Por Alice Dubois

Imagine-se em um lugar silencioso, talvez um templo antigo ou simplesmente um quarto escuro na sua mente, com um símbolo diante dos seus olhos: o esquadro e o compasso, a estrela flamejante, ou até mesmo uma espiral no céu estrelado. Coisas que, à primeira vista, parecem um desenho comum, uma pedrinha colhida aleatoriamente na rua. No entanto, sob essa crosta aparentemente banal, um universo de verdade pulsa, camadas de significado prontas para explodir se soubermos como olhá-las ou tocá-las com a curiosidade necessária.
E é aí que entra a hermenêutica. Não é um termo para intelectuais empoeirados trancados em bibliotecas, mas a chave mágica de Hermes Trismegisto, o Três Grandes Tempos, aquela ponte viva e um pouco travessa entre o caos do mundo que você vê com seus próprios olhos e a luz que nunca se apaga, a luz que você sente dentro de si.
Mesmo que você não seja “um de nós“, se não é maçom, se nunca pisou em uma loja, acredite, essa história vai falar direto ao seu coração, porque, no fim das contas, decifrar o mundo ao nosso redor é algo que todos podemos fazer, um superpoder que está adormecido em cada um de nós.
Pense em Hermes, aquele deus travesso e sábio, sempre com um pé no céu do Olimpo e o outro na poeira da terra, eterno intérprete e brincalhão entre as altas esferas e as terras baixas, entre deuses e mortais.
A hermenêutica vem justamente disso, do antigo grego hermēneutik téchne, a sublime arte de decifrar, de extrair a essência profunda de palavras, imagens e silêncios que, à primeira vista, nada dizem.
Não se trata simplesmente de traduzir um texto ou explicar um desenho: é uma questão de rasgar o véu de Maia, essa cortina ilusória que nos permite ver apenas a superfície, passar do “que ela parece a olho nu” para “o que realmente é” lá no fundo de nós.
Pegue a Bíblia da Idade Média, com seus quatro níveis de leitura — literal como narrativa bruta, alegórico como símbolo que oculta, moral como lição para a alma, anagógico como aspiração ao divino — ou o lendário Templo de Salomão: para o observador distraído de fora, não passa de um monte de pedras talhadas e madeira de cedro, mas para aqueles que sabem aplicar a hermenêutica, ele se torna o templo interior, erguido tijolo por tijolo com a argamassa tenaz de suas virtudes, iluminado por uma força que nos supera, pelo Grande Arquiteto do Universo, que ordena e harmoniza todas as coisas.
Hermes Trismegisto, o três vezes grande, intérprete da vontade divina
Ela retoma a antiga tradição hermética em seus textos sagrados, como o Corpus Hermeticum, e não é coincidência que nossos ritos maçônicos ecoem esse mandamento gravado no templo de Apolo em Delfos: Nosce te ipsum, conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo.
É exatamente esse círculo hermenêutico teorizado por Heidegger e Gadamer, essa dança infinita onde você parte de uma peça do quebra-cabeça, que ilumina à luz do todo, e onde o todo se torna mais claro graças a essa peça, e assim por diante em uma espiral ascendente rumo a uma compreensão profunda e viva que te transforma até o âmago.
Na Maçonaria, é o pão diário, nosso pão ritual sem fermento.
Uma frase simples como Seja uma luz para seus irmãos e irmãs não é um lema de um cartaz motivacional pendurado na parede, é uma explosão cósmica, da chama trêmula da vela na mesa da loja até o fogo dentro de você que queima por dentro, purifica e muda para sempre.
Como São Paulo disse em suas cartas: Nunc videmus per speculum in aenigmate
Atualmente vemos o mundo como se fosse em um espelho, de forma enigmática e confusa, mas a hermenêutica é o pano que limpa esse espelho, camada após camada, revelação após revelação, até vermos o verdadeiro rosto.
Vamos falar um pouco mais sobre a Luz, porque ela é o coração dessa conversa, o sol em torno do qual nossos símbolos gravitam. Para observadores externos, para o leigo que observa de longe, é apenas uma lâmpada em um ambiente pouco iluminado, um artifício cênico.
Para aqueles que atravessam a porta do Templo e se envolvem no jogo, ele se torna Lux ex tenebris, a luz que emerge da escuridão, aquela centelha primordial que ilumina você na escuridão sufocante da Câmara de Reflexão, onde o iniciado enfrenta seus demônios pessoais antes de renascer.
