Ivan A. Pinheiro[1]

Em 22.03.26, sob os auspícios da ARLS Virtual Lux in Tenebris, 47, jurisdicionada à Grande Loja Maçônica do Estado de Rondônia, ao lado dos Irmãos Mario Vasconcelos e Rui Badaró, ambos do Quadro da ARL de Pesquisa Maçônica Quatuor Coronati São Paulo, 333, jurisdicionada à Grande Loja do Estado de São Paulo, eu participei de uma Mesa Redonda cujo tema dá o título a esta Comunicação.
A cada participante foi destinado um tempo para a apresentação preliminar das suas ideias que, idealmente, deveriam ser seguidas de um debate aberto aos demais presentes na sala virtual. Mas o tempo, sempre célere, fugidio e contrariando todas as expectativas, não favoreceu o atingimento, a contento, de todos os objetivos; este texto, portanto, tem caráter complementar. No espaço que me coube, após a Introdução, eu deveria ter desenvolvido os tópicos que constam no texto “Por que fundar uma Loja (Maçônica) de Estudos e Pesquisas – LEP?”, publicado em Maçonaria com Excelência (https://www.maconariacomexcelencia.com/post/por-que-fundar-uma-loja-maconica-de-estudos-e-pesquisas-lep) e na Bibliot3ca Fernando Pessoa (https://bibliot3ca.com/por-que-fundar-uma-loja-maconica-de-estudos-e-pesquisas-lep/) – blogs de difusão da cultura maçônica em cobertura nacional. O objetivo deste texto é apresentar, de modo sucinto, as ideias trazidas oralmente à guisa de Introdução e cuja íntegra – no âmbito do evento – pode ser vista em https://www.youtube.com/watch?v=ZdTpjXbjuMo.
Preliminarmente, parece haver uma questão que demanda, de pronto, esclarecimento: como falar do Estudo & Pesquisa, na Maçonaria (E&PM), se, ao mesmo tempo, afirma-se que é um campo ainda em construção, portanto e em princípio, carente de informações básicas? A pergunta procede, e a resposta, na impossibilidade de se referir ao campo em si, impõe que a abordagem seja lateral, indireta: inferências a partir de sinais, que também podem ser vistos como indicadores passíveis de aferição, acompanhamento e, inclusive, gerenciamento. Assim, para tecer considerações acerca do campo suposto em construção (E&PM), foram elencados 5 (cinco) sinais colhidos no universo que acolhe a realidade objeto de estudo, isto é, junto à produção intelectual publicada em periódicos, anais, nos eventos, nas redes sociais, nos contatos formais e informais, etc.:
- a presença e a interação entre os elementos do ecossistema maçônico;
- sobre a natureza dos produtores intelectuais;
- no que tange às fontes utilizadas para a produção intelectual;
- no que refere à continuidade dos E± e, sobretudo,
- no que tange à mentalidade prevalecente no ecossistema, notadamente nas Potências.
Embora esses indicadores sejam considerados independentes e preditores do construto “estado da arte da pesquisa maçônica”, é inegável que entre eles há uma colinearidade, o que torna praticamente impossível estabelecer qual é o antecedente, o consequente ou o dotado do maior poder explicativo acerca da realidade posta.
Dito isso, entende-se por ecossistema maçônico: as Potências; os maçons enquanto indivíduos; as Lojas (Simbólicas, de Estudos e Pesquisas e outras); os Corpus responsáveis pelos Altos Graus (por vezes referidos como Graus Filosóficos); as Ordens Paramaçônicas; as Academias de Artes & Letras; as Fundações Maçônicas de caráter assistencial; o Mercado Editorial (blogs, sites, revistas em geral, editores, etc.), entre outras. Fosse o campo de E&PM já desenvolvido e maduro, as pesquisas revelariam: 1) não só um certo equilíbrio na presença desses atores, ora como atores-pesquisadores ativos apresentando resultados, ora como objetos de estudo, em meio às tantas publicações; mas, sobretudo, 2) o intenso relacionamento, a atuação cooperada no desenvolvimento de projetos coletivos em prol da geração (projeto, desenvolvimento, financiamento, etc.) e da disseminação do conhecimento maçônico. Não é o que se observa; cada qual, de regra, se restringe e se comunica como o seu próprio nicho para atender aos seus objetivos específicos.
