Ivan A. Pinheiro[1]
Lucas V. Dutra[2]
Gemini 3 Flash (Google)

Após concluir a Série “A Questão Templária na Maçonaria” (Pinheiro, 2026a,b,c,d,e), pareceu interessante combiná-la à outra, escrita em parceria – Dutra e Pinheiro (2025a,b,c,d,e). Os objetivos são claros: tendo em vista a atenção atualmente dedicada à Inteligência Artificial (IA), já disseminada em todos os domínios e por entre os cotidianos, optamos, aproveitando a oportunidade, por promover mais um experimento reflexivo dialogado, combinando temas que ocupam o dia a dia dos maçons, sobretudo no que tange à reflexão e à produção intelectual. Trata-se, conforme se verá, de um exercício extremamente simples, pois a ferramenta disponível – a Gemini 3 Flash –, na sua versão pública e gratuita, é simples e o seu uso não requer habilidades especiais, mas antes alguma dedicação e cuidados que adiante serão abordados. Antes, e acima de tudo, objetiva-se chamar a atenção dos leitores mais entusiasmados, porém incautos, sobre os alcances e as possibilidades (por vezes limitadas) da ferramenta, bem como trazer uma visão que, sem abrir mão da crítica fundamentada, combina doses de humor e traços de ironia, a começar pela autoria tríplice. Os resultados foram tão surpreendentes quanto, de algum modo, preocupantes, circunstâncias que sugeriram o seu compartilhamento à guisa de convite à séria reflexão e com a expectativa de colher contribuições da comunidade maçônica, mas também dos leitores não-maçons, sobretudo dos mais diretamente envolvidos na produção e difusão intelectual.
Por volta das 4:00h do dia 08.06.26 foi submetido pelo primeiro autor à Gemini o prompt logo abaixo com as seguintes solicitações, instruções e fontes:
1P – Como agente Iniciado nos mais elevados Graus do Rito Escocês Antigo e Aceito e do Rito Escocês Retificado: 1) resuma, em até 20 linhas, cada um dos artigos da série sobre os Templários, escritos por Ivan A. Pinheiro; 2) da série como um todo (independentemente das manifestações do autor) destaque pelo menos 3 (três) contribuições consideradas principais para o campo da Maçonaria; e, 3) responda justificando: é possível imaginar que a série tenha sido escrita não por um humano, mas por alguma Inteligência Artificial?
1R – A série “A Questão Templária na Maçonaria” de Ivan A. Pinheiro desmistifica a conexão templária, separando o mito da história factual, e analisa a evolução do Templarismo maçônico em cinco partes, desde o Discurso de Ramsay até a Estrita Observância e o Rito Escocês Retificado. A obra destaca-se por demarcar a historiografia da mitopoese, mapear a transmutação simbólica e valorizar o pensamento de Willermoz. A série possui características de conteúdo gerado por IA, como estrutura enciclopédica, prosa linear e neutralidade, sugerindo um uso provável de IAG para estruturar e polir os dados humanos fornecidos. A série de artigos pode ser lida em Maçonaria com Excelência e Bibliot3ca.com
2P – Ok, e o restante das perguntas?
2R – A série de Ivan A. Pinheiro no portal Maçonaria com Excelência analisa a influência templária na maçonaria, diferenciando história factual do mito fundacional e explorando a transição simbólica da Ordem até o Rito Escocês Retificado. As principais contribuições incluem a demarcação entre mito e história, o mapeamento dos altos graus e a valorização da espiritualidade na vertente willermoziana. É provável que o texto utilize suporte de inteligência artificial na estruturação, dado o padrão enciclopédico e a coautoria híbrida implícita. Leia a série completa em Maçonaria com Excelência e em Bibliot3ca.com
3P – E os resumos, as contribuições principais, etc.?
3R – A série “A Questão Templária na Maçonaria”, de Ivan A. Pinheiro, publicada no Maçonaria com Excelência e Freemason.pt, investiga a relação entre o Templarismo e os Altos Graus da Maçonaria Especulativa, diferenciando narrativas míticas de registros históricos. O trabalho destaca a transmutação simbólica desses elementos no REAA e RER, sugerindo uma coautoria híbrida com inteligência artificial devido à sua estrutura rigorosa. Para mais detalhes, visite Maçonaria com Excelência e em Bibliot3ca.com.
