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Grau 14 – Perfeito e Sublime Maçom (REAA)

Publicado em FREEMASON.PT

Por João Anatalino Rodrigues

Avental do Grau 14 - Perfeito e Sublime Maçom (REAA)
Avental do Grau 14 – Perfeito e Sublime Maçom (REAA)

Perfeito e Sublime Maçom, também chamado de Grande Eleito da Abóbada Sagrada, corresponde ao iniciado que, no Rito Escocês, atinge o grau catorze. Este titulo é dado àquele que galgou todos os degraus das Lojas de Perfeição, tendo cumprido o curriculum previsto para esta etapa. O titulo não significa, entretanto, que a escalada terminou. O que se supera é apenas a primeira etapa de uma longa jornada. As virtudes consagradas no grau são a autodisciplina, a constância, a solidariedade, a fraternidade e a discrição, que deve acompanhar os maçons conhecedores do sagrado mistério que representa a pronúncia do Verdadeiro Nome de Deus. Esta é, pelo menos, a mensagem passada pela lenda do grau.

Em termos iniciáticos, o Perfeito e Sublime Maçom é aquele que procura a Palavra Perdida da lenda de Enoque. A lenda do grau diz que esre título foi criado por Salomão justamente para premiar os Mestres que encontraram a Palavra Sagrada oculta por Enoque. Após a construção e a consagração do templo, a maioria dos mestres que foi elevada ao grau de Cavaleiro do Arco Real voltou para as suas terras. A Maçonaria disseminou-se por toda parte e perdeu qualidade, sendo os seus segredos compartilhados por muitos iniciados sem mérito. Várias disputas e cisões acabaram por desvirtuar a Ordem, de um modo geral. Somente os eleitos que prometeram e cumpriram o juramento do grau perseveraram na prática da verdadeira Arte Real e as transmitiram a uns poucos.

Quando o Templo de Jerusalém foi tomado pelas tropas babilónicas, foram estes poucos eleitos que defenderam o Altar do Santo dos Santos, e por, fim quando toda resistência se tornou inútil, eles mesmos penetraram na Abóbada Sagrada e destruíram a pedra onde o Nome Inefável estava gravado. Em seguida, sepultaram os escombros num buraco de 27 pés de profundidade para que, numa futura restauração do templo, ou da Aliança, a posteridade pudesse recuperá-lo. Assim, o Nome Inefável nunca mais foi escrito nem pronunciado, mas apenas soletrado, letra por letra. E só os Perfeitos e Sublimes Maçons ficaram conhecendo essa pronúncia.

Esta alegoria reflecte claramente um retrato do momento em que o grau foi criado, ali pela metade do século XVIII. Nesta época, a Maçonaria enfrentava um processo de muitas cisões, oriundas de controvérsias e conflitos de ordem ritualística, doutrinária e mesmo políticas. Opunha-se à Maçonaria inglesa, anglicana e protestante, com a sua tentativa de unificação empreendida por Anderson e o seu grupo, a Maçonaria francesa e alemã, jacobita, stuartista e católica.

A primeira, dirigida para um objectivo moral e filosófico, fundamentado nos princípios do Iluminismo, e a segunda orientada mais por sentimentos políticos, temperados por um apelo emocional ao passado, representado pelo esoterismo rosa-cruciano e pela tradição da cavalaria templária. Foi a unificação dessas duas tendências que originou o Rito Escocês como hoje o conhecemos. Esta unificação, curiosamente, ocorreu somente na América do Norte, através do Conselho de Charleston em 1800.

Na lenda do grau, como se pode perceber, está implícita a preocupação, já evocada por Jâmblico em relação aos Mistérios Egípcios, de que a Maçonaria não é uma prática que deva ser popularizada. É de se recordar que aquele filósofo deplorava a tradução para o grego daqueles Mistérios, entendendo ser a língua dos helenos imprópria para transmitir segredos de ordem iniciática, pois que a popularização de tais ensinamentos acabaria por abastardá-los. Esta também era a razão pela qual os alquimistas evitavam transmitir, de forma clara, o magistério da sua arte, que se tornou a ciência hermética por natureza. Aí está também, como vimos, a razão do silêncio exigido por todos aqueles que se iniciam em sociedades desse tipo. A Palavra Perdida é tomada aqui como segredo que deve ser guardado a sete chaves e somente transmitido aos iniciados que realmente tenham mostrado mérito para conhecê-la.

