REVISTA BIBLIOT3CA

Leituras Selecionadas do Editor-Chefe J.Filardo

A Liberdade de consciência nos “Modernos”: abordagens e questões.

Tradução J. Filardo

Victor Guerra e Rui Albuquerque durante a intervenção

 

Apresentação durante a o 7º Ciclo de Estudios do Rito Moderno / Francés. Academia Vº Imperio. Porto 2019.

Victor Guerra

Estimado público, irmãos e irmãs, em vossos graus e qualidades.

Mais uma vez para agradecer à Academia V Imperio, e a sua alma Mater, Belmiro Sousa, por esta nova participação neste fórum que todos os dias está elevando o nível dos requisitos.

Se um dia, falamos sobre Rituais e Fraternidade, e de Espiritualidade, ritos e rituais, hoje, a exigência é dupla, enquanto duas realidades diferentes devem ser assumidas, como foi o fundamento original da Grande Loja de Londres de 1717 e seus desenvolvimentos em favor da “república universal dos maçons” e a ingente batalha pela Liberdade de Consciência, que devem ser entendidos como parte da vulgata constitucionalista que marca uma das grandes conquistas da modernidade.

Portanto, essa 7º Academia V Imperio nos propõe que abordemos o possível elo entre os dois conceitos e realidades, tarefa nada fácil, porque, para comprovar essa importância, devemos fazer um teste rigoroso, porque a realidade é muito diferente de um lugar para outro.

Se colocarmos no mecanismo de pesquisa do Google os conceitos “Liberdade de Consciência e Maçonaria”, veremos que em espanhol ele tem apenas cerca de 13 referências, e elas acabam sendo as mais variadas e se removermos a Maçonaria e colocarmos “Rito Moderno”, veremos que o resultado é zero referências.

Se realizarmos a mesma operação, mas no idioma português, a operação também nos diz que também não há referência, embora se removermos as aspas de pesquisa concreta e exata, cerca de 286.000 referências que citam “Maçonaria” ou “liberdade de consciência” separadamente.

Se repetimos a pesquisa no idioma francês, acontece quase a mesma coisa, exceto que o resultado com os dois termos separadamente se eleva a 948.000 referências e a maioria das revisões refere-se à Liberdade de Consciência e ao Grande Oriente de França (GOdF), mas especialmente em relação a 1877.

E se colocarmos o conceito “Rite Moderne”, veremos que o resultado é novamente zero referências; e se substituirmos Rite Moderne pelo conceito “Rite Française”, veremos que as referências novamente disparam até um conjunto de 2.600.000 resultados, com uma referência importante ao GOdF e a 1877 e aos altos Graus do Rito Francês.

Paradoxos curiosos, que nos indicam que os conceitos propostos podem parecer neutros e até assumidos por quase todos, mas essa ainda é uma das muitas armadilhas que a questão apresenta.

Com o teste do algodão, vemos que a liberdade de consciência e a maçonaria estão ligadas como uma questão que ocorreu na França e em um momento muito específico, ou seja 1877, quando o pastor protestante Frederic Desmond propõe a abolição da GADU nos trabalhos maçónicos, e, portanto, a liberdade de consciência e religião foi ligada quase automaticamente ao Grande Oriente da França, excluindo, é claro, outras ligações possíveis, como poderia ser feito com a fundação original de 1717 e a inclinação dos “modernos” desde tempos antigos por seu compromisso com a liberdade de consciência e religião.

Nessa armadilha, vemos que muitos de nossos próprios irmãos também caem, uma vez que muitas pranchas maçônicas podem ser vistas na internet que parecem não ter olhos para mais nada a não ser para a ação de 1877 como um modelo total, deixando de lado toda a vocação para o esclarecimento histórico, porque, em suma, a liberdade de consciência parece estar ligada ao GOdF e a 1877.

De qualquer forma, a questão levantada pela Academia Vº Imperio tem uma longa história de debates que se originaram há muito tempo e que nos levam de volta à aspiração de uma liberdade cristã que ocorreu na Inglaterra no século XVII, com o aparecimento da Reforma Protestante, que levou a uma série de atos políticos e religiosos que ocorreram principalmente na Inglaterra, com base nas premissas conceituais de Pierre Bayle e Baruch Espinoza, ambos colocados no livre arbítrio e na liberdade de culto, cada qual em sua posição específica proporá a opção de «dissolver o status de verdade da religião revelada no espaço público, rejeitando a influência da verdade revelada na ordem política, a fim de desencadear a liberdade da consciência moderna». (Alvear Téllez. 2013)

Com uma continuidade histórica no campo intelectual que herdarão o Iluminismo, em cujas dobras se desenvolvem conceitos como o tolerância e livre arbítrio, por meio de uma formulação contra essa mesma verdade revelada, e a predominante e onipresente Lei da moral cristã.

