do alcoolismo e, ela não teve filhos por quem se sentia responsável e teria preferido muitas vezes tirar sua vida para acabar com a dor. Hoje, sóbria e produtiva, ela permanece com o terror de relacionamento, tem medo de se arriscar a sentir alguma coisa, e está morrendo de solidão. Que ela tem estado perdida em uma floresta muito escura, para emprestar a metáfora de Dante, por muito tempo é óbvio e profundamente doloroso. Somente agora, quando enfrenta as últimas décadas de sua vida, ela procurou terapia para possivelmente criar uma vida que não seja definida pela escuridão.

Por mais horríveis que sejam as circunstâncias de sua vida, a história do abuso, as crônicas de vergonha e autodestruição, a implacável angústia em que ela vive sua jornada, podemos dizer que ela sofreu o mal? Se usarmos esse termo como terapeutas, o que queremos dizer? De onde emana essa convicção ontológica? E como devemos trabalhar na sua presença? Devemos evitar categorias morais e simplesmente gerenciar custos pragmáticos com planos de tratamento pragmáticos?

Quando Menninger (1988) perguntou “O que quer que o pecado se tornou”, ele estava certo em resgatar esse conceito para a nossa profissão que tantas vezes tratou o comportamento humano mais sombrio como derivado de genes defeituosos, desequilíbrios hormonais, complexos interferentes ou relativismos culturais? Estamos corretamente advertidos de não impor nossas próprias categorias morais, preconceitos e complexos aos nossos clientes, mas às vezes somos levados a colidir, ainda que involuntariamente, com o mal e sua perpetuação?

Em seu belo livro, Explicando Hitler: a Busca das Origens do Seu Mal, Ron Rosenbaum (1999) oferece uma série de perspectivas sobre o saco de pancadas favorito do modernismo. Tendo feito isso, ele levanta um desafio perturbador para seu próprio projeto: se fosse possível entender Hitler, de alguma forma isso sugeriria que o inexcusável é ao menos explicável, possivelmente plausível, talvez menos culpável?

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Quando começamos a examinar o problema do mal e o encontro tanto com o mal “natural” – terremotos, furacões, câncer – quanto o mal “moral” – o sofrimento que trazemos a nós mesmos ou a outros como resultado de nossas escolhas – imediatamente encontramos a questão da “Sombra” das tradições teológicas ocidentais. As tradições orientais muitas vezes abraçavam uma visão politeísta, como no hinduísmo, onde existem múltiplas divindades, operando de maneiras múltiplas e diversas sem contradição, em que a esperança humana é investida da possibilidade de conduzir esta fase de uma história cósmica de forma a aliviar a carga para a próxima encarnação.

No budismo, o problema está centrado nas atividades apreensivas e imperialistas do ego inseguro, mas inflado que deseja o controle, a soberania e a isenção do sofrimento. Para o budista, a chave pode ser encontrada na transformação, a consciência do ego desse esforço delirante para controlar no alívio do “deixar ser”, de ir com o fluxo de energias em constante transformação e em renunciar a uma identificação inflacionada com o estado do ego como o núcleo do nosso ser. As teologias ocidentais, no entanto, colocaram todas as suas fichas no quadrado teísta, aquele onde existe uma deidade única, onipotente, onisciente, onipresente e possuidora de caráter moral (a propósito, essa última qualidade, com pouca frequência, parece bastante com a nossa). Dados esses atributos, não se pode alegar que um ser tão supremo esteja olhando para outro lado, preocupado, impotente ou indiferente quando ocorre o sofrimento ou a injustiça. A partir desse nexo inquietante surge o aspecto sombrio das teologias ocidentais, uma disciplina chamada teodiceia, cuja tarefa é reconciliar essa contradição fundamental. Não importa o quanto sofismas ou lógica tensa possam ser necessários para que funcione, a natureza unitária da divindade deve ser preservada a todo custo. Enquanto muitos dos argumentos da teodiceia apelam ao intelecto, poucos satisfazem o coração. Além disso, este projeto de teodiceia assombra as terapias ocidentais também, dado nossos pressupostos frequentemente não examinados de que existe uma expectativa coletiva de comportamento social, uma definição putativa de sanidade e um horror ao amoral conforme evidenciado em nossa lenta evolução da “insanidade moral”, para distúrbios de “persona”. Essa ideia encontra sua expressão ocidental na “Oração da Serenidade” dos grupos dos Doze Passos, ou na palavra alemã para “serenidade”, Gelassenheit, que literalmente pode ser traduzida como “a condição de ter deixado ser”, a desordens de “personalidade”, e talvez até mesmo no uso contemporâneo do eufemismo “transtorno de” ao invés de mal.

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Não se exige uma grande consciência psicológica para perceber que, em geral, essas teologias, estas imago Deis, surgem de projeções e muitas vezes elas nos contam mais sobre o estado psíquico do teólogo do que do Outro misterioso.

