por Rui Samarcos Lora[2]

Uma Análise Histórico-Filosófica das Correntes de Pensamento Maçônico[1]
Introdução
A Maçonaria, enquanto instituição filosófica, fraternal e iniciática, constitui um fenômeno complexo e singular na história das ideias ocidentais. A sua riqueza doutrinária e simbólica tem sido objeto de incessante interpretação e reinterpretação ao longo dos séculos, gerando um corpus doutrinal notavelmente diversificado. Desde sua institucionalização na forma especulativa, um processo cuja narrativa tradicional de 1717 foi questionado pela nova historiografia (Snoek, 2008; Stevenson, 1988), a Ordem tem funcionado como palco de intenso debate intelectual. Diferentes pensadores, influenciados pelos contextos culturais e filosóficos dos seus tempos, propuseram caminhos diversos para compreender seus símbolos, ritos e finalidades últimas.
Esta pluralidade de interpretações foi sistematicamente sintetizada e categorizada pelo historiador maçônico Harry LeRoy Haywood[3] na sua obra The Great Teachings of Masonry (1923), na qual delineou o que ficou conhecido como As Escolas da Maçonaria. Contemporaneamente, observa-se que a Maçonaria não constitui um corpo monolítico de pensamento, mas antes um ecossistema vibrante de ideias onde correntes aparentemente antagónicas , do racionalismo iluminista ao misticismo romântico, do empirismo histórico da chamada Escola Autêntica (questionada por Hamill, 1986) à especulação esotérica, coexistem e dialogam de forma produtiva.
Como assinala Bondarik (2013), as diferentes escolas de pensamento maçônico continuam a influenciar a Ordem no presente tempo, demonstrando essa influência exercida por estas diferentes formas de pensar dentro da Maçonaria e no ideário Maçônico. Esta persistente vitalidade intelectual confere à Maçonaria uma notável capacidade de adaptação e relevância, confirmada pela sua consolidação como campo de estudo académico legítimo a partir da década de 1980 (Jacob, 1981; Faivre, 1986; Ferrer Benimeli, 1976).
Este artigo tem como objetivo principal apresentar e analisar de forma sistemática e aprofundada estas escolas de pensamento maçônico, contextualizando-as dentro dos respectivos panoramas intelectuais e explorando as suas implicações para a concepção educacional da Ordem, agora reavaliada à luz da mudança de paradigma historiográfico (Snoek, 2008). Para além de um mero inventário descritivo, busca-se demonstrar como cada escola representa uma resposta distinta às três perguntas fundamentais: i) sobre a natureza, ii) o propósito e o iii) método da Maçonaria, conforme elaboradas por Roscoe Pound[4] (1915), e como essas respostas são reconfiguradas pelos recentes avanços na pesquisa histórica.
Metodologia: Integrando a Nova Historiografia
A metodologia adota uma abordagem qualitativa e interpretativa, fundamentada em análise documental e bibliográfica crítica, articulando quatro dimensões complementares: histórica (contextualizando as escolas nos seus respectivos quadros intelectuais e desvendando seus pressupostos historiográficos), filosófica (reconstruindo sistematicamente os fundamentos filosóficos de cada escola à luz das três questões centrais de Pound[5]), comparativa (identificando, contextualizando e contrastando sistematicamente as respostas das diferentes escolas) e crítica (aplicando o quadro analítico de Snoek para avaliar cada escola à luz do novo paradigma historiográfico pós-1986). Esta abordagem multifacetada é sustentada por um corpus ampliado de fontes primárias e secundárias.
Esta avaliação considera a rejeição das narrativas simplistas de origem, a assimilação das novas evidências documentais sobre a Maçonaria pré-1717 e, de modo crucial, a necessidade de estudar a Maçonaria como uma sociedade iniciática a partir da perspetiva das ciências das religiões, um campo consolidado por académicos como Frances A. Yates[6] e Antoine Faivre[7].
A Concepção Educacional da Maçonaria: Fundamentos Revisitados
A compreensão da concepção educacional maçônica exige uma análise que ultrapasse as narrativas tradicionais e se fundamente na complexidade histórica revelada pelos documentos mais antigos. A obra de Haywood (1923) oferece um ponto de partida ao localizar as raízes deste projeto pedagógico nas guildas operativas medievais, organizações que, na ausência de sistemas públicos de ensino, funcionavam como veículos primordiais para a transmissão de conhecimentos técnicos, arquitetónicos e morais através de um sistema de aprendizagem prático e iniciático[8]. No entanto, a historiografia recente, notadamente os trabalhos de Snoek (2008) e Stevenson (1990) , demonstra que a rígida distinção entre pedreiros operativos e maçons especulativos é anacrónica. Muitos mestres construtores, como Nicholas Stone (1587-1647)[9], eram indivíduos eruditos que já integravam aspetos teóricos e simbólicos à sua arte, o que, por sua vez, atraía a adesão de cavaleiros ou gentlemen às suas Lojas muito antes do período convencionalmente associado ao surgimento da Maçonaria especulativa. Esta revisão fortalece a tese de Haywood (1923) ao indicar que a pedagogia maçónica, longe de ser um adorno posterior, era intrínseca à transmissão de um conhecimento complexo desde as suas origens documentadas. A natureza desta pedagogia encontra a sua mais antiga codificação nos Estatutos de William Schaw (1598 e 1599)[10]. Estes documentos, promulgados pelo Mestre de Obras do Rei Jaime VI da Escócia, transcendem a mera regulação profissional ao estabelecerem uma estrutura organizacional que pressupõe uma formação integral. Os estatutos prescrevem a eleição anual de um Vigilante para cada Loja, a obrigatoriedade de registo meticuloso das admissões de Aprendizes e a realização de testes de habilidade e dignidade antes da admissão de um novo membro. Normas como o período mínimo de sete anos de aprendizagem e mais sete para se tornar Companheiro, bem como a proibição de trabalhar com cowans (profanos não-iniciados), institucionalizavam um sistema de iniciação gradual que assegurava não só a competência técnica, mas também a integração num corpo social coeso, regido por princípios de honestidade, lealdade e caridade fraternal. Este quadro regulamentar, que incluía até mesmo disposições sobre a segurança nos locais de trabalho, evidencia que a Loja operativa escocesa era, de facto, uma instituição multifacetada que funcionava simultaneamente como escola, associação beneficente e espaço de sociabilidade, preparando o terreno para a sua posterior evolução.
Com a transição histórica para a Maçonaria especulativa, o conhecimento operativo concreto da construção em pedra foi progressivamente transformado em simbolismo moral e filosófico para a construção do caráter e da consciência. Foi neste contexto que a iniciativa de William Preston[11], no século XVIII, ao sistematizar o ensino por meio de graus e conferências, procurou transformar a Loja Maçónica numa verdadeira sala de aula simbólica. Contudo, importa salientar que esta não foi uma invenção ex nihilo, mas antes a sistematização e ampliação de uma estrutura preexistente. A própria natureza do ritual, entendida pela antropologia como um rito de passagem e de formação, opera uma transformação ontológica no neófito, diferenciando-o do profano através de um processo de aprendizagem consciente e inconsciente . A Arte da Memória[12], uma técnica mnemónica de visualização arquitetónica praticada na Escócia pré-moderna, é apontada por Stevenson (1990) como um elo perdido crucial neste processo, conectando o treino operativo com as práticas de visualização de místicos heterodoxos e fornecendo uma base metodológica para a pedagogia ritualística que se desenvolveria.
Para Haywood (1923), a educação maçónica é, portanto, conceptualizada como um processo dinâmico e transformativo que preenche o amplo abismo entre a impotência do bebê e as múltiplas capacidades da natureza adulta. É um empreendimento profundamente social que prepara o indivíduo para a vida em comunidade. A busca por mais Luz, pedra angular da identidade maçónica moderna, não é uma invenção especulativa do século XVIII, mas uma característica orgânica da tradição, como atestam os próprios Estatutos de Schaw, que já exigiam a busca por um julgamento suficiente, da dignidade, qualificação e habilidade dos seus membros[13]. Deste modo, a pesquisa maçónica séria, longe de ser um mero exercício de antiquário, consiste em escavar as camadas de significado histórico e filosófico que constituem a sua tradição, reafirmando o seu compromisso intrínseco com a educação como ferramenta de construção individual e fraternidade universal.
Análise das Escolas à Luz da Nova Historiografia
Uma vez discutido esses pressupostos históricos e filosóficos da educação maçónica, procede-se agora a uma análise crítica das Escolas de Pensamento identificadas baseada na literatura e nos argumentos de Pound (1915) e Haywood (1923), assim como na crítica de Snoek (2008) e Lee (2022). Esta análise será conduzida à luz do quadro metodológico previamente definido, que integra as dimensões histórica, filosófica, comparativa e crítica, e será informada pelos contributos da nova historiografia maçónica.
1.1. A Escola Científica (William Preston)
A Escola Científica, cujo expoente máximo foi William Preston (1742-1818), representa um dos esforços mais sistemáticos e ambiciosos para alicerçar a prática maçónica sobre uma base pedagógica estruturada. Produto intelectual característico do Iluminismo, Preston concebeu a Maçonaria como a instituição social ideal para colmatar uma lacuna crítica do seu tempo: a falta dramática de acesso à educação formal para as grandes massas populacionais. A sua obra seminal, Illustrations of Masonry (1772), não foi apenas uma compilação ritualística, mas o fundamento de um projeto educativo metódico que visava transformar a Loja maçónica numa verdadeira academia de conhecimento organizado.
