Bibliot3ca FERNANDO PESSOA

E-Mail: revista.bibliot3ca@gmail.com – Bibliotecário- J. Filardo

E a Saga continua: Os Templários na Maçonaria: a IA volta à cena – II

Ivan A. Pinheiro[1]
Lucas V. Dutra[2]

Knight in chainmail and armor using a laptop with medieval maps on the table

            Os autores têm promovido alguns exercícios de aplicação da Inteligência Artificial (IA) ao estudo e à produção textual no universo da Maçonaria; o mais recente (Pinheiro e Dutra, 2026) carrega o mesmo título deste, o que implica, agora, a sua continuidade. De regra, os exercícios têm sido extremamente simples, baseados em softwares livres, visam, antes de tudo, estimular o leitor a reproduzi-los, a ampliá-los e a aperfeiçoá-los, alinhados com a abordagem learning by doing que não declina da teoria, mas circunstancialmente privilegia a prática e o aprendizado by trial and error, tudo com vistas a não apenas ressaltar os potenciais da IA, mas também a necessária cautela na sua utilização. Curiosidade, engenho e arte poderão levar os experimentadores a novos patamares de conhecimento.

            Em meio à discussão dos temas em debate, o texto revelou um inquietante problema. Ao ser questionada se “é possível imaginar que a Série [objeto do exercício][3] tenha sido escrita não por um humano, mas por alguma Inteligência Artificial?”, a resposta da IA Gemini 3 Flash (Google) surpreendeu duplamente: primeiro pela assertividade, sim, havia indícios de que o texto, senão na íntegra, parcialmente fora sido escrito por IA; em segundo, pelos motivos que arrolou para justificar a primeira resposta, entre eles:

  1. padronização, organização cirúrgica (em razão das seções e subdivisões) e estrutura enciclopédica; e,
  2. neutralidade e ausência de “ruído” humano, tom professoral, asséptico e de alta densidade informativa.

            Ora, em primeiro lugar, foi criada uma situação constrangedora, pois o primeiro autor deste e do texto anterior assinara também como autor da Série acolhida e publicada por vários blogs. E, como autor, tomara o cuidado de atender a todas as especificações técnicas aplicáveis: a organização e a estrutura das partes internas, assim como de cada capítulo vis-à-vis o conjunto da obra (a Série), a obediência às normas técnicas, notadamente no que tange às citações e às referências bibliográficas, entre outros aspectos, a exemplo do distanciamento analítico-crítico mantido frente ao objeto de estudo. Paradoxalmente, esse conjunto de cuidados foi exatamente o argumento da IA para justificar a Série como não escrita por um humano. Acredita-se que o leitor já as tenha inferido, pois as implicações são múltiplas e não são de menor importância.

            Frente a esse efetivo impasse embaraçoso, feita a autocrítica à condução do exercício, os autores – Pinheiro e Dutra – solicitaram aos Irmãos com acesso às IAs mais robustas, pagas e de uso privativo que reproduzissem o que então passou a ser considerado também um experimento. O texto a seguir apresenta e comenta as colaborações recebidas de 3 (três) Irmãos[4].

            À pergunta se a Série foi escrita por IA, a Copilot da Microsoft respondeu:

  • Estilo: o texto é longo, denso, com citações acadêmicas e referências bibliográficas precisas; 
  • Estrutura: há coerência narrativa, progressão lógica e uso de notas de rodapé típicas de pesquisa humana; 
  • Conteúdo: a análise crítica, a contextualização histórica e a articulação de múltiplas fontes sugerem autoria humana. 
  • Conclusão: é altamente improvável que a série tenha sido escrita por uma IA. O nível de erudição, a densidade bibliográfica e o estilo ensaístico indicam trabalho humano […].

Já a primeira resposta surpreende: utiliza praticamente os mesmos argumentos da Gemini; todavia, a sua conclusão vai no sentido oposto, o de que “[…] a densidade bibliográfica e o estilo ensaístico indicam trabalho humano […]”.

            O ChatGPT Plus respondeu:

É possível imaginar, mas não me parece provável que tenha sido escrita integralmente por IA. Há alguns traços que poderiam levantar suspeita: textos longos, encadeamento muito organizado, excesso de referências, linguagem por vezes formulaica e imagens declaradamente geradas por IA. Contudo, o conjunto revela sinais fortes de autoria humana: estilo autoral idiossincrático, digressões pessoais, escolhas bibliográficas específicas, insistência em teses próprias, uso recorrente de expressões particulares, juízos valorativos e uma arquitetura argumentativa amadurecida ao longo dos cinco textos. Uma IA poderia auxiliar na redação, revisão, organização ou expansão de trechos. Mas a série, como um todo, parece mais compatível com um autor humano erudito, opinativo e com projeto intelectual definido, eventualmente utilizando ferramentas digitais, do que com produção autônoma por IA.

