Bibliot3ca FERNANDO PESSOA

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Maçonaria e Alquimia

Tradução J. Filardo

Por Leon Zeldis ***

Sabemos que nas lojas de maçons operativos na Idade Média era costume realizar uma única cerimônia, quando um aprendiz era recebido e inscrito nos livros da loja – assim, ele era chamado de aprendiz registrado e se tornava um Companheiro no ofício.

A cerimônia naqueles dias durava pouco, e entendemos que apenas as antigas obrigações dos maçons confirmadas por um juramento do irmão eram lidos no volume do Novo Testamento, que a maioria dos irmãos, ironicamente, não sabia ler.

Apesar das poucas informações que temos sobre a construção e o trabalho das lojas nesta época, deve-se notar que no final da Idade Média o processo de cerimônias maçônicas começou em etapas, incorporando elementos esotéricos e filosóficos.

Assim, esse processo foi influenciado e foi até mesmo uma consequência indireta do desenvolvimento da ciência e da tecnologia nos séculos 17 e 18.

Um fator adicional foi o aprofundamento e interesse pelos livros antigos de filósofos e oradores gregos, de manuscritos cabalísticos e, mais particularmente, do estabelecimento da Ordem Rosacruz.

As duas primeiras obras relatando sua criação, publicadas nos anos de 1613 e 1614, são conhecidas como FAMA e CONFESSIO. A alquimia não é tratada especificamente nesses trabalhos. Um ano depois, mais um livro foi publicado sob o nome: “The Alchemical Marriage of Christian Rosenkreutz”, escrito por Valentin Andrea, livro que, por outro lado, é essencialmente alquímico e esotérico. A maioria dos pesquisadores da área é da opinião de que os dois primeiros volumes também foram escritos pelo mesmo autor.

Outro acontecimento que veio reforçar a conexão entre maçonaria especulativa, isto é, filosófica, e esoterismo foi um artigo pequeno, mas muito importante, que apareceu em uma obra publicada em 1638, ou seja, apenas 23 anos após os volumes citados acima. Neste novo volume, que é uma espécie de guia em verso para a cidade de PERTH, na Escócia, está escrito:

“O que profetizamos não está errado
Pois somos irmãos da Rosacruz
Temos a Palavra do Maçom e a Segunda Visão
O que vai acontecer, podemos prever exatamente.”

The Muses’ Threnodies, de H. Adamson (Perth, 1638)

Tentaremos analisar este texto: há um grupo de pessoas que pretendem ser “irmãos” e que pertencem a um movimento esotérico dos rosacruzes; eles têm a “palavra do maçom”, não um sinal ou uma senha, mas uma “palavra secreta”, uma palavra que lhes concede força sobrenatural, para prever o futuro.

Não há melhor prova da existência de fundamentos místicos, já de um período tão inicial da Maçonaria. Apesar do que está escrito acima, após o século 18, quando os rituais maçônicos que conhecemos foram escritos, houve uma separação do pensamento teórico entre as cerimônias usadas na Grã-Bretanha e as realizadas na França. As cerimônias na Inglaterra, Escócia e Irlanda tornaram-se mais simples e enfatizaram o lado religioso – Deísta.

Na França, e logo depois nos países da Europa, as cerimônias maçônicas se multiplicaram e se tornaram mais complexas. Vários elementos das ciências secretas, alquimia e outros foram adicionados. Além disso, a multiplicidade de cerimônias, chamemos-lhes GRAUS, deu origem a ordens e conjuntos de “GRAUS” que levaram ao estabelecimento de um sistema regular e ordenado, denominado Rito Escocês Antigo e Aceito.

Enquanto nos países de língua inglesa novas cerimônias foram introduzidas além dos três primeiros graus – e em novos cenários, como o REAL ARCO, traduzido em Israel pelo nome de “Heichal Aron Habrit”, em inglês, “O Templo da Arca da Aliança”, e outros graus adicionais desordenados que não têm relação entre si. Os europeus, por outro lado, regulamentaram as cerimônias de acordo com o Rito Escocês citado em outros lugares, e também outras organizações como o Rito de Memphis-Misraim, os Iluministas e muitos outros. De todos estes apenas o Rito Escocês sobreviveu espalhado pelo mundo até hoje.

Nas cerimônias conforme o Rito Escocês, especial atenção é dada às influências e elementos alquímicos e esotéricos. A cerimônia de iniciação de um profano é composta por três etapas, de acordo com a promoção do irmão do primeiro, ao segundo e ao terceiro grau.

A primeira cerimônia, a Iniciação, é o passo da purificação do ser humano, a fim de deixar de ser o profano que ele era. Isso faz um paralelo com o estágio do NIGREDO no processo alquímico, a parte NEGRA – que nos lembra a “câmara de reflexão”.

A segunda etapa, a passagem para o segundo grau, no rito escocês, um “aumento de salários”, representa a etapa de MATURIDADE, que se assemelha à fase SOLVE Et COAGULA no trabalho de alquimia, ou seja: “DISSOLVER E PRECIPITAR”, também conhecido como LEUCOSE-BRANQUEAMENTO.

O aprendiz é instruído neste grau e abre-se ao estudo da Maçonaria, das artes e das ciências. Depois de terminar, ele estava finalmente pronto para passar para o terceiro e último degrau no processo de sua iniciação. Isso se chama EXALTAÇÃO, que na verdade é uma cerimônia de SUBLIMAÇÃO, ou em termos alquímicos, a passagem para IOSIS – ou YEDOUM. Não devemos nos furtar à estreita conexão com a língua hebraica: Adom-Adama-Adam-Yedoum.

A sublimidade do homem facilita sua aproximação direta com o Eterno, e este é, portanto, o propósito sagrado do trabalho alquímico e também cabalístico.

Lembrei-me de que na iniciação há muitos símbolos alquímicos. A cerimônia começa na câmara de reflexão, uma pequena sala inteiramente escura, como se o postulante estivesse na terra, é o primeiro passo na purificação do profano, pela terra.

Nesta sala o profano encontra uma caveira, um prato de sal, em outro prato, enxofre, e na parede um desenho de um galo santificado ao deus HERMES-MERCÚRIO. Assim, neste gabinete encontramos as três bases alquímicas que são: Enxofre-Mercúrio-Sal.

Na parede notamos vários sinais, eu falaria apenas de um deles: está escrito a palavra VITRIOL, o nome antigo de diferentes sais de ácidos sulfúricos, na verdade é outra coisa que é isso:

VISITA INTERIORE TERRAE RECTIFICANDOQUE INVENIES OCCULTUM LAPIDEM, Ou  VISITE O INTERIOR DA TERRA E, AO RETIFICAR, VOCÊ ENCONTRARÁ A PEDRA OCULTA.

Então, o que é a pedra oculta?

É um convite à busca do Ego profundo, que não é outro senão a própria alma humana, no silêncio e na meditação. Há diferentes pontos de vista, talvez esta seja a Pedra Filosofal que dá a vida eterna e que, segundo os alquimistas, deveria realizar a transmutação de metais em ouro. Ou ainda, é a alma do ser humano, ou melhor ainda o espírito de Deus.

De qualquer forma, é uma palavra importante na alquimia, aparece em muitos artigos e pinturas alquímicas. Em seguida, retiramos do profano todos os objetos de metal; e objetos de valor, incluindo notas que são consideradas “metais” simbolicamente. Novamente o objetivo é claro, remover todos os elementos que possam perturbar a continuação da purificação alquímica, a saber: SOLVE ET COAGULA – DISSOLVER E PRECIPITAR;

Por que os metais são considerados um fator negativo? Porque são extraídos à força da terra, como se estivessem violando a primeira Deusa de todas as crenças primitivas, que era a Mãe Terra. Depois disso, no decorrer da cerimônia, o profano se purifica, pelo ar, pela água e pelo fogo, ou seja, é purificado pelas quatro bases da ciência antiga.

Tornou-se irmão da Maçonaria e preparou-se para os seus estudos, durante os quais teve de se virar em todas as direções – estes são os movimentos estranhos nos seus passos à entrada do templo maçónico – lembro-vos que este é o Rito Escocês, ele anda para a frente, leste, sul, norte, mas não vai para oeste, ou ocidente,  pois vem dele, e não há como voltar atrás.

Assim, torna-se irmão da ordem, chega ao terceiro estágio em seus primeiros passos, “elevação física e espiritual”. O V.M. toma a mão do novo irmão na sua, e com a outra rejeita os que vêm depois dele, pois às portas do céu entra-se um a um, cada ser, não em grupos.

A alma do irmão está agora purificada, seu dever de alcançar sua elevação espiritual e, não menos importante, dar o exemplo para os outros que seguirão seus passos. Uma última palavra sobre o trabalho alquímico: enquanto na química e na física o lugar e o tempo não são essenciais para a execução do experimento, na alquimia eles são parte integrante da ação. Ou seja, no trabalho alquímico o experimento e aquele que o executa, o experimentador, intervêm ao mesmo tempo.

Tomemos o exemplo do escritor de livros religiosos, como a Bíblia, o “Sofer stam”. Ele se purifica antes de começar a escrever a Torá, então o alquimista terá que se purificar para que ele tenha sucesso em sua função.

Concluo este artigo desejando um trabalho frutífero, em comum, como maçons, e rezando para que continuemos a ser puros em espírito, palavra e ação.

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*** Leon Zeldis -Ex-Grão-Mestre Adjunto da Grande Loja do Estado de Israel.