Tradução J. Filardo

Por Jean-Moïse Braitberg

Primeiro passo na progressão maçônica, o grau de Aprendiz é muitas vezes vivenciado como uma passagem necessária, muitas vezes caracterizada pela impaciência em sair dela. No entanto, essa atitude, embora compreensível, restringe o sentido profundo dessa primeira etapa de iniciação que contém em germe a riqueza simbólica de um caminho maçônico que, seja qual for o rito e o grau que se atingir, sempre remete à eterna obra de pedra bruta.

A maçonaria, como outras formas de iniciação e como a própria vida, é uma questão de movimento e viagem. No início de qualquer processo, há a vontade que carrega a ação, essa força interior que leva um homem ou uma mulher a querer se superar indo em direção a um outro lugar do qual se espera apenas o melhor. O que, afinal, não é nada original.

Será que todo mundo não quer melhorar sua condição material, adquirir mais conforto, ainda mais riqueza? E se sabemos que será difícil progredir indefinidamente no caminho material, pelo menos esperamos que o que apenas vislumbramos, nossos filhos consigam alcançar. Pelo menos é assim que as coisas são no que chamamos de mundo “profano”. Mas quando bate à porta do Templo, o futuro maçom é primeiro levado pela intuição de que há um outro lugar onde a aparência desaparece em favor do ser.

Como Alice no país das maravilhas, ele quer ir atrás das aparências, descobrir o que está acontecendo do outro lado do espelho. Corre o risco de atravessar o reflexo das coisas para encontrar uma realidade mais densa, verdadeira e, por que não, mais brilhante e alegre.


Mas passar pelo espelho não é isento de consequências. Ir além da própria imagem é também mudar de status, confrontando-se com uma realidade que não se inverte, mas se constrói de forma diferente. Pois o que se chama iniciação é, antes de tudo, uma mudança de perspectiva que consiste em entender que o processo que faz do profano um maçom se baseia principalmente no abandono.

Ao renunciar ao que simbolicamente constituía sua armadura social, o candidato aceita ser vulnerável e fraco diante de seus irmãos e irmãs, a fim de se tornar digno de receber o conhecimento do qual depende toda a sabedoria e a força que enraíza e protege, a fim de tornar o mundo mais belo. Assim que essa transmissão ocorre, há iniciação para o novo Aprendiz que descobre não estar mais no mundo secular, mas em um local simbólico cujas dimensões são infinitas e onde o tempo de trabalho, bem como a idade dos trabalhadores, não estão mais dentro dos limites estabelecidos pelos relógios ou pelo calendário “profano”.

Um espaço sagrado?

Mas se não está mais no mundo secular, o Aprendiz entrou em um espaço sagrado?

Tudo depende do valor dado a esse termo, do rito praticado e da maior ou menor capacidade do irmão de encontrar seu próprio caminho. Se nos referirmos às origens da Arte Real, o termo Aprendiz, concedido àquele recém-admitido na sociedade dos maçons, embora emprestado dos ofícios e das antigas obrigações que os regiam, designa tanto aquele que deve adquirir novos conhecimentos quanto aquele que, como o noviço de uma ordem religiosa, deve aprender a andar,  vestir-se, falar de acordo com os costumes que lhe são transmitidos para sacralizar sua função, inscrevendo seus contornos em um espaço cujas dimensões são definidas por ritos.

Entendendo-se que o avental faz o maçom como o hábito faz o monge… Quando a loja de pedreiros se tornou a loja de maçons, a maçonaria especulativa adotou o termo Aprendiz para designar aquele que acabara de passar nos testes simbólicos de admissão – a iniciação.

Considerou-se, então, que colocar no novo candidato o avental do Aprendiz o tornava obrigado a instruir-se em novos conhecimentos, bem como aprofundar-se inteiramente no status que lhe era oferecido pelo espaço sagrado da loja. No entanto, se admitirmos que existe uma linguagem maçônica sagrada, ela não é resultado de nenhum sacramento. E a iniciação não é uma espécie de batismo. Pois não é o Espírito Santo, nem uma daquelas entidades facciosas que às vezes vira o jogo, que transforma o profano em Aprendiz maçom, mas sim a livre aspiração de um homem ou mulher sãos e determinados a enveredar pelo caminho da perfeição. 

Os restos da vida secular

Portanto, é o juramento ou compromisso, também chamado de obrigação, sancionado pela entrada no grau ritualmente conferida pelo venerável Mestre que faz e constitui o Aprendiz maçom e não as provas de iniciação como tais.

O objetivo dessas viagens, que consistem em três, é despir o candidato dos trapos de sua vida profana, para que, simbolicamente tão puro e imaculado quanto o linho mais branco, ele se apresente como digno de pronunciar o juramento que o fará mudar de estado, dando-lhe novas perspectivas sobre o mundo e, especialmente, sobre seu eu interior.

