Por Emanuel Belem

A Maçonaria, enquanto instituição iniciática, não envelheceu. Quem envelheceu foram muitos dos seus filhos. A Ordem permanece a mesma; os homens é que se apequenaram.

Na Antiguidade, o maçom — ainda que não portasse esse nome formal — era o construtor do mundo, não apenas de templos de pedra, mas de ideias perigosas. Perigosas porque libertavam. O maçom antigo incomodava o tirano, afrontava o dogma, rasgava a noite com a lâmpada da razão. Ele não pedia licença à ignorância, nem autorização ao medo coletivo.

Nas revoluções — sobretudo a Francesa — o maçom foi herege para os reis, subversivo para os tronos e criminoso para os privilégios. Lutou pela igualdade quando igualdade significava guilhotina. Falou em liberdade quando liberdade custava a cabeça. Não espalhava boatos: espalhava ideias. Não fazia política de estimação: fazia história.

Quando combateu a escravidão — no Brasil e no mundo — o maçom verdadeiro não perguntou se o escravo era “do seu partido”, “da sua religião” ou “do seu círculo social”. Viu um homem acorrentado e isso bastou. A causa não era ideológica; era humana. O maçom daquela época entendia algo simples e profundo: não existe liberdade individual possível em uma sociedade construída sobre a servidão coletiva.

Os filósofos, questionadores, opositores e garantistas das liberdades — muitos deles maçons — tinham um traço comum: odiavam a mentira, desprezavam o fanatismo e desconfiavam do poder. Não idolatravam políticos. Não se ajoelhavam diante de cargos. Não confundiam opinião com verdade. Eles sabiam que a primeira tirania nasce na mente que se recusa a pensar.

Agora compare isso com grande parte dos maçons atuais.

O que se vê, com raras exceções, é a degeneração do espírito iniciático.
Maçons que não constroem, apenas repetem.
Que não estudam, apenas compartilham.
Que não buscam a verdade, mas defendem narrativas.
Que não praticam a tolerância, mas espalham ódio político travestido de virtude moral.

São maçons que se comportam como na fábula do rato no celeiro:
quando o aviso surge — a ratoeira da injustiça, da censura, da miséria, da perda das liberdades — eles dizem:

“Não é comigo.”

Até o dia em que é.

Esses maçons modernos gritam slogans, não princípios.
Defendem “políticos de estimação”, não a República.
Espalham fake news, fofocas e mentiras como se fossem verdades reveladas, esquecendo que a Maçonaria nasce justamente para combater a ignorância organizada.

Eles falam em Ordem, mas vivem no caos moral.
Falam em Liberdade, mas defendem censura quando lhes convém.
Falam em Igualdade, mas só para os seus.
Falam em Fraternidade, mas excluem, rotulam e atacam.

E ainda assim — aqui está a verdade incômoda — a Maçonaria não é culpada.

A Maçonaria permanece a mãe de todos os maçons, pura em seus princípios, firme em seus landmarks, clara em seus símbolos. Quem falhou foram os filhos que abandonaram o trabalho da pedra bruta e passaram a polir apenas o próprio ego.

O problema não é a Ordem. O problema é o maçom que trocou o avental pelo palanque, o silêncio reflexivo pelo grito histérico, o estudo pela corrente de WhatsApp.

A Maçonaria não foi feita para produzir militantes, fofoqueiros ou agitadores de ódio. Ela foi feita para formar homens livres em sociedades livres.

Quando o maçom esquece isso, ele pode continuar frequentando lojas — mas já não pertence ao Templo.