Por Erwan Le Bihan ***

Intuição é conhecimento adquirido de forma não racional; consequentemente, não pode ser explicado e, às vezes, nem verbalizado. Essa definição, formulada por Ceron Ortiz Denisse Michel, lança luz sobre um mistério central da tradição iniciática. Na Maçonaria, a intuição iniciática designa precisamente aquela forma profunda de conhecimento direto e instantâneo que transcende a razão e conecta o maçom a uma sabedoria interior.
Não é uma simples premonição, mas o despertar de uma luz interior que os símbolos do templo nos permitem capturar. O trabalho maçônico, por meio de seus rituais e ferramentas, prepara constantemente essa abertura.
O Ser Humano como Manifestação Divina: Adam Cadmon e o Maçom Primordial

O ser humano contém tudo o que está acima, nos céus e abaixo, na terra, criaturas terrenas e celestiais. É por isso que a GADU escolheu a humanidade como sua Manifestação Divina. Nenhum mundo poderia existir antes de Adão, o humano primordial — a consciência aberta — ganhar vida, pois a forma humana contém todas as coisas, e tudo o que existe existe por sua própria natureza.
De acordo com a Cabala, o GADU criou primeiro um ser perfeito chamado “Adam Cadmon “, um reflexo do Todo ou do Um. Isso se manifesta à medida que a existência se expande da Divindade para a Materialidade, antes de se fundir novamente com ela no fim dos tempos. Concebido em forma humana, Adam Cadmon contém tudo o que é necessário para a realização da tarefa da semelhança divina: ele é tanto espelho quanto observador. Nele residem a vontade, o intelecto, a emoção e a capacidade de agir.
Do ponto de vista maçônico, Adam Cadmon personifica o ideal do maçom perfeito, a pedra cúbica pontiaguda. Ele é o arquétipo do iniciado que, por meio de seu trabalho em si mesmo, restaura a harmonia entre o céu e a terra. O GADU, o Grande Arquiteto do Universo, colocou nessa forma humana a possibilidade de se tornar um cocriador consciente. O maçom, ao entrar no templo, simbolicamente revive essa vocação primordial.
A queda, materialidade e polimento da pedra bruta

Com a intrusão da Tentação em seu mundo idílico, o ser humano primordial quebra deliberadamente a única regra imposta a ele. Disso vem o conhecimento do mundo da criação e a possibilidade de se nutrir com o fruto da árvore da vida. Assim, ele é precipitado para o mundo inferior da materialidade e recebe ” a túnica de pele “, ou seja, seu corpo carnal.
A humanidade se submete ao maior número possível de leis para proteger o Universo das consequências de seu livre-arbítrio. Dessa forma, ela experimenta todos os planos de existência, ascendendo e descendo, em sua tentativa de recuperar seu estado primordial: o Ser Humano Intuitivo. Nesse estado original, ainda não havia desenvolvido o órgão da razão próprio a esse plano material. Ele estava apenas intuindo, e esse estado o colocou em contato direto com a GADU.
A Maçonaria viu, nessa queda, a transformação da pedra bruta em pedra talhada. O maçom, vestido com seu avental, concorda em descer à matéria para espiritualizá-la. Cada passo, do Companheiro ao Mestre, é um passo rumo à restauração dessa intuição primordial. O corpo carnal não é mais uma prisão, mas o canteiro de obras onde o trabalho iniciático é realizado.
Razão e intelecto intuitivo: do cérebro ao coração, do compasso ao esquadro
A razão é uma faculdade intrinsecamente humana; é precisamente o modo da inteligência humana, a inteligência discursiva, o domínio da mente. O intelecto puro, que envolve o que se chama de ” intuição intelectual ” ou “ inspiração “, é, por outro lado, um órgão de nível sobre-humano. Trata-se de uma participação direta na inteligência universal; é uma faculdade de compreensão sem raciocínio complexo.