No entanto, se o processo iniciático repousa sobre o firme fundamento da vontade e do compromisso individuais, não seria nada sem o desejo de se apresentar como a nova pedra que, ao final de um longo trabalho de quadratura e polimento, encontrará seu lugar no edifício fraterno, tanto no grande projeto dos construtores do Templo quanto na proteção inviolável.

No momento das provas, “[…] O candidato representa, neste estado, o homem da natureza. Iniciado, ele recebe imediatamente uma vestimenta nomeada por nós para lembrá-lo de que pertence à civilização e que deve sua origem e progresso a mistérios antigos”, escreve o autor maçônico do século XIX, Jean-Michel Ragon.  

“Aqui, tudo é simbólico!”, ouve o aspirante a Aprendiz pouco depois de passar pela porta do templo. Ainda desprovido de ferramentas simbólicas, ele mede o significado e o alcance dessa injunção de mudar de perspectiva mudando sua visão do mundo e das coisas?

Se ele tivesse lido uma biblioteca inteira de livros dedicados à Maçonaria, se tivesse ouvido por horas um irmão ou irmã compartilhando sua experiência iniciática, ele não estaria mais avançado em seus conhecimentos. Além disso, sabemos que durante cada iniciação, aqueles que a receberam, às vezes décadas antes, descobrem e experimentam, como espectadores, detalhes e emoções que os trazem de volta ao estado inicial de Aprendizado que nenhum maçom jamais perde.

É enfatizar o aspecto profundamente pessoal da iniciação que coloca o Aprendiz sob o signo da verticalidade simbolizada pelo fio de prumo. Como o fio de prumo traça uma rota ligando o que está acima ao que está abaixo, é na intimidade profunda de sua psique que o candidato deve encontrar o caminho, e também a voz que lhe mostrará o caminho da sombra à luz; ou, para tomar emprestado o vocabulário das filosofias orientais, do estado de vigília comum para o estado de consciência plena.

Casa de maria joana?

No entanto, se a plena consciência e sentimento profundo são os estados mentais em que o candidato deve encarar as provas, não estamos aqui em um exercício de psicologia aplicada como proposto pelos gurus do “desenvolvimento pessoal”.

O ingresso na Maçonaria faz parte de uma continuidade histórica marcada por ritos traduzidos em rituais, que obedecem a imperativos formais que caracterizam a especificidade da Ordem. “Quando descobri o ritual maçônico, quase fugi. Pensei que estava em uma igreja onde estava acontecendo uma missa que eu não entendia nada”, diz um irmão que está acostumado a ser despojado devido à sua cultura protestante. Mas, suas primeiras impressões não o desanimaram, já que ele ainda está nas colunas de sua loja, quarenta anos depois…

Se a Maçonaria não é bem uma casa de maria joana, mas cada um é livre, na ausência de dogmas, para interpretar simbolicamente o que ali encontra de modo a melhor satisfazer seu apetite por conhecimento. Curiosamente, para continuar a metáfora, a mesa da primeira refeição para a qual o futuro Aprendiz é convidado, dificilmente aguçará o apetite.

Um pedaço de pão velho e mofado, acompanhado de sal úmido, enxofre, água estagnada e a surpreendente fórmula V.I.T.R.I.O.L. fazem-no imaginar, olhando para os ossos à sua frente, que este é o destino que espera aqueles que ousam se banquetear com estes ingredientes pouco convidativos. A câmara de reflexão é tanto uma caverna propícia ao retiro e meditação quanto é uma cela de monge ou mesmo uma masmorra onde o condenado aguarda sua execução.

E se a injunção “Conhece-te a ti mesmo” oferecida ao seu olhar o incita a pensar que esse eu que ele é convidado a descobrir talvez se reduza aos ossos do esqueleto que o acompanha em sua reflexão. Pelo menos ele pode pensar, como Montaigne, “Que filosofar é aprender a morrer”. Munido dessa máxima, eis o candidato pronto para escrever ou mesmo “confrontar” seu “testamento filosófico”.

Mas será que ele ainda entende o que significa uma fórmula tão bizarra? Sem dúvida, seria correto usar a palavra “render” o próprio testamento filosófico, no sentido de vomitar ou regurgitar, para qualificar esse exercício que, simbolicamente, convida o candidato a limpar sua alma, purificando-a do peso que a onera: paixões, preconceitos, ciúmes, mas também remorsos e arrependimentos. 

