REVISTA BIBLIOT3CA

Leituras Selecionadas do Editor-Chefe J.Filardo

O HOMEM MAÇOM POLÍTICO

 

Eduardo Albuquerque Rodrigues Diniz *

 

O HOMEM MAÇOM

O país está vivenciando a mais avassaladora crise moral e política em toda sua existência, e nunca foi tão necessária a participação nas questões nacionais de homens livres e de bons costumes, que têm comportamento consciente e ético.

Essa constatação faz relembrar o notório protagonismo da Maçonaria na história política brasileira (TREVISAN, 2017). Há registros da participação da Ordem na Inconfidência Mineira e outras revoltas durante o período colonial, bem como na construção do processo de Independência nacional e sua consolidação, e mesmo na implantação da República até os dias atuais.

Merece destacar o pensamento de Campelo (2010) ao se referir da predestinação histórica da Maçonaria ensina “ser ela advertência e afirmação a um só tempo”. E complementa: Advertência para os que não creem, por que se esteia ela num passado histórico de gloriosas vitórias, sem erros que a inquinem, forjado na luta, onde a arma usada foi tão-somente a fidelidade aos seus princípios e fins. Afirmação porque oferece ao Homem a descoberta de si mesmo, fazendo-o nascer de novo, nos próprios meio e tempo em que vive, para a realização de valores eternos.

O Homem Maçom ao reunir os predicados exigidos pela Ordem para ser membro dela e os colocando em prática estará sempre apto para assumir qualquer posição dentro da rede social, pois não deve perder a oportunidade de ser útil, de prestar serviços à Pátria e à Humanidade.

A ideia de homem livre e de bons costumes confere aos membros da Ordem atributos de um indivíduo autônomo, com condições de reger seus próprios atos e se responsabilizar por eles, assim como ser destituído de preconceitos e superstições, bem como paixões e vícios que fazem mal ao corpo e à alma, ou causam escravidão; seus hábitos são sadios e conforme os retilíneos princípios da honestidade e da bondade; suas manifestações são honradas e justas, expressadas com coerência, bom senso, organização e equilíbrio, buscando o bom entendimento e rigorosa moralidade, na solução de problemas pessoais e alheios.

Conforme Adoum (2013), a maçonaria é uma doutrina que tem por objetivo despertar o homem do sonho da ignorância ao cumprimento do dever. Assim, sua ritualística traz como um de seus objetivos manter a lembrança constante de que o Maçom deve ter a mesma conduta livre e de bons costumes tanto dentro da Loja como fora dela. Esse comportamento torna os maçons diferentes das demais pessoas, pois essa luta incessante em busca do polimento moral, faz com que sejam reconhecidos em meio a toda a população, afirma Sousa (2010). Conforme Veloso (2010), aquele que é livre e de bons costumes será um predestinado, pois a Maçonaria necessita encontra-los para propor seu ingresso na Ordem.

Silva (2010) complementa, afirmando que o Homem Maçom busca a verdade e a virtude, fazendo delas carne de sua carne, sangue de seu sangue, vida de sua vida, pois conhecer a verdade e praticar a verdade é o caminho do Maçom e de todos os homens. O iniciado nos mistérios da Ordem assume o compromisso de investigar a verdade, mergulhando na filosofia maçônica para obter conhecimento, começando pelo conhecimento interior, e consciente de que a verdade absoluta só o Gr Arq do Univ conhece, além de simbolicamente erguer edificações à virtude.

De certo que não é preciso ser um verdadeiro Maçom para se comportar conforme os preceitos acima expostos. A diferença do iniciado na Ordem para o profano (não iniciado) é que aquele tem obrigação de agir corretamente, pois está compromissado com tais procedimentos.

O HOMEM POLÍTICO

A relação entre o homem e a política decorre de sua própria natureza, e como já afirmou Aristóteles (2001) “o homem é um animal político”, um ser com necessidades que somente podem ser atendidas através do convívio social. Entretanto, dentro do grupamento social é necessário que sejam estabelecidas regras de conduta e organização para garantir a própria sobrevivência e de seus membros, baseada nos costumes, usos, normas sociais, morais e legitimamente instituídas ou legitimadas pelo grupo. Pressupondo que cada indivíduo possui interesses e ideias que nem sempre se assemelham ao do outro, é preciso encontrar um mecanismo para coordenar a tomada de decisões – a Política.