Grosso modo, a produção intelectual (o estudo e a pesquisa) pode ser “levada a cabo” de 2 (dois) modos: individual ou coletivamente, quando mediada por parcerias informais (reunidas por afinidades) ou construída a partir das institucionalidades – Grupos ou Lojas (Simbólicas ou de Estudos e Pesquisas), pesquisadores independentes, Universidades, etc. Ainda que a humanidade já tenha assistido ao despertar e à ascensão de alguns gênios, de regra prevalece a sabedoria popular: “se quer ir rápido, vá sozinho, mas se quer ir longe, vá acompanhado”; “juntos somos mais”; “a união faz a força”; etc. Os motivos são autoevidentes: as limitações, de toda ordem, que restringem o alcance das iniciativas individuais: tempo, recursos financeiros, equipamentos, visões de mundo, domínios específicos (idiomas[2], ferramentas estatísticas, etc.), dilema: amplitude vs foco, acesso às fontes de informação, a importância da autocrítica, etc. Já na paisagem maçônica brasileira, e com larga margem, predominam as iniciativas individuais – traço revelador da incipiência do campo que se firma em construção e o torna, a priori, mais exposto aos riscos, erros, bem como a deixar lacunas em aberto, como é próprio da insipiência dos iniciantes.
Já existem, mas não cabe citar aqui, estudos que revelam que o maçom-pesquisador brasileiro recorre, predominantemente, aos livros de autores nacionais e escritos por maçons, o que revela endogenia e dupla desconexão: tanto com a plêiade de pesquisadores nacionais-não maçons, vários acadêmicos, quanto com o universo de pesquisadores situados no exterior, traços de um insulamento que beira a contradição quando se sabe que a Maçonaria tem as suas origens, ainda que em local e tempo incerto, no Velho Mundo, de onde, à exceção dos estudos de natureza eminentemente locais, são provenientes as atualizações no estado da arte neste domínio do conhecimento. Ademais, a consulta aos livros, ainda que traduções das fontes originárias e recentes, remete a um conhecimento relativamente maduro, ao contrário dos periódicos e anais, que veiculam o conhecimento mais atualizado. A propósito dos livros: se a difusão da editoria própria e individual trouxe ganhos, sobretudo no que tange à acessibilidade, de outro lado, pela ausência de revisão, favorece o que, infelizmente, já é uma realidade: a disseminação de incontáveis erros e equívocos de toda natureza; cuidado, pois.
Uma das características da pesquisa obediente a protocolos estruturados é que, tendo iniciado com um problema claramente identificado no campo de estudo (lacunas na literatura, divergências entre autores, resultados não esperados, ignorância[3], etc.), independentemente da solução ou do seu esclarecimento, ela apresente no relatório final (em forma de artigo, livro, etc.) novos problemas identificados no curso do processo. Esses últimos resultam da própria limitação do método utilizado, da ocorrência de imprevistos (p. ex., nem todos responderam, faltaram recursos, pressões de tempo, etc.) ou até mesmo, ainda que não tenham relação com o foco do estudo, emergiram por mero acaso. De qualquer modo, fica claro, patente, que o pesquisador se ocupa e se preocupa em trazer novas contribuições ao campo de estudo. De outro lado, há o estudo e a pesquisa orientados pelo voluntarismo, aquela em que o condutor escolhe o tema e delimita o problema a partir da sua vontade, do seu único e exclusivo desconhecimento pessoal, casos em que, ao final, pode até lograr alguma aprendizagem, mas nada acresce ao campo de estudo, do qual se diz, então, que ficou “tudo como dantes no quartel de Abrantes”. E na ausência do método, que também é uma característica das iniciativas voluntaristas, resultam textos considerados opinativos, de menor expressão e de difícil utilização pelos pesquisadores que intentam ampliar os horizontes do estado da arte. O primeiro modo convida e induz à continuidade, não só procura superar os óbices que se levantaram nos estudos anteriores, mas também busca, se não a solução, o melhor entendimento acerca dos novos problemas revelados pelos precursores à comunidade de estudos. E também, na perspectiva desse indicador, é inequívoco que a pesquisa maçônica no Brasil é incipiente e voluntarista, ou, vice-versa, o que não deixa de ser igualmente uma expressão do insulamento.