A fórmula V.I.T.R.I.O.L. — Visita Interiora Terrae Rectificandoque Invenies Occultam Lapidem — que muito poucos, sem dúvida, compreendem durante sua passagem pela sala de reflexão, foi emprestada dos alquimistas. Ela interpretada metaforicamente esta fase do processo iniciático e nos convida a mergulhar nas profundezas de nós mesmos, como um mineiro nas entranhas da terra, na tentativa de trazer à tona o diamante bruto da Verdade profunda do ser, despido da ganga dos hábitos, dos preconceitos e do ego, de maneira inteiramente simbólica, da mesma maneira em que o candidato foi despojado de seus metais — no caso,  relógios, joias, dinheiro, celulares e outros elementos que o conectam ao mundo que ele está prestes a deixar para trás simbolicamente.

Mas quanto tempo dura a caminhada que leva do escuro gabinete de reflexão à luz que ilumina o templo? Quando foram inscritas no ritual das lojas, as provas na forma que hoje as conhecemos? Não antes de 1785 na França para o Grande Oriente. Ou seja, mais de duas gerações após a instituição da maçonaria moderna no sentido entendido pelas constituições de Anderson. E mesmo assim, por muitos anos, as provas limitaram-se a purificar por água e fogo. Foi só no século XIX que o Rito Escocês Antigo e Aceito – REAA – acrescentou a prova do ar a uma prova que “incita a sabedoria nos desígnios” e a “prudência nos impulsos”.

“A menos que um homem nasça da água e do Espírito, ele não pode entrar no reino de Deus”, declara Cristo a Nicodemos no Evangelho de João, 3:5. Como muitas vezes acontece aqui, o Evangelho repete as palavras do Antigo Testamento: “Derramarei água limpa sobre vós, e sereis purificados; Eu vos purificarei de todas as vossas imundícies e de todos os vossos ídolos. Eu vos darei um novo coração e porei um novo espírito em vós” [Ezequiel 36:35-26].

Mas, sem dúvida, encontraríamos em outras tradições as mesmas alusões à água que purifica e transforma. Quanto ao fogo, ele pode ser associado à destruição, bem como à purificação e renascimento à maneira da Fênix. No Antigo Testamento, Jeová se manifesta na forma de fogo diante de Moisés no episódio da sarça ardente. No Novo Testamento, torna-se para João Batista um elemento mais forte que a água na administração do batismo. Falando de Cristo, ele declara: “Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo”. [Mateus 3:11]. Uma metáfora que será encontrada novamente em Pentecostes, quando o Espírito Santo se derramará sobre os apóstolos na forma de “línguas de fogo”.

Benevolência, generosidade, proteção

A progressão que ocorre durante as três viagens segue um percurso que vai do tumulto ao apaziguamento. Assim, simbolicamente enfatiza-se que a calma e a confiança devem acompanhar a dor de uma espécie de parto. Vindos da Mãe Terra, onde seus pensamentos misturados com a dúvida fermentaram em um clima de apreensão e desconfiança, aqueles que tomam consciência do processo de transformação que está ocorrendo sentem, pouco a pouco, ainda privados de sua visão, que aqueles ao seu redor estão ali para recebê-los com bondade e generosidade.

Concluídas as viagens e feito o juramento, só depois de ter recebido a primeira instrução e golpeado simbolicamente a pedra bruta é que o Aprendiz, convidado a sentar-se na coluna norte, perceberá que acaba de ser integrado a um todo.

As palavras, os passos, o toque, o sinal significam que o novo iniciado faz agora parte de uma sociedade onde o pertencimento só existe pela graça do olhar dos outros, como sublinha o ritual de abertura da obra ao rito francês:

Venerável: “Irmão primeiro vigilante, sois maçom?”

Primeiro Vigilante: “Meus irmãos – e ou irmãs – como tal me reconhecem “.

Devido a esse reconhecimento, os irmãos e irmãs sentados nas duas colunas são agora chamados a retornar à sua condição original de Aprendizes, da qual nunca saíram, considerando-se iguais ao novo Aprendiz por meio da iniciação. E isto, independentemente de grau, idade, antiguidade maçônica ou sexo, origem, religião, etnia e status social, cujo abandono à porta do templo lhe confere a sua verdadeira dimensão sagrada.

Mas é também na interpretação e compreensão de um nivelamento espiritualmente edificante que reside a principal obra do Aprendiz. Não é só porque o nível lembra a todos que a primeira qualidade do bom trabalhador é a humildade, que todo trabalho tem a mesma função simbólica. 