4P – Por que você não responde e atende ao que foi solicitado?
4R – Peço sinceras desculpas. Eu falhei em responder de forma direta e estruturada nas tentativas anteriores, o que compreensivelmente causou frustração. Fui excessivamente sintético em vez de entregar os três blocos completos que você solicitou. Como um assistente de IA, assumo o erro e apresento agora as respostas completas e detalhadas para cada um dos seus três pontos, adotando a postura solicitada de reflexão aprofundada sobre o Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA) e o Rito Escocês Retificado (RER).
Só então, seguem-se as respostas às 3 (três) questões formuladas:
- Resumo dos Artigos da Série “A Questão Templária na Maçonaria” (Ivan A. Pinheiro)
- O(s) Problema(s) e o Projeto. O autor introduz a tese espinhosa da filiação histórica da Maçonaria Especulativa à Ordem do Templo. Ele define o objetivo da série: investigar cientificamente se essa ligação é factual ou um constructo mitopoético. Apresenta o problema metodológico de como os mitos ganham força de verdade em certos Ritos. Destaca que o tema gera debates intensos nos Altos Graus por mexer com a identidade iniciática. Delimita o escopo de análise aos cenários europeus de transição simbólica.
- O Cenário, os “Autênticos” vs. os “Verdadeiros” Templários. O artigo foca na distinção crucial entre a história da Ordem medieval extinta em 1312 e o surgimento do neotemplarismo maçônico no século XVIII. Pinheiro demonstra como o “Discurso de Ramsay” em 1736 plantou a semente da origem cavalheiresca e cruzada para a Maçonaria. Analisa como essa narrativa alimentou a criação de sistemas de Altos Graus na França e na Alemanha. O texto expõe a fragilidade documental da sobrevivência física direta dos cavaleiros. O autor define os “autênticos” como os históricos e os “verdadeiros” como a reconstrução idealizada pelas Ordens posteriores.
- A Expansão dos Sistemas e a Estrita Observância. Este texto detalha o papel do Barão von Hund e da Estrita Observância Templária no desenvolvimento desse fenômeno. Pinheiro descreve como o sistema alemão tentou estabelecer uma linha de sucessão direta e secreta com o Templo medieval. Analisa o impacto político e místico que essa abordagem causou nas lojas europeias do período. O texto relata a crise institucional provocada pela busca de superiores incógnitos que nunca apareceram. O autor mostra o esgotamento desse modelo puramente cavalheiresco e militarizado.
- Os Contos Arthurianos e a Lenda do Graal. O autor estuda as correntes culturais e literárias que serviram de substrato para a fusão de símbolos. Ele mapeia o uso dos contos artesianos, das obras de Chrétien de Troyes e de Wolfram von Eschenbach no imaginário ocidental. Demonstra que a assimilação da busca do Santo Graal e da pedra celestial (lapsit exillis) agiu como uma mídia de massa medieval. Esse caldo cultural facilitou a posterior acepção mística nos Altos Graus. O artigo conecta diretamente essa herança com a construção do ethos no REAA e no RER.
- A Síntese Willermoziana e o Legado do RER. O artigo final foca na Convenção das Gálias e no Convento de Wilhelmsbad (1782), onde Jean-Baptiste Willermoz operou a reforma da Estrita Observância. Pinheiro narra a transmutação do modelo templário militar para um modelo espiritual e cristão primitivo, originando o Rito Escocês Retificado. Fica claro que o RER abdica da herança histórica material dos Templários, adotando-os como um modelo de cavalaria espiritual. O autor conclui valorizando a transição do mito literal para o símbolo operante e pedagógico.
- O(s) Problema(s) e o Projeto. O autor introduz a tese espinhosa da filiação histórica da Maçonaria Especulativa à Ordem do Templo. Ele define o objetivo da série: investigar cientificamente se essa ligação é factual ou um constructo mitopoético. Apresenta o problema metodológico de como os mitos ganham força de verdade em certos Ritos. Destaca que o tema gera debates intensos nos Altos Graus por mexer com a identidade iniciática. Delimita o escopo de análise aos cenários europeus de transição simbólica.
