REVISTA BIBLIOT3CA

Leituras Selecionadas do Editor-Chefe J.Filardo

Maçonaria e Jung

 

Tradução Idalina Lopes

Por Bruno Etienne[1]

A menina que brinca de amarelinha no pátio da escola pública não sabe que desenha uma mandala com seu corpo.

O maçom que abre o Painel da Loja antes da abertura dos trabalhos ao Meio-Dia deveria saber que desenha uma mandala, pois o rito declara que ordo ab chaos – a ordem vem do caos. Mas existem, infelizmente, várias Oficinas que não utilizam mais nem o Painel da Loja nem os três candelabros (que remetem à sabedoria, à força, à beleza, isto é, à ética e à estética), que não me parece absolutamente audacioso imaginar quantos de nossos Irmãos estão afastados da Maçonaria. Então é preciso sê-lo (audacioso) para escrever que “C. G. Jung é a aurora da Maçonaria”, mas a sorte favorece os audaciosos!

Não tenho certeza da pertinência do propósito nesse sentido. Por outro lado, dele estou persuadido ao invertê-lo: a Maçonaria torna-se muito certamente inteligível aos seus adeptos por meio de uma leitura atenta de Jung. É essa aposta que Jean-Luc Maxence venceu.

Tanto no que me diz respeito quanto para o meu ensino de Antropologia e para os meus trabalhos sobre iniciação, Maçonaria, confrarias ou mesmo seitas, meu sistema referencial é idêntico àquele que o autor propõe (de Gilbert Durand e Henry Corbin a C. G. Jung, passando por Mircea Eliade e outros); para mim, era evidente seguir com muita atenção sua tese.

Não há melhor companhia, em nosso nomadismo, do que a Maçonaria como via ocidental de realização de si mesmo pelo domínio do ego quando se talha a pedra bruta e se visita o interior das entranhas da terra, de nosso khalwa, como dizem os árabes, para o equivalente da Câmara de Reflexão. Jean-Luc Maxence evoca aquele sonho de descida aos arcanos de sua casa que Jung contou várias vezes. Essa psicologia das profundezas é o caminho da individuação sobre o qual Jung oferece – graças a Deus – uma definição mais sutil e fecunda do que a prática do individualismo atual cuja devastadora forma é o que está mais em voga, isto é: “É minha escolha”, ou seja, “Eu não estou nem aí!”… com o Outro? A Maçonaria tem realmente muito trabalho pela frente a traçar…

  1. G. Jung escruta os símbolos, essas representações coletivas que emanam da imaginação criativa dos primitivos… Claro, hoje, graças a Lévi Strauss, não dizemos mais “primitivo” no sentido de “arcaico”, mas podemos tomá-lo aqui no sentido de “primeiro”.

E aí está a grande lição que podemos tirar de Jung: em que a Maçonaria é universal, isto é, vincula-se à humanidade inteira de que falava Montaigne? Não por suas tomadas de posições sociais, políticas e contingentes, como Jung nos permite compreendê-lo, mas porque é uma sociedade tradicional iniciática que utiliza símbolos, que pratica ritos ou rituais e que é fundada em mitos ou narrativas fundadoras. Mito, rito e símbolo remetem, assim, ao arquétipo no sentido dado por Jung.

Toda a obra de Jean-Luc Maxence é uma ilustração da possibilidade desse sentido. É difícil extrair exemplos exemplares, uma vez que o processo de desenvolvimento é implacável em uma lógica que evoca a hermenêutica do sentido proposta por Paul Ricoeur. Por essa razão, tomarei apenas o caso mais controverso a partir dos falsos debates sobre a iniciação feminina. Jean-Luc Maxence expôs de maneira límpida toda a articulação junguiana sobre anima/animus, e aqueles que são partidários (a favor ou contra!) fariam bem em ler com atenção essas páginas luminosas. Como tornar consciente o inconsciente pessoal sem “animosidade”? Eis um bom programa de reflexão “maçônica” que me parece mais eficaz do que discutir sobre as cotas… de mulheres ou de minorias originárias da imigração! Aliás, podem ser lidos com proveito, sobre a noção animus/anima, tanto os escritos da aluna preferida de Jung, Marie-Louise von Franz, como também, sobre a noção de feminino/masculino, os trabalhos de minha colega Françoise Héritier.

Como estou profissionalmente vinculado ao Comparatismo, sou fascinado pelas passagens sobre a Sombra, a Alquimia e o Hermetismo, mas também sobre o Tao ou o I Ching e tantas outras comparações culturais, em referência a Charles Kerényi, evidentemente, para compreender o pensamento mitológico como modo de expressão comum a toda a humanidade…

Trilha realmente muito útil nestes tempos conturbados em que os franceses acreditam ser os mestres de valores universais inabaláveis em sua atemporalidade e em que uma revista “maçônica” propõe textos intitulados “Para acabar com os símbolos”! Somente o raciocínio pela analogia nos abre ao Outro com quem temos em comum, para além da diferença cultural, esse desejo profundo de busca do sagrado. A secularização de nosso país conduziu muitos de nossos compatriotas a esse impasse que Jung denomina “uma humanidade espiritualmente subalimentada”.

Com efeito, Jean-Luc Maxence coloca o dedo sobre um último problema levantado por Jung – e que me valeu muitos sarcasmos quando sustentava (e continuo sustentando!) que a Maçonaria se encontrava pelo menos no campo religioso e que talvez ela fosse até mesmo a religião “abraâmica” por definição!: “Sim, cada um sofre, ao final das contas, por ter perdido o que as religiões vivas deram, continuadamente, aos seus crentes, e ninguém está verdadeiramente curado enquanto não tiver encontrado uma atitude religiosa, o que evidentemente não tem nada a ver com uma confissão ou pertencimento a uma Igreja”.

A iniciação maçônica não poderia ser separada do longo trabalho que conduz à salvação pessoal pela procura ininterrupta do sentido e da busca da verdade… Esse caminho é perigoso, e às vezes é necessário para o peregrino encontrar – na falta de um mestre em sua Loja – um sólido bastão para continuar sua estrada. C. G. Jung é também isso, e Jean-Luc Maxence deve estar agradecido por tê-lo compreendido e por explicá-lo a nós.

Bruno Etienne

 

Maxence, Jean-luc, in JUNG é a Aurora da Maçonaria: O Pensamento Junguiano na Ordem Maçônica, Madras 2004.

 

NOTAS

[1] Membro do Institut Universitaire de France, Diretor do Observatoire du Religieux, IEP, Université de Aix-Marseille III e do DESS “Management Interculturel et Médiation Réligieuse”.

 

 

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