Bibliot3ca FERNANDO PESSOA

E-Mail: revista.bibliot3ca@gmail.com – Bibliotecário- J. Filardo

O Mito de Christian Rosenkreutz: uma visão a partir de Mircea Eliade

Por Marcel Henrique Rodrigues[2]

Este artigo visa apresentar uma das figuras místicas mais populares entre os meios esotéricos, Christian Rosenkreutz, ou simplesmente C.R. Embora seja conhecido nos círculos esotéricos, esse mítico personagem passa despercebido entre os historiadores e cientistas da religião. Por essa falta de material ou pelo pouco interesse por essa figura, foi que surgiu o elemento propulsor para a efetivação desta pesquisa. Mesmo se tratando de uma pesquisa bastante modesta, ela tem a intenção provocativa para que outros estudiosos se interessem e realizem sérios estudos no âmbito do esoterismo ocidental.

Por se tratar de um personagem mítico, o presente trabalho não se deterá na comprovação de sua real existência, mas se preocupará em analisar a experiência religiosa de Christian baseando-se nas pesquisas já realizadas sobre experiência religiosa, discutidas por principalmente por Mircea Eliade e, secundariamente, por Rodolf Otto em suas respectivas obras: O Sagrado e o Profano (2011) e O Sagrado (2014).

Como se constatará, Rosenkreutz como mito fundador da fraternidade Rosa-Cruz, vai além de um simples mito, ele passa a nortear características arquetípicas e simbólicas que cada adepto, das chamadas “ordens herméticas” deve projetar, contemplar, imitar e seguir.

CONTEXTO HISTÓRICO

A história de Christian, como contextualiza Churton (2009), ocorre na Alemanha entre os séculos XIV e XV, período este marcado pela instabilidade religiosa (Exílio de Avinhão, por exemplo). Além das Guerras camponesas,  do forte domínio dogmático da Igreja Católica e do triste período da Peste Negra que dizimou milhares de vidas.

Deve-se dar uma atenção para a questão do saber. O conhecimento religioso e acadêmico se encontrava em poder da Igreja dominante, os livros e as grandes bibliotecas estavam confinados nos mosteiros, sendo que havia pouco acesso ao conhecimento.

Já no século XV, um grande entusiasmo pela Alquimia, Gnose, Cabala e pelo ocultismo de modo geral toma conta da mentalidade do período. É nesse contexto que surge a lendária figura de Christian, embora sua possível existência só viesse à tona no início do século XVII. No entanto, este trabalho tomará como base o período histórico em que, supostamente, viveu Christian entre os séculos XIV e XV.

Uma ressalva muito importante a ser considerada no contexto histórico destes três séculos, consiste em apontar que embora a Igreja detivesse para si o “monopólio” sobre o conhecimento científico e religioso, sobretudo na Idade Média, ocorria que muitas pessoas não se limitavam aos ensinamentos e as práticas permitidas pela Igreja. Sendo assim, recorriam às práticas ditas ocultistas e esotéricas na busca pelo melhor conhecimento do mundo e da natureza. Esse é o pano de fundo em que surge o nosso estudado personagem.

A EXPERIÊNCIA RELIGIOSA DE CHRISTIAN ROSENKREUTZ

É no início do século XVII que surgem os manifestos Rosa-Cruzes, atribuídos a Johannes Valentinus Andreae (1586-1654), um teólogo alemão que, possivelmente, recebeu ajuda de outras importantes figuras, como de Tobias Hess (1558-1614). Os manifestos são uma mescla de misticismo gnóstico com referências à Alquimia, que incitavam o Ocidente para uma nova revolução espiritual.

McIntosh (2001) declara que com a publicação dos manifestos a Ordem Rosa-Cruz é finalmente “inaugurada”. São nesses manifestos que encontramos a mítica figura do fundador da Ordem, Christian Rosenkreutz.