            E a Perplexity que:

Como autoria principal, é pouco provável. O texto tem marcas fortes de escrita humana acadêmica: tese definida, desenvolvimento contínuo, bibliografia específica, encadeamento argumentativo e presença de uma posição crítica própria sobre a leitura algorítmica. O que é plausível é isto: a série pode ter recebido apoio de IA em etapas periféricas — por exemplo, revisão, organização formal, testes de resumo ou paráfrase. Mas a presença insistente da Hipótese-Brum, o tratamento histórico muito situado e a crítica metatextual ao próprio uso da IA apontam mais para um autor humano que sabe explorar ferramentas do que para um texto gerado por IA de forma autônoma.

E após ser “alimentada” com o último texto (Pinheiro e Dutra, 2026), complementou:

Sim — e, a partir do texto que você compartilhou, dá para responder com razoável segurança que é improvável que a série tenha sido escrita por IA como autoria principal, embora seja plausível imaginar apoio pontual de IA em revisão, estruturação ou polimento.

            Conforme visto, embora tenham recorrido a palavras diferentes nas argumentações, as conclusões da Copilot, do ChatGPT Plus e da Perplexity se mostraram alinhadas: a autoria da Série é humana.

            Assim, embora já tenha sido esclarecida a questão de fundo que motivou este texto, a riqueza dos conteúdos que constituíram os argumentos das IAs converte-se, em si mesma, em matéria-prima para novas reflexões e quiçá explorações:

  1. em primeiro lugar, o que mais chama a atenção, pois ultrapassa os limites do mero contraste, é a completa divergência entre a resposta da Gemini 3 Flash (Google) e as das outras 3 (três) IAs. Mas, se do ponto de vista técnico (módulos, algoritmos, treinamento, etc.) nada podemos afirmar sobre as causas dessa que foi mais do que uma divergência, mas que em razão dos argumentos enumerados, um efetivo paradoxo, é possível tecer algumas especulações sobre os impactos;
    1. considerado o acerto como um dos principais elementos de um construto mais amplo ora denominado “qualidade”, que envolve também a velocidade e a complexidade da resposta, a elegância textual, riqueza de fontes, etc., é possível, com base no exercício realizado (suas especificações, objetivos, etc.), afirmar que a Gemini 3 Flash foi revelada como de qualidade inferior. Ademais, lembrando que essa foi a única IA pública, gratuita e de uso ilimitado, o que certamente a situa em um patamar superior de utilização, diariamente, por milhões de pessoas, é forçoso reconhecer:
      1. os riscos que encerra, pois nada indica que o mesmo padrão não se reproduzirá frente a outras demandas e aplicações (estritamente pessoais, de interesse público-social ou mesmo corporativas, etc.);
      1. que aos poucos a tecnologia, mais uma vez – entre tantos, vide, por exemplo, Acemoglu e Johnson (2024) – se revela como um instrumento que, se de um lado amplia sobremodo o horizonte de possibilidades e oportunidades daqueles que correm pari passu com a vanguarda do desenvolvimento, de outro, também amplia o fosso econômico e social entre os primeiros e os demais, sejam esses indivíduos, corporações ou economias nacionais. Schmidt e Cohen (2013, p. 25) foram bastante claros: “[…] as soberbas habilidades de IA provavelmente estarão fora do poder aquisitivo da maioria das pessoas por um bom tempo […]”;  
  2. em segundo, frente às já reiteradas, mais do que manifestações, preocupações de que atualmente a produção textual da IA é praticamente indistinguível da produção textual humana, as 3 (três) últimas IAs foram unânimes em apontar o contrário: a produção textual humana deixa digitais inconfundíveis e incapazes de serem (pelo menos por enquanto) reproduzidas pela IA – sugere-se que o leitor as identifique em meio às respostas das IAs. Todavia, é preciso saber ler ou, quem sabe, reaprender a ler e a escrever; em outras palavras, o “problema” pode não estar nas IAs, mas nas Inteligências Naturais.