Jung (1952) até escreveu um livro sobre este assunto, Resposta a Jó, recomendando psicoterapia para tais imagens coletivas ou tribais divididas, enquanto eles mudam do lado escuro do cosmos para uma figura de bode expiatório, um demônio ou um Satanás, ao invés de uma imagem que abranja a totalidade do ser. Jung chamou tais divisões de Sombra, que pode ser experimentada tanto em nível pessoal quanto coletivo. Mais recentemente foi publicada uma extensa série de cartas com o padre Victor White, (2007), um dominicano inglês, sobre o assunto do mal. Neste intercâmbio, Jung contesta a posição da Igreja Romana de que Deus é o Summum Bonum, e reside intocado pelo mal, e o mal sendo meramente o privatio boni, a ausência do bem. Jung argumenta, por outro lado, em favor do status ontológico do mal e afirma que qualquer teogonia que não inclua o lado negro do cosmos é simplesmente incompleta.

Mais comumente, a Sombra se manifesta em nossas vidas pessoais através do inconsciente, quando se derrama em escolhas autodestrutivas, na agenda narcisista ou mesmo na vida não vivida, transmitida aos filhos que a transferem a gerações subsequentes. O maior fardo que a criança deve suportar, afirmou Jung, é a vida não vivida dos pais. Assim, onde quer que estejamos bloqueados, oprimidos, sem permissão, de modo que nossos filhos sejam igualmente bloqueados, lutarão de uma maneira supercompensada para se libertar de nossa herança, ou desenvolverão inconscientemente um “plano de tratamento”, que vai desde anestesiar o conflito até distrair-se dele, ou tentar resolvê-lo em si mesmos ou em outros. A maneira pela qual muitos de nós, nas profissões de saúde, carregamos essa vasta e impossível tarefa de “consertar” o que está errado nos outros é replicada através do que Jung chamou de arquétipo do “curandeiro ferido”. É vergonhoso que tantos de nossos procedimentos de treinamento negligenciem essa característica de patologização intra-psíquica que se encontra profundamente na alma da maioria dos terapeutas e leva muitos a estados estáveis ​​de ansiedade, estresse, abuso de substâncias e esgotamento. Esta configuração não tratada, sozinha, este motor de identificação vocacional representa uma das primeiras Sombras de nossa profissão.

A Sombra não é sinônimo de maldade, per se. Ela é uma metáfora para encarnar o que a consciência do ego, pessoal ou coletivo, prefere negar. Aquilo dentro de mim que me deixa desconfortável sobre mim mesmo, o que eu prefiro reprimir, negar, descartar é a minha Sombra. Da mesma forma, a Sombra também pode incorporar algumas das minhas melhores qualidades, tais como a criatividade, desejo e espontaneidade – todos os movimentos de afeto que, em algum momento do nosso desenvolvimento, se revelaram custosos ou contraditórios às normas da nossa família ou, em segundo lugar, a Sombra é projetada em outros.

O que eu desejo negar em mim, eu verei em você e condenarei. Como Jesus observa em Mateus 7: 3, o argueiro no olho do meu vizinho é muito mais evidente do que a trave no meu. Com frequência, o que mais desgostamos nos outros é como eles incorporam aspectos de nossa própria Sombra. Em nível coletivo, a projeção da Sombra é a origem do fanatismo, preconceito, sexismo, preconceito contra velhos e de todas as animosidades categóricas.

Quanto mais estressado o clima cultural, mais inconsciente e temerosa a população, mais procuramos alguém para culpar, algum bode expiatório que possa carregar o peso de nossa própria preguiça psicológica. Tendo visitado Buchenwald, Mauthausen, Dachau, Bergen-Belsen, Auschwitz e, tendo lido o jornal desta manhã, eu sei que os trilhos de tais projeções levaram a campos de concentração, pogroms e a campos de extermínio espalhados por todo o planeta. E, como vivo em um país angustiado e dividido (os EUA), eu vejo tal projeção da Sombra se manifestando como histeria, bode expiatório e incitação à violência.

Em terceiro lugar, pode-se subsumir pela Sombra, e deleitar-se com ela: Roulez le bonne Temps … fique chapado … aproveite a pura justiça da raiva … perca a cabeça … aproveite a doce sedução da Schadenfreude. Como a Sombra contém energia enorme, muitas vezes nós nos alimentamos dela e ficamos extasiados. Como Nietzsche já observou, é incrível quão bem soam razões ruins e música ruim quando se está marchando para encontrar o inimigo. Em quarto lugar, pode-se tornar a Sombria consciente e ser convocada para humildade antes de nivelar suposições de ego, fantasias, inflações. Normalmente, chegamos a esta prestação de contas de maneira difícil por causa do dano que fizemos a nós mesmos ou a outros, ou somos chamados à consciência pelos restos acumulados de consequências que se acompanham nossas histórias separadas. Mais ainda, o maior das contas de nossa Sombra surge das vidas estreitas, diminuídas e tímidas que levamos. Nós, e muitos de nossos clientes, vivemos vidas amedrontadas e nossa própria psique expressa seu ponto de vista contrário através da sintomatologia da depressão, desânimo, drogas de todos os tipos – incluindo fundamentalismos, distrações, distúrbios do desejo e as diferentes formas de “má fé” de que Sartre nos acusava. Como Jung disse várias vezes, todos caminhamos com sapatos muito pequenos para nós. Sobretudo, sofremos da falta geral de objetivo de nossas vidas.

