Por Ivan A. Pinheiro[1]
Em vários artigos, mas sobretudo na coletânea “Sobre as Lojas (Maçônicas) de Estudos e Pesquisas” – LEPs (Pinheiro, 2025), discorri sobre uma grande variedade de aspectos pertinentes ao tema, a exemplo da origem, organização e desenvolvimento das Lojas, do perfil dos integrantes, da estrutura textual, das questões normativas, etc., bem como sobre algumas características que dificultam o avanço do estudo e da pesquisa na Maçonaria brasileira, entre elas, o insulamento das iniciativas. Destaco o insulamento, mas, de regra, ele encontra-se associado a outros aspectos, a exemplo da ausência de um sistema de incentivos como ocorre quando os editais estimulam os trabalhos em equipe.
O trabalho em equipe, e não é preciso se estender muito sobre o tema, porque notoriamente conhecido, apresenta muitas vantagens; entretanto, para que dele se extraia o melhor do seu potencial são necessárias determinadas condições, consideradas até exigências mínimas (conditio sine que non) para integrar a equipe, como é o caso de uma LEP: os membros devem revelar afabilidade; discernir o momento adequado, seja para falar (ensinar) ou ouvir (aprender), sobretudo quando frente às ideias contrárias às suas expectativas; saber compartilhar, colaborar em coordenação, encontrar a exata medida entre os seus objetivos e os da equipe, liderar, obedecer, etc. Se, ao contrário, as condições não forem observadas, há o risco de a equipe vir a ser meramente pro forma; aos olhos externos uma realidade que, não obstante, internamente, não é mais do que uma aparência. Dificilmente o rol de condições encontra-se reunido em uma pessoa, pois o habitual[2] é que as pessoas sejam dotadas, ora mais, ora menos, deste ou daquele atributo; todavia, as idiossincrasias podem, internamente, ser compensadas, assim como as limitações superadas pelo treinamento e pelo desenvolvimento, espontâneo ou induzido. Tudo, é claro, desde que haja intenção e deliberação seguidas das respectivas iniciativas e ações. Na ausência desse que pode ser considerado o ecossistema de estudo e pesquisa – que, além das LEPs conta com as Lojas Simbólicas, as Potências, os Editores, as Academias e os demais agentes -, é de se esperar que os empreendimentos continuem insulares.
Em meio a quem sabe ouvir e falar respeitosamente, uma das principais vantagens do trabalho em equipe é, no primeiro momento, a possibilidade de promover a crítica interna, de exercitar o papel de “advogado do diabo”, de acionar “a artilharia do fogo amigo”, tudo com as melhores intenções: a de corrigir e a de depurar as ideias e as propostas em geral. No momento posterior, eventualmente a partir de um documento, em versão preliminar ou não, o refinamento crítico pode ser buscado junto à comunidade ampliada, isto é, a outros pesquisadores, outras LEPs, colaboradores ad hoc, etc.
Por ocasião do surgimento da Internet e, logo a seguir, o das Redes Sociais, as primeiras expectativas apontavam não só para a extensão extraordinária desse ecossistema colaborativo, mas também algo assemelhado ao efeito alavanca, tanto quantitativo quanto qualitativo, na geração de novos conhecimentos e produtos intelectuais a partir de movimentos concêntricos e expansivos, a exemplo da pedrinha lançada ao lago: a colaboração teria início no pequeno grupo (no caso, Irmãos com maior afinidade), se estenderia à Loja, às demais Lojas Simbólicas ou LEPs, às Academias (locais, regionais e nacionais), a outros Centros de Estudos e Pesquisas (de Iniciados ou não) para, finalmente, lograr conexão com a comunidade internacional. Desse modo, as correias de transmissão atualizariam a comunidade por ocasião de qualquer descoberta, quiçá avanço, no estado da arte em cada um dos subdomínios de estudo e pesquisa habitualmente explorados na Maçonaria (história, simbologia, gestão, sociedade, etc.) – a jusante e a montante.