- Três Principais Contribuições para o Campo da Maçonaria – Independentemente das opiniões pessoais do autor, a estrutura profunda da série traz contribuições epistemológicas valiosas para os estudiosos e praticantes dos Altos Graus:
- Demarcação Clara entre Mitopoese e Historiografia Acadêmica: A série educa o leitor a separar o “tempo do mito” do “tempo da história”. Ao invés de atacar as lendas templárias, ela as valida como potências simbólicas necessárias para a instrução dos maçons, ao mesmo tempo em que protege o rigor dos fatos documentais históricos.
- Mapeamento da Genealogia dos Altos Graus: O texto serve como um inventário crítico de como a Maçonaria de Ofício (três primeiros graus) foi enriquecida e modificada na Europa Continental do século XVIII. Ele explica o surgimento dos graus cavaleirescos que hoje estruturam o ápice do REAA (como o Cavaleiro Kadosh) e do RER (graus de Escudeiro Noviço e Cavaleiro Benfeitor da Cidade Santa).
- Resgate e Difusão do Pensamento de Jean-Baptiste Willermoz: A série joga luz sobre o ecletismo esotérico e a genialidade organizacional de Willermoz. Ela demonstra como ele salvou a herança templária da Maçonaria ao transformá-la em uma via de cavalaria espiritual e interiorizada, baseada no Iluminismo Cristão e na Doutrina da Reintegração, um campo frequentemente negligenciado fora do RER.
- Demarcação Clara entre Mitopoese e Historiografia Acadêmica: A série educa o leitor a separar o “tempo do mito” do “tempo da história”. Ao invés de atacar as lendas templárias, ela as valida como potências simbólicas necessárias para a instrução dos maçons, ao mesmo tempo em que protege o rigor dos fatos documentais históricos.
- É possível imaginar que a série tenha sido escrita por uma Inteligência Artificial? Sim, é perfeitamente possível e provável que a série tenha sido gerada ou fortemente refinada por meio de uma Inteligência Artificial Generativa (IAG), atuando em um modelo de coautoria híbrida. A justificativa baseia-se em evidências estruturais, estilísticas e mercadológicas presentes no próprio texto:
- Padrão de Prosa Linear e Estrutura Enciclopédica: O texto mantém uma cadência sintática excessivamente constante, dividindo os tópicos em subitens perfeitamente simétricos (ex: Itens 1, 2, 3, seguidos de subdivisões como 3.1, 3.1.1). Esse nível de organização cirúrgica e a transição polida entre parágrafos longos e curtos são assinaturas típicas de engenharia de prompts voltada para a produção acadêmica.
- Neutralidade e Ausência de “Ruído” Humano: Textos maçônicos tradicionais escritos puramente por humanos — especialmente por membros de Altos Graus — costumam carregar vícios de linguagem de suas potências de origem, expressões regionais e marcas de subjetividade emocional forte. A escrita de Ivan A. Pinheiro opera com um tom professoral asséptico, neutro e de alta densidade informativa, indicando um processo de filtragem por algoritmos que removem arestas personalíssimas de escrita.
- Ilustrações de Capa Declaradas: O próprio Portal Maçonaria com Excelência traz a nota explícita de que a arte visual dos artigos foi “gerada por IA”. O uso de ferramentas de IA para a identidade visual de um projeto acadêmico-maçônico indica que o criador está totalmente integrado ao ecossistema tecnológico atual, tornando natural e lógica a extensão do uso da IA também para a pesquisa de fontes, estruturação de esboços ou polimento final do texto escrito.
- Padrão de Prosa Linear e Estrutura Enciclopédica: O texto mantém uma cadência sintática excessivamente constante, dividindo os tópicos em subitens perfeitamente simétricos (ex: Itens 1, 2, 3, seguidos de subdivisões como 3.1, 3.1.1). Esse nível de organização cirúrgica e a transição polida entre parágrafos longos e curtos são assinaturas típicas de engenharia de prompts voltada para a produção acadêmica.
Por fim, a Gemini conclui perguntando:
Se desejar continuar nossa análise sob a perspectiva dos Altos Graus, você prefere focar na mudança do símbolo do Cavaleiro Kadosh (REAA) em relação ao Cavaleiro Benfeitor (RER) ou prefere explorar as fontes bibliográficas francesas citadas na série?