Segundo o mito, Rosenkreutz teria sido um monge alemão que desde muito jovem empreendeu uma viagem pelo mundo em busca de sabedoria e conhecimento. Segundo os manifestos, o mítico Christian teria viajado por grande parte do Oriente, estabelecendo contato e adquirindo conhecimento místico das mais diversas filosofias orientais. Conta-se que o monge teria descoberto e aprendido muito sobre ocultismo, ao passo que conseguiu prolongar sua vida até os 106 anos de idade. Quando faleceu, seu corpo fora selado em uma tumba, que permaneceu escondida por 120 anos. Como menciona McIntosh (2001), após a descoberta de seu corpo, a existência da Ordem rosacruciana finalmente pôde ganhar publicidade.

Há poucos registros dessa mítica jornada, mas segundo o Manifesto Rosa-Cruz (s/d), C.R., abreviação para Christian Rosenkreutz, teria nascido em 1378 na região do Reno, na Alemanha. Logo cedo, ficou órfão e foi entregue para ser criado e educado em um mosteiro Albigense, onde aprendeu muitas coisas, entre elas o grego, o latim e o hebraico. Ao completar 15 anos C.R. sentiu-se impulsionado a realizar uma longa viagem rumo à Terra Santa.

Sua primeira parada foi em Damasco (Damcar). Nessa cidade C.R. adoeceu e teve que passar mais tempo no país. Foi aqui que, segundo o mito, ele teria entrado em contato com um grupo de sábios e foi iniciado nos mistérios e nos ensinamentos árabes, permanecendo nesse centro por três anos. Ao atingir os conhecimentos arcanos necessários, C.R. decide continuar sua viagem pelos países árabes com o intuito de se apoderar de mais conhecimentos. É neste período, entre vários países islâmicos, que estabeleceu contato com os “Sábios do Leste”, que lhe revelaram a ciência harmônica universal derivada do “Livro M”, que Rosenkreutz traduziu.

Abatido e doente, devido ao esgotamento das viagens, C.R. foi curado por esses “sábios”, que também lhe transmitiram ensinamentos sobre um conhecimento ancestral, sendo iniciado em práticas científicas secretas. A essa altura, com tanto conhecimento adquirido, C.R. recebe a missão de propagar esses conhecimentos pelo mundo cristão da Europa Ocidental, sendo que para isso deveria criar uma irmandade secreta.

C.R. viaja para o Egito e Marrocos antes de voltar à Europa. De posse de tantos conhecimentos, nosso personagem volta para a Alemanha e lá forma um pequeno grupo de discípulos, que são iniciados nesses conhecimentos trazidos C.R. É nesse período que o “livro M” é traduzido e Christian estabelece uma pequena fraternidade que só se tornaria “pública” quando a humanidade estivesse pronta para conhecer tais segredos.

Segundo o relato, contido no Fama Fraternitatis (S/D), afirma-se que nosso personagem teria morrido em 1484, com 106 anos de idade, longevo, por causa do elixir da longa vida que descobrira. Seu túmulo com seu corpo incorrupto, só teria sido descoberto em 1604, quando a fraternidade Rosa-Cruz começou a vir à luz.

QUESTÕES RELATIVAS À EXPERIÊNCIA RELIGIOSA

Podemos analisar que todo o percurso de C.R. fora marcado por diversas experiências religiosas. Sua necessidade de sair do mosteiro e empreender uma viagem pelo mundo em busca de maiores conhecimentos nos mostra sua inquietude, sua vocação e abertura para uma nova experiência religiosa, diferente daquela que, até então, ele estava inserido.

