Por Adrien Chœur

O malho e o cinzel: qual é o simbolismo deles na Maçonaria? Como interpretar essas duas ferramentas? Aqui está uma prancha maçônica em grau de aprendiz.
O malho e o cinzel estão entre as ferramentas mais importantes do aprendiz. Este último as usa para desbastar a pedra bruta, símbolo do homem em formação.
A pedra bruta é, na verdade, a imagem do novo iniciado: imperfeita, sem forma, inútil, mas contém a futura pedra cúbica que se encaixará perfeitamente no edifício. O iniciado então terá encontrado quem é e, ao mesmo tempo , o sentido de sua vida.
O malho e o cinzel são ferramentas de modelação por excelência, enquanto a maioria das outras ferramentas é usada para colocar (a alavanca), traçar ou checar (régua, compasso, esquadro, linha de prumo, nível).
O malho e o cinzel nos lembram que o aprendiz está no canteiro de obras, trabalhando. Em um nível simbólico, isso significa que ele começou o trabalho em si mesmo.
Vamos falar do simbolismo do martelo e do cinzel.
O malho e o cinzel: duas ferramentas complementares
Inseparáveis, o malho e o cinzel complementam-se perfeitamente:
- O malho é ativo: é a ferramenta com a qual damos golpes. É o símbolo do poder ativo, da vontade de construir. Ele marca o ritmo, marca o tempo.
- O cinzel é passivo : sozinho, seria impotente. No entanto, é ele que permite que o material seja removido com precisão. Ele guia e direciona o efeito dos golpes. Seu caráter passivo é totalmente relativo porque, na realidade, está em uma posição intermediária entre o malho e a pedra: é o vetor de realização.
Enquanto o malho é força, o cinzel é discernimento. Força demais (sinal de vontade descontrolada) pode colocar a obra em risco: a pedra ficaria muito cortada. Uma vontade muito fraca, por outro lado, tornaria o cinzel inoperante.
Empunhar o malho e o cinzel tem, portanto, a ver com autocontrole e consciência. A vontade, longe de ser suficiente por si só, deve ser canalizada, orientada, refletida, ou seja, consciente.
Nota: O malho também é usado pelo Venerável Mestre e Vigilantes para definir o ritmo do trabalho na loja.
O homem em formação
O malho e o cinzel permitem que você passe da intenção para a ação. Mas manusear essas ferramentas traz o risco de um gesto ruim (sem volta atrás) devido à falta de controle ou discernimento.
Por isso é necessário usar ferramentas de controle: a régua e o esquadro permitem que o pedreiro verifique constantemente a regularidade de seu trabalho. Essas ferramentas lhe indicam se ele deve continuar removendo o material, e onde, para que a pedra (em si) possa se encaixar perfeitamente no edifício (o cosmos).
Remover matéria é remover o que impede a pureza do raciocínio, da Luz e da verdade.
Entre essas impurezas são preconceitos, paixões e, em geral, todas as ilusões causadas pelo ego. Também podemos mencionar ignorância, medo, ódio e apego.
É através do autoconhecimento que esses obstáculos podem ser removidos: será necessário identificar o prejudicial, o inútil e o supérfluo em si mesmo. O malho e o cinzel revelarão a presença de um espaço puro escondido profundamente dentro de si, um espaço que um dia poderá acolher a Luz.
Como entendemos, a iniciação consiste em transformar o homem cru em um ser de Luz. O trabalho consiste em penetrar a matéria, visitá-la para encontrar a pedra cúbica que está ali escondida, como a fórmula VITRIOL nos convida a fazer. Essa pedra perfeita é o símbolo de pureza, beleza, força e sabedoria.
No fim, a metáfora do pedreiro nos incentiva a trabalhar em nós mesmos: trata-se de abandonar nossas inclinações malignas para abrir nossos olhos para nossa identidade universal.

Escultura de Fabrice Figuet, Rodez
Nota: A escultura acima mostra que somos tanto a pedra quanto o pedreiro. Outras representações distinguem a pedra do próprio cortador:
- A pedra é o que somos,
- O pedreiro é a parte de nós que se torna consciente de quem somos.
Mas o que acontece com as lascas da pedra bruta?