O último indicador, que provavelmente circunscreve os demais ou mesmo os anteceda, o que então o tornaria a causa primeira, é algo que “salta aos olhos” e assombra o pesquisador: a mentalidade – a certeza, ao invés da dúvida e do ceticismo, seguramente presente em muitas publicações; não obstante, as suas expressões, veladas, quase sempre venham encobertas com manifestações do tipo “na humilde opinião de um eterno Aprendiz”. É notável que enquanto o pesquisador genuíno se acautela recorrendo a expressões como “há indícios de que…”, “os dados preliminares levam a pensar…”, “salvo melhor juízo …”, “esta informação, embora importante, demanda confirmação”, entre outras. Já o voluntarista encerra a questão dando as suas considerações como definitivas, nem sempre, é claro, de forma taxativa; embora convicto da sua verdade, é preciso explicitar a humildade. Enquanto o primeiro deixa as portas em aberto, convida à continuidade, intencionalmente provoca novas reflexões e abordagens, o segundo as fecha; afinal, Roma locuta, causa finita; nada mais resta a ser esclarecido. Concomitantemente, o argumento em defesa de “qualquer coisa” transita por entre as expressões: “tudo é relativo”, “cada qual interpreta os símbolos de acordo com a sua visão”, “cada qual tem o seu tempo de aprendizagem, nada pode ser imposto”, entre outras.
À guisa de especulação, arrisco algumas explicações para essa mentalidade e suas manifestações:
- a primeira, a que entorta o tronco em caráter praticamente definitivo e cria o que então será denominado [sic] de usos e costumes, é a que desde os primeiros trabalhos, ainda em resposta às Instruções, o Iniciado adquire o hábito de só receber elogios. Os mais perspicazes e críticos percebem que o elogio reiterado, gratuito e quase padronizado é uma estratégia que atende duplo propósito: escamotear a ignorância dos que exaltam e, assim, evitar atritos em prol da harmonia em Loja ou entre os Irmãos em geral. Por ora não cabe discutir os méritos (ou não) dessa estratégia, mas tão somente registrar que ela é incompatível com o espírito do pesquisador genuíno, que recebe e necessita da crítica enquanto oportunidade para ampliar e aprofundar os estudos e, eventualmente, melhorar e alavancar a contribuição do trabalho. É o que se espera dos Mestres, sobretudo dos Instalados, que já desde os primeiros dias na Ordem, os Iniciados sejam estimulados a desenvolver o pensamento crítico que, adiante, será indispensável no contexto do E&PM. Saber ouvir e/ou fazer crítica às ideias é conditio sine qua non para que um campo em construção se desenvolva e atinja a maturidade;
- embora cada vez mais frequentes no Brasil, as chamadas de trabalho (editais) para a edição de coletâneas não estão organizadas no sentido à formação da cultura da avaliação crítica-orientativa: em quase 100% dos casos a resposta às submissões limita-se a: aprovado vs reprovado. Se, de um lado, o aprovado experimenta a alegria de ter o seu saber reconhecido, de outro, não sabe exatamente o(s) motivo(s): se pela relevância do tema, se pela criatividade e contribuição original ao campo de estudos, se pela abordagem metodológica ou se pelo conjunto da obra; conhecimento que, se lhe fosse dado, poderia melhor orientá-lo nas próximas iniciativas. Já o reprovado, se fosse o caso, primeiro perdeu uma oportunidade de, a partir da crítica argumentada e seguida de sugestões, qualificar a submissão, senão para o evento em tela, para os próximos. Contribui para essa realidade fática a ausência da divulgação de critérios prévios e objetivos de avaliação, o que deixa os avaliadores (que deveriam contribuir para o trabalho) em situação bastante confortável, a exemplo do que se verifica em Loja e já é considerado cultura, comportamento integrado aos usos e costumes; e,