Passados já alguns anos, salvo melhor juízo, não é o que, de regra, se tem observado. Seguramente, quase 100% das iniciativas e dos empreendimentos continuam individuais, o maçom, no que tange ao estudo e à pesquisa, permanece insulado. Não há evidência maior do que o que pode ser observado no que tange à frequência e à natureza das mensagens nos grupos de WhatsApp: cumprimentos (bom dia, boa tarde, boa noite, boa semana, boa nova estação, feliz aniversário, feliz isto, feliz aquilo); aforismos, sobretudo os de natureza religiosa; publicidade e ofertas (venda de produtos e serviços maçônicos e não maçônicos), miscelâneas e matérias que de modo direto ou velado aludem à crítica com engajamento político-ideológico. Ressalto que a questão aqui não diz respeito à crítica ao que se passa nesses ambientes (cada grupo que se autogoverne), mas a de chamar a atenção para o fato de que ao abrigo do guarda-chuva “estudo e pesquisa”, pouco, quase nada é compartilhado, exceto em grupos com finalidade muito dedicada. E mesmo nesses, quando se verifica o produto final (artigo, livro, apresentação e outros), o que se constata é a autoria individual, o que levanta a dúvida se, nas preliminares, a rede, na sua expressão genuinamente social e colaborativa, foi ou não utilizada e explorada nos limites do seu potencial.
Isso tudo tem consequências que não só repercutem na atualidade da Maçonaria brasileira, mas também induzem a uma prospecção quase em nada positiva se as condições de fundo não forem alteradas. Todavia, sobre os motivos que levaram e continuam alimentando o cenário acima eu não vou tecer comentários, pelo menos não por ora, mas guardo a convicção preliminar de que se deve, por parte das instituições à frente, à não observância do que acima referi como “[…] determinadas condições, consideradas até exigências mínimas (conditio sine que non) para integrar a equipe”.
Por ora eu quero saudar a iniciativa – “um evento alvissareiro” -, de 2 (dois) Irmãos e confrades na Academia Maçônica Virtual Brasileira de Letras, e também na Academia Internacional de Maçons Imortais – Denizart S. de Oliveira Filho e Mario C. Bandim Vasconcelos – que não só trouxeram a público as suas reflexões (o que, à luz do quadro acima já é meritório), como explicitaram as suas divergências e citaram-se mutuamente, o que, sou de opinião, agrega mais um mérito ao evento – a coragem -, pois tal tem sido considerado um tabu na maçonaria brasileira que, na dúvida e para não sair da zona de conforto, é tendente a, indistintamente, tecer loas. Um passar de olhos sobre a literatura internacional permite verificar que os autores estrangeiros se criticam mutuamente, o que, me parece, é condição necessária como primeira etapa, ainda que não suficiente, para refinar as ideias e propostas. A crítica cortês, propositiva (indicação pontual das incoerências, lastreada em argumentos, fontes, etc.) e objetivamente direcionada tende a gerar um círculo virtuoso, tanto dos mais diretamente envolvidos quanto dos leitores posicionados nos demais círculos, que podem vir a ser motivados a ampliar (ver pela perspectiva do outro) e/ou a aprofundar conhecimentos (corrigir e refinar o posicionamento prévio). O tema que ambos têm desenvolvido é um dos mais relevantes, considerado seminal, fundador das cosmovisões e teogonias, das bases constituintes das personalidades, dos princípios, dos valores éticos e das condições de inserção de cada um nos respectivos grupos sociais; enfim, repercutirá nos mais diversos aspectos da vida cotidiana: Criacionismo vs Evolucionismo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
PINHEIRO, Ivan A. Sobre as Lojas (Maçônicas) de Estudos e Pesquisas. Brasília, DF: Ed. do Autor, 2025. ISBN 978-65-01-66713-3. Disponível junto à Academia Maçônica Virtual Brasileira de Letras – AMVBL: https://www.amvbl.com/.
Notas
[1] MM, Pesquisador Independente, e-mail: ivan.pinheiro@ufrgs.br. Porto Alegre-RS, 12.02.26.
[2] O que estatisticamente é considerado Normal.
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