A convocação para a prestação da Sombria sempre nos pede para crescer, parar de culpar nossos pais ou nossos parceiros, e arriscar a inteireza em vez da bondade.

Enquanto os sintomas apresentados por nossos clientes variam, a maioria deles está sofrendo menos com os males desse mundo do que com a vida não vivida que está latente e não tratada dentro deles. Pode-se argumentar que essas considerações da Sombra são questões mais filosóficas do que psicológicas. A isso, eu responderia que sim, estes são assuntos filosóficos, e algumas das maiores mentes da antiguidade lutaram com esses mesmos assuntos. Desejo que mais programas de treinamento de terapeutas prestem mais atenção à filosofia, pois somos, finalmente, a soma de nossas “filosofias”, conscientes ou não. Todo complexo é uma filosofia encarnada, enraizada no passado do sujeito, uma personalidade dispersa, uma manifestação somática, um mini-script ou cenário e uma tendência para a repetição.

Muitos de nossos traumas geraram fenomenologicamente “filosofias” de si mesmos e do mundo, e todos nós tendemos a cometer “a falácia da generalização excessiva”, ou seja, o que pareceu ser verdade no passado, em seguida, é extrapolado para futuros subsequentes e cria esses padrões ruidosos que confundem nossas mais profundas fantasias de liberdade de escolha. Se mais terapeutas fossem treinados nas diferentes falácias argumentativas que os filósofos têm exalado durante os milênios porque nossos clientes e sua cultura estão inundados delas.

Da mesma forma, por mais irracional que seja o mundo, e quão peculiares e idiossincráticas as nossas sensibilidades, todos nós poderíamos usar aquela velha ferramenta, a razão, para traçar um caminho através das florestas escuras de nossas vidas de vez em quando. E em terceiro lugar, desenvolver uma “filosofia de vida” madura, que exija de nós responsabilidade, que reconheça a realidade do apego e da perda, que nos convoque para o mais alto, servirá a qualquer um em qualquer de nossos mares tempestuosos. Adicionalmente, uma das virtudes periféricas do trabalho com os sonhos é que o ego do cliente é convocado para um diálogo com uma fonte diferente e mais profunda dentro dele. Os sonhos são, afinal, próprios do indivíduo, mas de onde surge tal engenhosidade, tal criatividade e perspicácia, e qual é sua intenção? Quando o cliente enfrenta o fato de que há uma sabedoria profunda, o que Jung chamou de pessoa de dois milhões de anos dentro, então ele ou ela adquire maior acesso a um caminho pessoal e pode recuperar a autoridade pessoal até então negociada em mil adaptações que dependência uma vez obrigada. A partir tanto para o diálogo de terapia extra-psíquico quanto o diálogo de introspecção intra-psíquico, uma vida maior pode se desenrolar, o mundo das Sombras fica mais luminoso e informa uma maior variedade de escolhas conscientes.

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Tirésias, o venerado profeta cego da Grécia antiga, observou uma vez que às vezes vemos coisas que não deveriam ser vistas. Assim, o terapeuta às vezes encontra a mais sombria possibilidade da humanidade, não só na experiência de visita do mal, mas na sua prática deliberada. Ao fazer um estágio em um hospital psiquiátrico décadas atrás, encontrei uma mulher que expressou o desejo – e muitas vezes agiria até conseguir realizar seu desejo – de ser “restringida”, ou seja, amarrada em lençóis à cama e completamente imobilizada. Seu problema era um transtorno de ansiedade generalizada de tal magnitude que fazer escolhas durante o dia a enchia com tanto terror que, restringida, ela sentia alívio por não ter escolhas a fazer. O que fazemos é sempre “lógico”, se entendemos a premissa psicológica que nosso comportamento serve ou trata. Os junguianos aprenderam muito com o trabalho dos antropólogos Levi-Bruhl e Levi-Strauss, que apontaram que a chamada “mente selvagem”, a mente a que cada um de nós repara quando sob estresse primário, incorpora uma lógica idiossincrática. associativa, lógica expressiva, embora simbólica, em vez da consciência de ego lógica linear e discursiva. A maioria de nós sentiria nossa ansiedade crescer se nos tornarmos impotentes por estarmos amarrados a nossas camas. Esta mulher triste sentia-se livre do peso de entrar na vida com todas as escolhas incômodas que a esperavam. Quando falei com ela sobre seus comportamentos, ela explicou que, entre outras coisas, sua mãe costumava enfiar pedaços de madeira debaixo de suas unhas todas as manhãs quando ela era criança. Primeiro, pensei que esse e outros relatos lúgubres eram o produto de uma psicose, mas enterrado em seu enorme arquivo estavam relatórios de campo escritos há muito tempo pelo agente de serviços familiares que conseguiu levá-la para longe daquela casa porque a mãe realmente perpetrava esses monstruosos tratamentos matinais e mais, até que fosse denunciada pelos professores da escola. Ver essa mulher adulta, uma verdadeira criança fechada em uma enfermaria psiquiátrica, três décadas depois, é encarar o mal. Ela me assombra até hoje, assim como os instrumentos, diante do Straffenblock ou na ala de castigo em Buchenwald, logo à saída da adorável cidade de Weimar, que antes hospedou Goethe, Schiller, Nietzsche, Wagner e outros luminares do espírito humano. Então, também estou assombrado pela mulher com obesidade mórbida que os pais ofereciam como parceira sexual para os seus amigos visitantes. Então, também, a mulher de quem seu assistente social ria por ela falar sobre os “três corações alojados em seu corpo”: um bombeava sangue, um foi para sempre quebrado por causa da morte de seu filho e um sofria pelo resto de o mundo. Eu acredito que ela tinha mais humanidade sentida do que aquele assistente social, e muitos outros entre o pessoal que protegia suas vidas não examinadas, e frágil apego a coisas, pelo ridículo, distanciamento e humor negro. No entanto, manter nosso único coração aberto nesse lugar era convidar os sicofantas do Inferno a entrar.