Melo (2016) resumiu o entendimento acerca do termo política, que pode ser restrito ao estudo do poder, como também dizer respeito à ciência do Estado, e ainda como sendo toda ação que produza algum efeito sobre a organização, o funcionamento e os objetivos de uma sociedade. Diante da diversidade de conceituações, o citado autor aponta ainda os elementos que constituem a política:

  1. a) atividade social – uma vez que não se vislumbra a existência da política fora da sociedade; b) relação humana – pois somente os seres humanos realizam atos políticos; c) objetivos comuns – tais como o desenvolvimento social e satisfação de necessidades individuais e d) bem-estar coletivo – o bem coletivo é o fim de toda política.

A política é uma atividade eminentemente social que se baseia no relacionamento humano dentro da polis cujo objetivo é unir esforços para a realização de objetivo comuns que tenham como fim o desenvolvimento coletivo. Unido todos os elementos, pode-se dizer que: política é uma atividade humana realizada dentro de uma sociedade com o objetivo de estabelecer o bem-estar coletivo bem como o desenvolvimento do grupo social.

Como visto acima, a Política não tem nada de nefasto ou sórdido, e não deveria afastar os indivíduos, mas o contrário, apresentar-se como um atraente mecanismo de agrupamento dos cidadãos em torno das decisões acerca dos seus desígnios. Para complementar, Melo (2016) afirma que: o homem, por ser um ser social, deve contribuir ativamente para a atividade política como instrumento de transformação da consciência e das relações com o mundo. Participar é mais que um direito, é um dever de cada cidadão. Essa participação pode ser individual ou coletiva, votando ou sendo votado, e através do exercício de uma função pública.

Infelizmente, conforme pesquisa realizada pela Cultura Política World Values Survey (WVS), abrangendo entrevistados no período entre 1990 e 2005 (2012), houve queda do interesse dos brasileiros pela política, com estagnação nas atividades políticas comprovada pelo crescimento da desconfiança e decepção dos cidadãos brasileiros na arena política, e ainda o crescimento de indivíduos que pertencem e participam de entidades não relacionadas ao aparato estatal, bem superior aos registros relativos a instituições formais.

Muito embora a pesquisa traga a realidade de 13 anos atrás, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (BBC, 2016), pode-se perceber que nas eleições municipais de 2016, o número de votos nulos, brancos e abstenções surpreendeu no primeiro turno, e superou o 1º colocado em dez capitais e venceu o 2º em outras 11. A matéria informa que no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte, a soma de nulos, brancos e abstenções chegou a superar os votos obtidos pelos dois primeiros colocados, juntos. Esses dados recentes refletem que não houve alteração nos níveis de desinteresse popular pelas questões políticas.

As manifestações populares dos últimos anos refletem um posicionamento maniqueísta, sendo que cada lado defende os próprios interesses, sendo raras as manifestações puras de protesto em relação ao status quo vigente, o que é compreendido pela pesquisa da Cultura Política WVS (2012), como sendo um ponto positivo, demonstrando que o brasileiro não está apático em relação à realidade, mas se revela descrente com a classe política.

Certamente há algo de errado com a forma como a política está sendo praticada no Brasil, com adulteração no que diz respeito aos seus objetivos dos governantes, que terminam por afugentar as pessoas honestas e com boas iniciativas. A nação vivencia um paradoxo, pois as pessoas bem-intencionadas evitam a política, deixando vagas as funções representativas e se desinteressando pela política. Os atuais políticos não estão atendendo mais os anseios da sociedade, e frustram cada vez mais suas expectativas.

É necessário que alguma coisa seja feita para mudar essa realidade, e as instituições sérias precisam reassumir seu papel como protagonistas na história nacional, pois como já ensinou Platão: não há nada de errado com aqueles que não gostam de política, simplesmente serão governados por aqueles que gostam.