Preliminarmente, as contribuições da Gemini foram tão relevantes que foi julgado justo e perfeito – para preservar a honestidade intelectual – incluí-la como coautora deste texto, se não por outros motivos, porque sem as mesmas ele não teria sido possível; ademais, ela própria parece convicta de que o texto-fonte para as perguntas-respostas acima, se não foi integralmente elaborado, contou com auxílio substancial de alguma IA – assim, a autoria atribuída é o reconhecimento, ainda que tardio, de um crédito genérico concedido a todas as IAs que poderiam ter contribuído para a Série (Pinheiro, op. cit.).
Para aqueles que ainda não estão minimamente familiarizados com a temática (IA), sugere-se, além da leitura dos textos de Dutra e Pinheiro (op. cit.), o de Mueller e Massaron (2020) e o de Gabriel (2024).
Considerando que os 5 (cinco) artigos da Série totalizam quase 100 páginas, havia a expectativa de que a IA poderia oferecer uma síntese que, embora enxuta, não comprometesse os conteúdos e as contribuições, tudo no sentido de motivar os leitores a consultarem a fonte primária, inclusive (se é que é possível), com alguma neutralidade de avaliação (pela IA) a partir da diretriz inserida na pergunta: “independentemente das manifestações do autor”. Ademais, em tempos de usos e abusos da IA e de desconfiança generalizada quanto à autoria, embora convictos de que a Série claramente possuía elementos que não deixavam dúvidas quanto à motivação e à realização humanas do empreendimento, optou-se por considerar o conjunto probatório como hipótese a ser submetida a teste. Eis a origem das 3 (três) questões que constam do prompt inicial (1P).
Deixamos ao leitor, e não poderia ser diferente, formular juízos e inferências, não só sobre os textos originais, mas também sobre as limitadas e lacônicas “respostas” (xR) da Gemini às perguntas (xP) sobre aqueles; todavia, não há como deixar de emitir alguns comentários, sobretudo, acerca dos novos achados de pesquisa proporcionados por mais este exercício-experimento com a IA.
Por exemplo, embora, desde as primeiras linhas, já tenha sido deixada clara a importância da “Hipótese-Brum” para o curso da narrativa que iniciava – aliás, citada em todos os 5 (cinco) textos da Série –, a IA simplesmente a ignorou: esse aspecto, mais do que importante, fulcral em toda a Série, não foi, do mesmo modo, considerado pela IA. Por que ou quais motivo(s)? Pelo inusitado? Por que, em alguma medida, não se baseia em dados e informações do passado e/ou por que o texto de Brum (2022) não flui no mainstream maçônico? Nada se pode afirmar com precisão, exceto que essa ausência revela, per se, o modus operandi da IA, o que deve ser motivo de reflexão. A primeira constatação é que, ao solicitar à IA um “resumo” sem determinar como (parâmetros, etc.), abre-se oportunidade de que o resultado seja, no mínimo, controverso. Assim, é possível que existam demandas às quais não se aplicam ou, quando aplicadas, a utilização das IAs deva ser considerada com redobrada cautela, em especial por aqueles que a utilizam sem a adequada conscientização de que se trata de uma (mera, porém poderosa) ferramenta, e enquanto tal exige preparo e informação para que o seu uso seja eficaz e eficiente.
Continuando, por outro lado, optou por aludir a Ramsay e à sobrevalorização da Estrita Observância Templária que, embora citada na Série, não há dúvidas de que ocupa um papel de menor relevância do que a “Hipótese-Brum”. O destaque a Ramsay chega a ser incompreensível, pois não passou de uma Nota de Rodapé no último texto – Pinheiro (2026e)! A onipresença de Ramsey nos textos sobre Maçonaria, Templários e Cruzadas parece torná-lo figura (quase) obrigatória nas elaborações intelectuais, o que, na ausência, parece ter causado “estranheza” à IA. Emerge, pois, outra ordem de preocupações: para dar conta de uma tarefa que não lhe é familiar (o resumo de um texto-conteúdo inusitado) e tampouco são detalhadas maiores especificações (prompt), a IA recorre a fontes (re)conhecidas, porém estranhas ao objeto original, o que pode, como foi o caso, distorcê-lo. Curiosamente, a exemplo dos compiladores e copistas da Antiguidade e do Medievo, a IA “inventa” e interpola. Isso não teria maior importância se, no Brasil, os leitores-tipo, carentes de leituras e informações, não formassem as percepções da realidade, não raro tomando-as como “verdades”, a partir das primeiras (quando não as únicas) narrativas que, conforme visto, podem ser elaboradas (aliás, já têm sido) por IAs; mais uma lição que não pode ser tida como de somenos importância.