Ideias que serão retomadas por pensadores como Locke, Montesquieu, sem descuidar de Voltaire e Rousseau, e a presença nesse corolário dos “Enciclopedistas”, todos embarcando nesses dilemas, cuja dissecação dará a cada um a razão de paternidade que merece esta tortinha ampla e diversificada que vai desde a liberdade de consciência até a liberdade de crença.

Debates que terão sua continuação dentro do liberalismo ideológico que Tocqueville e Stuart Mill proporão, onde a liberdade de consciência se converte em uma «estratégia ideológica e política como ferramenta para dissolver a unidade dos estados cristãos e facilitar o advento do estado secular».

O que acabará por levar à tese existencialista liderada por Nietzsche e Sartre, que postulam, fechando o ciclo de um ateísmo militante contra essa liberdade de consciência que lutava contra o domínio das mentalidades através do controle religioso.

No fundo, estamos falando de uma fundação moderna, de crentes e não crentes, incluída no direito positivo que interpreta a liberdade de consciência como um «não ter consciência da lei moral e da liberdade do homem diante de Deus e da religião revelada».

Isso é verdade … Dada a ambiguidade ou imprecisão de alguns termos?

Por outro lado, essas questões foram objeto de fortes debates entre as entidades jurídicas constitucionais ao definir os extremos desses dilemas que, por sua vez, se tornaram uma arma radical entre os Estados e as Igrejas, que quase todos eles se preocuparam com esses ataques, essencialmente a igreja católica.

Liberdade de consciência que podemos definir, como estudiosos da matéria, como Silver Dionisio Llamazares e Souto Paz: «é a capacidade ou faculdade de perceber a própria identidade como uma liberdade radical … sentindo-se o único sujeito a que todas as mudanças, transformações e ações devem se referir, com uma liberdade de crença que hoje reconhece e garante a Declaração Universal dos Direitos Humanos, em sua versão plural de pensamento, consciência, religião e crença ou convicções e que se refere àquela área de autonomia pessoal que abriga a própria conceção do mundo e de si mesmos».

Este seria um resumo bastante geral da questão, da qual seriam deixados de fora da posição e reação das diferentes igrejas, especialmente a católica, às ideias de modernidade que elas colocavam, e ainda colocam hoje, apenas o poder religioso, porque devemos participar da opinião de que essa aspiração à libertas christiana vem essencialmente da Reforma Protestante de raízes luterana e calvinista, que estará muito presente no mundo maçônico do século XVIII e, especialmente, no século XIX, de muitas maneiras diferentes.

Certamente, fazer parte da força central e espiritual do liberalismo na medida em que os maçons se tornarão os defensores, pelo menos parte deles, das liberdades modernas, que com o tempo se tornarão uma referência institucional da chamada maçonaria liberal adogmática.

Em geral, temos o hábito de pensar que a Maçonaria incorporou todos os estágios de que falamos, ignorando que a instituição maçônica do século 18 não assumiu ativamente, pois hoje várias instituições maçônicas fazem algumas abordagens, como a defesa da Liberdade de Consciência, ou tornar-se uma bandeira e garante dos valores republicanos.

Devemos pensar que esses valores foram incorporados pelos próprios maçons e transmitidos como parte de sua bagagem pessoal à sociabilidade a que pertenciam, neste caso à Maçonaria.

É inegável que os maçons originais do século XVIII, aqueles que fundaram a Grande Loja de Londres em 1717, parte deles incorporaram os primeiros postulados sobre o conceito incipiente de liberdade de consciência, pois eram filhos da Reforma Protestante, portanto, em seus genes sociais políticos e religiosos, se encontrava essa aspiração à Libertas christiana, que no entanto deixou de fora muitos outros homens e mulheres.

Lembremo-nos de que as Constituições de 1723, chamadas de Anderson, já indicavam que: «O maçom é obrigado por seu caráter a obedecer a lei moral, e se ele entender a arte de maneira apropriada, nunca será um ateu estúpido ou um libertino irreligioso».

Há que se lembrar de que naquela época a ênfase era colocada na “religião natural”, que passou a significar naquele século dezoito, o paradigma de uma liberdade de consciência, que ainda não concebia a “nenhuma crença”.