Todos nós sofremos de Estresse Pós-Traumático (PTSD), pois a vida é traumática, existencialmente esmagadora, inundando-nos com uma magnitude de experiência grande demais para se assimilada completamente. Não é de admirar que tenhamos que reparar, dormir e permitir que a psique continue processando esse material e metabolizando suas toxinas. Quando as pessoas são privadas de sono e, especialmente, em situações laboratoriais ao longo do tempo, tendem a alucinar, então é urgente que esse material seja processado. Embora este enfrentamento do trauma seja suficientemente difícil de forma individual, ele pode ser acumulativamente iatrogênico para terapeutas e prestadores de cuidados de saúde profissionais à medida que absorvemos essas referidas toxinas ao longo do tempo. Um colega comparou isso à sílica invisível que descia do teto, enchendo lentamente enchendo nossos corpos e almas até que o pneuma, o espírito, estivesse carregado, saturado e, finalmente satisfeito. Lembro-me de um dos analistas seniores em Zurique que confessou uma vez que, quando sua semana terminava, ela chorava por seu paciente mais problemático. E se todos estivessem passando bem, ela chorava por si mesma.

Como sabemos, um tratamento elementar para PTSD é contar a história repetidamente, na companhia um do outro confiável, até que esse material tenha sido metabolizado novamente no ar. Sem diminuir o encontro com o mal que alguns de nossos clientes sofreram, o terapeuta deve apoiar continuamente a ideia de que o que nos acontece não é sobre nós, como tal, embora ocupe uma parte importante de nossa experiência. Abaixo do nível da consciência do ego, todos exercemos o mecanismo do pensamento mágico, com tendências paranoicas em direção à fuga. “Eu sou o que acontece comigo”, concluímos, quando internalizamos nosso mundo como uma declaração sobre nós e continuamos a servir essa “mensagem” carregada. (Como disse o romancista Faulkner, “o passado não está morto, ele nem mesmo é passado”. Reforçando a ideia de que o trauma surgiu das exigências da vida, da patologia de outra pessoa, da colusão ocasional entre tempo e agência, é fundamental para o desenvolvimento de outra região da psique que não só pode desafiar as mensagens implicadas no trauma, mas pode aprender a governar a partir de um espaço psíquico maior. Como disse Jung sobre nossos complexos e feridas fundamentais, podemos não os resolver, mas podemos superar. Se olharmos o lado sombrio da humanidade, somos obrigados em nome da honestidade filosófica a considerar se a ideia de sombrio, a ideia do próprio mal não é primariamente um problema de “ego”, o problema de dividir quando o próprio universo não está dividido – ele simplesmente é. Conforme um personagem de John Steinbeck colocou: “não há nada bom e não há maldade; há apenas coisas que as pessoas fazem. ” Em outras palavras, o que quer que personifiquemos quando falamos de natureza originária e originante (natura naturans) ou natureza originada (natura naturata), tal força não considera ou se preocupa com o problema do mal ou da luz e escuridão. Que agentes as pessoas personificaram como “os deuses” aparentemente também não, embora existam, naturalmente, religiões como o Cristianismo, segundo as quais uma divindade compassiva professou ter entrado no mundo em forma humana para compartilhar e possivelmente redimir o sofrimento. Os politeístas têm menos problemas com tudo isso porque os poderes divinos não são obrigados a ser consistentes ou compassivos, ou qualquer coisa, exceto “o deus”. O budismo clássico é, dessa forma, mais uma psicologia existencial que aborda nossa condição central: a Angústia. O ego, então, não é encarregado daquela agenda impossível de soberania que serve como a núcleo, a suposição silenciosa de tantas psicologias modernas e métodos terapêuticos. A maioria de nossas teorias psicológicas e planos de tratamento investe fortemente na fantasia da soberania e controle do ego através da reestruturação cognitiva e modificação comportamental. Essas fantasias, para o budista clássico, só aprofundarão a ilusão, e colocarão o ego em busca de mais angústia, já que essas estratagemas falham em última instância. Da mesma forma, as teologias mais populares configuram o crente, seja por infantiliza-lo ou através de culpa e ansiedade, ou seduzi-lo com insinuações de felicidade, prosperidade material e longevidade. Quando algum desses pressupostos psicológicos ou teológicos vacila sob o ônus da realidade, o indivíduo geralmente é deixado para se responsabilizar pela discrepância acusando os deuses, ou eles mesmos, por suas falhas. Gautama percebeu essa tendência há dois mil e quinhentos anos quando disse que a própria atitude do ego era o problema. Não é interessante que ainda estejamos tropeçando nessa tendência recalcitrante da inflação do ego muitos séculos depois? E que a fantasia de cura implícita da maioria dos nossos métodos pode agravar esse dilema?