Os trabalhos do 14º grau realizam-se sob a abóbada secreta, que simbolicamente, se localiza num ponto qualquer do infinito. A idade do Perfeito e Sublime Maçom é o nove, quadrado de três, que é o numero perfeito. Os seus instrumentos de trabalho são o esquadro e o compasso, com os quais trabalha o pensamento e a inteligência. O inicio do trabalho é o meio dia em ponto, hora em que o sol está no seu zénite. Os trabalhos são abertos pelos Números Misteriosos, cuja soma total é 21. A abertura é feita pela leitura dos versículos 18 a 23 do capitulo 33 de Êxodo, onde Deus diz o seu nome a Moisés, mas não lhe mostra a sua face.

São executados três sinais, que só podem ser divulgados em Loja. São os sinais do Juramento, do Fogo e de Admiração, cada um representando um simbolismo ligado à aparição de Deus para Moisés no Monte Sinai e no pacto feito com ele e com o povo de Israel.

Na elevação ao grau 14 recordam-se todas as virtudes adquiridas nos graus precedentes. É uma espécie de rememoração da escalada da perfeição. Uma faca e um machado são colocados no centro do Templo, para que seja executado o sacrifício simbólico das paixões do iniciando. O grau evoca também a sua libertação pessoal, através do simbolismo do êxodo do povo israelita do Egipto. Pressupõe-se que neste grau, após o iniciado ter adquirido o conhecimento da Palavra Sagrada, estará ele em condições de perseguir a verdadeira sabedoria, que é o significado e a forma correcta de pronunciar esse Nome.

Um dos mais misteriosos mandamentos do Decálogo é justamente a proibição de pronunciar Nome de Deus em vão. Diz o Senhor que “não tomaria por inocente” aquele que o fizesse. Portanto, no tempo de Moisés já se cultivava a tradição de associar poder e sabedoria àquele que conhecesse esse Santo Nome, pois tal pessoa não era inocente.

Desta forma, o possuidor deste conhecimento não podia utilizá-lo irresponsavelmente. Para que o próprio Deus tivesse tal preocupação, é por que esta Palavra Sagrada, este Nome Inefável continha realmente, um poder inexprimível que somente pessoas iniciadas e com muita intimidade com Ele podiam fazer uso.

Para os cabalistas, este nome grafava-se Shemhamphorach, que quer dizer o principio. Diziam que este Nome era a base do Tetragrammaton, o número que equivalia ao significado do Nome Inefável, ou seja as iniciais do nome de Deus IHVH, que em português é Jeová. Todos os demais nomes de Deus eram produtos das suas manifestações, mas o Shemhamphorach era derivado da sua própria substância, por isso podia ser considerado o primeiro.

Uma vez mais é evocado o antigo ensinamento, magistralmente expresso na frase de Jesus, segundo a qual quem conhece a verdade é realmente livre. Assim, a evocação ao Nome Inefável de Deus, como supremo conhecimento, é a verdade que liberta. Moisés somente adquiriu o poder para libertar o povo hebreu do Egipto após adquirir este conhecimento.

Rizzardo da Camino lembra bem que hoje a face política da escravidão já não causa tanto horror e constrangimento. O que hoje mais se propugna é pela libertação moral do ser humano, libertação essa que se consubstancia na vitória do individuo sobre si mesmo, libertando-se dos vícios e das paixões que o escravizam.

Os actos cerimoniais que se fazem por ocasião da elevação do iniciando ao 14º grau são conotativos desse ideal. O candidato “imola” as suas paixões no altar dos sacrifícios; no Mar de Bronze mergulha as suas mãos como símbolo da materialidade que ali se dissipa, como ocorrido na Lenda de Hiram ; depois, com o óleo sagrado “ que desce pela barba de Arão até a orla dos seus vestidos”, misturado ao vinho e à farinha de trigo, simbolizando os materiais da ceia mística, o iniciando é consagrado pelo Presidente da Loja. O discurso do Presidente evoca a ideia da Fraternidade existente entre os homens que comungam de um mesmo ideal e de uma mesma fé. Tendo ele encontrado a Palavra Perdida, fez-se merecedor da fita do Mestre Secreto com o Nome Inefável nele inscrito, grafada pelo nome Jeová (Iavhé).