Mas não há dúvida de que, apesar desse axioma, desde o primeiro fundamento as bases estavam sendo estabelecidas para afirmar sobre elas o grande pilar da Liberdade de Consciência, porque nessas mesmas Constituições e no mesmo artigo ele diz: « hoje é considerado muito mais conveniente forçá-los apenas a professar a religião que todo homem aceita, deixando cada um livre em suas opiniões individuais; isto é, eles devem ser homens diretos e honestos, de honra e honestidade, qualquer que seja o credo ou denominação que os distingam».

Nesse sentido, devo explicar o contexto histórico para entender as dificuldades que mediaram ao longo desse desenvolvimento.

Uma fundação como a de 1717 que começa com o apoio de quatro lojas operativas, compostas por membros da guilda de pedreiros em geral de extração católica, que tinham como referência profissional e moral, as já famosas Antigas Obrigações muitos deles de ascendência católica. Esses membros da massa operativa estavam se sentindo cada vez mais estranhos no seio da Grande Loja, porque ficava cada vez mais claro que, após a fundação, era lógico que seu tempo estava agonizando, a dissolução das guildas, em parte faz com que a massa operativa da Grande Loja de Londres, de natureza católica, dará lugar à coexistência, que custou tantas vidas nas várias guerras religiosas e, presumivelmente, com relutância ao poderoso influxo dos cavalheiros ─ filhos da Reforma Protestante, que impõem suas ideias de modernidade, que já estavam presentes nos ambientes intelectuais.

Não se tratava mais de lutas entre católicos e protestantes, ou entre jacobitas e hanoverianos, ainda que também, mas o trabalho de superar os velhos clichês religiosos e políticos, para reunir assim os dispersos, sob o jugo da tolerância, para assim avançar em direção a uma conceção incipiente de liberdade de consciência e religião como objetivo, em um horizonte não muito distante, onde todos deveriam se encontrar, mesmo que estivesse sob um “pseudo-conceito de tolerância de geometria variável”, conforme indica o professor Charles Porset.

Estamos acostumados a ver e analisar o século 18 maçônico, sob o prisma político, dos estuardistas contra os hanoverianos ou aristocratas tories de ascendência papal contra os ativos burgueses whigs  protestantes, sem descurar as lutas entre jacobitas e protestantes e estes últimos entre si, porque o setor evangélico estava muito dividido em diferentes fações: anglicanos, luteranos, calvinistas, presbiterianos, dissidentes… etc.

O que me leva a pensar que seria interessante analisar toda a estrutura maçônica e seu desenvolvimento, sob outro prisma pelo menos no século XVIII, na Inglaterra e na França e dentro do contexto maçônico, e por isso proponho que seja feito da perspetiva religiosa, entendendo esta como é para os protestantes, como uma simbiose político-religiosa que governa e ordena a moral da sociedade.

Talvez desta perspetiva pudéssemos observar algumas perguntas e encontrar certas explicações para as perguntas feitas dentro da maçonaria que damos como entendidas, que às vezes respondem a maneiras de fazer e entender a vida social e maçônica daqueles momentos.

Para dar um exemplo que nos faça entender esse axioma, indicar que frequentemente nos falam ou lemos sobre a questão da descristianização dos rituais pelos «Modernos», e, portanto, assumimos essa questão como parte da explicação histórica maçônica, quando na realidade não é tão certa.

Em primeiro lugar, deveríamos saber em que momento isso está sendo indicado e de qual setor parte a acusação?

a imputação de descristianização ritual pelos “Modernos”, parte de 1751, quando a segunda Grande Loja foi criada, a chamada Grande Loja de Maçons Livres e Aceitos da Inglaterra, que será chefiada pelo católico Laurence Dermott, ou seja, a denominação de «Antigos», cujo componente social era composto por irlandeses emigrados para a Inglaterra, principalmente de ascendência católica, que em seus rituais incorporavam como tal as famosas orações na Abertura e Encerramento dos Trabalhos.. Questão típica que permaneceu como uma forma singular da ritualidade dos chamados “antigos”, e, como tal, dentro do sistema do REAA.

Portanto, nos julgamento desses («Antigos»), os rituais de seus antagonistas os modernos, estavam “descristianizados” embora essa qualificação possa melhor corresponder não apenas a uma visão anglo-saxônica daqueles momentos, mas perpetuada por uma visão continental do conflito, sem esquecer que talvez essa falta de orações pudesse vir motivada pela própria visão reformista protestante de descartar os elementos mais catolizantes do mundo maçônico, ou simplesmente, e é algo que parece não ter ocorrido a ninguém, ;e que talvez nunca tivesse havido orações, pelo menos até a chegada da Loja dos Antigos.