É a natureza da psique, um sistema de energia voltado para o seu próprio desenvolvimento e preservação, para se diferenciar em componentes que podem suportar ou impedir essa agenda. A fenomenologia de ser o próprio ser divide e cria tais epifenômenos como consciência do ego e os fragmentos espinhosos de diversas motivações, complexos e cenários pessoais e culturais reticulados.

Esses motores de busca são diferenciações de psique, não diferente da folha, botão de flor, caule e semente da planta, e conduzem sua agenda através de múltiplas estruturas e funções. Ainda assim, essa mesma variegação utilitária também engendra divisões, conflitos, sofrimento, neurose. No mito Edênico, por exemplo, pode-se comer da Árvore da Vida, mas a Árvore do Conhecimento está proibida. Viver inconscientemente atendendo o instinto é a inteireza psíquica; atender à agenda divergente da consciência, no entanto, leva à fragmentação, divisão interna e, em última análise, derrama-se em contenção violenta dentro da própria espécie. Várias fantasias de “regresso à casa”, de “paraíso”, de “inteireza”, de “felicidade”, “retorno à natureza”, “à vida simples”, servem essa nostalgia para a unidade perdida do ser instintivo. Mas não há retorno. As linhas mais tristes da língua inglesa são talvez aquelas de Milton descrevendo como nossos antepassados ​​mitopéicos articularam sua maneira solitária fora do Eden, para sempre. Assim, em resposta, elaboramos a panóplia epifenomenal de teologia, psicologia, planos de tratamento para perpetuar a fantasia do retorno, esquecendo o aviso de Freud de que nossa tarefa muito mais modesta, talvez possível, é mover-nos das misérias neuróticas da vida para as misérias normais da vida. Embora possamos ou não concordar que o problema do mal, do “lado sombrio” da humanidade é a casualidade inevitável de dividir a consciência do ego, teremos, não obstante, que lutar sempre com o coração e com a soma irredutível de sofrimento humano. Como Pascal notou no século XVII, o coração tem razões que a própria razão desconhece. E, como concordou Yeats, independentemente das nossas preferências teóricas, no final nos encontramos apenas “com a nosso cego, estupefato coração.”

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O problema do inconsciente é que ele é inconsciente. Não podemos com certeza dizer que ele existe, mas temos tanto direito de falar sobre isso como uma entidade, quanto os astrofísicos têm de falar de “Buracos negros” cuja existência eles postulam por causa de seu efeito sobre os corpos circundantes. Que muitas das nossas histórias parecem se espalhar pelo mundo a partir de lugares desconhecidos para a consciência, parece legitimar a existência de tal premissa. Do limitado alcance da consciência, no entanto, toda a presunção é revolucionária e perturbadora.

É inquietante pensar que o ego pode ser apenas uma bolacha fina em um mar grande e tenebroso, quando investimos tanto em seu caráter navegável, montando sua estrutura de lançamento e agarrando-se a ele como algo fixo. Do ponto de vista do ego imaturo ou ameaçado, mesmo o resto de nossa realidade psíquica pode ser considerado um “lado sombrio”. O parceiro de um dos meus analisandos resistiu à terapia pessoal alegando que “eu sei o que penso”, que é o equivalente a dizer: “Eu penso que penso o que penso”. De fato, a psique está nos “pensando”. Da mesma forma, o imperialismo secreto do “onde o Id estava o ego estará” de Freud também sugere algo da atitude do ego a esta terra incognita. Então, ao explorar a Sombra, somos convidados a sermos responsáveis ​​não apenas pelo desconhecido, mas pelas pequenas peças que podemos conhecer, mas preferimos não o fazer.

Ao falar com grupos sobre o tema da Sombra, desenvolvi workshops de um dia inteiro em que, após uma introdução geral ao conceito da Sombra e exemplos no front da sociedade e da história, exploramos o tema de forma muito pessoal. Enquanto a privacidade de cada participante é protegida, cada um é convidado a fazer um diário no local em resposta a algumas perguntas provocativas. Esses workshops levaram a algumas conversas interessantes, e acredito que não a um pequeno aumento na conscientização pessoal. Embora as próprias perguntas sejam simples, elas agitam o pote e trazem muito material, de outra forma negligenciado à superfície. Em vez de nos concentrarmos na questão do mal, em si, e no espírito de ampliar o tema do lado obscuro da humanidade, deixem-me compartilhar algumas das perguntas e breves amplificações aqui.