O problema não está em gostar de política, mas em utilizá-la em proveito próprio, traindo seus objetivos, corrompendo o sistema, falindo os entes estatais, despendendo dos recursos públicos para atender interesses e privilégios privados, sendo que essas pessoas devem ser afastadas da vida pública. 

O MAÇOM POLÍTICO

Inicia-se essa parte transcrevendo trecho do discurso do Ir Quintino Bocayuva, citado por Carneiro (2016), que diz:  A maçonaria é uma associação altamente política. Mas, qual é essa política? Tendes o direito de perguntar-me. Responderei, começando por definir os termos da controvérsia: – Política é a arte de educar o povo e dirigi-lo nas vias do progresso e do engrandecimento, até a consecução dos seus fins no seio da humanidade. É isto que nós maçons chamamos de alta política; tal qual delineada na nossa constituição…

O pensamento do “Patriarca da República” apresenta um assunto polêmico dentro da Maçonaria, as discussões acerca de questões políticas entre IIr em Loja, expressada na sexta Landmark:

A Maçonaria impõe a todos os seus membros o respeito das opiniões e crenças de cada um. Ela proíbe-lhes no seu seio toda a discussão ou controvérsia, política ou religiosa. Ela é ainda um centro permanente de união fraterna, onde reinam a tolerante e frutuosa harmonia entre os homens, que sem ela seriam estranhos uns aos outros.

Da leitura do princípio acima advém logo o questionamento de como a Maçonaria participou dos mais importantes movimentos nacionais, já citados, e internacionais, como a Revolução Francesa e Independência dos Estados Unidos da América, diante da acima mencionada proibição.

A interpretação imediata da “marca da terra” maçônica é de que a proibição diz respeito tão somente ao preceito de que devem ser evitadas discussões ou controvérsias sobre política desde que não seja quebrada a harmonia nem se corrompa a permanente união dos Irmãos. Até mesmo porque as características do Homem Maçom e do Homem Político mais aproximam os dois do que afastam.

Assim, revela-se de extrema importância que os Homens Livres e de Bons Costumes deste país cumpram seu dever de fidelidade e devotamento à Pátria, para deliberarem sobre mecanismos que ajudem a sociedade a sair deste momento tão ruim, contribuindo para o restabelecimento dos valores éticos, bem como resgatar a autoestima do povo e a confiabilidade nas instituições políticas.

Sousa (2011) manifestou, já em 1994, que o país vivia numa profunda crise de moral, que desde então nunca passou, salvo as momentâneas estabilidades, e continua: Nossa organização pública e seus representantes vivem em quase total, ou total descrédito. É sabido que em outros tempos difíceis, semelhantes ao que estamos passando, a Maçonaria influenciou e até decidiu de maneira implacável os rumos do país, quer pela participação direta de seus obreiros na vida política como homens públicos, quer como berço de heróis e formadores de opiniões. A Maçonaria de hoje não é diferente daquela, pois seus princípios básicos lastreados pela moral continuam firmes, entre estas colunas.

Acredito sinceramente, meus irmãos, que é chegada a hora de nós maçons, homens de bem, homens de moral, darmos mais exemplos à nossa nação. De fato, os maçons por compromisso com a Ordem Maçônica, precisam contribuir para a formação de uma classe política de pessoas que pratiquem os valores éticos, seja comprometida com a Pátria, responsável com o trato da coisa pública e com o bem comum. Essa nova geração de políticos deve se empenhar em lutar pelo investimento na educação para formação de brasileiros com ética, com noções para o pleno e livre exercício da cidadania.

A inserção maçônica deve ser mais ousada ainda, com a formação e oferecimento de lideranças maçônicas, ou de esferas sociais profanas, que sejam comprometidos com a ética, com a probidade administrativa e com a moralidade pública e possam atuar na transformação da sociedade (BALLOUK FILHO, 2016).

Outro aspecto também importante e que pode ser considerado como importante bandeira na contribuição na mudança do trato da coisa pública é a incessante fiscalização que as Lojas situadas em todos os Orientes do Brasil podem realizar junto aos agentes políticos e públicos, revelando até mesmo a simbologia da Ordem de sempre vigilante.

