Bibliot3ca FERNANDO PESSOA

E-Mail: revista.bibliot3ca@gmail.com – Bibliotecário- J. Filardo

Maçonaria e Neurodiversidade: Quando Autismo, TDAH, Superdotados… ingressam na loja

Por Alice Dubois

 

Imagine por um momento a atmosfera solene de uma loja. Os irmãos e irmãs, vestidos com seus aventais, estão em uma cadeia de união. O Venerável Mestre desfere os golpes rituais. O silêncio se instala, carregado de símbolos. Para a maioria, esse momento incorpora a harmonia perfeita do trabalho maçônico. Mas para outros cérebros, aquele mesmo momento pode parecer uma tempestade sensorial, um fogo de artifício intelectual ou um desafio constante contra o impulso de se mover, questionar ou se aprofundar demais em um detalhe simbólico.

A maçonaria, com seus ritos imutáveis, sua hierarquia benevolente e sua demanda por fraternidade, é confrontada com uma realidade contemporânea: a neurodiversidade. Autismo[1], TDAH[2], alto potencial intelectual[3]… Essas singularidades cognitivas “quebram a estrutura” do templo ou, pelo contrário, enriquecem-no com novas perspectivas? Como as lojas gerenciam, ou às vezes não gerenciam, essas diferenças? Por meio de reflexões e testemunhos anônimos, vamos explorar a escuta, a fala e o trabalho na loja quando o cérebro não funciona “como o cérebro dos outros“.

O encontro das singularidades cognitivas com o templo

A Maçonaria baseia-se em pilares: ritual preciso, escuta atenta, fala codificada e busca coletiva pela luz. Esses elementos, herdados de tradições seculares, frequentemente assumem uma certa uniformidade cognitiva. No entanto, a neurodiversidade revela que os cérebros humanos variam profundamente na forma como processam informações, regulam a atenção, decodificam interações sociais ou exploram ideias.

O autismo, em suas múltiplas formas do espectro, frequentemente traz um pensamento literal e sistêmico excepcional, uma forte atração por símbolos e uma lealdade profunda. O TDAH introduz criatividade abundante, hiperfoco intenso, mas também dificuldades para manter a atenção durante rituais longos ou discursos estruturados. O alto potencial intelectual, ou “superdotados” na linguagem cotidiana, é caracterizado por hipersensibilidade, pensamento intensamente ramificado e uma busca insaciável por significado, que naturalmente tem relação profunda com a dimensão especulativa da arte real.

Esses perfis não são marginais nas lojas. Observações e reflexões publicadas em revistas maçônicas até sugerem que a Maçonaria é particularmente atraente para os ” filocognitivos “, aqueles pensadores com redes neurais particularmente ativas, muitas vezes em conexão com alto potencial. Eles encontraram terreno fértil em símbolos, alegorias e debates filosóficos. Mas a integração às vezes é complicada.

Autismo na Loja: Sensibilidade Intelectual e Desafios Relacionais

Algumas formas de autismo, anteriormente descritas como Asperger, oferecem uma afinidade notável com o universo maçônico. A sensibilidade intelectual particular desses perfis, sua capacidade de dissecar símbolos e se imergir em sistemas complexos pode florescer no templo. Um artigo médico e maçônico observa que “os sujeitos que sofrem disso geralmente possuem uma sensibilidade intelectual particular que pode muito bem ser apreciada no universo maçônico“, desde que a loja aceite certos “inconvenientes” comportamentais.

No entanto, desafios existem. Interações sociais codificadas, contato visual esperado, decodificação de insinuações ou gerenciamento sensorial (barulhos de malhetes, luz fraca, proximidade física em uma cadeia de união) podem se tornar exaustivos. Um irmão autista pode se destacar na análise simbólica do 1º grau, mas ter dificuldades durante banquetes fraternos, onde conversas informais dominam.

Comentários anônimos de discussões maçônicas ressaltam essa dualidade: alguns acreditam que as lojas se beneficiariam de acolher mais pessoas no espectro autista, porque a neurodiversidade promove o progresso e traz novas perspectivas. Outras pessoas autistas expressam medo de que sua particularidade seja percebida como um obstáculo à iniciação.

TDAH e o ritmo maçônico: hiperfoco versus dispersão

O transtorno de déficit de atenção, com ou sem hiperatividade (TDAH), confronta diretamente o ritmo lento e repetitivo do trabalho na loja. Rituais frequentemente exigem memorização precisa de textos longos, imobilidade prolongada e atenção contínua às intervenções dos oficiais. Para um cérebro com TDAH, isso pode parecer uma luta interna: a mente divaga, surge o impulso de se mover, ou, pelo contrário, um hiperfoco em um símbolo provoca a perda do fio geral.

Maçons que compartilham sua experiência em fóruns especializados confidenciam que o principal desafio está em memorizar os rituais. Alguns invertem palavras ou números (1234 vira 1324), outros lutam contra o tédio durante leituras longas. Ainda assim, muitos conseguem praticar intensamente, visualizar os símbolos ou encontrar estratégias pessoais. O TDAH também traz vantagens: criatividade deslumbrante em pranchas de arquitetura, energia para os projetos da loja ou a capacidade de pensar fora da caixa em debates.