Berkenbrock (2015), que dissertou sabiamente sobre a questão da experiência religiosa, faz uma diferenciação entre experiência religiosa e experiência científica. A primeira é diferente da segunda, pois envolve o caráter subjetivo do eu, uma vez que aquele que passa pela experiência é submetido às questões transcendentais que somente a ele são reveladas. A experiência religiosa é de caráter subjetivo e, muitas vezes, único. Somente a pessoa que experimentou pode revelar o que sentiu e como experimentou. Assim, não são raras às vezes em que o sujeito que passa pela experiência religiosa funda uma nova religião, com a finalidade de “partilhar” sua experiência para com os outros, embora a questão experiencial seja única. Já a segunda menção de experiência, a científica, quer significar uma experiência empírica, geralmente feita em laboratórios, sendo possível sua replicação quantas vezes forem necessárias. É nítido que em uma experiência religiosa nada tem de científico, assim ela fica isenta de qualquer especulação de cunho cientificista, que possa tentar provar ou não uma experiência de cunho religioso e tão subjetivo. 

Em Christian Rosenkreutz, observamos que a experiência religiosa se apresenta muito cedo em sua vida e não podemos apontar apenas uma experiência religiosa, mas várias. São várias, pois em cada país, cada povo que visitava, C.R. entrava em contato com o sagrado em forma de uma experiência religiosa. É nesse momento que podemos destacar a experiência religiosa, como hierofania, na linguagem de Eliade (2011, p. 17):

O homem toma conhecimento do sagrado porque se manifesta, se mostra como algo absolutamente diferente do profano. A fim de indicarmos o ato da manifestação do sagrado, propusemos o termo hierofania. Este termo é cômodo, pois não implica nenhuma precisão suplementar: exprime apenas o que está implicado no seu conteúdo etimológico, a saber, que algo de sagrado se nos revela. Poder-se-ia dizer que a história das religiões- desde as mais primitivas às mais elaboradas- é constituída por um número considerável de hierofanias, pelas manifestações das realidades sagradas. A partir da mais elementar hierofania- por exemplo, a manifestação do sagrado num objeto qualquer, uma pedra ou uma árvore- e até a hierofania suprema, que é, para um cristão, a encarnação de Deus em Jesus Cristo, não existe solução de continuidade. Encontramo-nos diante do mesmo ato misterioso: a manifestação de algo “de ordem diferente”- de uma realidade que não pertence ao nosso mundo- em objetos que fazem parte integrante do nosso mundo “natural”, “profano”.

As experiências religiosas de C.R. ocorrem em todo o percurso de sua jornada quando, em diversos países, é iniciado recebendo conhecimentos herméticos, baseados na Alquimia, no Sufismo, na Cabala, dentre outros.

Partindo da pressuposição de hierofania de Eliade (2011), entendida como ato de se tornar/transformar em sagrado, podemos supor, nessa mesma linha, uma morfologia da experiência religiosa, dividida em três dimensões, a saber: a experiência objetiva, a experiência intersubjetiva e experiência subjetiva.

A experiência objetiva de C.R. encontra-se em todo o seu itinerário de viagens e aprendizado pelos diversos países que passou. É nessa etapa que nosso personagem recebe conhecimentos herméticos ou arcanos, ou seja, conhecimentos “poderosos” que são mantidos em segredos e que somente os iniciados/preparados podem conhecê-los. É aqui, também, que Christian “toma conhecimento” da alteridade, ou seja, o numinoso se manifesta. Ressaltamos que este numinoso não se apresenta na figura de uma divindade, mas sim em conhecimentos milenares e arcanos.

A experiência intersubjetiva se refere à relação, contato ou interação do personagem com o objeto experimentado, ou seja, sua relação com o hierofântico/numinoso. Por isso, podemos apontar que a prática, principalmente a prática alquímica que, segundo o mito, proporcionou a C.R. o elixir da vida, é a sua experiência intersubjetiva. Esses conhecimentos sagrados/arcanos, coisas sentidas, não se limitaram somente a Christian, mas foram transmitidos para um grupo seleto de pessoas, formando uma sociedade secreta proporcionando uma nova mentalidade religiosa que então se formava.