A sua filosofia educacional responde de forma clara e coerente às três questões fundamentais propostas por Roscoe Pound. Quanto ao fim último da Maçonaria, Preston defendia que a Ordem existia primordialmente para difundir Luz, isto é, espalhar conhecimento maçónico organizado entre os seres humanos. O maçom ideal deveria, antes de tudo, cultivar diligentemente a sua mente, estudar as artes e ciências liberais e tornar-se um indivíduo genuinamente erudito e informado. Sobre a sua relação com outras instituições, a Maçonaria mantinha uma relação de complementaridade sinérgica: se o Estado preservava a ordem temporal e a Igreja cultivava a moralidade espiritual, à Maçonaria cabia a nobre missão de tornar os homens moral e intelectualmente melhores através do ensino organizado e da difusão sistemática do conhecimento útil (Pound 1915). No que concerne aos seus princípios de atuação, a Ordem deveria alcançar o seu propósito através de símbolos cuidadosamente selecionados e de conferências pedagogicamente estruturadas que, primeiro, advertiam eficazmente o maçom a estudar e, segundo, efetivamente lhe ensinavam um sistema completo de conhecimento organizado (Pound 1915).
Preston materializou sua visão através de um elaborado sistema de palestras, nas quais ferramentas e implementos de arquitetura eram cuidadosamente selecionados para imprimir na memória verdades sábias e profundas, por meio de associações vívidas e memoráveis. Seu famoso Lecture da Ordem foi concebido como um sistema regular de conhecimento, demonstrado nos princípios mais claros e fundamentado nas bases mais sólidas. No entanto, é fundamental contextualizar esse projeto à luz da nova historiografia. A pesquisa de Snoek (2008) revela que o projeto educativo de Preston se desenvolveu em um contexto no qual a própria instituição maçônica já possuía uma tradição educativa interna. Um exemplo disso é o caso de Hugo O’Kelly perante a Inquisição de Lisboa, em 1738, quando maçons operativos instruíam maçons especulativos em teoria arquitetônica. Isso sugere que Preston não criou um sistema educacional do zero, mas sim sistematizou e ampliou uma prática preexistente[14].
Na sua análise crítica, Roscoe Pound (1915) admira o espírito e a intuição fundamental de Preston, mas reconhece realisticamente que os detalhes concretos do seu ambicioso esquema para expor todo o conhecimento humano estão naturalmente obsoletos para os maçons dos séculos XX e XXI. A sua principal crítica não se dirige à meta educativa fundamental, mas à metodologia e ao conteúdo congelados no tempo histórico específico do século XVIII. Pound (1915) alerta para o perigo sempre presente de se preservar os termos literais das conferências à custa de sua ideia fundamental vital. A genialidade adaptativa de Pound está em reinterpretar a visão prestoniana face aos desafios modernos específicos. Ele argumenta convincentemente que, se Preston estivesse vivo contemporaneamente, não estaria repetindo mecanicamente lectures sobre gramática e retórica clássicas, mas sim focando inteligentemente em necessidades contemporâneas prementes de conhecimento, ou seja, há uma preocupação, por parte de Pound, de modernizar a Maçonaria sem perder sua essência e tradição. Isso porque, assim como outras ciências e estudos, a Maçonaria evolui com o tempo.
Assim, Pound (1915) propõe dois exemplos visionários: primeiro, o ensino de Ciências Sociais para combater eficazmente a divisão de classes e a falta de simpatia social; e segundo, a promoção de um Cosmopolitismo esclarecido, formando Lojas que funcionassem como centros intelectuais onde os homens saíssem cheios de novas ideias de justiça social, justiça cosmopolita e verdadeira internacionalidade. Esta releitura mantém a essência do projeto prestoniano, a Maçonaria como farol de luz real na comunidade[15], mas atualiza os seus meios e conteúdos, demonstrando a vitalidade da sua contribuição quando submetida a uma análise crítica e contextualizada.
1.2. A Escola Racional
A Escola Racional ou Filosófica, cujo principal arquiteto foi o filósofo alemão Karl Christian Friedrich Krause (1781-1832), oferece uma fundamentação conceptual profundamente sistemática para a Maçonaria, radicada no solo do idealismo alemão póskantiano[16]. Doutor em Filosofia pela Universidade de Jena, onde foi aluno de figuras como Fichte e Schelling, Krause trouxe ao seu estudo da Ordem um rigor intelectual distintamente académico. Tornou-se maçom em 1805, motivado pelo seu ideal de uma sociedade universal, e dedicou-se imediatamente a um estudo profundo da Fraternidade, produzindo obras fundamentais como Höhere Vergeistigung der echt überlieferten Grundsymbole der Freimaurerei (1811) e Die drei ältesten Kunsterkunden der Freimaurerbrüderschaft (1819). Contudo, as suas interpretações liberais e a sua abordagem filosófica inovadora enfrentaram forte resistência no seio de uma Maçonaria alemã conservadora, resultando na sua exclusão e criando um obstáculo duradouro ao pleno reconhecimento das suas ideias no seu país de origem .
Para compreender a sua visão maçónica, é imperativo situar Krause no seu contexto intelectual mais amplo. Roscoe Pound (1915) astutamente localiza as origens remotas do seu pensamento no renascimento do Direito Natural no século XVII, um período de efervescência mental que emancipou a filosofia de Aristóteles e a jurisprudência da teologia. Deste caldo cultural, emergiu uma conceção de uma lei fundada na razão universal, aplicável a todos os seres humanos enquanto tal, que criou o terreno fértil para as ideias krausianas de fraternidade humana e organização racional da sociedade. A sua filosofia, entendida no seu todo como um sistema de Identitätsphilosophie (filosofia da identidade) que procura reconciliar espírito e natureza, encontra a sua expressão cosmoteológica no panteísmo, um termo que o próprio Krause cunhou para descrever a sua visão de Deus como uma essência infinita que contém e permeia o universo, sem com ele se esgotar .
É sobre estes alicerces que Krause constrói a sua teoria organicista da sociedade. Nesta visão, a sociedade não é um mero aglomerado de indivíduos, mas um organismo vivo (Gliedbau) no qual instituições como o Estado, a Igreja, as universidades e as associações atuam harmonicamente como órgãos especializados de um único corpo social. Cada uma destas instituições possui uma função específica, mas todas se dirigem coordenadamente a um fim comum supremo: a perfeição integral da humanidade. Neste esquema, o Estado não é o soberano absoluto, mas antes um órgão especializado cuja missão é assegurar as condições básicas para que as outras formas de atividade humana, a arte, a ciência, a moral e a religião, se possam desenvolver livre e plenamente. Esta visão opunha-se conscientemente ao pessimismo sociológico do seu tempo, defendendo com otimismo a fé na eficácia do esforço consciente para moldar deliberadamente o progresso social.
Dentro desta estrutura conceptual complexa, Krause identifica e define o propósito e o lugar específico da Maçonaria. Para ele, a humanidade é regulada por três grandes sistemas, cada um com a sua organização própria: a Religião, governada pela Igreja e regida por sanções sobrenaturais; a Lei, governada pelo Estado e imposta pela força coerciva organizada; e a Moral, regida pela sanção interior da consciência e pela desaprovação social. Krause detecta então uma lacuna crucial: se a Religião tem a Igreja e a Lei tem o Estado, a Maçonaria organiza e confere uma eficácia social à Moral (Göcke 2025). A sua natureza cosmopolita universal, o seu respeito inclusivo por todas as crenças honestas e a sua lealdade a todos os Estados legítimos, sem com nenhum se confundir dogmaticamente, tornam-na a instituição ideal para este fim moral universal. A Ordem teria, portanto, a missão histórica de organizar os sentimentos morais universais da humanidade e colocar atrás deles a força da tradição e do preceito, e organizar a poderosa sanção da desaprovação humana universal.
As respostas de Krause às três questões fundamentais de Pound (1915) sintetizam sistematicamente esta visão. Quanto ao fim último, a Maçonaria existe para organizar racionalmente os sentimentos morais da humanidade, contribuindo decisivamente para a sua perfeição integral. Sobre a sua relação com outras instituições, todas, Estado, Igreja, Maçonaria, devem trabalhar harmonicamente em cooperação sinérgica, como órgãos de um mesmo corpo social. No que concerne aos seus princípios de atuação, estes fundamentam-se na medição precisa e na restrição ética pela razão moral, ensinadas pedagogicamente como meios necessários para alcançar a perfeição individual e coletiva. A projeção histórica desta filosofia foi notável, particularmente em Espanha, onde o Krausismo, interpretado por Julián Sanz del Río, se tornou um amplo movimento cultural que impulsionou a modernização do sistema educativo espanhol através da Institución Libre de Enseñanza, defendendo uma educação laica, racional e harmoniosa entre espírito e natureza . Esta recepção ibérica bem-sucedida contrasta vivamente com a resistência que as suas ideias enfrentaram na Alemanha, realçando o caráter visionário e, de certa forma, à frente do seu tempo, da Escola Racional de Karl Christian Friedrich Krause.