Oswald Wirth, em sua obra Hermetic Symbolism, a descreve com precisão cirúrgica: é alquimia pura e simples, o chumbo bruto do ego que, sob o fogo da interpretação hermenêutica correta, é transmutado em ouro filosófico, brilhante e incorruptível.
Ele escreveu: Esse símbolo é uma linguagem universal que fala diretamente à alma, ignorando a razão superficial.
E ele está absolutamente certo.
Maçonaria e o Mistério
Vamos tomar o Compasso, com seus círculos perfeitos que evocam a eternidade cíclica do cosmos, e que, ao mesmo tempo, separam claramente o quadrado da terra dura e material do céu infinito e ilimitado. Ou o esquadro, que te ancora à retidão moral, à perpendicularidade da ação ética, enquanto sua mente aponta diretamente para o infinito.
Eu mesmo experimentei essa magia hermenêutica, durante noites inesquecíveis na loja, e juro que cada vez é uma revelação tão recente quanto a primeira.
No ano passado, no solstício de inverno, enquanto o frio intenso reinava lá fora e o calor dos Irmãos nos envolvia, a Estrela Flamejante nos falava sobre o renascimento, não como um conto de fadas para ser contado às crianças à noite, mas como uma verdade viva, pulsando em nossas veias.
Veritas vos liberabit. ─ A verdade vai te libertar.
Claro, mas só se você interpretar com essa intuição visceral que vai além da racionalidade, livros e teorias.
Nos mais altos graus do nosso Rito, a Cabala então irrompe com suas dez Sefirot, não simples desenhos abstratos em uma Árvore da Vida, mas chaves de ouro maciço para atravessar a parede intransponível entre o racionalismo frio e calculista e o misticismo quente e intuitivo, unindo o antigo hermetismo dos faraós à essência viva e cotidiana da Maçonaria.
Manly P. Hall, o gigante que explora esses mistérios há décadas, resumiu isso em seus escritos:
Símbolos são letras na linguagem universal da alma; Ignorá-los é como fazer ouvidos moucos a uma orquestra divina que toca só para você.
E isso não é reservado a uma elite presa em círculos secretos; essa hermenêutica é para todos; É uma transcendência que confronta a realidade da vida cotidiana. Ela te conduz da superfície dos fenômenos — o que você vê, toca e mede com seus sentidos — até a verdadeira e profunda meta-história, aquela que se esconde atrás do véu e dá significado a todas as coisas.
Observar a natureza não como um observador curioso pegando pedrinhas, mas como um Mestre que percebe intuitivamente os segredos cósmicos escondidos nas folhas, nas estrelas, no curso de um rio, cada gesto ritual — a espada roçando o ombro em uma iniciação carregada de emoção, o vinho tinto compartilhado em agape fraternal — é um código polissemico, ricas em camadas: convivialidade e calor humano por fora, comunhão eterna com o divino por dentro.
Albert Pike, o titã da moralidade e do dogma, trovejava com sua pena afiada os três primeiros graus da Ordem Maçônica:
A maçonaria é o alfabeto dos símbolos, uma linguagem silenciosa que fala para quem sabe ouvi-la.
Cabe a nós, intérpretes modernos do terceiro milênio, lê-lo sem erros, sem pressa.
Mas tome cuidado, porque se você não ficar vigilante, corre o risco de interpretar mal um símbolo, distorcê-lo por preguiça ou preconceito, e acabar em cultos ruins, fanatismos baratos ou ilusões nas redes sociais.
Em vez disso, você foca em uma interpretação autêntica, enraizada na tradição e iluminada pela Luz interior, e se torna verdadeiramente livre, um Irmão ou Irmã no sentido mais profundo e universal, pronto para trazer um pouco dessa luz para o mundo escuro lá fora, para iluminar aqueles que ainda tropeçam no profano.
A moral da história? A hermenêutica não é uma opção empoeirada em uma prateleira, uma moda passageira para filósofos de poltrona; é o caminho de todos, do leigo curioso ao iniciado experiente.
Lux in tenebris lucet. A luz brilha teimosamente na escuridão mais densa.
Então, não pare só na primeira impressão, não se contente com o superficial. Decifre com verdadeira paixão, transforme-se com coragem diária, incendeie-se sem medo ou hesitação.
Seja Hermes de carne e osso, com suas mãos imperfeitas, em seu templo interior feito de carne, sonhos e silêncios, e esta luz, verdadeiramente compreendida nas profundezas do seu coração, fará você eterno, além do tempo passageiro e do espaço restrito.
Fontes https://450.fm/ e Expartibus
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