Mais uma vez a nação necessita da participação do Homem Maçom Político, e ele deve se apresentar para contribuir para a sociedade, juntamente com a instituição a que pertence.

 

REFERÊNCIAS

  1. ADOUM, Jorge. GRAU DO APRENDIZ E SEUS MISTÉRIOS. São Paulo: Editora Pensamento, 1ª Edição, 2ª Reimpressão, 2013.
  2. ARISTÓTELES. POLÍTICA. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
  3. BALLOUK FILHO, Benedito Marques. Reinserção da Maçonaria na política brasileira, O Estado de S. Paulo. Publicado em 23 Julho 2016. Disponível em: <http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,reinsercao-da-maconaria-na-politicabrasileira,10000064534&gt;. Acesso em: 30 julho 2017.
  4. BBC BRASIL. Nulos, brancos e abstenções ‘vencem’ eleições em 22 capitais. Publicado em 03 outubro 2016. Disponível em: <http://ultimosegundo.ig.com.br/eleicoes/2016-10-03/brancos-nulos-eleicoes.html&gt;. Acesso em: 30 julho 2017.
  1. CABRAL, João Francisco Pereira. O conceito de animal político em Aristóteles; Brasil Escola. Disponível em <http://brasilescola.uol.com.br/filosofia/o-conceito-animal-politicoaristoteles.htm&gt;. Acesso em 30 de julho de 2017.
  2. CAMPELO, Tomaz Gomes. Maçonaria – Advertência e Afirmação. In: PEREIRA, Odimilson Alves (Org.). TRABALHOS E ESTUDOS MAÇÔNICOS – Coletânea de textos e dissertações. Teresina: Editora PIAUIPEL, 2010.
  3. CARNEIRO, Lauê Carregari. MAÇONARIA, POLÍTICA E LIBERDADE. Jundiaí: Paco Editorial, 2016.
  1. CASTRO, Henrique Carlos de Oliveira de. REIS, Fernanda Teixeira. Participação política no Brasil no século XXI: mudanças e continuidades; Teoria & Pesquisa – Revista de Ciência Política. Publicado em outubro de 2012. Disponível em <http://www.teoriaepesquisa.ufscar.br/index.php/tp/article/ viewFile/311/214>. Acesso em 30 de julho de 2017.
  1. MELO, José Octávio de Castro. CIÊNCIA POLÍTICA E TEORIA GERAL DO ESTADO. Teresina: Dinâmica Jurídica, 2016.
  2. SILVA, Benjamim Ferreira da. A verdade que fere. In: PEREIRA, Odimilson Alves (Org.). TRABALHOS E ESTUDOS MAÇÔNICOS – Coletânea de textos e dissertações. Teresina: Editora PIAUIPEL, 2010.
  1. SOUSA, Jorge Ivan Teles de. Moral Maçônica como exemplo nacional. In: PEREIRA, Odimilson Alves (Org.). TRABALHOS E ESTUDOS MAÇÔNICOS – Coletânea de textos e dissertações. Teresina: Editora PIAUIPEL, 2010.
  2. TREVIZAN, Karina. Brasil enfrenta pior crise já registrada poucos anos após um boom econômico. Publicado em 07 março 2017 e Atualizado em 15 março 2017. Disponível em: <http://g1.globo.com/economia/noticia/brasil-enfrenta-pior-crise-jaregistrada-poucos-anos-apos-um-boom-economico.ghtml&gt;. Acesso em 30 de julho de 2017. 13. VELOSO, Cícero de Andrade. Ser Livre e de Bons Costumes. In: PEREIRA, Odimilson Alves (Org.). TRABALHOS E ESTUDOS MAÇÔNICOS – Coletânea de textos e dissertações. Teresina: Editora PIAUIPEL, 2010.

 

 

*  Eduardo Albuquerque Rodrigues Diniz é M M da Aug Resp Loj Simb Liberdade Teresinense nº 1.314 Oriente de Teresina

Esse artigo recebeu Honra ao Mérito e Laureado em 3º Lugar no 2º Concurso Literário Maçônico, Grande Oriente do Brasil – Piauí, 2017/2018.

 

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