1.3. A Escola Cristã
A Escola Cristã, cujo expoente máximo foi o Reverendo George Oliver (1782-1867), representa uma síntese peculiar entre a tradição maçónica e o pensamento teológico cristão do século XIX. Clérigo anglicano, educador e autor prolífico de mais de vinte obras sobre Maçonaria, Oliver trouxe para o estudo da Ordem não apenas a erudição de um académico, mas a fervorosa convicção de um homem de fé. A sua filosofia maçónica, produto do encontro entre as suas convicções pessoais, o contexto histórico vitoriano e o zeitgeist romântico[17], preocupa-se fundamentalmente com a relação entre a Maçonaria e a filosofia da religião, refletindo naturalmente a sua formação profissional e visão de mundo. Para compreender adequadamente o pensamento de Oliver, é essencial contextualizá-lo no âmbito do Romantismo filosófico que caracterizava a Inglaterra vitoriana. Este movimento, em reação ao racionalismo excessivo do Iluminismo, valorizava a intuição sobre a razão discursiva, a tradição sobre a inovação radical, e a unidade orgânica sobre a análise fragmentária. Pensadores românticos como Samuel Taylor Coleridge, com quem Oliver partilhava muitas afinidades intelectuais, objetavam que a filosofia crítica de Kant carecia de vitalidade existencial, argumentando que a unidade viva do espírito era violentada por distinções analíticas excessivas. Em seu lugar, elevavam a fé religiosa e a concepção artística como métodos que verdadeiramente faziam justiça à plenitude concreta da vida humana. Estas características manifestam-se claramente nos escritos maçónicos de Oliver, onde o poético frequentemente se confunde com o histórico, e o entusiasmo especulativo com a erudição factual.
A contribuição filosófica de Oliver pode ser sintetizada em três teorias fundamentais que procuram situar a Maçonaria no panorama mais amplo do conhecimento e da espiritualidade humanas. Em primeiro lugar, a sua teoria das três vias de acesso ao divino propõe uma engenhosa unificação trinitária do saber. Inspirado por Preston, para quem a Maçonaria era conhecimento organizado, e pelo espírito romântico da sua época, Oliver (1823) postulava que Deus se manifestava à humanidade através de três modos distintos porém complementares: pela Revelação, através da Religião institucional; pela Tradição, através da Maçonaria como veículo tradicional; e pela Razão, através da Ciência sistemática. Neste sistema integrativo, Maçonaria, Religião e Ciência formam um todo harmoniosamente interconectado, permitindo que indivíduos de diferentes credos encontrem unidade essencial na diversidade de aproximação ao absoluto.
Em segundo lugar, Oliver (1823) desenvolveu uma elaborada teoria da Maçonaria como tradição pré-diluviana, profundamente influenciado por William Hutchinson[18]. Defendia que a Maçonaria constituía um corpo de tradições de moralidade veiculado por alegorias e símbolos, com origens remontando aos primórdios da história bíblica. A sua teoria especulativa propunha que esta tradição pura fora originalmente ensinada por Set, praticada antes do Dilúvio universal, preservada fielmente por Noé e, após a dispersão de Babel, dividida historicamente em duas linhagens: a Maçonaria Pura, transmitida autenticamente através dos patriarcas bíblicos até Salomão e a instituição moderna; e a Maçonaria Espúria, corrompida entre os pagãos e dando origem aos mistérios e ritos iniciáticos da antiguidade clássica.
A terceira e talvez mais controversa contribuição foi a sua insistência na natureza essencialmente cristã da Maçonaria. Como clérigo anglicano convicto, Oliver (1823) afirmava dogmaticamente que a Maçonaria era uma instituição estritamente cristã na sua essência última. Acreditava firmemente que os princípios fundamentais do Cristianismo e doutrinas centrais como a Trindade estavam prefigurados simbolicamente no Antigo Testamento e, consequentemente, nos mais antigos símbolos maçónicos. No seu sistema interpretativo, o Grande Arquiteto do Universo era uma referência explícita a Cristo. Esta visão sectária foi legitimamente criticada por autores como Albert Mackey (1871) pelo seu exclusivismo.
Em síntese, as respostas de Oliver às perguntas centrais da filosofia maçónica formuladas por Pound (1915) revelam a coerência interna do seu pensamento. Quanto ao fim último da Maçonaria, este é idêntico ao da religião e da ciência: conduzir existencialmente à relação pessoal com o Absoluto (Deus). Quanto ao método, este consiste em preservar, transmitir fielmente e interpretar espiritualmente uma tradição de imemorial antiguidade, originária de um estado puro primitivo edénico. No que concerne aos princípios norteadores, os princípios fundamentais da Maçonaria são, em essência última, os princípios universais da religião expressos simbolicamente numa forma tradicional particular.
A Escola de Oliver deve ser reavaliada à luz da nova historiografia como um produto típico do século XIX, cuja metodologia histórica, a história tradicional, foi precisamente o alvo principal da crítica da chamada Escola Autêntica e, posteriormente, da nova historiografia. Contudo, tal como assinalado por Snoek (2008) e Prescott (2007), a sua abordagem permanece válida para o estudo da Maçonaria como fenómeno religioso e simbólico, uma das áreas de pesquisa futura apontadas pelos estudos contemporâneos. A valorização de Oliver da tradição legendária, embora criticável pelos padrões do rigor documental moderno, aponta para uma dimensão profundamente humana da experiência maçónica que transcende a mera factualidade histórica, constituindo-se como testemunho eloquente do diálogo permanente entre fé, razão e tradição que caracteriza a busca maçónica por mais Luz.
1.4. A Escola Filosófica
A Escola Filosófica, cujo expoente foi Albert Pike (1809-1891), representa a tentativa mais ambiciosa de construir um sistema metafísico completo a partir do simbolismo maçónico. A sua obra magna, Morals and Dogma of the Ancient and Accepted Scottish Rite of Freemasonry (1871), é um marco indelével no pensamento da Ordem, conceptualizando-a como um veículo privilegiado para o estudo dos princípios primeiros da existência através de símbolos que são, na sua visão, portadores de uma sabedoria perene. A sua abordagem, simultaneamente erudita e sincretista, não pode ser compreendida sem se considerar o seu contexto biográfico e intelectual. Homem de notória erudição autodidata, a sua trajetória multifacetada, que incluiu a docência, a exploração de fronteira, a advocacia, a poesia e a liderança militar, conferiu-lhe uma qualificação ímpar para abordar os problemas fundamentais da filosofia maçónica a partir de um ângulo enciclopédico. A sua nomeação a Soberano Grande Comendador do Rito Escocês Antigo e Aceito (Jurisdição Sul dos EUA) em 1859 colocou-o na posição ideal para dedicar mais de três décadas à sua obra monumental, que ele próprio descreveu como sendo cerca de metade compilação e metade autoria.
A filosofia de Pike é um produto intelectual complexo do seu tempo, refletindo criativamente correntes intelectuais por vezes contrastantes. A sua formação inicial na filosofia política e jurídica setecentista, uma amálgama do common law inglês e da especulação francesa sobre os direitos naturais, ecoa na sua conceção metafísica de equilíbrio como princípio universal. Nos seus estudos posteriores, engajou-se profundamente com o método metafísico então predominante, que buscava explicar o universo como a realização progressiva de uma Ideia ou Absoluto. Por fim, o avanço do materialismo científico na última fase da sua vida acentuou, por reação, a sua tendência natural para o misticismo e o idealismo filosófico, levando-o a buscar a realidade última em esferas que transcendiam a explicação puramente materialista (Lee 2022). É crucial notar que o seu método sincretista, que bebeu de fontes tão diversas como Éliphas Lévi, George Oliver e Charles Dupuis, foi subsequentemente alvo de críticas quanto à sua originalidade, com estudiosos como René Guénon a apontarem que uma considerável parte de Morals and Dogma é claramente plagiada de obras anteriores, particularmente do ocultista francês. Esta crítica, no entanto, não diminui o impacto da sua obra, mas antes complexifica a sua avaliação.
O sistema filosófico de Pike, que deve ser extraído de uma leitura integral e reflexiva de Morals and Dogma, assenta em dois pilares fundamentais: o princípio da tríade e a lei do equilíbrio universal. Pike identificou um princípio triádico como um arquétipo de completude presente em todos os sistemas de pensamento antigos e místicos, como a tríade Sabedoria-Força-Beleza ou Osíris-Ísis-Hórus. Esta tríade representa, em essência, um princípio passivo (restritivo), um princípio ativo (criativo) e o produto resultante (sintético). Para unificar a miríade de manifestações do Absoluto no mundo fenoménico, Pike postulou um princípio unificador supremo: o Equilíbrio (Equilibrium). Este não é conceptualizado como um mero balanceamento mecânico, mas como a Lei Secreta do Equilíbrio Universal que harmoniza dinamicamente todos os opostos aparentes, Sabedoria e Poder Divinos, Justiça e Misericórdia, Bem e Mal, Autoridade e Liberdade . É este equilíbrio dinâmico que confere estabilidade, harmonia e beleza intrínseca ao universo, uma visão que ressoa com a busca maçónica por mais Luz, entendida não apenas como conhecimento intelectual, mas como iluminação espiritual progressiva.