Ele agora sabe quem é o seu Deus, e está livre dos vícios de carácter que o impediam de seguir adiante, superando os limites da matéria e ingressando nos domínios do espírito. Por isso é que a liturgia do grau sempre evoca, em primeiro lugar, a admiração pela mágica do nome revelado, e a infinitude que se revela aos seus olhos. O conteúdo metafísico do grau é exprimido por um diálogo entre o Presidente, o 1º Vigilante e o Orador, no qual estes discorrem sobre o conceito de infinito e as suas relações com o divino, o profano e a doutrina maçónica, proclamando ainda, como verdadeiro auto de fé, a livre convicção religiosa, que se exprime na crença da existência de Deus, única e simplesmente, sem qualquer necessidade de prova material ou filosófica dessa existência.

Este diálogo exprime as ideias antigas e modernas sobre o conceito de Deus e as suas manifestações, que é o universo visível e invisível. Tanto poderia ser encontrado nos versos da Baghavad Guita quanto num estudo dos modernos cientistas do átomo, da astronomia ou da biologia molecular. A noção do infinito e a sua correlação com o ínfimo incomensurável é uma intuição que pode ser encontrada, tanto na obra dos cientistas do átomo como na dos modernos teólogos, como Teilhard de Chardin, por exemplo, que extrapolam o conceito dos limites de tempo e espaço materiais, para situarem a origem de toda realidade num ponto qualquer algures, que não pode ser alcançado pela razão, mas pode ser “sentido” pela inteligência da emoção. É a volta da questão metafísica que sempre preocupou o homem desde que ele se mirou no infinito e sentiu a sua própria pequenez em confronto com a imensidade do universo.

Mas ele agora sabe que esta inquietude, esta sensação de esmagamento cósmico, é produto do movimento de uma alma à procura deste centro energético único, de onde um dia ela saiu como manifestação do pensamento divino e para onde um dia voltará como energia centrada no mais alto grau de potenciação.

A jornada do espírito humano é uma viagem à procura da Palavra Perdida, o Verbo Fundamental, a partir do qual tudo, inclusive ele mesmo, foi criado. E quando ele chega a esse conhecimento, quando aprende, enfim , essa Palavra, ele está livre da ignorância que o mantém escravo de uma vida chumbada a desejos sempre insatisfeitos, a angústias que jamais se curam, a propósitos que nunca se cumprem, a problemas que jamais se resolvem.

Nesse momento ele demole os seus antigos ídolos, queima os seus totens de decadência e passa a adorar o Único e Verdadeiro Deus, que é a Verdade. Conhecendo a Verdade o homem será, finalmente livre. Agora o Mestre Perfeito sabe o que significa essas proféticas palavras. Ele sabe que Deus existe e tem um Nome, um Nome que outorga o poder que vem do verdadeiro conhecimento, a felicidade que vem da prática da verdadeira virtude, o progresso que vem do trabalho, a confiança que vem da certeza de que Deus é Um, a Natureza é Uma, o Criador é Uno, e tudo faz parte de um grande organismo onde nada é descartado, mas tudo tem um sentido, uma importância e uma finalidade.

E com esta certeza o iniciado retorna à sua insignificância de micróbio perdido nas solitudes cósmicas, sabendo agora, entretanto, que o cosmo, sem ele, não existiria. A investidura neste grau, como pode se perceber, representa uma espécie de encerramento de uma etapa de iniciação, em que o neófito adquire a percepção necessária para passar para a etapa adiante, que são as Lojas Capitulares.


Do livro “Conhecendo a Arte Real”, Publicado pela Ed. Madras, São Paulo, 2007.

Um comentário em “Grau 14 – Perfeito e Sublime Maçom (REAA)

  1. Ensinamentos de grande percepção para os perfeitos iniciados, conhecimentos implícitos na Palavra Perdida, que teremos um desafio de achá-las todos os dias em nossas ações e sabedoria para usarmos como Perfeitos Maçons, tão difícil de atualmente ser encontrados.

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