A experiência subjetiva, por sua vez, consiste nos elementos esotéricos transmitidos para Christian. Esses conhecimentos criam uma nova maneira de se interpretar o mundo. O próprio personagem utiliza-se desses ensinamentos para obter a longevidade e é aqui que se apresenta o eu-experimentante, outra característica da experiência religiosa, a qual o experimentante, no caso Christian, participa da experiência quando consegue obter a longevidade.

Outro aspecto que podemos analisar e que já fora supracitado, consiste na categoria de “numinoso”, termo este muito estudado na obra “O Sagrado” de Rudolf Otto (2014). Ora, Eliade (2011, p. 15-6), que de certa forma comunga com o pensamento de Otto, expõe sua explicação para o termo:

Na obra Das Heilige, Rudolf Otto esforça-se por clarificar o caráter específico dessa experiência terrífica e irracional. Descobre o sentimento de pavor diante do sagrado, diante deste mysterium tremendum, dessa majestas que exala uma superioridade esmagadora de poder; encontra o temor religioso diante do mysterium fascinans, em que se expande a perfeita plenitude do ser. R. Otto designa todas essas experiências como numinosas (do latim numen, “deus”) porque elas são provocadas pela revelação de um aspecto do poder divino. O numinoso singulariza-se como qualquer coisa de ganz andere, radical e totalmente diferente: não se assemelha a nada de humano ou cósmico; em relação ao ganz andere, o homem tem o sentimento de sua profunda nulidade, o sentimento de “não ser mais do que uma criatura”, ou seja- segundo os termos de Abraão se dirigiu ao Senhor-, de não ser “senão cinza e pó” (Gênesis,18: 27).

No tocante ao “numinoso”, na experiência de Christian, observamos que o aspecto mais presente refere-se ao Mysterium Tremendum. Embora este seja a característica mais geral do aspecto do “numinoso”, é ele que mais se destaca na experiência de C.R. que, embora buscando conhecimentos secretos, é “acometido” pelo “poder” dos conhecimentos arcanos que lhe são transmitidos. Segredos tão poderosos, que Rosenkreutz jurou mantê-los em segredos e revelá-los somente quando oportuno e, mesmo assim, para um pequeno grupo de pessoas. Devido à sacralidade dos conhecimentos, notamos aqui mais um ponto característico do “numinoso”, que é o assombroso, majestoso e arrepiante. Além de todas essas características, esse numen também, de certa forma, seduz.

Por fim, um outro elemento participante da experiência religiosa, segundo Eliade (2011), corresponde ao que é entendido por Axis Mundi. Com efeito, na concepção eliadiana, o termo quer corresponder a um centro, um lugar, geográfico ou não em que a experiência religiosa demarca como sagrado, como o centro de sua religião. Encontramos esse termo, que significa “Eixo do Mundo” em quase todas as grandes religiões. Por exemplo, para o catolicismo, temos como Axis Mundi, a Basílica de São Pedro, em Roma, para os islâmicos a Caaba e para os judeus, a cidade de Jerusalém, sobretudo as ruinas do Templo.

O “Eixo do Mundo” é uma representação simbólica de que há uma “ligação” entre o transcendente e o terreno. Geralmente esses lugares são marcados por acontecimentos históricos das religiões, porém, cada religião não necessariamente tem apenas uma representação de Axis Mundi.

O Axis Mundi tenciona, de certa maneira, uma organização do espaço sagrado em oposição ao profano. É com esse Eixo que o sujeito religioso, muitas vezes, retira-se para meditação, contemplação e oração. Literalmente esse Eixo é um organizador no mundo religioso. Geograficamente, acena para os fiéis significativos lugares de encontro com o Sagrado.

Tomando mais esse conceito na experiência de Christian, analisamos que o Axis Mundi encontra-se, em primeiro momento, nos conhecimentos arcanos e esotéricos que condizem um aperfeiçoamento interior do homem. O “voltar-se para o eu interior”, com o intuito de autoaperfeiçoamento, sugere que o Eixo do Mundo, nesse caso, passa a ser o próprio homem que, por sua vez, partilha da essência da própria divindade e do próprio sagrado (panteísmo).