O trabalho do Aprendiz, portanto, consiste principalmente em aprender com cautela, respeitando regras essenciais de proteção: Esquadrejar a pedra bruta coberta com um avental cuja abeta é levantada para melhor se proteger quando ainda se é desajeitado; sentar-se na coluna norte para se proteger de uma luz cuja intensidade pode cegar; aceitar calar-se para se proteger da própria impulsividade, dedicando tempo a se alimentar das palavras dos outros; proteger-se de preconceitos e julgamentos tão apressados quanto binários, compreendendo o significado profundo do número três, que leva de volta à unidade, enriquecendo-se com o 1 e o 2 para melhor libertar-se deles; entender que se alguém ainda tem apenas três anos de idade e não sabe ler ou escrever, é porque os irmãos e irmãs da loja e especialmente o segundo vigilante estão lá para orientar o novo iniciado em seu Aprendizado, protegendo-o de passos falsos, bem como de falsas aparências.

Uma iniciação curiosa, aliás, a do Aprendiz maçom. Ao contrário de quase todas as iniciações tradicionais que visam fazer a transição da infância para a idade adulta após uma morte e um renascimento simbólico, a iniciação maçônica faz com que o candidato adulto caia de volta em uma infância simbólica.

O Aprendiz de três anos tem apenas os olhos para aprender e o coração para testar o que aprende. Não só não fala, como só sabe soletrar enquanto gagueja. O que significa que às vezes ele comete erros… um pouco, muito. E sem a ajuda de seus irmãos e irmãs, ele poderia se desviar. O Aprendiz maçom é um ser frágil sobre o qual a loja, como a matilha de lobos que protege o pequeno Mogli em O Livro da Selva, deve vigiar, ensinando-o a tomar cuidado com os perigos que o esperam. E não precisamos ir muito longe para enfrentar esses perigos: o orgulho que consiste em acreditar que a iniciação confere certos privilégios; o entusiasmo excessivo daqueles que querem acreditar que a qualidade de Maçom faz desaparecer as imperfeições inerentes à condição humana, quando só pode ajudar a tomar consciência delas para tentar corrigi-las.

Esses são os principais perigos que o novo maçom encontra durante seu Aprendizado.  E, no final, é somente depois de receber a iniciação simbólica que as verdadeiras provações começam. “Nossos trabalhos estão terminados. Porém, longos e penosos esforços serão ainda necessários, antes que nossa tarefa esteja concluída. A pedra bruta está apenas desbastada. Portanto, a hora do repouso ainda não chegou.”, diz o Venerável, com algumas variações, no final dos trabalhos da loja que se deixa com o coração para perseguir e dar a conhecer fora do templo as verdades ali adquiridas. 

“A esperança é o sonho do homem acordado”, diz Aristóteles. E é porque ele é recém-despertado que o sonho do Aprendiz será traduzido em um desejo de mudança, aqui e agora, tanto no mundo quanto em seu “templo” interior, cujas paredes agora repousam, pelo menos é de se esperar, sobre bases mais seguras.

Não tão bruta, a pedra

É comumente aceito que o Aprendiz deve usar as ferramentas que lhe foram dadas em sua posição para trabalhar no desbaste da pedra bruta à qual ele é comparado, até que se assemelhe, idealmente, à pedra cúbica pontiaguda exibida no segundo degrau do Oriente em frente à coluna do sul.

Com isso queremos dizer que o Aprendiz terá que aperfeiçoar sua arte para passar de alguma forma do estado de natureza para o estado de cultura. Através de sua obra, ele se eleva espiritualmente, afasta-se da matéria para se aproximar do espírito ideal e do trabalho, concebido como o edifício de quatro lados que, reunindo os quatro elementos fundamentais, tende a se elevar para se tornar o centro da União.

Desse ponto de vista, o Aprendiz é ao mesmo tempo o trabalhador, o material e uma parte do edifício que constrói. Para Oswald Wirth, “a Aprendizagem, com o desbaste da pedra bruta, relaciona-se também com a juventude, durante a qual a vida exuberante, brotando do germe, constrói o indivíduo, armando-o gradualmente com todos os órgãos necessários para que as funções sejam desempenhadas”.

Outros autores, no entanto, têm uma interpretação completamente diferente do significado simbólico da pedra bruta. Para Edward Plantagenet, seguindo a opinião de Jules Boucher, “a pedra esculpida tornou-se […] símbolo da escuridão e da servidão, a pedra bruta é símbolo de liberdade […] Não é dobrando-se sob o peso da pedra talhada, acabada, feita de todos os preconceitos, de todas as paixões, de toda a intransigência de fórmulas absolutas, aceitas sem controle como expressão da verdade inexpugnável e única que faz do homem escravo de seu ambiente, que vemos o profano se apresentar à porta do Templo e pedir a Luz […]? Assim, nessa visão um tanto rousseauana, o Aprendiz, por meio da iniciação, redescobre o estado de natureza. Cabe então a ele polir a “sua” própria pedra e torná-la perfeita de acordo com seu eu interior.

Publicado em Revista Franc Maçonnerie