REVISTA BIBLIOT3CA

Leituras Selecionadas do Editor-Chefe J.Filardo

O ABC da Falsa Empatia

Tradução J. Filardo

Charles Chu
Repensando o óbvio.

Empatia: o que é, o que não é, e como cultivá-la.

A empatia nunca me veio naturalmente.

Quando adolescente, sentia como se houvesse uma barreira psíquica, uma parede invisível de vidro emocional, que me impedia de cultivar amizades, de sentir como se eu pertencesse a alguma coisa. Durante muito tempo, culpei os outros por isso. Mais tarde, me dei conta da verdade - eu mesmo havia construído a parede; a solidão, era minha própria recompensa.

Para mim, a empatia sempre foi uma habilidade e não um talento. O que aprendi, aprendi com a prática - e parte dessa prática sempre envolveu livros.

Uma leitura interessante que explora a empatia é a coleção de ensaios de Leslie Jamison, Os Exames de Empatia: Ensaios, que estreou em 11º lugar na lista de best-sellers do New York Times.

Para entender o que é empatia e como cultivá-la, ajuda entender primeiro o que ela não é.

O que não é empatia

Em um ensaio, Jamison escreve sobre seu tempo como atriz médica, onde fingia ser o paciente doente diante de estudantes de medicina. Durante 15 minutos, os alunos conversavam com Jamison e tentavam extrair informações médicas dela. Depois, ela classificava o desempenho de cada um.

A primeira parte de sua avaliação atribuia nota à quantidade de informações que os alunos obtinham dela. A segunda parte classificava o quão bem eles fizeram isso:

 

“A segunda parte das capas de avaliação cobre o afeto. O item 31 da lista de verificação geralmente é reconhecido como a categoria mais importante: “Expressava verbalmente empatia pela minha situação / problema”. Somos instruídos sobre a importância desta primeira palavra, expressava verbalmente. Não é suficiente alguém ter uma maneira simpática ou usar um tom atencioso. Os alunos precisavam dizer as palavras certas para obter créditos por compaixão “.

 

Por que é tão importante expressar verbalmente a empatia? Por que não basta simplesmente ficar por perto, acreditando fortemente que você se importa?

 

Com a experiência, acho que entendo um pouco por quê.

Três meses depois do meu primeiro relacionamento sério, minha namorada na época disse: “Eu te amo”. Eu não consegui dizer isso de volta a ela. Eu simplesmente não conseguia. Então minimizei o caso com uma piada. Ela ficou brava.

Semanas depois, ela perguntou-me por que eu não dizia as palavras a ela. “É cedo demais”, eu disse. “Nós nem estamos juntos um ano”. Ela ficou ainda mais irritada.

Mesmo depois, ela perguntou novamente. “Por que você simplesmente não diz que me ama?” ela disse. “Eu não deveria precisar dizer isso”, respondi, irritado. “Você não consegue ver como eu sinto por minhas ações? Isso não é suficiente? ”
Olhando para trás, aquela foi uma má ideia.

Nós somos todos inseguros sobre alguma coisa. Cacete, eu sou inseguro sobre muitas coisas. Ter alguém que expressa verbalmente que ele ou ela se importa, é completamente diferente de ter que, por fé, acreditar que eles realmente se importam.

O ABC da Falsa Empatia

Mas simplesmente expressar verbalmente, diz Jamison, nem sempre é suficiente. Afinal, todos dizemos coisas que não queremos dizer.

No Japão, a arte da empatia falsa foi polida e embalada em um acrônimo fácil de lembrar, traduzido como o “sa-shi-su-se-so da lisonja”. As mulheres são ensinadas a usar certas frases para agradar os homens e potencialmente conquistar um futuro marido:

  • Sa: Sasuga! - Como se esperava!
  • Shi: Shiranakata! - Eu não sabia isso!
  • Su: Sugoi! -  Fantástico! Impressionante! Puxa vida!
  • Se: Sensu ii dessu ne! - Você tem bom gosto!
  • So: Sou nan da! - É mesmo? Entendo! É assim mesmo?

Embora eu aposte que alguns gostam disso, está claro para mim que tais frases são conversa vazia cheia de papo furado. É preciso mais do que respostas prefabricadas para entender, simpatizar e (espero) ganhar um homem.