Para citar termos geográficos, as Lojas e Capítulos Rosa-Cruzes, que consistem em verdadeiras egrégoras, tornam-se para um rosacruciano o seu Axis Mundi.

COMPREENSÃO DE SAGRADO E DE SER HUMANO

O Sagrado, dentro da tradição Rosa-Cruz, em linhas gerais, revela-se como uma filosofia, para alguns uma religião, em que o homem é tido como o elemento essencial.

Como notamos nas experiências de Christian, há uma valorização do ser humano, enquanto potencial de desenvolvimento intelectual e espiritual. Sendo assim, o homem partilha a centelha da divindade, fornecendo para a fraternidade a noção de panteísmo.

McIntosh (2001) lembra que a compreensão de sagrado na citada fraternidade não está contida na noção de um Deus ou deuses, mas compreende toda a natureza, incluindo o ser humano como parte e reflexo de uma Ordem Superior. A valorização das ações humanas, o crescimento interior e o autoconhecimento elevam a importância do indivíduo.

O mesmo autor lembra que a filosofia Rosa-Cruz é em muitos pontos, antropocêntrica. Isso é notado, por exemplo, nas próprias experiências de C.R. que, após anos de peregrinação, se deparou com conhecimentos herméticos baseados na Alquimia e na Gnose, que colocam o homem como o protagonista do seu bem estar psíquico e espiritual graças ao seu autoconhecimento e equilíbrio entre o interior (do indivíduo) e exterior (natureza).

COMPREENSÃO COSMOLÓGICA

Como menciona Lurker (2003, p.159-160), as religiões e filosofias místicas não se estabelecem sem uma explicação para a ordem universal, denominada de cosmologia. Ela é uma noção de como o universo é ordenado e como ele surgiu, remetendo a uma cosmogonia.

O legado do mito de Christian Rosenkreutz está em ter sido o suposto fundador da Ordem Rosa-Cruz, no entanto, foi após o surgimento da fraternidade que noções relacionadas ao cosmos foram surgindo. É importante mencionar que essas noções não foram criadas pela Rosa-Cruz, pelo contrário, já eram existentes na dita filosofia hermética, desde tempos imemoriais. McIntosh faz uma síntese sobre essa antiga noção cosmogônica, que também é encontrada no universo rosacruciano.

Os seres humanos originaram-se de Deus, mas caíram num mundo de matéria criado pelo demiurgo, o qual é em si mesmo um rebento do intelecto divino. Depois da morte, todos aqueles que alcançaram a gnose elevam-se através das esferas para reunir-se com o Senhor  (McINTOSH, 2001, p. 42).

É interessante notar, nesse rápido apontamento de McIntosh (2001), que a cosmogonia, baseada na filosofia gnóstica, é um reflexo do mito de Christian Rosenkreutz, analisado neste trabalho. Se a compreensão gnóstica da cosmogonia e cosmologia do universo é, grosso modo, uma mescla de dualismo entre a materialidade e o conhecimento (Gnose), encontramos em C.R. um arquétipo dessa compreensão.

Essa afirmação fica clara ao correlacionar o mito sobre Christian e a noção cosmogônica apresentada por McIntosh (2001). No mito, notamos que Rosenkreutz parte em busca desse conhecimento sublime e dessa Gnose, que, de certa forma, ele “encontra” em diversos países em que visita. O conhecimento torna-se libertador, essa é a chave da Gnose, que resplandece no mito de C.R. .Nosso personagem encontra a libertação, transmite estes conhecimentos (gnósticos) para alguns iniciados e é contemplado por uma vida que perpassa os 100 anos.