Outro exemplo claro do que podemos ter é relativo à mobília da loja e cujos parâmetros nos dão o conhecimento da existência, naquele contexto do século XVIII, de um certo pragmatismo inglês e evidentemente localizado fora dos contextos sacros.

Explico-me: quando você analisa, por exemplo, as lojas através das diferentes ferramentas rituais inglesas (Antigas obrigações, divulgações, proto rituais), vemos que parte dos móveis da loja os compunham pois, por exemplo, o que os ingleses chamavam de “pedestais” que serviam para deixar sobre eles o Compasso ou o Volume da Lei , como tal um livro legislativo e que todos podiam ler, portanto, perde um peso qualitativo em relação à visão católica.

Pois bem, todo esse conjunto de elementos, a pequena mesa (pedestal) serão convertidos em alguns casos e em épocas e locais muito específicos em “altares”, e por exemplo o VLS, torna-se a Bíblia e a espada do VM se torna uma espada flamígera, e isso ocorre principalmente quando estamos na França.

A pergunta seria: Por que ocorre essa “descristianização” ao longo do século XVIII na Inglaterra?

Essas questões vêm de um processo ativo e direto de descristianização, é claro, mas não encabeçado pelos maçons, que também é o produto de um processo que virá a causar a Reforma luterana e calvinista que mudará a maneira de entender e desenvolver a vida social, política e religiosa da sociedade anglo-saxã.

O que para nós, que estamos no mundo católico, não é fácil de entender, pois estamos diante de uma Reforma religiosa que mudará radicalmente a conceção de mundo, e, neste caso, o paradoxo se torna humorístico, de fruto da Reforma, com a “revolta dos iconoclastas ingleses, este lançam as imagens no mar e, quando estas chegam às costas católicas, como as espanholas, pressupõem essa descoberta como um” milagre”.

Portanto, essas mudanças religiosas que afetarão todas as ordens da vida anglo-saxã serão vistas no mundo maçônico, não sob enunciados ou declarações institucionais, mas em projeções pessoais dos próprios maçons sobre as diferentes sociabilidades em que estão inseridos, como neste caso, a Maçonaria.

O que desencadeará diversas tensões entre as duas conceções, a católica e a protestante, e que observaremos nas Constituições Anderson em primeiro lugar, mas também durante a consolidação da primeira Grande Loja, porque devemos ter em mente que existem pressões e parte delas fará com que em 1738 apareça nas Constituições de Anderson, a « crença em Deus» evidentemente, dentro do mundo anglo-saxão, tensionado entre pressões católicas e reformadas.

Nesse contexto, essa busca pelo Centro de União não deixa de ter aquele componente que se manifestará ao longo da prática dos Modernos, de modernidade, embora haja momentos, especialmente em meados do século 18 na França, onde os príncipes de sangue quererão imprimir novamente os velhos clichês religiosos católicos às vezes se misturados com certas tintas jansenistas ou libertinas.

Embora a trajetória da própria Maçonaria em uma chave de modernidade e seguindo as diretrizes dos reformadores e intelectuais da época, afirme cada vez mais seu distanciamento das chaves religiosas e muito mais das escolas esotéricas que tentavam transmitir sua mensagem através de propostas herméticas, que serão uma constante na prática dos modernos, deixar de lados as crenças religiosas e esotéricas.

Nesse sentido, a maçonaria do século XVIII, que viverá a cavalo dos debates intelectuais e filosóficos sobre liberdade de consciência e religião, precisará criar uma causa comum em prol da modernidade, mas com essa tensão constante de uma parte desse mesma maçonaria de corte noaquita interessada em se sentir dentro dos cânones religiosos predominantes, seja dentro da igreja do Estado de caráter reformado, ou tentando estar dentro das correntes católicas, algo muito difícil de conseguir, embora seja tentado pele hoje chamada «Maçonaria de Tradição».

Seria interessante, a partir dessa perspetiva da transformação radical dos maçons protestantes ingleses, revisar o conteúdo das diferentes divulgações e proto rituais para demarcar campos diferentes, procurando aquele verão de modernidade que será o mesmo de 1877, que explodirá como fruta madura.