Mas muitos estudantes de medicina não se saem muito melhor, diz Jamison:

“[Alguns] estudantes são diretos. … Esses estudantes irritados tomam meu olhar desviado como um desafio. Eles nunca param de procurar o meu olhar. Lutar comigo para ter contato visual é a maneira como eles mantêm o poderobrigando-me a reconhecer a necessária exibição de preocupacão. Eu me acostumei a comentários que se parecem agressivos em sua insistência formal: isso deve realmente ser difícil [ter um bebê moribundo], isso deve realmente ser difícil [ter medo de ter outro ataque no meio da mercearia], isso deve realmente ser difícil [carregar em seu útero a evidência bacteriana de traição de seu marido]. Por que não dizer, eu nem podia imaginar? “

Do Abstrato ao Provincial

Empatia não é apenas preocupação verbal. Frases prefabricadas não são suficientes. Empatia também é expressar preocupação com um certo grau de delicadeza:

“…empatia não é apenas medida pelo item 31 da lista de verificaçãoempatia verbalmente expressa por minha situação / problemamas por todos os itens que medem quão minuciosamente minha experiência foi imaginada. A empatia não é apenas lembrar de dizer que deve ser realmente difícilé descobrir como trazer dificuldade à luz para que ela possa ser realmente vista. Empatia não é apenas ouvir, é fazer as perguntas cujas respostas precisam ser ouvidas. Empatia existe curiosidade tanto quanto imaginação “.

As duas palavras-chave aqui, penso eu, são “curiosidade” e “imaginação”.

Empatia exige que entendamos como as pessoas se sentem em particular, não abstratamente. Para fazer isso, precisamos imaginar e, para imaginar, precisamos fazer perguntas.

Talvez possamos comparar a empatia a uma escavação arqueológica. Para extrair fósseis da Terra (eu imagino), você precisa fazer mais do que bater no solo com uma pá. Você também precisa de máquinas complicadas, lonas, pinceis, espanadores, espátulas, carrinhos de mão e, o mais importante, estagiários dispostos a trabalhar sem pagamento.

Jamison prefere comparar a empatia com uma espécie de viagem:

“A empatia vem do grego empatheiaEm (em) e pathos (sentimento)uma penetração, uma espécie de viagem. Isso sugere que você entre na dor da outra pessoa como você entraria em outro país, através da imigração e alfândega, travessia de fronteira por meio de perguntas: O que cresce onde você está? Quais são as leis? Que animais pastam lá? ”

Cada pergunta que fazemos - ”O que significa crescer em uma fazenda?”; “Você já se assustou ao entrar em um palco?”; “Eu fico aterrorizado com a ideia de ter filhos. Ah, você também? Como você supera isso? “ - é uma oportunidade de eliminar outra camada do abstrato, uma oportunidade de ver o mundo da outra pessoa mais claramente.

Humilde, Mas Valente

Essas duas ações: curiosidade e imaginação não são possíveis sem duas qualidades de caráter.

Uma qualidade de que precisamos, argumenta Jamison, é humildade:

“A empatia exige saber que você não sabe nada. Empatia significa reconhecer um horizonte de contexto que se estende perpetuamente além do que você pode ver: a gonorreia de uma mulher idosa está conectada à sua culpa, está conectada ao casamento, está conectado a seus filhos, está conectada aos dias em que ela era criança. Tudo isso está ligado à sua mãe domesticada, por sua vez, e ao casamento duradouro de seus pais; talvez tudo trace suas raízes até sua primeira menstruação, como aquilo a envergonhou e emocionou “.

Alguns selfies em frente à Torre de Tóquio ou dos templos de Quioto não serão suficientes para entender o povo japonês. Para compreendê-los, você deve estar disposto a viver com eles, comer sua comida e trabalhar ao lado deles.

Este é um motivo, talvez, porque os arrogantes acabam com poucas amizades genuínas. Como você pode se conectar a alguém quando pensa que sabe tudo o que há para saber?

Uma segunda qualidade de que precisamos para a empatia é valentia.

A empatia é sempre um risco. Por um lado, corremos o risco de fazer as perguntas erradas e, como resultado, ferir ou insultar alguém. Por outro, corremos o risco de criar uma conexão, uma rua emocional de duas mãos que não podemos fechar, que nos obriga a sentir a dor e o sofrimento da outra pessoa.

Sempre Uma Escolha

Uma última citação. Eu gosto da maneira como Jamison sugere que empatia nunca é algo passivo, nunca é algo que “simplesmente acontece” conosco. Em vez disso, empatia é uma escolha:

“Empatia não é apenas algo que nos aconteceuma chuva de meteoros de sinapses disparando pelo cérebroé também uma escolha que fazemos: prestar atenção, estender-nos. Ela é feita de esforços, esse primo desleixado de impulso. … Esta confissão de esforço esbarra na noção de que a empatia sempre deve surgir sem ter sido solicitada, que genuíno significa o mesmo que não desejado, que intencionalidade é a inimiga do amor. Mas eu acredito na intenção e eu acredito em trabalho. Eu acredito em acordar no meio da noite e embalar nossas malas e deixar nossas piores qualidades para ir atrás de nossas melhores.

Empatia é uma escolha, um risco, um esforço. Cabe a você perguntar: “Vale a pena?”

Leia o ensaio original do Jamison, e muitos outros, em sua primeira coleção de ensaios, Os exames de empatia.

 

Publicado em POLYMATH PROJECT

 

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