As respostas de Pike às questões centrais da filosofia maçónica formuladas por Pound (1915) revelam a coerência e a abrangência do seu sistema. Quanto ao fim último da Maçonaria, Pike defendia que o propósito imediato era a busca incessante da Luz espiritual, a conquista progressiva do princípio fundamental do universo (o Equilíbrio dinâmico). O fim último é conduzir existencialmente ao Absoluto, à unidade final com a qual todas as coisas devem concordar harmonicamente. Sobre a relação com outras instituições, a Maçonaria não rivaliza competitivamente com o Estado ou a religião, mas busca interpretá-las simbolicamente, mostrando a sua realidade última como manifestações particulares do único Absoluto universal. Ela é conceptualizada como a instituição universal da qual outras são fases locais e temporárias, ensinando pedagogicamente a relatividade essencial de credos e dogmas. No que concerne ao método, a Maçonaria busca atingir os seus fins elevados através de um sistema rico de alegorias e símbolos herdados da antiguidade sapiencial. Cabe a cada maçom individualmente, através do estudo independente e da reflexão pessoal profunda, descobrir autonomamente a Luz que estes símbolos contêm, dominando assim, pela compreensão intuitiva do princípio do Equilíbrio, a chave hermenêutica para compreender simbolicamente o universo .
A análise da Escola de Pike ganha nova profundidade quando avaliada à luz da nova historiografia. A sua abordagem simbolista e metafísica antecipou a necessidade, defendida por Snoek (2008) e Prescott (2007), de estudar a Maçonaria a partir das ciências das religiões, entendendo os seus rituais como objetos dinâmicos que evoluíram historicamente para se adaptarem a contextos culturais específicos. A sua defesa intransigente da liberdade de interpretação individual dos símbolos, uma verdadeira reforma protestante maçónica contra o autoritarismo interpretativo, alinha-se com a visão contemporânea que vê os significados rituais como construídos e negociados, e não como fixos e imutáveis[19]. O seu projeto de enriquecimento do universo simbólico maçónico através do estudo comparativo de todas as tradições sapienciais da humanidade, embora por vezes carente de rigor filológico pelos padrões atuais, foi um passo pioneiro no sentido de situar a Maçonaria no contexto mais amplo do esoterismo ocidental. A sua obra, portanto, permanece como um testemunho monumental do potencial da Maçonaria como caminho de busca espiritual e intelectual, um farol que, apesar das controvérsias que o rodeiam, continua a iluminar o caminho daqueles que buscam compreender as profundezas do simbolismo tradicional.
1.5. A Escola Histórica
A Escola Histórica, também conhecida como Escola Autêntica, constitui um marco divisório na historiografia maçónica, representando a transição de uma abordagem baseada em tradições lendárias para uma investigação que se pretendia rigorosamente fundamentada em evidências documentais. O seu surgimento formal deu-se com a fundação da Loja de Pesquisas Quatuor Coronati No. 2076, em Londres, consagrada em 1886, mas os seus fundamentos intelectuais foram estabelecidos por eruditos como Albert Gallatin Mackey (1807-1881). Mackey, uma figura proeminente antes da fundação da Quatuor Coronati, defendia que a história da Maçonaria deveria ser tratada com o mesmo rigor que qualquer outra disciplina histórica. Ele via com ceticismo as narrativas que aceitavam acriticamente as origens bíblicas e medievais da Ordem, proclamando que “as opiniões bem estabelecidas e cuidadosamente nutridas de alguns ficarão chocadas com qualquer tentativa de expor as falácias e falsidades que há muito mancham os anais da Maçonaria”. Para Mackey, a aprovação de tal empreendimento viria de todos os que, citando Cícero, acreditam que a história é “a testemunha do tempo, a luz da verdade e a vida da memória” (Mackey 1898).
A principal contribuição metodológica de Mackey, que seria adotada e ampliada pela Escola Autêntica, foi a distinção conceptual crucial entre o Histórico e o Tradicional. Em sua análise, o enunciado Histórico relaciona-se à Instituição a partir de um ponto de vista exotérico ou público, sendo sustentado por documentos autênticos e evidências verificáveis. Por outro lado, o Tradicional refere-se apenas ao seu caráter esotérico ou secreto, consistindo em narrativas desenvolvidas para fins simbólicos e filosóficos dentro dos rituais. Mackey argumentava que, enquanto confinadas ao domínio ritualístico, estas lendas tradicionais funcionavam como instrumentos válidos de filosofia e simbolismo. No entanto, ao serem transpostas para o campo da investigação histórica literal, tornavam-se inadequadas, pois eram realmente a expansão de uma ideia filosófica ou especulativa e, portanto, não podiam ser enquadradas na categoria de narrativas históricas factuais. Para operacionalizar essa distinção, ele dividiu a história maçónica em dois períodos: o PréHistórico, que depende inteiramente de lendas orais e tradições não verificáveis, e o Histórico, que se inicia com a narração de eventos sustentados por documentos contemporâneos[20].
Foi neste contexto intelectual que a Loja Quatuor Coronati foi fundada em 1884, tornando-se a institucionalização prática da Escola Histórica ou Escola Autêntica. Entre seus nove membros fundadores estavam figuras como Robert Freke Gould (1836-1915), autor da monumental History of Freemasonry em seis volumes; Sir Charles Warren, oficial do exército e arqueólogo; William James Hughan, editor da edição revista da Encyclopaedia de Mackey; e o Revd. Adolphus Frederick Alexander Woodford, considerado o mentor intelectual do grupo. A insatisfação profunda desses eruditos com a forma “imaginativa, acrítica e frequentemente ahistórica” como a história da Maçonaria vinha sendo exposta foi o motor de sua fundação (Lee 2022). A missão declarada da Loja era dedicar-se exclusivamente a uma abordagem baseada em evidências documentais (evidence-based) da história maçónica. O legado institucional da Quatuor Coronati é vasto e inclui a publicação ininterrupta de suas transações anuais, o Ars Quatuor Coronatorum (AQC), o mais importante repositório acadêmico de pesquisa histórica maçónica do mundo, e a criação de um Círculo de Correspondência (QCCC) global, que antecipou a erudição globalizada ao permitir a colaboração de maçons pesquisadores de todo o globo.
O legado metodológico da Escola, no entanto, deve ser compreendido de forma crítica. Conforme demonstrado por Snoek (2008), a escola operava sob um “positivismo extremo” que, ironicamente, frequentemente “dava a aparência de uma busca por evidências para se encaixar numa teoria preconcebida” (p. 12). A teoria central preconcebida era a narrativa linear da transição Operativo -> Transitório -> Especulativo. Esta visão foi minada pela nova historiografia pós-1986. John Hamill (1986) mostrou como os “autênticos” ignoraram contextos sociais, culturais e regionais distintos, construindo uma narrativa unificada a partir de fragmentos desconexos. Snoek (2008) aprofunda a crítica, demonstrando que a rígida dicotomia entre operativo e especulativo é anacrónica. Pesquisas como as de Scanlan (2004) revelam que muitos pedreiros, como Nicholas Stone, já integravam dimensões teóricas e simbólicas, e que a instrução de cavalheiros por operativos eruditos (como no caso de Hugo O’Kelly, 1738) era uma realidade pré-1717. Portanto, a teoria da transição, pedra angular da Escola Autêntica, não se sustenta face às evidências, exigindo uma abordagem mais nuanceada e contextual.
Em última análise, o legado da Escola Histórica é duplo. Por um lado, a sua teoria central sobre as origens foi superada. Por outro, o seu contributo é indelével: legou à Maçonaria uma infraestrutura de pesquisa (Lojas de pesquisa, publicações periódicas, redes de colaboração) fundamental para o desenvolvimento da erudição subsequente. A escola buscou compreender a tradição criticamente e, ao fazê-lo, mesmo com as limitações do seu paradigma positivista, ergueu os alicerces sobre os quais a pesquisa maçónica académica contemporânea continua a construir. O novo paradigma, contudo, exige que se avance para além do positivismo estrito, abraçando uma abordagem interdisciplinar que inclua a história das religiões e a antropologia para compreender a Maçonaria na sua plenitude.
Snoek (2008) aprofunda esta crítica ao demonstrar que a rígida distinção entre maçons operativos (simples artífices) e especulativos (cavalheiros) é anacrónica, como mencionado anteriormente. Com base em pesquisas de Matthew Scanlan (2004), Snoek mostra que muitos pedreiros, como Nicholas Stone (1587-1647) e o caso de Hugo O’Kelly, eram indivíduos eruditos que integravam aspetos teóricos e simbólicos à sua arte (Snoek, 2008:13). Isto sugere que a dimensão especulativa não foi uma invenção do século XVIII, mas uma característica intrínseca da tradição desde as suas origens documentadas. Portanto, a teoria da transição operativo-especulativa, pedra angular da Escola Autêntica, carece de sustentação face às evidências.
