Bibliot3ca FERNANDO PESSOA

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Entendendo o Budismo – Experiência e Sabedoria

Pela Equipe Editorial 450.fm

Introdução: da postura à atitude interna

Depois de estabelecer, no artigo anterior, as bases da meditação, é útil aprofundar a postura e, especialmente, a atitude interior que a acompanha. Meditar não é apenas “manter bem o corpo”, mesmo que uma coluna ereta, o pescoço e a cabeça na extensão, a respiração natural e os olhos semicerrados voltados para o chão a cerca de 45° constituam uma estrutura favorável. Na verdade, trata-se de se estabelecer em uma disponibilidade global: escanear o próprio corpo, identificar áreas de tensão, liberá-las sem forçar, manter os cinco sentidos abertos a sons, formas, cores, cheiros, sabores e contatos, como tantas nuvens que cruzam o espaço interior sem que nos agarremos a elas. Da mesma forma, pensamentos, memórias, ideias, sensações agradáveis ou desagradáveis, emoções que surgem são bem-vindas como fenômenos passageiros: as vemos chegando, deixamos que passem, sem julgá-las, sem nelas colar um rótulo.

A postura, o corpo… E o que acontece na cabeça

Para quem está começando, é normal ter que ajustar a postura, se mexer um pouco, massagear uma articulação, mudar de posição quando o corpo não acompanha mais. O erro seria ficar tenso diante da dor ou do ideal de imobilidade, a ponto de concluir rápido demais que “meditação não é para mim”. O corpo é um suporte, não um fim em si mesmo; O que importa é manter uma consciência aberta, mesmo quando nos movemos, mesmo quando nossos pensamentos estão agitados. Em vez de dizer “meu corpo, minha dor, minha deficiência”, é mais preciso ver o que ocorre como um fenômeno relacionado a certas condições de postura e contexto. O mesmo vale para o ruído, movimentos ao seu redor, idas e vindas: longe de serem obstáculos, eles se tornam parte integrante da prática. Meditar em um ambiente agitado ensina você a reconhecer que o mundo exterior é frequentemente tão agitado quanto o seu mundo interior, e que não se trata tanto de fazer a correria desaparecer quanto de abrir um espaço dentro de si para deixá-lo passar.

Atenção plena ao fenômeno: deixá-lo ir

Essa primeira fase meditativa baseia-se na plena consciência dos fenômenos: corpo, respiração, sons, pensamentos, emoções. Praticamos não resistir, não bloquear, para que esse fluxo natural de energia possa passar por nós. É um passo valioso para domar doenças, estados físicos ou psicológicos difíceis, ou simplesmente nossas sensações agradáveis, neutras ou desagradáveis. Pouco a pouco, aprendemos a descer camada por camada: do corpo às sensações, das sensações às diferentes formas de consciência, até tocarmos nossos padrões cármicos, nossos hábitos mais profundos. Um exercício simples é colocar e repousar a consciência na respiração: inspirar, expirar, repetidas vezes. Quando a atenção vai para um ruído ou outro estímulo, nós o observamos, depois o trazemos de volta para a respiração, sem violência. Essa regulação pela respiração ajuda a estabilizar o fluxo de energia, aliviar tensões e acalmar a excitação ou frio excessivos.

Meditando em situações difíceis sem reagir

Outro passo é escolher voluntariamente um “objeto” para meditação: não algo confortável, mas uma situação realmente difícil em nossas vidas. Conflito no trabalho, uma relação tensa com um vizinho, doença, preocupação com o futuro… Deixamos uma cena acontecer que quebra nosso equilíbrio e nosso bem-estar, então assistimos como um filme, sem repetir o papel, sem procurar uma solução imediata. O objetivo não é a indiferença, mas a suspensão da reação impulsiva: abrir a consciência, observar os detalhes, as emoções, os pensamentos associados, sem julgar e sem responder. Essa mesma atitude pode ser aplicada aos nossos sentidos: diante de uma visão insuportável, uma palavra dolorosa, um cheiro ou um gosto que nos repele, trata-se de acolher o desacordo, de ver a raiva crescer… Mas não para deixar que isso ditasse nosso comportamento. Dessa forma, aprendemos a falar e agir não sob a influência da emoção, mas a partir de um espaço mais estável e claro.

Treinamento de Estabilidade: Emoções e Sabedoria

Essa prática exige treinamento real, repetido e paciente. Grandes emoções – raiva, medo, ansiedade, tristeza – frequentemente funcionam como reflexos condicionados: quando enfrentamos uma situação que não gostamos, a reação desaparece instantaneamente. Meditar, aqui, consiste em desacelerar esse reflexo: receber a emoção como uma “nuvem” interior, deixá-la tomar forma, observá-la e depois deixá-la se dissipar sem se identificar com ela. Com o tempo, a intensidade dessas tempestades emocionais diminui. Descobrimos que não responder imediatamente não significa fraqueza ou covardia: às vezes é a expressão de uma força interior, de uma sabedoria que sabe que responder “na hora” só amplificaria o conflito. Aprender a ficar em silêncio, a se afastar por um momento, a adiar uma discussão, não é fugir, é preservar a clareza.

Uma prática diária, sem cura milagrosa

Não existe cura instantânea, nem remédio para “curar” nossas emoções. A única maneira é a prática regular, humilde e diária. Sentar, assumir a postura, respirar, escanear o corpo, deixar os fenômenos virem, recebê-los como visitantes que recebemos e deixamos ir. Então, em situações concretas da vida, lembre-se desse espaço interior que cultivamos: antes de responder, antes de reagir, deixar a nuvem cair, recuperar um pouco de estabilidade mental. É a partir dessa nova clareza que podemos escolher palavras e ações mais ajustadas. Esta continuação do artigo anterior nos convida a passar da simples descoberta da meditação para um trabalho real sobre nós mesmos: pacientemente, sem perfeccionismo, aceitando que cada sessão é diferente e que o caminho é traçado passo a passo.

Fonte https://450.fm