  1. a) De suas muitas e muitas virtudes, uma lista grande demais para abranger nestas breves horas, você pode identificar talvez três deles que você acredita aparecer em sua vida com consistência razoável? b) Quais são os opostos dessas virtudes, as manifestações de um lado mais sombrio de uma personalidade, que, é claro, são mais distantes de c) Você pode identificar ocasiões específicas onde a prática das virtudes que você mencionou em 1. a) acima causou dano para você ou a outra pessoa? d) Você pode identificar ocasiões específicas onde o oposto de suas virtudes, conforme listado em 1. b) acima, apareceu em sua vida?

Esta pergunta, muito simples, em quatro partes, começa a mudar o chão sob o ego e suas pretensões. Todos nós desejamos pensar em nós mesmos como pessoas geralmente justas, cidadãos de boa vontade e esperançosamente com contribuições benéficas.

No entanto, uma avaliação sóbria da história, da nossa e da do mundo, sugere que mesmo as melhores intenções podem levar a danos imprevistos a si mesmo e aos outros.

E, por mais vigilantes que desejamos ser, toda a gama de possibilidades humanas, mais cedo ou mais, escapa para o mundo através de nós. O efeito geral de até mesmo esta primeira pergunta é a inquietação e a sensação despertada de que outras forças podem estar em andamento. Se alguém jamais duvidou, a primeira pergunta, por si só, começa a sublinhar o papel do inconsciente na governança do cotidiano, e o lembrete de que na verdade não sabemos o que pensamos, nem somos arrogantemente capazes de traçar um curso de certeza moral.

  1. Examine os principais relacionamentos de sua vida, doméstica e comercial. Onde a Sombra se manifesta em padrões de evasão de conflito ou cumprimento da pressão do momento, levando a consequências que não são de seu interesse ou talvez de outros?

Mais uma vez, esta questão demonstra a ubiquidade de agendas subterrâneas, velhos padrões de adaptação, evasões de responsabilidade que nos permitem escorregar para longe do nosso encontro com as complexidades da vida.

  1. Examine os padrões de seus relacionamentos íntimos, tanto atuais quanto passados.

O que mais lhe aborrece sobre aquele parceiro? Onde você encontrou tal aborrecimento antes?

Esta questão começa a chegar à questão de como nós projetamos nossa Sombra em nossos parceiros, e até mesmo podemos selecioná-los para fazê-lo. Nós os escolhemos por razões interiores convincentes, e apenas alguns desses motivos chegam alguma vez à consciência. Diante de mensagens altamente carregadas, especialmente aquelas inconscientes, temos uma tendência de atender às instruções através da repetição, ou podem ser capturadas em excesso de compensação, tentando nos afastarmos de um padrão dinâmico, e assim ainda sendo definido por ela ou por ter elaborado um plano de tratamento, como um vício entorpecente, uma vida de distração ou suspiro, sendo um terapeuta e tentando consertá-los em tudo o mais.

  1. Onde você prejudica repetidamente seus interesses, dá tiro no pé, faz com que sinta dores familiares? Onde você evita arriscar o que você intui ser seu eu maior?

Mais uma vez, a Sombra se manifesta de forma mais significativa em nosso conluio com ela. Mesmo quando sabemos o que é necessário, muitas vezes repetimos padrões compulsivamente. Como Paulo disse na Carta aos Romanos, embora conheçamos o bem, não o fazemos.

Por quê? Ele tendia a marcá-lo como “pecado”, a impossibilidade de perfeição e uma vontade imperfeita. Tudo isso pode ser verdade, mas ele não sabia muito sobre a vastidão do inconsciente, e o fato de que as tendências contrárias também são parte de quem somos. Na verdade, o comentário psicológico mais astuto que já vem do mundo antigo é do dramaturgo romano Terêncio, que há dois milênios disse: “Nada humano é estranho para mim”. Essa verdade auto evidente é a essência do reconhecimento da Sombra, a nossa humanidade comum e, no entanto, cada um de nós terá algum lugar em nossa vida onde a negação, a evasão, a supressão, a repressão, a projeção ou a dissociação são empregadas reflexivamente para nos distanciar e preservar a quadro frágil do ego. Nenhum de nós desejará acessar nosso sociopata interno, ou abraçar o assassino dentro de nós – embora possamos assassinar algo importante diariamente – ou admitir nosso narcisismo desenfreado, e nenhum de nós quererá confessar o quanto queremos amar e sermos amados.

  1. Onde você está “encalacrado” em sua vida, bloqueado em seu desenvolvimento? Que medos estão como sentinelas para impedi-lo de ir onde você quer ir, e de onde eles derivam?