Em última análise, o legado da Escola Autêntica é duplo. Por um lado, a sua teoria central sobre as origens da Maçonaria Especulativa foi largamente superada pela nova historiografia. Por outro, o seu contributo é indelével: a Quatuor Coronati legou à Maçonaria uma infraestrutura de pesquisa, com as suas Lojas de pesquisa, publicações periódicas académicas e redes de colaboração, que se revelou fundamental para o desenvolvimento da geração seguinte de estudiosos. A escola não buscou destruir a tradição, mas antes compreendê-la criticamente, e ao fazê-lo, mesmo com as limitações do seu paradigma, ergueu os alicerces sobre os quais a pesquisa maçónica académica contemporânea continua a construir. A máxima de Mackey permanece verdadeira: a Escola Autêntica, em seu cerne, dedicou-se a separar competentemente, ainda que imperfeitamente, a história factual do simbolismo válido, enriquecendo imensamente a compreensão de ambos os campos. No entanto, o novo paradigma, tal como formulado por Snoek, Prescott e outros, exige que avancemos para lá do positivismo estrito, abraçando uma abordagem interdisciplinar que inclua a história das religiões, a antropologia e os estudos de performance para compreender a Maçonaria na sua plenitude como um fenómeno histórico, social e ritualístico dinâmico.
1.6. A Escola Esotérica
A Escola Esotérica da Maçonaria constitui uma corrente interpretativa que concebe a Ordem como um sistema de iniciação progressiva destinado a revelar mistérios espirituais interiores (esoterikos), compreensíveis apenas através do estudo especializado e da experiência ritual. Esta perspectiva, que floresceu particularmente nos círculos intelectuais europeus dos séculos XVIII e XIX, conecta-se criativamente à tradição do hermetismo renascentista, da alquimia espiritual e da chamada prisca theologia, atraindo pensadores que viam na Maçonaria um veículo de transmissão de sabedoria arcana. A emergência sistemática do Esoterismo Ocidental no final do século XVII criou uma zona de sobreposição conceptual natural com a Escola Romântica, ambas ansiando por um significado transcendente para os símbolos e rituais maçónicos.
A figura seminal desta escola no mundo anglófono foi Arthur Edward Waite (18571942), poeta, místico e erudito britânico cuja trajetória intelectual foi marcada por um profundo envolvimento com as correntes esotéricas do seu tempo. Como observa o seu biógrafo Gilbert (1987), Waite distinguiu-se por ter sido o primeiro a tentar um estudo sistemático da história do ocultismo ocidental, visto como uma tradição espiritual válida mais como aspectos da protociência ou como a patologia da religião. A sua jornada iniciática incluiu a iniciação na Hermetic Order of the Golden Dawn (1891)[21], na qual ascendeu aos mais altos graus antes de fundar a sua própria ordem, a Fellowship of the Rosy Cross (1915). O seu ingresso na Maçonaria em 1901 e, posteriormente, a recepção do grau de Chevalier Bienfaisant de la Cité Sainte (C.B.C.S.) do Rito Escocês Retificado na Suíça (1903), que acreditava corporizar a autêntica “Tradição Secreta” de iluminação espiritual, foram decisivos para a sua conceção da Maçonaria como um caminho místico.
A contribuição filosófica de Waite pode ser sintetizada em três eixos fundamentais. Em primeiro lugar, a sua defesa intransigente do carácter espiritual e não-mágico do esoterismo. Waite opunha-se vigorosamente às conceções que reduziam a tradição esotérica a operações teúrgicas ou a busca de poderes sobrenaturais, insistindo antes na sua dimensão de via interior de transformação espiritual. Em segundo lugar, a sua rejeição do alegorismo superficial em favor do simbolismo transcendente. Para Waite (1916), os símbolos maçónicos não eram meras alegorias morais, como muitas vezes se via em interpretações oitocentistas, mas chaves hermenêuticas que abriam o iniciado a realidades metafísicas. Em terceiro lugar, a sua conceção da iniciação como um processo de iluminação gradual. Diferentemente de visões que enfatizavam a eficácia ex opere operato dos rituais, Waite (1916) via a iniciação como um ponto de partida para um longo trabalho interior de decifração e assimilação dos símbolos, um processo que ele denominou de caminho do místico através dos símbolos. Nesse mesmo sentido, os escritos de Albert Pike e da Escola Filosófica aproximam-se das ideias de Waite, assim como a obra de Carl Jung pode contribuir para o diálogo entre essas tradições. Todos eles enfatizam a interpretação dos símbolos como um recurso pedagógico e prático, que transcende a Maçonaria e se aplica a diversas correntes de conhecimento, oferecendo caminhos para compreensão filosófica, psicológica e espiritual[22].
As respostas de Waite às questões centrais da filosofia maçónica formuladas por Pound (1915) refletem esta orientação mistério-iniciática. Quanto ao fim último da Maçonaria, este é a realização espiritual do indivíduo através do desvelamento progressivo dos mistérios contidos nos seus símbolos. A Ordem é, assim, um veículo de iluminação interior. Sobre a sua relação com outras instituições, a Maçonaria não rivaliza com Igreja ou Estado, pois opera num plano distinto, o da experiência espiritual direta e do conhecimento simbólico, complementando as vias da fé institucional e da razão secular. No que concerne aos seus princípios de atuação, o método é o do estudo aprofundado (scholia) dos símbolos e a participação consciente nos rituais, entendidos como dramas espirituais que, devidamente compreendidos, conduzem o iniciado a um estado de consciência superior.
A análise da Escola de Waite ganha nova profundidade quando contextualizada no âmbito da nova historiografia. A sua abordagem, outrora marginalizada pela “Escola Autêntica” como mera fantasia romântica, é reabilitada pela perspetiva interdisciplinar defendida por Snoek (2008) e Prescott (2007), para quem o estudo da Maçonaria a partir das ciências das religiões é um campo essencial de investigação. A visão de Waite antecipou a necessidade de estudar os rituais maçónicos não apenas como documentos históricos, mas como performances vivas portadoras de significado espiritual e veículos de transformação pessoal. A sua insistência na centralidade do simbolismo e na dimensão experiencial da iniciação alinha-se com a agenda de pesquisa contemporânea que busca compreender a Maçonaria como um fenómeno simbólico dinâmico, cujos significados são construídos e negociados pelos seus praticantes. Deste modo, a obra de Waite, longe de ser uma mera curiosidade histórica, permanece uma referência fundamental para quem busca compreender a profundidade espiritual da tradição maçónica, constituindo um testemunho eloquente do diálogo permanente entre razão, fé e experiência do sagrado que caracteriza a busca maçónica por mais luz.
1.7. A Escola Romântica
A Escola Romântica da Maçonaria constitui uma corrente interpretativa que se caracteriza pela adesão a uma visão da história da Ordem como uma tradição contínua e ininterrupta desde tempos imemoriais. Esta perspetiva, que segue em certa medida a narrativa andersoniana clássica, acredita numa conexão direta entre a Maçonaria Operativa medieval e a Especulativa moderna, remontando lendariamente a uma linhagem que inclui figuras bíblicas como Adão, os construtores do Templo de Salomão ou as guildas medievais. Difere fundamentalmente da Escola Autêntica pela sua recusa em reconhecer, ou pela interpretação particular das múltiplas transformações históricas que a Maçonaria sofreu ao longo do período para o qual existem registos documentais (Lee 2022).
A pedra angular conceptual da Escola Romântica é a crença na antiguidade abissal da Maçonaria, uma visão codificada e popularizada por James Anderson na sua obra fundacional, The Constitutions of the Free-Masons (1723). Anderson traça uma linhagem direta desde Adão, a quem atribui o conhecimento primordial da Geometria, a Arte Real por excelência, passando por Noé e a construção da Arca, até aos tempos modernos. Este relato elaborado estabeleceu firmemente a crença de que a Maçonaria é genuinamente imemorial, uma noção reforçada ritualisticamente pelo Aprendiz, que declara a instituição como antiga, sem dúvida, por ter subsistido desde tempos imemoriais. A função sociológica desta narrativa é clara: conferir à Maçonaria uma aura de mistério, antiguidade venerável e autoridade transcendente, elevando assim o seu estatuto perante os seus membros e a sociedade. De certa forma, esse enredo corrobora com o que Mackey chama de tradição e que vai justificar muitos mitos que não são historicamente comprovados, mas são aceitos como parte de um aspecto lendário da Ordem.
As origens desta história tradicional podem ser rastreadas até as Old Charges. Um dos mais antigos documentos, o Poema Regius (c. 1390-1425), afirmava que a arte da maçonaria começou com Euclides no Egito antigo e chegou à Inglaterra no reinado do Rei Athelstan (924-939). O Manuscrito Matthew Cooke amplia ainda mais esta linhagem, remontando a Jabal, filho de Lamech (Génesis 4:20-22)[23]. Estes mitos fundacionais formaram a base para as constituições manuscritas subsequentes, que consistentemente traçavam a Maçonaria até tempos bíblicos e fixavam o seu estabelecimento institucional na Inglaterra durante o reinado de Athelstan. A narrativa culmina na Lenda de York, que relata a convocação de uma grande assembleia de maçons em York por volta de 926 d.C. por Edwin, filho de Athelstan, uma figura curiosamente ausente dos registos históricos não-maçónicos. Nesta assembleia lendária, as tradições e cargas teriam sido codificadas, estabelecendo York como o berço lendário da Maçonaria inglesa.