O mito de C.R. além de ser uma referência indireta às concepções cosmológicas e cosmogônicas da Gnose, também pode ser encarado como um mito arquetípico, segundo Jung (2008), ou seja, cada membro da Rosa-Cruz é convidado a experimentar a jornada percorrida por C.R. Tal jornada é simbólica, não consistindo em viagens exteriores, mas sim, segundo os preceitos da Gnose, uma viagem interior em busca do autoconhecimento e autodesenvolvimento para que o sujeito tenha cada vez mais domínio de si. Na linguagem de Campbell (2007), Christian é o herói que, assim como em outros mitos arquetípicos, perpassa toda uma jornada, desde suas iniciações até sua “apoteótica” morte, completando o que Campbell (2007) chama de “jornada do herói”.

A título de finalização deste tópico, ainda no tocante à cosmologia, Leuenberger (2009), informa que o hermetismo ocidental segue a premissa de Hermes Trimegistos, que diz: “O que está embaixo é como o que está em cima e o que está em cima é como o que está embaixo”, ou seja, de certo modo o imanente se encontra com o transcendente (panteísmo), toda a parte material, terrestre é espelho de uma realidade maior, divina que está em cima, mostrando a ordem (cosmologia) do universo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este artigo teve como meta analisar o mítico e possível fundador da Rosa-Cruz, Christian Rosenkreutz. Nossa atenção esteve voltada para explanação de sua experiência religiosa que, como analisada, não foi apenas uma experiência, mas várias. Esta análise ocorreu sob o prisma dos estudos científicos realizados por Eliade.

A título de conclusão, é importante que salientemos o legado deixado pelo nosso “herói” (termo retirado dos escritos de Joseph Campbell) em sua mítica jornada arquetípica. Com efeito, a narrativa sobre C.R. está longe de ser comprovada como realidade histórica, pelo contrário, muitas fontes preferem atestar de que não se passa invenção mística. Entretanto, sendo realidade histórica ou não, como estudiosos da religião, devemos notar o enfoque mítico-arquetípico que a narrativa abarca.

Constatando que o mito de C.R. é arquetípico, assim ficamos, de certa forma, isentos de qualquer necessidade de comprovação histórica de sua figura. De fato, o conto sobre C.R. é um convite para que os iniciados na Ordem Rosa-Cruz e de outras ordens herméticas façam essa mítica viagem, uma viagem simbólica na sua própria interioridade para que possam conhecerem-se a si mesmos.

Esse é seu maior legado, de ser um mito fundador de uma realidade filosófica, expressado nas doutrinas rosa-cruzes e de ser uma realidade em que cada sujeito pode inspirar-se nesse mito na sua própria jornada de autoconhecimento.

Em termos históricos, Rosenkreutz nos forneceu, através de sua mítica jornada, a redescoberta do esoterismo ocidental. Redescoberta esta que permeia a História do Ocidente por vários séculos e que fora incansavelmente a inspiração para a criação de outras sociedades filosóficas como, por exemplo, além da própria Rosa-Cruz, a Maçonaria e a Teosofia.

Referências

BERKENBROCK, Volney. A Morfologia da Experiência Religiosa. Juiz de Fora, Manuscrito, acesso restrito, 2015.

CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. São Paulo: Pensamento, 2007. CHURTON, Tobias. A História da Rosa-Cruz. São Paulo: Madras, 2009.

ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

FAMA Fraternitatis. Rio de Janeiro: Fraternidade Rosa-Cruz Max Heindel, S/D.

JUNG, Carl. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Petrópolis: Vozes, 2008.

LEUENBERGER, Hans. História do Esoterismo Mundial. São Paulo: Pensamento, 2009.

LURKER, M. Dicionário de Simbologia. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

McINTOSH, Chistopher. A Rosa e a Cruz. Rio de Janeiro: Nova Era, 2001.

OTTO, Rudolf. O Sagrado. Petrópolis: Vozes, 2014.


Notas

[1] Recebido em: 14.02.2016.  Aprovado em: 27.03.2016

[2] Mestrando em Ciência da Religião na Universidade Federal de Juiz de Fora. Bolsista da Capes.


Obras maçônicas à venda.
Clique aqui


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: