Por Jean Ylare

Ou a história dos anões que vislumbraram a Luz
Vamos começar com um sorriso… e um trocadilho de linguagem de pássaros.
Frequentemente somos lembrados de que o iniciado passou por uma porta baixa durante uma das viagens da iniciação.
Esse detalhe arquitetônico parece insignificante. No entanto, quando ouvimos as palavras com o ouvido simbólico, surge uma estranha proximidade.
A palavra anão (nain) em francês é quase o eco fonético de nascido Um (nés Um).
Duas expressões quase idênticas… E ainda assim parecem ser opostos. O anão evoca a pequenez, a limitação, a humildade da condição humana.
Aquele que sabe que ele ainda não sabe.
Nascido Um, por outro lado, evoca a origem profunda do ser: a unidade primordial da qual todas as coisas procedem.
E ainda assim, em linguagem simbólica, essas duas realidades não são opostas.
Eles se complementam. Pois a iniciação nos revela uma verdade paradoxal:
Somos pequenos em nossa consciência, mas imensos em nossa origem.
Assim, a porta baixa nos lembra dessa natureza dupla.
Entramos como anões, conscientes de nossas limitações.
Mas o caminho iniciático nos leva, pouco a pouco, a redescobrir que nós, nas profundezas do nosso ser, nascemos Um.
A porta baixa é, portanto, o limiar entre esses dois estados.
Marca a passagem da ignorância para a memória da unidade.
A porta baixa: símbolo de humildade iniciática

A porta baixa te obriga a se curvar.
Quebra a rigidez do corpo assim como quebra o orgulho do espírito.
Quem cruza esse limiar entende que a iniciação não é uma conquista intelectual.
É uma nudez.
Não se entra no mistério crescendo.
Entra-se fazendo uma reverência.
E quando a Luz aparece, ela não revela apenas o Templo.
Ela revela algo em nós que já estava lá.
Como se uma voz silenciosa sussurrasse:
Você não descobre a Luz.
Você se lembra dela.
Uma fraternidade que vai além das fronteiras

A partir desse momento, algo muda na percepção do outro.
Pois aquele que vislumbrou essa Luz reconhece instintivamente aqueles que caminham em sua direção.
Não importa qual obediência sejam.
Não importa qual seja o rito.
Não importa qual língua ou tradição seja.
Todos passaram pela mesma porta baixa.
Todos eles vivenciaram esse momento particular em que deixamos o velho mundo para entrar no espaço simbólico.
Assim nasce a verdadeira fraternidade iniciática.
Não é baseada em uma estrutura humana.
É baseada em uma experiência interior compartilhada.
Todos nós somos buscadores da Luz.
Não uma luz externa, decorativa, intelectual.
Mas essa luz interior, aquela que ilumina o coração e a mente.
O Templo sob a abóbada estrelada

O Templo Iniciático não é apenas um lugar.
É um mapa simbólico da consciência.
Sob a abóbada estrelada, exploramos as direções sagradas:
De Leste a Oeste,
De Norte a Sul,
Do Nadir ao Zenith.
Essas direções não descrevem apenas o espaço.
Elas descrevem o caminho do ser humano.
O Oriente é o despertar.
O Ocidente é a experiência.
O Norte é a zona de aprendizado e humildade.
O Sul é a luz do entendimento.
Entre o Nadir e o Zênite desenrola-se o eixo do homem.
Um eixo conectando a terra ao céu.
Assim, o Templo nunca é concluído.
Pois o Templo é o próprio homem em construção.
A chama secreta no centro

No centro do Templo arde um fogo invisível.
As tradições a chamaram por mil nomes:
A centelha divina,
O fogo secreto dos alquimistas,
A luz do coração.
É isso que leva o homem a olhar além das aparências.
Ele é quem sussurra que a existência humana tem uma dimensão infinitamente maior que nosso pequeno ego.
Esse fogo não alimenta o orgulho.
Ele a dissolve.
Pois o iniciado descobre gradualmente que sua busca pessoal faz parte de um trabalho que está além dele.
Uma obra imensa: o despertar da consciência no mundo.
A armadilha das divisões

E ainda assim, a história humana é cheia de divisões.
Ritos contra ritos.
Obediências contra obediências.
Tradições contra tradições.
Como se o homem às vezes esquecesse que formas são apenas vestes simbólicas.
Os antigos teriam chamado isso de armadilha do diabo, porque diabolos significa exatamente: aquele que separa.
Mas a iniciação busca exatamente o oposto.
Ela busca confiança.
Conectar o homem consigo mesmo.
Conectar o homem aos outros.
Conectar o homem ao cosmos.
O homem no centro da cruz

O iniciado descobre que está no centro de uma cruz tridimensional.
Horizontalmente, ele vive entre homens.
Verticalmente, ela se eleva para o mistério.
No centro dessa cruz está o ponto vivo da consciência.
E é aqui que o trabalho iniciático realmente começa.
A espiral da vida

Mas a evolução do ser não segue uma linha reta.
Segue uma espiral.
A espiral é encontrada em toda a criação:
Em galáxias,
Nas conchas,
No DNA,
No crescimento das plantas.
É a expressão visível da Proporção Áurea, a misteriosa harmonia que organiza a vida.
Assim, o iniciado não fica andando em círculos.
Ele retorna às mesmas perguntas, mas em um nível mais alto de compreensão.
A espiral respira.
Ela conecta o microcosmo ao macrocosmo.
O trabalho conjunto

A fraternidade iniciática então se torna uma realidade viva.
Pois todos aqueles que buscam a Luz participam, consciente ou não, da construção do Templo universal.
Os iniciados.
Os pesquisadores.
E até mesmo aqueles que ainda não cruzaram a porta baixa, mas que já sentem o chamado.
Todos participam desta imensa obra:
Trazer à tona a consciência no coração do mundo.
O Templo Interno

E, finalmente, o verdadeiro Templo não é nem uma loja nem uma instituição.
O Templo é o ser humano iluminado.
Um templo cujos pilares são sabedoria e compaixão.
Cuja abobada é infinita.
Cujo pavimento de mosaico é a complexidade do mundo.
E no centro deste Templo ainda arde o mesmo fogo.
O fogo da busca.
O fogo da verdade.
O fogo da fraternidade.

Então sim, passamos por uma porta baixa.
Talvez porque ainda éramos um pouco anões em consciência.
Mas a iniciação nos lembra gentilmente que, por trás dessa aparente pequenez, permanece uma verdade mais profunda:
Todos nós, desde o começo, nascemos Um.
Fonte: https://450.fm
Compre Livros sobre Maçonaria – clicando em
LIVRARIA DA BIBLIOT3CA