Eu já fiz esta pergunta em quatro continentes e ninguém, ninguém nunca me perguntou “o que você quer dizer “encalacrado”? Eles pedem exemplos de todas as outras questões, mas para essa, todos começam a escrever em questão de segundos. É de considerável importância psicológica que possamos identificar tão prontamente onde estamos empacados e, no entanto, continuamos empacados. Muitas vezes, o empurrão daqueles lugares encalacrados é reforçado por repetidas tentativas fracassadas de se soltar e a pessoa fica mais afligida com vergonha, culpa e diminuição da auto-estima. Ao abordar esta questão eu lhes apresento a premissa principal da psicologia da profundidade, a saber, que não se trata do que se trata. Seja qual for o lugar “encalacrado”, não se trata daquela questão, pois aquele problema ou tarefa é facilmente abordável. Em vez disso, um filamento metaforico parte do local encalacrado para uma zona primitiva e arcaica da psique, onde as primeiras lições sobre as ameaças gêmeas à nossa sobrevivência – sufoco sim, por mais estranho que pareça e abandono – foram conhecidos e sofridos primeiro. Nestes “lugares encalacrados” superficiais, nós preferimos ativar ansiedades primitivas e arcaicas e é a mistura, o propelente desse reino arcaico que domina os esforços repetidos da consciência do ego comum para avançar. Quando alguém percebeu que “não é sobre o que se trata”, então ele pode começar a perceber que as partes arcaicas do mecanismo de bloqueio podem ser confrontadas pelos poderes e a resistência que a pessoa adquiriu nos anos intermediários. Tantas pessoas, quer se trate de bloqueio do escritor, a necessidade de perder peso, enfrentar um vício, seja o que for, expressaram um alívio e uma nova determinação quando perceberam que o bloqueio não surgiu da sua vontade de postergar, mas de assuntos muito distantes no tempo e espaço, assuntos que uma consciência ampliada pode agora tratar.

  1. Onde a Mãe e o Pai ainda governam sua vida, seja por repetição, compensação excessiva ou seu “plano de tratamento” especial?

A vida não vivida dos pais, onde quer que estivessem empacados, torna-se para todos nós um modelo convincente, um roteiro, um conjunto de ordens de marcha ou gastamos enormes energias tentando não repetir a vida da nossa mãe ou ser como nosso Pai ou evoluímos estratégias sofisticadas para massagear este problema e ignorar o seu papel contínuo em nossa vida.

  1. Quando você se recusa a crescer, aguardar clareza de visão antes de arriscar, esperar soluções externas, esperar resgate de alguém ou esperar que outra pessoa lhe diga o que é a sua vida?

A esta pergunta, como aquela do “empacamento”, é uma que os participantes respondem rapidamente. Eles, nós, todos sabemos onde estamos evitando aparecer em nossas vidas. Todos nós estamos conscientes de onde gostaríamos que outra pessoa cuidasse desta viagem incômoda para nós. Todos nós queremos descobrir tudo, ter as ambiguidades resolvidas antes de entrar no abismo. Esta responsabilidade adiada, essa autoridade pessoal deserdada, essa evasão de responsabilidade é comum a cada um de nós em alguma área de nossas vidas e é uma das principais manifestações do lado obscuro da humanidade. Para aqueles de nós comprometidos com os valores democráticos, essa fuga da responsabilidade pessoal não só sabota a profundidade e integridade de nossa jornada pessoal, mas também mina a maturação necessária para uma democracia responsável e participativa. Não é de admirar que nossas sensibilidades públicas sejam caracterizadas pela sua susceptibilidade a demagogos e gurus, sedução por modas e tendências, exibem uma curta capacidade de atenção, manifestam uma tendência pronta para o bode expiatório, preferem soluções simplistas para assuntos complexos e renunciam à autoridade pessoal tão facilmente em tempos de angústia. Como um dos personagens de Bertolt Brecht disse em resposta a como uma tirania é criada, não é preciso organizar os criminosos, é preciso apenas organizar o povo. Como resultado, o lado mais sombrio de nossas estruturas sociais coletivas tem sua origem no que evitamos em nosso desenvolvimento pessoal.

* * *

De pé neste planeta girando, e fazendo esse tipo de trabalho diariamente, não podemos deixar de ser rejeitados em perplexidades existenciais: por que há tanto sofrimento, tanta injustiça? Em que medida se adota uma abordagem neutra e não envolvida? Quando é a intervenção possível e necessária?

Como a nossa própria Weltanschauung filosófica ajuda ou dificulta o nosso trabalho?

Existe uma conexão legítima entre a teogonia e terapia. Há muito tempo, o problema do mal, a injustiça e a omnipresença do sofrimento me levaram a estudar filosofia e teologia em nível de pós-graduação. Tão rico e provocativo como esses textos provaram ser, passei a apreciar a crítica de Whitehead sobre “a dança sem sangue de categorias”, e fui deixado com pouco mais do que meu próprio coração cego e estupefato. Lembro-me de ouvir uma entrevista em meu rádio do carro em 23 de novembro de 1963, quando Kenny O’Donnell refletia sobre o assassinato de seu parente no dia anterior. Ele disse: “O que há de bom em ser irlandês se você não sabe que, mais cedo ou mais tarde, o mundo vai despedaçar seu coração”. Não é preciso ser irlandês para encontrar nosso compromisso pessoal com a floresta mais escura. Desde então, cheguei à conclusão de que a maioria de nós, sem dúvida, alcança, ou nos esgotamos, ou temos que fechar nossa loja espiritual e nos tornarmos autômatos, a saber: a onipresença do sofrimento e da injustiça é praticamente um estado constante.