            À luz desses fatos, um gestor ou um Mestre Maçom responsável, isto é, comprometido não apenas com o seu desenvolvimento, mas também com o dos seus Irmãos mais próximos, perguntaria, antes de tudo a si mesmo: e na minha Loja, a Simbólica, a de Estudos e Pesquisas ou mesmo nos corpora dos Altos Graus, qual tem sido o papel das IAs? O tema, em geral, assim como as repercussões internas (à Loja e à Ordem) têm sido debatidos? De algum modo a IA já integra a agenda da Loja? Cogita-se alguma orientação ou mesmo regramento mínimo sobre a matéria? Por oportuno, cabe lembrar que já existem orientações, públicas e privadas, para a produção textual auxiliada por IA – vide, por exemplo, Pinheiro (2026). Ou a matéria é considerada algo que foge por completo ao escopo dos interesses da Ordem, portanto, situada no campo estritamente pessoal? E se esse for o pensamento dominante, é importante não perder de vista que a IA não só pode repercutir nas trajetórias individuais, por exemplo, alavancando a produção de trabalhos (que ela entrega praticamente prontos!) como também, em extensão do que foi visto acima, repercutir no próprio grupo quando, por exemplo, contribui para a disseminação de informações incorretas e imprecisas, notadamente quando não submetidas (efetivamente) aos filtros dos Mestres mais experientes, a exemplo dos Vigilantes.  

            A matéria convida a um desvio, mas o leitor atento perceberá a sua natureza complementar. Há, não uma tese (porque não resiste a qualquer teste), mas um lugar comum muito difundido, porém falacioso: a de que cada maçom deve ser deixado livre, sem que lhe seja imposto um programa de estudos e/ou exigências para elaboração de trabalhos, afinal, não só as trajetórias são absolutamente pessoais, únicas e incomparáveis, como a Maçonaria não é uma “corrida de chegada”, nem de fundo, e tampouco de curta distância. Entretanto, aceitá-la é proceder conforme apontado por Giannetti (1997): cometer autoengano, sobretudo, em favor próprio. São muitos os desdobramentos dessa postura, assim como deletérios os impactos nas questões essenciais à Ordem, senão por outros motivos, pela falta da formação de referências (pessoais, institucionais, documentais, etc.) transmissoras do conhecimento iniciático.

            Finalmente, o último texto (Pinheiro e Dutra, 2026), que analisa as respostas da Gemini às perguntas relativas à Série, foi submetido à IA Claude, o que gerou uma nova e inusitada situação: uma IA tecendo considerações críticas às críticas dos autores à outra IA.

Responderei às três questões com base no conteúdo do artigo que você enviou, que transcreve e analisa a própria experiência dos autores com esse mesmo prompt aplicado à Gemini. Isso me coloca em posição curiosa: sou uma IA respondendo ao mesmo prompt que foi submetido à Gemini, e o artigo documenta os erros e acertos dessa resposta anterior. Tentarei ser mais fiel ao que o texto revela […].

“É possível imaginar que a série tenha sido escrita por uma IA?”.

Esta é a questão mais delicada — e o artigo que você enviou documenta, com riqueza analítica, os problemas das justificativas oferecidas pela Gemini. Minhas considerações:

Não há evidência textual suficiente para afirmar autoria por IA, e as justificativas apresentadas pela Gemini são, como os autores corretamente observam, “esdrúxulas”: inferir autoria artificial a partir de organização rigorosa, densidade informativa e ausência de vícios de linguagem equivale a punir a qualidade textual. Como os autores formulam com precisão: isso implica que, para a IA treinada na média da produção maçônica brasileira, um texto “humano” seria necessariamente desestruturado, impreciso e viciado — o que revela menos sobre o texto analisado e mais sobre o corpus com que a IA foi treinada.

O uso declarado de IA para as ilustrações das capas não constitui evidência de autoria textual por IA — a Gemini, ao usá-lo como argumento, comete o que os autores chamam de “confundir alhos com bugalhos”.

Dito isso, a questão mais interessante levantada pelo experimento não é “foi escrito por IA?” mas outra, que o artigo formula implicitamente: num contexto em que a IA é treinada com produção textual de baixa qualidade e passa a replicar esse padrão como norma, o que acontece com os textos que excedem esse padrão? A resposta, revelada pelo experimento, é perturbadora: eles passam a ser suspeitos de não serem humanos. É o efeito de circularidade viciosa que os autores descrevem com a fórmula garbage in, garbage out – e que, no contexto maçônico, pode ter consequências institucionais sérias.