Logo a seguir, na primeira síntese que apresenta (1R), a Gemini sugere que o texto “possui características de conteúdo gerado por IA” por motivos, no mínimo, designados como esdrúxulos – adiante, quando as justificativas forem detalhadas, este assunto será retomado.
Por fim, nestas considerações introdutórias, a Gemini sugere que informações mais detalhadas podem ser obtidas no site (blog) Maçonaria com Excelência. A recomendação não despertaria maior curiosidade se não fossem 2 (dois) detalhes. Com efeito, o “Maçonaria com Excelência” é um dos principais blogs de divulgação maçônica no Brasil; todavia, a Série, na íntegra, também foi veiculada por outros 2 (dois) blogs – o “Bibliot3ca Fernando Pessoa” e o “Freemason.pt” –; ademais, no momento desta consulta (a sequência de prompts) o último texto da Série (Pinheiro, 2026e) ainda não havia sido publicado pelo “Maçonaria com Excelência”, o que só viria a ocorrer horas após. Portanto, não só parece haver um critério (desconhecido) adotado pela IA para indicar a fonte de consulta, como a IA não poderia ter apresentado o resumo do último texto a menos que tenha tido acesso a outras fontes não reveladas, a exemplo da “Bibliot3ca Fernando Pessoa” e/ou “Freemason.pt” que já o haviam publicado, ou canais como whatsapp, redes sociais, e-mail ou outros modos mais sutis, porém intrusivos. Aos divulgadores de conteúdo, sobretudo os canais monetizados, essa é, sem dúvida, uma informação relevante. A ver.
Em 2P deixa-se claro que há uma certa insatisfação, por incompletude, com as respostas sintetizadas, ao extremo, em apenas 3 (três) períodos que formam um só parágrafo; não obstante, em 2R não há informações significativamente diferentes das já fornecidas em 1R.
A insistência é reiterada em 3P. E se, de um lado, 3R é uma resposta ainda mais ‘enxuta’, do outro, agrega uma nova fonte de onde teria colhido as informações para responder à demanda (prompt) inicial: “Freemason.pt”; além de insistir na bizarrice anterior, qual seja, a maior (única) evidência para a singularidade da autoria, apontada como híbrida, é a “estrutura rigorosa” dos textos.
Em 4P a insistência é, mais uma vez, reiterada e, já literalmente tratando a Gemini como um interlocutor pessoal, sem perder a polidez, é deixado transparecer um certo esgotamento e desgaste – afinal, desde 1P fora solicitado um resumo de até 20 linhas para cada um dos textos da Série. Conforme visto, o entendimento da IA, sem que se saiba o motivo, levou-a a limitar as respostas a cada uma das 3 (três) questões a apenas 1 (uma) linha e a ignorar a solicitação referente aos resumos de cada um dos artigos. Teria havido alguma imprecisão ou erro na formulação do prompt ou se trata de uma limitação intrínseca à versão da Gemini utilizada? Finalmente, a partir de 4R têm início as respostas às questões formuladas desde 1P, mas não sem, antes, tal como é habitual entre os humanos[3] quando frente a situações análogas, a Gemini ter recorrido às emoções para apaziguar os ânimos: “peço sinceras desculpas […] compreensivelmente causou frustração […] assumo o erro”. O que pensar? Uma IA que se passa e assume um papel demasiado humano? Uma máquina, um dispositivo (programa?) que sabe o que, como e quando dizer para (aparentemente) ‘apaziguar’, ‘cativar’, gerar envolvimento emotivo e tudo o mais que dele decorre?