Cortar a pedra consiste em usar o malho e o cinzel para alcançar a pedra polida, perfeitamente cúbica, a imagem do homem desperto. Essa pedra destina-se a ser inserida no grande edifício da humanidade, ao lado dos outros, em perfeita solidariedade, com o objetivo de paz e harmonia.
Para chegar à pedra polida, precisamos remover o excesso de material: os fragmentos representam todas as ilusões que nos mantêm no erro, em uma relação falsa com o mundo. Entre essas ilusões, está a ideia de que sabemos melhor do que os outros o que fazer ou pensar, que os outros são uma ameaça ou que o mundo deveria ser diferente.
Esses surtos são orgulho, rejeição, medo, ódio, raiva e incompreensão. Eles representam o obstáculo, a matéria opaca que nos impede de ver, entender e, portanto, nos integrar harmoniosamente ao mundo e à sociedade.
Esses surtos ainda são marca de um ego desordenado, todo-poderoso e descontrolado.
Uma vez que as rebarbas foram colocadas à distância, resta a pedra polida, ou seja, a mente lúcida, iluminada pela razão universal, capaz de ver a realidade além da individualidade e de seu caráter parcial, e portanto equivocado.
Mas os estilhaços que caíram no chão não desapareceram. O ego ainda está lá: não pode ser completamente apagado porque é constitutivo da nossa existência; ele até garante nossa sobrevivência. Portanto, não se trata de matar o ego, o que é impossível (exceto cometendo suicídio), mas de abordá-lo de outra forma.
O ego, os fragmentos da pedra bruta, devem, portanto, ser reintegrados. Mas, enquanto antes o ego estava no centro da nossa vida, controlando nossos pensamentos, puxando os cordas, mantendo-nos na ilusão de que estávamos no centro do mundo, agora o ego está sujeito a outra instância, outra forma de consciência capaz de pensar a si mesmo em um nível maior. Em resumo, não somos mais enganados pelo nosso ego.
Os fragmentos da pedra bruta, lembremos, são as paixões, as emoções, os sentimentos, certamente às vezes desordenados, irracionais ou até negativos, mas que fazem a vida. Eles formam essa matéria que nutre a experiência humana e que também traz à tona consciência e luz. O ego, portanto, não é ruim em si mesmo, exceto quando assume controle total da nossa existência.
As lascas caem no chão, aos pés do maçom. Sua poeira forma o suporte, o chão onde o buscador pode continuar seu trabalho, seu trabalho. Devemos lembrar que viemos desse pó, e que voltaremos a ele. Ao fundar, essa poeira permitiu que nosso potencial de consciência e Conhecimento emergisse, e continua a nutrir nossa busca espiritual. Porque sem essa sombra, a luz não teria conseguido se manifestar.
Trazendo uma reconciliação íntima
Na alquimia, a operação de transformação do indivíduo consiste em várias etapas:
- A Obra em Negro consiste em uma separação: é o abandono da matéria, a morte do corpo físico, o corte dos laços com nossa individualidade,
- A Obra em Branco é a consequência direta da etapa anterior: é a elevação do Espírito (a alma humana), finalmente libertado da matéria,
- finalmente, a Obra em Vermelho marca a reconciliação entre Espírito e matéria: a alma reintegra o corpo físico, mas em novas disposições.
As operações alquímicas, portanto, visam recompor um ser completo, mas em uma “ordem” diferente. Esse ser completo e finalizado foi capaz de reintegrar a matéria em si mesmo:
A matéria, que antes o puxava para baixo, agora o puxa para cima.
No fim, os fragmentos da pedra bruta foram reintegrados. Entendemos que eles são indispensáveis à nossa existência: eles também fazem parte da ordem mundial.
A pedra polida é um ideal que pertence ao reino do espírito, não ao mundo real. Esse ideal guia nossa elevação espiritual, mas não deve nos levar a negar a matéria.
Cabe a nós pegar esses flocos espalhados e juntá-los para formar o que poderia se tornar outra pedra polida, idêntica ou até equivalente à pedra cúbica que tentamos obter desde nossa entrada na Maçonaria…
Fonte https://www.jepense.org
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