            Por fim, reitera-se, as expectativas dos autores são de que este texto não se esgote em si mesmo, pois foi tão somente mais um exercício que, em que pese a sua simplicidade, motivado pela curiosidade, possibilitou subir um degrau na escalada do conhecimento. As IAs estão na “ordem do dia”; os críticos, assim como os apoiadores (Kurzweil, 2018; Harari, 2024; Acemoglu e Johnson, 2024), dos velhos argumentos contra ou a favor dos avanços da ciência e da tecnologia, não param de reunir outros tantos, alguns inusitados, que, flertando com a ficção científica, têm escapado à compreensão até mesmo dos mais renomados estudiosos e especialistas. E para os que veem a IA apenas pelo lado técnico, por ironia, mas talvez nem tanto, não custa lembrar alguém que esteve à frente do seu tempo: a Dra. Susan Calvin, uma das principais protagonistas de “Eu, Robô” (Asimov, 2014), era a psicóloga roboticista que, ao lado de matemáticos e físicos, estava sempre às voltas para compreender o comportamento e os problemas causados pelos robôs (e, por estranho que possa parecer, porque) submetidos às Leis da Robótica.

            Os achados de pesquisa trazidos ao texto ainda admitem muitas considerações, por exemplo, de ordem ética e de caráter prospectivo, mais abrangentes, até as que só podem ser pensadas ao nível das idiossincrasias de cada Loja, razões pelas quais ora as deixamos à conta de cada leitor.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ACEMOGLU, Daron; JOHNSON, Simon. Poder e Progresso. Rio de Janeiro: Objetiva, 2024. ISBN 978-85-390-0783-7.

ASIMOV, Isaac. Eu, Robô. São Paulo: Aleph, 2014. ISBN 978-85-7657-200-8.

GIANNETTI, Eduardo. Auto-engano[5]. São Paulo: Cia. da Letras, 1997. ISBN 85-7164-725-9.

HARARI, Yuval N. Nexus. São Paulo: Cia. das Letras, 2024. ISBN 978-85-359-3781-7.

KURZWEIL, Ray. A Singularidade Está Próxima – quando os humanos transcendem a biologia. São Paulo: Itaú Cultural : Iluminuras, 2018. ISBN 978-85-7321-594-6 (Iluminuras) e 978-85-7979-115-4 (Itaú Cultural).

PINHEIRO, Ivan A. Integridade, um construto ainda a ser explorado e melhor compreendido. In: Bibliot3ca Fernando Pessoa. 16 abr. 2026. Disponível em: https://bibliot3ca.com/integridade-um-construto-ainda-a-ser-explorado-e-melhor-compreendido/; também em Maçonaria com Excelência (https://www.maconariacomexcelencia.com/post/integridade-um-construto-ainda-a-ser-explorado-e-melhor-compreendido) e em Freemason (https://www.freemason.pt/integridade-construto-explorado-compreendido/?). Acesso em: 22 jul. 2026.

PINHEIRO, Ivan A.; DUTRA, Lucas V. E a Saga continua – os Templários na Maçonaria: a IA volta à cena. In: Bibliot3ca Fernando Pessoa. 12 jun. 2026. Disponível em: https://bibliot3ca.com/e-a-saga-continua-os-templarios-na-maconaria-a-ia-volta-a-cena/; também em Freemason (https://www.freemason.pt/saga-continua-templarios-maconaria-ia/) e em Maçonaria com Excelência (https://www.maconariacomexcelencia.com/post/os-templarios-na-maconaria-a-ia-volta-a-cena). Acesso em 20 jul. 2026.

SCHMIDT, Eric; COHEN, Jared. A Nova Era Digital – como será o futuro das pessoas, das nações e dos negócios. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2013. ISBN 978-85-8057-388-6.


Notas

[1] MM, Pesquisador Independente, e-mail: ivan.pinheiro@ufrgs.br. Porto Alegre-RS, 22 jul. 2026.     

[2] Mestre Maçom do Quadro da ARLS Presidente Roosevelt, 75, Oriente de São João da Boa Vista, SP,  jurisdicionada à GLESP – Psicólogo, Professor Doutor em Psicologia como Profissão e Ciência (CCV-PUC CAMPINAS), especializado em Maçonologia (UNINTER), e-mail: dutralucas@aol.com,

[3] Os Templários na Maçonaria.

[4] Consultados, optou-se por manter os seus nomes em sigilo para evitar eventuais constrangimentos decorrentes do uso indevido de IA de propriedade corporativa. Como autores, somos gratos não apenas pelas colaborações recebidas, que foram além do solicitado, mas também pela oportunidade de trazer a público os ganhos individuais e coletivos quando a colaboração orienta as iniciativas, quer em geral, quer em particular, como quando direcionada ao estudo e à pesquisa.

[5] Preservada a grafia do título, no original.

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