A narrativa mais central e influente para o ritual maçónico é, contudo, a Lenda do Templo de Salomão. Anderson, compilando os Antigos Deveres Góticos, integrou plenamente esta alegoria na história oficial da Ordem. A construção do Templo, sob a direção do arquiteto Hiram Abiff, forneceu o drama central para os graus simbólicos, particularmente o Terceiro Grau. Como observa Albert Mackey (1898), o século XVII testemunhou um enorme interesse europeu pela arqueologia bíblica de Jerusalém e do Templo de Salomão, alimentado por modelos em escala detalhados, planos arquitetónicos e escritos eruditos de figuras como Isaac Newton. Foi neste contexto cultural que a alegoria maçónica assumiu a sua forma característica (Lee 2022). Mackey (1898) sugere que a Maçonaria sintetizou criativamente três grandes tradições arquitetónicas e culturais do Ocidente: a Hebraica (o Templo de Salomão), a Grega (a geometria e a filosofia) e a Gótica (as guildas medievais de construtores).
Um dos acréscimos mais dramáticos ao romance maçónico foi elaborado pelo Cavaleiro Andrew Michael Ramsay. Na sua famosa oração/discurso de 1737, Ramsay propôs que a Maçonaria europeia moderna descendia diretamente de uma interação histórica entre pedreiros cruzados e os Cavaleiros Hospitalários. Sustentou que esses cruzados maçons reviveram heroicamente a arte arquitectónica com segredos recuperados na Terra Santa. Ramsay havia sido iniciado previamente numa ordem templária nãomaçónica francesa, sendo esta a provável fonte da sua introdução do templarismo na Maçonaria. Esta narrativa cativante, repetida no mais antigo ritual dos Modernos (o Manuscrito de Berne, c. 1740-44), cativou a imaginação continental e deu origem a inúmeros Ritos e Graus laterais que incorporaram extensivamente a iconografia e o mito dos Cavaleiros Templários na tradição maçónica, apesar da ausência de evidência histórica que ligue realisticamente a Ordem do Templo dissolvida em 1312 à Maçonaria especulativa do século XVIII.
As respostas da Escola Romântica às questões centrais da filosofia maçónica são coerentes com a sua visão da história. Quanto ao fim último da Maçonaria, este é a transmissão e perpetuação de uma sabedoria ancestral e imemorial, conectando o maçom a uma linhagem sagrada de construtores. Sobre a sua relação com outras instituições, a Maçonaria é vista como a herdeira e guardiã de uma tradição que precede e transcende todas as outras instituições humanas, incluindo Igrejas e Estados. No que concerne aos seus princípios de atuação, o método é a adesão fiel aos mitos fundadores e a participação nos rituais entendidos como reatualizações de eventos arquetípicos.
A análise da Escola Romântica é radicalmente recontextualizada pela nova historiografia. As suas narrativas, as origens bíblicas, a Lenda de York, a Conexão Templária, são agora entendidas, tal como propõe Snoek (2008), não como falsidades a serem descartadas, mas como mitos fundadores, tradições, com uma função análoga à mitologia nas civilizações antigas. O novo paradigma, seguindo metodologias da história das religiões e da antropologia, não as rejeita, mas analisa-as criticamente para compreender a sua função identitária, simbólica e performática no seio da Ordem. A Escola Romântica, portanto, deixa de ser a antítese histórica da “Escola Autêntica” para se tornar um objeto de estudo crucial para se compreender como a Maçonaria construiu a sua identidade e significado através de narrativas poderosas que, independentemente da sua factualidade, moldaram profundamente a sua autocompreensão e o seu impacto cultural.
1.8. A Escola Autêntica (Reavaliação Crítica)
A análise detalhada das sete Escolas da Maçonaria, Científica (Preston), Racional (Krause), Cristã (Oliver), Filosófica (Pike), Histórica ou “Autêntica” (Gould), Esotérica (Waite) e Romântica (Ramsay), culminando na síntese de Pound (1915) revela um ecossistema intelectual notavelmente diverso e resiliente. A conclusão fundamental é que a força da Ordem reside precisamente na sua capacidade de abrigar, sob o mesmo teto simbólico, correntes de pensamento aparentemente antagónicas. Contudo, esta diversidade só se sustenta quando submetida a um rigor metodológico crítico, condição para a qual a crítica fundamental de Jan A.M. Snoek à “Escola Autêntica” foi um ponto necessário.
Conclusão: A Relevância das Sete Escolas no Século XXI
Após a análise detalhada das sete escolas, torna-se evidente que a força da Ordem reside precisamente na sua capacidade de abrigar, sob o mesmo teto simbólico, correntes de pensamento aparentemente antagónicas. Esta diversidade, contudo, só se sustenta quando submetida a um rigor metodológico crítico. Neste sentido, a contribuição da Escola Histórica (ou Autêntica) e a sua subsequente crítica foram pontos necessários de inflexão. Como detalhado na seção 4.5, a escola cumpriu um papel histórico crucial ao introduzir o imperativo da evidência documental, mas o seu paradigma positivista e a sua narrativa linear de transição foram desmontados pela nova historiografia. Assumir este fato não é desprezar a sua contribuição, mas sim reconhecer que o estudo maçônico foi libertado de um paradigma limitador, sendo agora recolocado num patamar que exige interdisciplinaridade e rigor metodológico renovado. A interdisciplinaridade, pedida por Snoek (2008) e outros, requer precisamente estas múltiplas lentes de análise.
A tabela e o gráfico seguinte sintetizam como as várias escolas se reposicionam neste novo contexto:

| Escola | Reposicionamento no Pós-Paradigma |
| Romântica | Deixa de ser lida como história factual para ser estudada como mito fundador e narrativa de identidade, com função análoga à mitologia nas civilizações antigas. |
| Esotérica & Filosófica | Ganham novo fôlego com o chamado de Snoek e Prescott para o estudo da Maçonaria a partir das ciências das religiões, entendendo os rituais como performances dinâmicas e vias de transformação espiritual e intelectual. |
| Científica & Racional | A sua ênfase no conhecimento e na moralidade encontra ressonância na interdisciplinaridade contemporânea, que exige abordagens da sociologia, história das ideias e filosofia. |
| Síntese (Pound) | A sua visão da Maçonaria como força civilizatória e universal permanece uma poderosa ferramenta para articular o propósito da Ordem no mundo moderno, promovendo um ideal de humanidade fraterna. |
Em síntese, o futuro do estudo da Maçonaria transcende a mera reprodução de modelos históricos ou biográficos, como os de Preston ou Pound, exigindo antes a formação de investigadores capazes de operar com as ferramentas da nova historiografia crítica e da pesquisa interdisciplinar. Tal como a construção das catedrais medievais, este empreendimento requer precisão, paciência e visão, combinando análises prosopográficas, estudo detalhado dos rituais como objetos dinâmicos e avaliação do impacto social e cultural da instituição, conforme salientado por Roberts (1969) e Hanou (1995).
As sete Escolas[24], quando reinterpretadas à luz de metodologias contemporâneas, não se configuram como categorias rígidas, mas como chaves de acesso a um território intelectual vasto e multifacetado, no qual a Maçonaria deve ser compreendida tanto em sua dimensão histórica quanto simbólica, filosófica e social. A vitalidade do pensamento maçônico no século XXI dependerá da capacidade de evitar a estagnação dogmática, como alertava Pound, promovendo uma busca contínua por luz, agora entendida não apenas como conhecimento ritualístico, mas como investigação crítica, interdisciplinar e aberta à pluralidade de interpretações.
Dessa forma, a Maçonaria se reafirma como um campo fecundo para a pesquisa acadêmica: ao mesmo tempo em que preserva sua tradição simbólica e iniciática, oferece um terreno privilegiado para a reflexão crítica sobre cultura, moralidade, sociabilidade e espiritualidade, mantendo-se relevante e produtiva na interface entre história, filosofia e estudos sociais.
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Fonte: https://www.academia.edu/
Notas
[1] Original publicado na Revista de Maçonaria de Portugal nº10 de 2026. https://revistademaconaria.pt/
[2] PhD em Ciências Políticas pela Universidade de Coimbra, Membro da Loja Holy Land nº50, Grande Loja de Israel. Maestria em Cabalá na Escola de Meir Saban. https://roi-luria.webnode.pt/
[3] H. L. Haywood nasceu perto de Cincinnati, em 1886. Estudou no Union Biblical Seminary em Dayton e no Lawrence College, em Appleton, Wisconsin. Após treze anos de ensino e trabalho público, tornou-se um dos pioneiros do movimento educacional maçônico. Foi editor-chefe da National Masonic Research Society, editora de The Builder, por muitos anos. Desde 1925, foi o editor do New York Masonic Outlook, jornal oficial da Grande Loja de Nova York, F. & A. M., e foi editor associado de várias revistas maçônicas. Também foi membro do Correspondence Circle da Quatuor Coronati Lodge No. 2076, de Londres. O Sr. Haywood é autor de A Vest Pocket History of Masonry, Symbolical Masonry, Great Teachings of Masonry, The Visitant Christian Mysticism e Introduction to Freemasonry. Escreveu vários folhetos sobre diferentes aspetos da história maçônica, ritualismo e simbolismo, e contribuiu com centenas de artigos para revistas maçônicas.
[4] Nathan Roscoe Pound (1870-1964), proeminente jurista americano, Decano da Harvard Law School (19161936) e pioneiro da jurisprudência sociológica, foi um ativo e influente maçom. Foi membro e Past Master da Lancaster Lodge No. 54 (Nebraska), serviu como Deputy Grand Master da Grande Loja de Massachusetts em 1915 e foi um dos fundadores da Harvard Lodge. Sua principal contribuição à filosofia maçônica foi a série de palestras compilada no livro Lectures on the Philosophy of Freemasonry, na qual analisou e sistematizou as diferentes escolas de pensamento da Ordem, como as de Preston, Krause, Oliver e Pike, tornando-se uma referência fundamental sobre o tema.