Será a ação dos pastores protestantes com uma presença importante nas lojas francesas que, além de meados do século XIX, começarão a ter uma dura luta por um estado republicano e secular, no qual o Grande Oriente de França terá um papel importante contra ela, além de uma igreja católica que, apesar das numerosas revoluções, ainda estava presente graças a regimes autoritários, constituindo assim um conceito renovado de catolicismo e contrarrevolução, muito ao contrário do que aconteceu em Inglaterra, onde o pragmatismo se imporá e, a partir de 1813, onde a Maçonaria será integrada às instituições estatais e com a proteção da monarquia inglesa e da Igreja da Inglaterra. O “clichê maçônico do templo coberto” descreve bem essa realidade social de uma Maçonaria, de acordo com a ideologia dominante da sociedade em que se desenvolve.». (A. Bauer. 2018).

Nesse mesmo contexto histórico, a Maçonaria e os maçons franceses estão encarregados do GOdF, na estreia da República, de lançar uma educação pública de natureza secular, que brilhará durante a Terceira República, em meio a fortes embates, com o fechamento de várias lojas.

Em 1849, a menção da crença obrigatória “em Deus e na imortalidade da alma” tinha sido introduzida no seio do GOdF sob essa tensão sempre escondida em um país da antiga cultura católica como a França, e, portanto, que se mantiveram dentro dela Os Juramentos Maçônicos, o lema clássico Que Deus me Ajude, presente em grande parte da prática dos Modernos, que já havia passado por uma grande reforma com a codificação de 1785 de Roëttiers de Montaleau, que resultara no Régulateur du Maçon.

Em 1865, o GOdF proporá uma nova redação de seus regulamentos e rituais e proporá este corolário da tendência católica: «a Maçonaria tem como princípio a existência de Deus e a imortalidade da alma e a solidariedade humana. Ela vela pela liberdade de consciência como um direito de todo homem e não exclui nenhuma pessoa por suas crenças.”

Nesse sentido, o GOdF faz malabarismos ao fazer coexistir o “princípio de Deus e da liberdade de consciência”, que continuou a ser preservado por alguns anos, apesar dos fortes debates internos, e finalmente será em 1877, quando a oposição do Presidente do Conselho da Ordem da GOdF R. Saint-Jean, intervirá o Pastor Fréderic Desmont (doutor em Teologia), como orador de ata interna e através de um discurso longo e muito trabalhoso e argumentativo, com frases desta importância. «(…) Pedimos a supressão dessa fórmula, porque, vergonhosa para os veneráveis e as lojas, não é menos para muitos leigos que, animados com o sincero desejo de fazer parte de nossa grande e bela instituição, corretamente retratada como uma instituição grande e progressista, são subitamente interrompidos por essa barreira dogmática que sua consciência não lhes permite atravessar. 

Exigimos a supressão dessa fórmula, porque ela parece bastante inútil e estranha ao objetivo da Maçonaria. […]

Não. Deixemos que os teólogos discutam dogmas. Deixemos que as igrejas autoritárias se encarreguem de formular seus currículos. – Mas essa Maçonaria continua sendo o que deveria ser, ou seja, uma instituição aberta a todo progresso, a todas as ideias morais e elevadas, a todas as aspirações amplas e liberais (…)»

Com a proposta do reformador Desmond, não se derroga a obrigatoriedade da menção dos trabalhos do Grande Arquiteto do Universo, que a critério das lojas, embora a tendência seja clara, será reformulado o texto final que estará presente na Constituição. GOdF, como marca indelével da prática dos Modernos, e a luta pela Liberdade de Consciência, que fará parte do trabalho de Abertura da Loja, sobretudo nos atuais rituais de referência do Grande Oriente de França:

«A Maçonaria, uma instituição essencialmente filantrópica, filosófica e progressista, visa a busca da verdade, o estudo da moral e a prática da solidariedade. Ela trabalha para o aprimoramento material, ético e intelectual e social da humanidade.

Seus princípios são tolerância mútua, respeito pelos outros e por si mesmo, absoluta liberdade de consciência. Considerando as conceções metafísicas do domínio exclusivo da apreciação individual de seus membros, rejeita qualquer afirmação dogmática. Dá importância fundamental ao secularismo. Seu lema é «Liberdade, Igualdade, Fraternidade».

Não foi uma luta fácil, embora a camada escura das flutuações históricas sempre tenha prevalecido, a premissa nem sempre escrita ou enunciada de que o valor da Liberdade de Consciência e Liberdade de Religião, enfim, de crenças e aspirações que sempre estiveram presentes na prática dos Modernos, com oscilações muito diferentes.

É o que tinha a dizer nessa oportunidade.

 

Victor Guerra . MM.:.
5ª Ordem de Sabedoria, 9ª Grau

 

Publicado em BLOG RITOFRANCES.NET

 

 

 

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