Simbolicamente, as faculdades da razão e do intelecto foram comparadas ao cérebro e ao coração, respectivamente. O cérebro é um transmissor, um órgão de reflexão e transformação; O pensamento é, portanto, racional, ou seja, um pensamento que é refletido ou indireto, visto através de um espelho. Um exemplo concreto disso é a lua: sua luz reflete a do sol. Por outro lado, o sol representa a Inteligência Intuitiva: ele é direto e imediato.
No templo maçônico, o esquadro simboliza a razão que mede e retifica, enquanto o compasso incorpora a intuição que traça os círculos perfeitos da mente. O maçom aprende a nunca separar essas duas ferramentas. A razão prepara o terreno; A intuição, despertada por símbolos, revela a verdadeira luz. Quando o irmão passa da razão para o intelecto, discussões estéreis perdem seu domínio. Apenas a contemplação silenciosa da Luz permanece.
Intuição como conhecimento do coração e luz inteligível
A intuição é suprarracional, uma noção de que o mundo moderno perdeu para sua essência mais simples; é o verdadeiro conhecimento do coração. Esse conhecimento suprarracional, em essência, é incomunicável; Você precisa ter passado por isso para entendê-lo completamente.
É a percepção direta da Luz inteligível, aquela Luz da Palavra da qual o Apóstolo João fala:
” No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. »
Esse plano físico, com sua dualidade que o torna denso, nos torna difíceis de compreender. Para entender a Luz, é preciso transcendê-la para alcançar um conhecimento verdadeiramente metafísico.
A Maçonaria oferece exatamente essa passagem. Por meio de provas, jornadas simbólicas e trabalho em lojas, o maçom aprende a ouvir seu coração iniciático. Símbolos não são ornamentos: são suportes visuais e auditivos que despertam a intuição. A linguagem profana e analítica dá lugar à linguagem sintética do símbolo. É por isso que o verdadeiro segredo maçônico não pode ser traído: ele é inexpressável, porque é pura intuição.
Iniciação maçônica: despertar das faculdades intuitivas
Para alcançar esses planos superiores, é necessário agir de forma concreta, o que implica uma iniciação. Isso consiste em uma iluminação interior e o despertar das faculdades intuitivas e intelectuais, apoiadas por símbolos visuais e auditivos. A linguagem não é usada porque é analítica, não sintética, como o símbolo.

O caminho da filosofia moderna, que é puramente mental, permanece insuficiente. Ela se prepara, mas não pode iniciar a realidade absoluta. A Maçonaria, por outro lado, é uma ” Estrada Real ” que vai além da mente. Ao renunciar às faculdades discursivas, o maçom se eleva das sombras da caverna platônica para a Luz direta.
Cada sessão, cada grau, cada reflexão nas ferramentas (esquadro, compasso, nivel, linha de prumo) é um convite para essa revolução da consciência. A intuição iniciática não é dada desde o início: é cultivada por meio do método, conhecimento e escuta interior.
Despertando a Consciência: A Revolução Maçônica
O mundo é mergulhado em um mundo de trevas, minerais e materiais, o que significa para a humanidade um afastamento desse Estado Primordial de verdadeira Sabedoria. Os seres humanos são cegos pelo fenomenal e pelo sensível: cegueira espiritual.

Se realmente queremos nos libertar, se aspiramos à felicidade autêntica, devemos entrar na revolução da consciência sem demora. É nosso dever ” Despertar a Consciência ” discernir o caminho para a Verdade Absoluta.
Chegará um dia em que o buscador do Caminho Real terá despertado sua consciência; então ele poderá contemplar o GADU, receber Seus comandos diretos e obedecê-los em toda a consciência, como Moisés recebendo as Tábuas da Lei no Monte Sinai, diretamente do GADU.
Na Maçonaria, essa contemplação não é uma metáfora distante. É resultado do trabalho regular na loja, respeito por marcos e aplicação de virtudes. Os símbolos servem como suporte para o conhecimento do verdadeiro segredo maçônico, e todo maçom pode alcançar isso por meio de método, conhecimento e intuição.
Rumo à sabedoria primordial
Pense como os grandes filósofos, pense como os sábios, mas simplesmente expresse-se para ser compreendido. Intuição iniciática refere-se a uma forma profunda de conhecimento direto e instantâneo que transcende a razão e nos conecta a uma sabedoria interior.

A Maçonaria, fiel à sua vocação, convida cada irmão e irmã a se tornarem novamente esse Adam Cadmon consciente: não mais um ser separado, mas um co-arquiteto participando do trabalho da GADU. Ao polir a pedra bruta, traçar o círculo perfeito, buscar a Luz perdida, o maçom gradualmente recupera o estado intuitivo primordial.
Essa missão nunca é solitária. Ela é vivida na cadeia de união, dentro do templo, onde intuições individuais se harmonizam para formar uma luz coletiva. Assim, longe da escuridão do mundo profano, a Maçonaria permanece o lugar privilegiado onde a intuição, além do físico, pode florescer e guiar a humanidade rumo ao seu destino divino. Que todo maçom, no segredo de seu coração, ouça essa voz silenciosa. Só ele revela o verdadeiro segredo: já somos, em essência, aquilo que buscamos nos tornar.
Fonte: https://450.fm/2026/02/11/lintuition-au-dela-du-physique-une-voie-royale-maconnique/
*** Erwan Le Bihan – Nascido em Quimper, Erwan Le Bihan, um lowton, recebeu a luz aos 18 anos. Ele pratica o Rito Francês segundo o Regulador Maçom “1801”. Apaixonado por história, ele tem particular interesse no estudo dos símbolos e rituais maçônicos.
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