Só porque fomos distraídos pelo momento, não elimina o fato de que coisas horríveis estão acontecendo às pessoas em todo momento. Tudo o que podemos trazer à mesa, então, é compaixão, uma estabilidade que às vezes pode ajudar a curar, e as habilidades interpretativas para ajudar as pessoas a encontrar sua posição em relação ao seu sofrimento. Em sua maravilhosa atualização da história de Jó, Archibald MacLeish (1963) move sua personagem central, um empresário chamado J.B., para observar que Deus não ama; Deus simplesmente é., “Mas nós amamos”, sua esposa Sarah o lembra.

Às vezes, podemos ajudar a reformular o sofrimento do paciente sem evitá-lo de forma alguma. No livro Pântanos da Alma, eu argumento que, em todas as visitas a pântanos – depressão, perda, traição, culpa, et al. – há sempre uma tarefa psicológica, cujo tratamento pode levar uma pessoa de vitimização e diminuição até engajamento proativo e expansão psico-espiritual.

Misteriosamente, a cura geralmente surge da própria aliança terapêutica, este mais íntimo dos relacionamentos. Muito mais de um século atrás, Pierre Janet observava o que ele chamou de “a cura falante”, o fenômeno peculiar em que as pessoas de alguma forma se sentem melhor simplesmente compartilhando seu sofrimento com ele. O que podemos discernir neste fenômeno é a importância do relacionamento humano, de uma pessoa que testemunha o sofrimento de outro e de ser mantido no estado de queda sem julgamento.

Certamente, uma das ideologias mais ilusórias do nosso contexto cultural é a fantasia da felicidade. A felicidade é um estado muito transitório, e sempre contextual.

(Lembre-se do banquete de Dámocles e sua espada balançando sobre a cabeça do comensal congestionado?) Quando estamos fazendo o que é certo para a nossa alma, isto é, a psique, seremos inundados de tempos em tempos pela felicidade, mas a perseguição constante disso levará a comportamentos viciantes, trivialização e aumento do sofrimento. Por outro lado, se o objetivo é o significado, isto é, encontrar nosso propósito em nosso canto particular da floresta escura, então sentiremos a riqueza da nossa jornada.

Parte de nossa tarefa terapêutica, tão frequentemente necessária, é empreender a ideia de Freud de Nacherziehung, ou seja, a reeducação de nossos valores. Ajudar uma pessoa a encontrar a sua tarefa em meio a sofrimento, perda, decepção, move ele ou ela para maior autonomia. A psicologia analítica, conforme articulada por Jung, é, em última instância, uma terapia de significado. Embora comecemos o nosso trabalho em tais pântanos como a psicopatologia, somos mais importantemente direcionados para a tarefa de encontrar significado nesses lugares lúgubres. O que, diante dessas circunstâncias, alguém é chamado a fazer? Que novas atitudes são necessárias, qual a persistência da vontade e que mudança de agenda de valores este momento exige na vida de alguém? Quando essas questões são tratadas diretamente, a pessoa permanece menos presa nas feridas e mais envolvida na tarefa que pode levá-la a um crescimento. No final, atingir a felicidade pode ser uma definição trivial de vida, mas uma dialética mais concertada entre o coração, o cérebro e a alma pode levar a uma vida bem vivida, uma vida na qual se encontra dignidade, autonomia, e Jung observou repetidamente que não podemos levar os clientes mais à frente do que nós mesmos fomos. Onde estamos encalacrados, a terapia ficará encalacrada. Portanto, temos que trazer à mesa a nossa própria reflexão continuada, nossa própria consciência de pontos cegos e nossa própria vontade de reconhecer o que não sabemos. Nós não compreenderemos finalmente o lado obscuro da humanidade, mas estamos aqui para testemunhar, trazer o presente de compaixão e jornada compartilhada ao cliente. Todos nós estamos na mesma floresta escura, embora com diferentes caminhos que se nos abrem. Mais de oito séculos atrás, o escritor da lenda do Graal observou que, quando cada cavaleiro partia em busca do Graal, cada um ia a um lugar na floresta onde não havia caminho, pois seria uma coisa vergonhosa seguir o caminho que alguém já pisara antes. Antes de podermos acompanhar qualquer pessoa em sua jornada pela floresta escura, temos que empreender a nossa própria. Onde quer que nossa própria coragem e determinação de ve-lo através de bandeiras ou falhas, vamos falhar com nosso paciente, pois o que mais temos a compartilhar com eles não é nossa erudição ou nossas técnicas, mas sim quem nos tornamos e que escuridão enfrentamos no mundo.

Bibliografia

HOLLIS, J., Swamplands of the Soul: New Life in Dismal Places. Toronto: Inner City Books. 1996.

________,Tracking the Gods: The Place of Myth in Modern Life. Toronto: Inner City Books. 1995.

________, Why Good People do Bad Things: Understanding our Darker Selves. New York: Gotham/Penguin. 2007 JUNG, C.G., Answer to Job (C.W. Vol. 11). Princeton: Princeton, 1973.

_________, The Jung-White Letters. London: Routledge. 2007.

MACLEISH, A., A Play in Verse. New York: Houghton. 1961 MENNINGER, K., Whatever Became of Sin? New York: Bantam. 1988.

ROSENBAUM, R., Explaining Hitler: The Search for the Origin of His Evil. Toronto: Inner City Books. 1999

 

Publicado em http://www.revistahermes.wixsite.com/hermes20

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