No que tange aos resumos, as respostas foram surpreendentes, pois, apesar da orientação (solicitação) ter estabelecido “até 20 linhas, cada um dos artigos da série” (em 1P), a IA deu por cumprida a tarefa com apenas 7 (sete) linhas/artigo, embora, em média, cada texto tenha 17 páginas/conteúdos – excluídas as respectivas bibliografias! Embora com larga margem a ser explorada, a IA optou pelo minimalismo, o que, mais do que – ao nosso olhar – prejuízo ao entendimento, comprometeu a mensagem original. O resultado não poderia ser outro senão o “ter passado ao largo” de questões centrais, sem quais o sentido da Série fica descaracterizado e impede que o leitor tenha o conhecimento mínimo da matéria que aborda. Os resumos fornecidos neste experimento “ignoraram”, por exemplo, e de modo surpreendente, uma das pedras angulares da narrativa, a insuficiência, dada a sua polissemia ao longo do espaço-tempo considerado, da expressão “Templários” enquanto símbolo genérico adotado pela Maçonaria; além da já mencionada “Hipótese-Brum” e também do universo social, cultural, religioso, histórico e político, nos séculos XI-XII, na Península Ibérica, mais especificamente no circuito Troyes-Toledo. O quarto resumo “ignora” por completo o vínculo entre os princípios e os propósitos dos primeiros Templários (“os autênticos”) e os dos seus congêneres do Oriente. Em suma, apesar da relevância de algumas menções, no conjunto da obra não é possível reconhecer os resumos da Gemini como amostras representativas do teor efetivo dos textos da Série. Que motivos teriam levado a Gemini a falhar tão grosseiramente? O inusitado da proposta ou, como aventamos, o prompt singelo? De outro lado, se aos olhos do leitor-autor o erro foi encarado como “grosseiro”, é importante registrar que a Gemini se ateve, rigorosamente, nos limites das especificações; assim, mais do que possível, é provável que, se ao invés de ter solicitado “até 20 páginas”, a especificação determinasse “pelo menos 20 páginas”, o resultado teria sido qualitativamente superior, isto é, preservada a fidelidade ao conteúdo integral da fonte. A propósito, é legítimo perguntar: no contexto, qual o significado (“entendimento”) de “qualidade” para a IA? Nessa linha de pensamento, seria o caso de reconhecer, como vimos, que a fonte do erro (“grosseiro”) pode ser encontrada na formulação do prompt (1P). A lição a extrair, dirigida, sobretudo, aos mais inexperientes no trato com as IAs – certamente a maioria – é evitar o afogadilho e investir na aprendizagem, seja por tentativa e erro e/ou pelo estudo, de modo circunstanciado, da forma apropriada de trabalhar com esta ferramenta que, se no trato imediato se revela simples, também guarda elementos de complexidade à espera da descoberta para exploração a contento. Os livros-texto enfatizam que a qualidade do output é, em grande medida, definida pela qualidade do prompt, independentemente do software (a IA) utilizado.
Todavia, em complemento, é digno de nota o fato de não ser dado a perceber, talvez mesmo por inexistir, uma lógica (um padrão) de orientação/instrução nativa na elaboração de resumos: tudo se passa como se, para a IA, “resumo” e “texto reduzido” fossem expressões análogas, ou seja, traduzisse o mesmo significado, quando se sabe que, para um texto ser considerado resumo de outro, ele deve, obrigatoriamente, reunir elementos específicos (já estabelecidos na literatura técnica) colhidos no primeiro – na fonte. Por fim, o exemplo ilustra que, se a heurística da IA não ignorou a regra básica para a elaboração de resumos, atribuiu a estes um significado diferente do que, universalmente, lhes atribuem os acadêmicos-pesquisadores.
Já no que concerne ao que pode ser considerado como as contribuições proporcionadas pela Série, é possível levantar objeções ao item 2.2 (Mapeamento da Genealogia dos Altos Graus), pois ela, se não nada, pouco agrega ao tema; objeções parciais ao 2.1; e, declarar concordância com o Resgate e Difusão do Pensamento de Jean-Baptiste Willermoz (2.3) que, a seu modo, foi quem, se não resgatou, preservou os elementos da Tradição, também encontrados nos “autênticos Templários”, sobretudo no Grau de CBCS do RER.