[5] Em Lectures on the Philosophy of Freemasonry, Pound (1915), aborda questões fundamentais sobre a natureza e o propósito da Maçonaria, sua relação com outras instituições humanas e os princípios que a orientam em busca de seus objetivos. O autor se propõe a refletir sobre o que a Maçonaria deveria ser e quais fins ela deveria perseguir, levando em conta tanto a razão quanto o aspecto espiritual e filosófico de sua prática. Pound, em sua análise, identifica quatro filósofos maçônicos (William Preston, Karl Christian Friedrich Krause, George Oliver e Albert Pike), cada um apresentando um sistema distinto de filosofia maçônica. A filosofia maçônica, segundo Pound, pode ser dividida em dois grupos: os sistemas intelectuais, que se baseiam na razão, e os sistemas espirituais, que são influenciados por ideias místicas da filosofia hermética. Pound também discute a contribuição de William Preston, que enfatiza o conhecimento como a principal finalidade da Maçonaria. Para Preston, a Maçonaria existia para “difundir luz”, ou seja, para promover o conhecimento entre os homens, e os maçons deveriam se dedicar ao estudo das artes liberais e ciências. No entanto, Pound argumenta que o sistema de Preston não pode ser completamente aplicado nos dias atuais, pois as necessidades educacionais mudaram. Contudo, ele destaca a importância da busca contínua por conhecimento e o papel da Maçonaria como um centro de “luz”, que deve promover uma educação que vá além da mera instrução formal. O trabalho de Pound também reflete sobre o potencial da Maçonaria em liderar movimentos de justiça social, internacionalidade e humanismo, com uma abordagem mais moderna do que a proposta por Preston. Embora Preston tenha cometido equívocos ao colocar o conhecimento como o único fim, Pound reconhece que ele estava certo ao enxergar o conhecimento como um dos meios para alcançar a perfeição humana dentro da Fraternidade.
[6] Frances Amelia Yates (1899–1981) foi uma destacada historiadora inglesa do Renascimento e do esoterismo ocidental. Embora não fosse maçom, sua obra “The Rosicrucian Enlightenment” (1972) tornou-se uma referência fundamental para compreender as correntes filosóficas e esotéricas que influenciaram o desenvolvimento da Maçonaria especulativa. Seus estudos sobre hermetismo, tradição rosacruz e arte da memória proporcionaram novas perspetivas sobre o contexto intelectual onde a Maçonaria moderna se formou.
[7] Antoine Faivre (1934–2021) foi um dos fundadores acadêmicos do estudo do esoterismo ocidental como disciplina universitária. Maçom ativo (iniciado em 1969 na Grande Loge Nationale Française), sua principal contribuição à filosofia maçônica foi a definição de “esoterismo ocidental” através de seis características fundamentais, incluindo correspondências, natureza viva, imaginação e mediação, experiência de transmutação, prática da concordância e transmissão iniciática – oferecendo uma estrutura teórica essencial para compreender as dimensões simbólicas e iniciáticas da Maçonaria.
[8] Sobre o assunto, recomenda-se a leitura da coleção Maçonaria Operativa, Volume I, II e III: As Antigas Constituições Maçônicas (Lora, R. S., & Urpia, L., 2025). Alicante, Espanha: Editora Maçônica. Distribuído por UICLAP. Disponível em: uiclap.bio/portalmasonica, que oferece uma análise aprofundada das práticas maçônicas históricas e suas implicações filosóficas.
[9] Nicholas Stone (1586/87–1647) foi um escultor e arquiteto inglês, nomeado mestre pedreiro de Jaime I em 1619 e de Carlos I em 1626. Ele foi responsável pela construção da Banqueting House de Inigo Jones, em Whitehall, e também por monumentos funerários elaborados para figuras proeminentes de sua época. Seu trabalho arquitetônico foi um dos primeiros exemplos do estilo barroco na Inglaterra, ainda pouco apreciado no país na época. Stone teve uma formação influenciada pela escultura neerlandesa e foi influenciado pela antiguidade clássica, como refletido em várias de suas obras funerárias em Westminster Abbey. Ele também projetou outras obras notáveis, como o York House Water Gate e a igreja de St. Mary the Virgin, Oxford, além de Goldsmith’s Hall. Stone morreu em 1647 e, apesar de seu trabalho inovador, foi sempre visto mais como um artesão do que como um artista. Para mais detalhes, veja: The Works of Nicholas Stone: English Baroque Sculpture and Architecture (Stone, N. 1586/87–1647, 2008).
[10] Para mais detalhes, consulte a nota 6.
[11] William Preston (1742–1818) foi um prolífero escritor, editor e maçom escocês, reconhecido como um dos sistematizadores fundamentais do ensino maçônico. Sua obra Illustrations of Masonry (1772) tornou-se referência doutrinária, organizando e padronizando as instruções e conferências dos graus simbólicos. Criador de um sistema próprio de palestras, foi figura central na Loja Antiquity e protagonista de cisões e reconciliação com a Grande Loja dos Moderns. Seu legado pedagógico permanece vivo através da Conferência Prestoniana, mantida até hoje pela Grande Loja Unida da Inglaterra, e sua influência é reconhecida na transição do estudo maçónico para uma abordagem mais intelectual e estruturada.
[12] A Arte da Memória (ars memoriae) é uma prática que remonta à Grécia e Roma antigas, mas se desenvolveu especialmente durante a Renascença, como uma técnica para melhorar a memorização de informações complexas e abstratas, essencialmente ligada ao domínio das artes de retórica, filosofia e teologia. Ela consistia no uso de imagens e locais mentais para organizar e recordar conhecimento. No contexto da maçonaria, essa arte adquiriu uma relevância particular, especialmente nas tradições de memorização de “velhos encargos” ou Old Charges. Um dos textos mais notáveis a incorporar essa prática é o de William Schaw, cuja Schaw’s Old Charges (final do século XVI) apresenta uma série de instruções para maçons sobre o comportamento moral e ético, além de uma ênfase em práticas de memorização de juramentos e deveres fundamentais da maçonaria. A relação da Arte da Memória com as tradições maçônicas pode ser vista no fato de que os maçons, como parte de sua formação, precisavam memorizar uma série de regras, rituais e símbolos, muitos dos quais eram relacionados à construção simbólica da memória coletiva da ordem. Além disso, filósofos como Giordano Bruno foram cruciais para o desenvolvimento e disseminação das ideias da arte da memória, particularmente na forma como a utilizava para unir o pensamento filosófico e místico. Bruno, que se inspirou nas tradições neoplatônicas e herméticas, elaborou uma versão mais esotérica da técnica, incorporando símbolos místicos e cabalísticos, conectando a memória à reflexão metafísica e ao processo de elevação espiritual. Ele acreditava que a arte da memória não era apenas uma ferramenta prática, mas um meio de acessar e organizar as verdades universais do cosmos. A arte da memória também foi profundamente influenciada pelo Renascimento, quando figuras como Ramon Llull e Giovanni Pico della Mirandola adotaram essas técnicas como formas de organização do saber divino e humano. Schaw, embora focado em uma interpretação mais prática e institucional da maçonaria, compartilha com esses pensadores o uso da memória como um método para compreender e transmitir verdades essenciais. Por isso, a arte da memória não era vista apenas como uma técnica, mas como uma chave para a organização do conhecimento e para o acesso à sabedoria oculta e transcendente, tal como defendido por filósofos e místicos como Bruno.
[13] Lee, P. (2022). The eight schools of Freemasonry. Square Magazine, May Issue. Disponível em https://www.squarenews.org
[14] Em 1738, durante um interrogatório da Inquisição em Lisboa, Hugo O’Kelly, um coronel de infantaria de origem irlandesa e mestre de uma loja maçônica na cidade, revelou que, nas reuniões da sua Loja, discutia-se frequentemente a teoria arquitetônica. Ele explicou que, além dos membros da Loja, havia sempre dois ou três Maçons Operativos Livres, que instruíam os outros membros, a quem chamou de Nobres e Cavalheiros Maçons Livres, sobre os fundamentos da arquitetura. Esse relato sugere uma diferenciação interessante entre os Maçons Operativos Livres, que possuíam conhecimentos práticos e teóricos, e os Cavalheiros Maçons, que eram mais interessados na parte especulativa da Maçonaria. Como argumenta Matthew Scanlan, os primeiros, os Maçons Operativos Livres, eram os verdadeiros “pedreiros especulativos”, enquanto os “Cavalheiros Maçons” eram, essencialmente, estudantes dessa arte (Scanlan, 2004). Este episódio evidencia uma distinção fundamental entre maçons operativos e especulativos. A divisão tradicional entre “maçons operativos”, que eram os praticantes da arte da construção, e “maçons especulativos”, associados ao estudo e à filosofia maçônica, pode ser questionada à luz deste caso. Na realidade, muitos dos chamados “maçons operativos” eram tanto operativos quanto especulativos, pois além de sua prática cotidiana da construção, também se dedicavam à especulação filosófica. Por outro lado, os Cavalheiros Maçons, que costumavam ser identificados como “especulativos”, não eram, de facto, operativos. Assim, como argumenta Scanlan (2004), a utilização de termos como “maçons operativos” e “maçons especulativos” para distinguir esses grupos é problemática e não reflete corretamente a natureza híbrida de suas atividades. Como tal, Scanlan (2004) propõe a substituição desses termos por “pedreiros” e “maçons” para se referir a ambos os grupos, já que ambos os grupos praticavam tanto a maçonaria operacional quanto a especulativa. Esta mudança de perspetiva reflete a nova abordagem na investigação da história maçônica, que busca uma compreensão mais profunda e integrada do desenvolvimento das práticas e ensinamentos dentro da Ordem Maçônica. A pesquisa sobre esse episódio, e sobre as origens da Maçonaria especulativa, desenvolveu-se dentro de um novo paradigma investigativo que questiona as visões tradicionais e traz à tona a complexidade histórica da Maçonaria. Essa mudança de metodologia e interpretação ajudou a aprimorar a compreensão das origens da Maçonaria, revelando a interdependência entre a prática e a especulação desde os primeiros tempos da Ordem.