- last, but not least, a cultura disseminada, e lamento constatar que quase já naturalizada, de que o maçom não lê, simples assim; só falta dizer que o bom maçom não lê, afinal, não só não há exame de qualificação (leitura e interpretação de textos, histórico, etc.) para ser admitido na Ordem, como há vários modos de ser maçom, de exercer a sua “maçonidade”. O absurdo da aceitação naturalizada do que já é evidência (a de que o maçom não lê) torna-se ainda mais eloquente quando posta em contraste com os objetivos estabelecidos pela própria Ordem – vide as Constituições das Potências. Como recorrer, para o aprendizado e o estudo do simbolismo, à História, à Filosofia, à Psicologia, entre outras áreas, sem que a indicação e a seleção dos Quadros passem pelo filtro do hábito da leitura? Todos celebram Pitágoras e Platão, mas esquecem de mencionar que havia criteriosa seleção para ingressar e progredir nas respectivas Escolas. Como promover o autoaperfeiçoamento e vir a ser um modelo de atitudes e comportamentos perante a sociedade sem, minimamente, ler, aprender e apreender os conceitos, os construtos, o histórico de tentativas, erros e acertos? E, pasmem, até mesmo nas atuais Lojas (Maçônicas) de Estudos e Pesquisas há resistências à prova de qualificação; assim, a indicação por amizade, enquanto critério definitivo, continua a prevalecer em detrimento da competência e da experiência indispensáveis à alavancagem do campo de E&PM.
Já se encaminhando para as considerações finais, é preciso deixar absolutamente claro que o posicionamento ora assumido não é contrário aos textos opinativos, monoautorais lastreados ou não em bibliografias; há uma riquíssima produção intelectual na forma de resenhas, crônicas, poesias, contos e outros que trazem argutas análises, quer da sociedade em geral, quer dos comportamentos individuais e/ou de contingências específicas. Eles podem estimular insights interessantes e bastante úteis, mas dado que não atendem aos critérios e exigências universais de estudo e de pesquisa, de regra são considerados “cultura geral”, por vezes com notas folclóricas, e pouco contribuem para o desenvolvimento do estado da arte do campo ora objeto de atenção.
Finalmente, conforme esclarecido, este texto é uma síntese dos pontos apresentados, à guisa de Introdução, no evento indicado acima. A lista de tópicos (indicadores) não pretende ser exaustiva, mas, antes, suscitar reflexões para diagnosticar e encaminhar propostas para o desenvolvimento de um campo que, por estar em construção, ainda não oferece, de si mesmo, dados suficientes. Reitera-se que este texto é complementado por outro, também citado e referido acima, e que ambos são o produto da experiência com E&PM realizada pelo autor e já relatada em diversas publicações que esclarecem e detalham o que, por ora, não pode ser desenvolvido a contento.
Notas
[1] MM, Pesquisador Independente, e-mail: ivan.pinheiro@ufrgs.br. Porto Alegre-RS, 31.03.26.
[2] No que tange aos Ritos mais antigos eles já fizeram, e nos mais novos, como é o caso do Rito Escocês Retificado, os tradutores têm realizado um trabalho extraordinário, de grande relevância; todavia, quase a totalidade das publicações referem-se aos livros, ficando à margem (compreensivelmente) os artigos veiculados pelos periódicos, blogs e sites, de onde, excepcionalmente, uma ou outra matéria é traduzida e publicada.
[3] No contexto, esta expressão não tem qualquer conotação ou intenção ofensiva ou agressiva, simplesmente revela o desconhecimento de algo julgado relevante.
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