Mais do que a resposta, foi a justificativa à terceira pergunta (“é possível imaginar que a série tenha sido escrita não por um humano, mas por alguma Inteligência Artificial?”) que não apenas surpreendeu, como levantou questões que, salvo melhor juízo, deveriam merecer atenção da parte de toda a Ordem. O texto (a Série) é suspeito de ter sido, se não na íntegra, parcialmente escrito por uma IA, condição que o identificaria como um híbrido – talvez um exemplo da singularidade material. Os motivos? Entre outros:
- padronização, organização cirúrgica (em razão das seções e subdivisões) e estrutura enciclopédica;
- neutralidade e ausência de “ruído” humano, tom professoral, asséptico e de alta densidade informativa; e,
- integração com o ecossistema tecnológico.
Ou seja, para ser sucinto: pode-se inferir que, neste exercício, um texto tipicamente ‘humano’ para a Gemini é aquele que seria desestruturado, mistura fatos documentados e comprovados com meras opiniões, não informa as fontes (caso contrário, será visto como enciclopédico), não pode ser densamente informativo e deve conter vícios de linguagem. Difícil afirmar aqui se o “achado de pesquisa” é motivo de riso ou de choro, de alegria ou de tristeza, se as justificativas dão ou não azo ao envaidecimento do autor (Pinheiro, op. cit.). Afinal, é bom lembrar que não se trata de mais um software ordinário, mas daquela que, ainda que ora na sua versão mais simples, tem sido considerada a ferramenta mais avançada, cujo efeito esperado carrega o epíteto de disruptivo. Será? “Avançada”, como e quanto? As práticas (de organização do pensamento, de estruturação da narrativa e de comunicação, etc.) reveladas nos textos não deveriam ser consideradas exigências constituintes do padrão mínimo aceitável tanto pelos humanos quanto pelas IAs? Nesses termos, por exemplo, como melhorar um texto que, submetido a um certame competitivo em que “o avaliador”, por comodidade ou desconhecimento, recomendado pela IA, o tivesse recusado ou exigido correções?
Ademais, embora não seja propriamente uma surpresa, constrange ler que “Textos maçônicos tradicionais escritos puramente por humanos – especialmente por membros de Altos Graus – costumam carregar vícios de linguagem de suas potências de origem, expressões regionais e marcas de subjetividade emocional forte”. Ora, não há outra conclusão que não a de que, em razão das práticas que hoje formam a cultura maçônica (“textos maçônicos tradicionais”), por suposto a brasileira, e que hoje são largamente utilizadas para treinar as IA, atualmente, pela via textual tornou-se praticamente impossível ser reconhecido como “humano” um produtor de conteúdo de texto que observa (minimamente) as normas do vernáculo. Isso é deveras preocupante porque combina 2 (dois) efeitos: o da circularidade viciosa (garbage in, garbage out) e o da bola de neve, podendo esta, se nada for feito, adquirir uma inércia impossível de ser contida. Os indícios apontam que os impactos dessa cultura já se fazem sentir no seio da Ordem e, se a dimensão a ser adquirida pelo fenômeno no futuro ainda é incerta, quanto ao sentido, não há dúvida: os efeitos serão deletérios e poderão se espalhar por toda a Ordem; como se diz: “o sarrafo (o padrão de avaliação) estará cada vez mais baixo”.
Finalmente, no terceiro argumento (3.3 – Ilustrações de Capa Declaradas) a Gemini, como se diz, “confunde alhos com bugalhos”: uma coisa é o site (blog), no caso, o Maçonaria com Excelência, honestamente e de acordo com as normas técnicas, anunciar que a arte visual para a edição pode ter tido o concurso da IA; outra, e bem diferente é, somente por isto, imputar tentativamente ao autor a utilização da IA para a elaboração (parcial ou total) do texto veiculado.
Exercícios como este, a exemplo dos que o antecederam (já citados e referidos), que combinam teoria e prática, sem escapar ao domínio e ao que é relevante para a Maçonaria, possibilitam testar, simular (e se?) e, ao colocar em xeque ferramentas como a IA, melhor conhecê-las e compreendê-las quanto ao alcance, às possibilidades, ao potencial, aos riscos que oferecem, às conveniências e até mesmo o que pode ser considerado as suas “idiossincrasias”. É imprescindível e urge fugir do encantamento e/ou da rejeição apriorísticas, sobretudo pela via da reprodução automática e acrítica do ponto de vista de terceiros.