[15] É interessante notar a comparação implícita feita por Roscoe Pound ao descrever a Maçonaria como um “farol de conhecimento” para a humanidade, uma imagem que remete a uma ideia comum em várias tradições religiosas e filosóficas, incluindo a tradição judaica. No contexto judaico, há o conceito de que os judeus são “o farol das nações” (Isaías 42:6), uma metáfora que sugere o papel de liderança e orientação espiritual e moral para os outros povos. Essa associação de Pound, embora provavelmente não intencional, ressoa com essa visão universalista, destacando a Maçonaria como uma instituição destinada a iluminar e guiar a humanidade por meio da disseminação do conhecimento e da sabedoria, assim como o papel atribuído ao povo judeu nas escrituras. A analogia, então, pode ser vista como um reflexo da busca pela disseminação do saber e pela melhoria moral e intelectual da sociedade, temas que ambas as tradições compartilham de formas distintas, mas complementares.
[16] O idealismo pós-kantiano refere-se ao movimento filosófico que se desenvolveu após a obra de Immanuel Kant, particularmente nas obras de filósofos como Johann Gottlieb Fichte, Friedrich Wilhelm Joseph Schelling e Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Enquanto Kant argumentava que o conhecimento humano está limitado ao mundo fenomenal (o mundo como aparece para nós), e que a realidade última (o “noumeno”) é inacessível, os filósofos pós-kantianos superaram essa limitação ao afirmar que o sujeito (a mente humana) não apenas conhece a realidade, mas também a constitui ativamente. Fichte, por exemplo, defendia que a consciência do “Eu” era fundamental para a constituição da realidade, enquanto Hegel desenvolveu a ideia de uma dialética histórica, onde a realidade é vista como um processo contínuo de desenvolvimento e síntese. Assim, para os pós-kantianos, a razão humana e a autoconsciência são vistas como forças criadoras da realidade, movendo-se em direção à totalidade e à realização do espírito absoluto.
[17] O contexto histórico vitoriano se refere ao período da Reinado da Rainha Vitória no Reino Unido (18371901), que foi marcado por profundas transformações sociais, políticas, econômicas e culturais. Durante essa era, o império britânico atingiu seu auge, caracterizado pela expansão imperial, pelo crescimento industrial e pela urbanização acelerada. No entanto, também foi uma época de grandes tensões sociais e reformas políticas, como a ampliação do sufrágio, as reformas trabalhistas e o movimento de direitos civis. O período vitoriano é frequentemente associado a uma moralidade conservadora e a uma ênfase na estabilidade social e familiar, embora também tenha sido um período de grandes avanços científicos e tecnológicos, como as obras de Charles Darwin, entre outros. Já o zeitgeist romântico (termo alemão que significa “espírito do tempo”) se refere à corrente cultural e intelectual que predominou na Europa no final do século XVIII e durante o século XIX, especialmente entre as décadas de 1790 e 1840. Este movimento foi uma reação ao racionalismo da Ilustração e ao cientificismo do período anterior, promovendo uma valorização da emoção, da subjetividade, da individualidade e da natureza. O Romantismo também buscou um retorno aos ideais da antiguidade clássica, e, no contexto britânico, teve forte impacto nas artes, literatura e filosofia. Poetas como William Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge, e escritores como Mary Shelley e Lord Byron, ilustraram essa busca por um mundo mais intuitivo, imaginativo e sensível. O romantismo também se expressou através da admiração pela natureza selvagem, a exaltação do herói solitário e a busca por uma experiência estética que transcendesse o comum e o racional.
[18] William Hutchinson (1732-1814) foi um importante maçom, escritor e historiador britânico, mais conhecido por sua obra The Spirit of Masonry, publicada em 1775, e por seu trabalho na sistematização e interpretação da Maçonaria durante o século XVIII. Hutchinson é uma figura-chave no desenvolvimento do pensamento maçônico durante a época georgiana, sendo reconhecido por sua abordagem filosófica e teórica sobre a Maçonaria, bem como por suas tentativas de fundamentar a Maçonaria como uma instituição de ensino moral e filosófico.
[19] Nesta Escola, Albert Pike e outros autores, vão além das análises históricas, morais e éticas convencionais. Para esses autores, a Maçonaria representa um caminho espiritual e intelectual que se conecta profundamente com os princípios esotéricos e metafísicos da Cabalá, da filosófica do misticismo, do hermetismo, dentre outros. A Maçonaria é vista não apenas como uma prática moral, mas como um sistema simbólico que oferece uma jornada de autoconhecimento, iluminando o indivíduo tanto dentro como fora da Loja. Pike, em sua obra, defende uma liberdade de interpretação dos símbolos, alinhando-se com a visão contemporânea de que os significados dos rituais maçônicos são flexíveis, evoluindo ao longo do tempo e de acordo com o contexto histórico e cultural. Isso reflete a flexibilidade da Cabalá, por exemplo, que oferece múltiplos níveis de interpretação, permitindo que cada indivíduo experimente uma conexão pessoal com os símbolos e ensinamentos. Pike e outros autores da Escola avançaram, nesse sentido, para uma análise comparativa das tradições sapienciais, incluindo a Cabala, e sua relação com o esoterismo ocidental. Esse enfoque transcende a Maçonaria como uma prática histórica, posicionando-a como um caminho de iluminação espiritual e de busca pela verdade universal.
[20] Embora Albert Mackey seja frequentemente associado à corrente mais histórica da Maçonaria, suas contribuições podem ser enquadradas também dentro da Escola Filosófica de Pike, especialmente em sua interpretação da Maçonaria à luz da Cabala. Mackey, ao discutir a Maçonaria, reconheceu que, em seu núcleo, há uma essência cabalística, apontando que seus símbolos e rituais possuem uma base filosófica que remonta à Cabala, que é, por sua natureza, tanto filosófica quanto prática (Mackey 1916). Ele afirmava que, embora a Maçonaria seja histórica, ela também contém uma camada profunda de significados esotéricos e espirituais, que se alinham com a tradição cabalística.
[21] A Hermetic Order of the Golden Dawn foi uma sociedade esotérica britânica fundada em 1888 por William Wynn Westcott, Samuel Liddell MacGregor Mathers e William Robert Woodman. Inspirada em tradições herméticas, cabalísticas e rosacrucianas, a Ordem buscava sistematizar práticas mágicas e espirituais, combinando meditação, simbolismo ritualístico e estudo intelectual, visando o desenvolvimento moral, intelectual e espiritual de seus membros. Entre suas contribuições mais duradouras está a influência na magia moderna, na maçonaria esotérica e na literatura ocultista do século XX.
[22] Lora, R.S (2025) Entre a Forma e o Conteúdo: Uma Análise Junguiana da Crise Educacional no Rito Escocês Antigo e Aceito no contexto brasileiro, Revista da Loja de Estudos e Pesquisas Dom Bosco, n. 33, GLMDF, 2025. Artigo apresentado por ocasião do 1º Congresso Brasileiro de Pesquisa Maçônica, realizado em 15 de novembro de 2025, em Brasília, pela GLMDF.
[23] Recomenda-se leitura da nota 6.
[24] Embora Roscoe Pound (Lectures on the Philosophy of Freemasonry, 1915) tenha sido o primeiro a analisar sistematicamente diferentes sistemas filosóficos dentro da Maçonaria, identificando autores como Preston, Krause, Oliver e Pike, não foi ele quem cunhou formalmente o conceito das “escolas”. Essa categorização foi posteriormente estruturada e popularizada por Haywood, que organizou as tradições maçônicas em diferentes escolas interpretativas, facilitando a análise comparativa e crítica. A nova historiografia crítica, representada por estudiosos como Jan A.M. Snoek, questiona paradigmas tradicionais e a noção de origens fixas, enfatizando a natureza multivalente e evolutiva da Maçonaria, bem como sua relação com tradições esotéricas ocidentais, rituais e práticas sociais. Este artigo procura compilar essas análises clássicas e contemporâneas, reinterpretando as “Escolas” à luz dessa visão crítica e interdisciplinar, ressaltando a necessidade de integrar história, filosofia, simbolismo e esoterismo para compreender o papel da Maçonaria na cultura e na formação intelectual e moral de seus membros, a fim de evitar uma visão e versão única, cristalizada que exclua e sobreponha outros formados e modos de interpretar existente.
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