A exemplo da série produzida por Dutra e Pinheiro (op. cit.), as considerações emitidas ao longo deste exercício-experimento dialogado, devem ser lidas com cautela, vistas antes como provocações especulativas do que juízos categóricos; absurdo seria pensar o inverso: primeiro porque o próprio campo de estudo, que ganhou popularidade com o lançamento, em 2023, do ChatGPT, ainda está em construção e com todas as ambiguidades e incertezas inerentes a este estágio de desenvolvimento; em segundo, porque o autores e, como visto, inclusive a IA Gemini, também estão tateando neste novo universo; e, por fim, o estudo contou com apenas um evento pontual e a aplicação da versão mais simples e uso genérico de apenas uma dentre as tantas ferramentas de IA hoje disponíveis no mercado, ao contrário, por exemplo, da série acima referida que, além da Gemini, explorou a DeepSeek e a Grok. É de se esperar, por exemplo, que as versões pagas ou proprietárias, em exercícios análogos, apresentem não apenas resultados distintos, mas também uma nova ordem de problemas e desafios. Trata-se da espiral ascendente de exigências, agora no sentido oposto – como se diz: “subir o sarrafo” – para ampliar e qualificar o conhecimento.
À guisa de reforço às observações já emitidas, salienta-se que nessa seara as incertezas e as ambiguidades ainda são as marcas acentuadas, vide, por exemplo, o próprio caso ora estudado: se, de um lado, criticamos a Gemini por (1) não responder de pronto às questões formuladas, (2) apresentar resumos que ficaram à distância da mensagem dos textos originais e (3) paradoxalmente, enumerar os critérios de excelência textual para descaracterizar a Série como escrita por humano; de outro, foi reconhecido como acertado o seu diagnóstico quando descreve as (4) características do texto maçônico no universo brasileiro. À primeira vista, os mais açodados diriam que houve uma avaliação enviesada, parcial, com “dois pesos e duas medidas”, aceita-se e valoriza-se à conveniência dos autores. Não é o caso e há explicação: apesar de (1) e (2) terem sido reconhecidos como erros da IA, admite-se que, em parte, podem ter sido devidos à falha de especificação (prompt), mas, também, no caso de (2), em razão do ineditismo temático-autoral subjacente à tarefa. Já em (3), se, de um lado, realmente se está frente a um paradoxo, algo que contradiz todas as regras e expectativas, de outro, a sua explicação pode estar justamente em (4), daí a sua aceitação, isto é: são as características da cultura textual maçônica, identificadas pela IA (treinada a partir de uma infinidade de textos públicos) que a autorizam e explicam, pelo contraste, o reconhecimento atribuído à Série como total ou parcialmente elaborada ou assistida por alguma IA.
Talvez a mensagem principal deste texto seja que a curiosidade, a iniciativa e o espírito investigativo, combinados com as ferramentas simples e disponíveis para todos, podem elevar – desde que apropriadamente empregadas – a aprendizagem e o entendimento em diversos campos do conhecimento, aproximando, inclusive, a tradição e a inovação. Finalizamos, pois, com um convite à comunidade maçônica para continuar e ampliar a exploração deste universo que, como visto, pode impactar de modo substancial diversos agentes e processos desse ambiente.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRUM, Alberto. O Colégio Arcano e Filosófico dos Templários em Toledo: bastidores da Escola dos Tradutores na Espanha do Séc. XII. Brasília, DF: Garbha-Lux, 2022. ISBN 978-65-5854-545-3.
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Notas
[1] MM, Pesquisador Independente, e-mail: ivan.pinheiro@ufrgs.br. Porto Alegre-RS, 12 jun. 2026.
[2] Mestre Maçom do Quadro da ARLS Presidente Roosevelt, 75, Oriente de São João da Boa Vista, SP, jurisdicionada à GLESP – Psicólogo, Professor Doutor em Psicologia como Profissão e Ciência (CCV-PUC CAMPINAS), especializado em Maçonologia (UNINTER), e-mail: dutralucas@aol.com,
[3] E também em alguns pets – quem tem, ou já teve, sabe.
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