Alto potencial: um terreno natural para a busca maçônica

A Maçonaria às vezes parece ser um “covil de filocognitivos“. Pessoas com alto potencial intelectual, com seu pensamento em rede, hiperespeculação e necessidade de significado profundo, encontram um eco poderoso nos ritos e símbolos. Dois perfis frequentemente surgem: os ” filo-complexos “, individualistas e revolucionários, que desafiam ideias estabelecidas, e os “ filo-laminares “, mais discretos, ligados ao consenso e ao serviço.

Esses perfis idealmente correspondem às qualidades de um oficial: escuta ativa, antecipação, compreensão sistêmica. Sem eles, a congregação maçônica perderia parte de sua vitalidade intelectual. Alto potencial alimenta a busca pela verdade, mas também pode levar ao cansaço por excesso de investimento ou hipersensibilidade às tensões relacionais.

Testemunhos anônimos: voz do templo interior

Um Irmão autista, testemunha anonimamente: ” Fui iniciado após explicar minhas particularidades ao Venerável. Os símbolos falaram comigo imediatamente, como uma língua que finalmente entendi. Mas o banquete… Me sinto perdido no barulho e nas conversas cruzadas. Minha loja fez um esforço para me receber como sou, e isso fortalece minha lealdade. Ainda assim, às vezes sinto que meu silêncio é interpretado como distância. »

A Irmã com TDAH diagnosticado na idade adulta, compartilha: “ Os rituais exigem muita energia para manter o foco. Às vezes esqueço uma palavra, e a vergonha me domina. Mas quando preparo uma prancha sobre um símbolo, meu hiperfoco me transporta. Minha loja me permitiu fazer anotações discretas para as sessões[4], e isso muda tudo. Sem essa flexibilidade, talvez eu tivesse desistido. »

Um Irmão, superdotado, diz: “ Encontrei na Maçonaria um espaço onde meu pensamento ramificado finalmente é valorizado. Debates filosóficos me nutrem. Por outro lado, preciso conter meu desejo de ir longe demais, rápido demais, sem respeitar o ritmo coletivo. Alguns irmãos me veem como intenso ou crítico. A verdadeira fraternidade, para mim, vem da aceitação dessas diferenças na cadência cerebral. »

Esses depoimentos, inspirados por feedback real e anônimo, ilustram a diversidade de experiências.

Ouvir, falar e trabalhar na loja: quando o cérebro difere

O ouvir maçônico exige silêncio e presença. Para o TDAH, manter a atenção durante procedimentos longos pode ser uma tarefa difícil. Para uma pessoa autista, decifrar as emoções não ditas ou subjacentes na fala do irmão exige um esforço cognitivo adicional. O superdotado, por outro lado, pode antecipar discussões e ficar impaciente com desenvolvimentos lentos.

A fala, por outro lado, segue um protocolo rigoroso: quem pede para falar, dirige-se ao Venerável. Essa estrutura tranquiliza alguns neurodivergentes com sua clareza, mas frustra aqueles que precisam de trocas mais fluidas ou diretas. Uma pessoa autista pode falar com uma franqueza desconcertante, às vezes percebida como falta de tato. O TDAH pode interromper involuntariamente por entusiasmo.

O trabalho em lojas – o estudo de símbolos, a realização de sessões, projetos humanitários – ainda assim se beneficiou imensamente dessas singularidades. O pensamento sistêmico autista decifra as camadas ocultas dos rituais. A criatividade para TDAH inova nos quadros. A profundidade do superdotado eleva os debates.

Adaptações e gestão pelas lojas: entre tradição e benevolência

Benevolência

A forma como as lojas gerenciam essas singularidades varia consideravelmente de acordo com as obediências, os Veneráveis e a cultura local. Alguns permanecem rígidos, acreditando que o rito deve ser aplicado de forma uniforme. Outros, mais benevolentes, aceitam acomodações: repetição adicional para memorização, explicações claras das expectativas sociais ou maior tolerância a peculiaridades comportamentais.

Reflexões maçônicas insistem no fato de que a Maçonaria se beneficia ao abraçar a neurodiversidade, fiel aos seus ideais de tolerância e igualdade. Eventos, como cafés da manhã temáticos sobre autismo organizados por obediências, mostram uma abertura crescente. O livro “ A Arte Real e o Pequeno Príncipe “, escrito por maçons que são pais de uma criança autista, defende a inclusão da deficiência, incluindo a deficiência cognitiva, no cerne da condição humana e maçônica.

No entanto, os obstáculos permanecem: falta de conhecimento, preconceitos, medo de “quebrar o enquadramento“. A responsabilidade geralmente recai sobre a faculdade de oficiais para avaliar as necessidades individuais sem estigmatizar.

Rumo a uma maçonaria mais inclusiva?

Integração por meio da bondade

A neurodiversidade não ameaça o templo; ela o ilumina sob uma luz diferente. Perfis que “quebram a estrutura” forçam a Maçonaria a questionar seus hábitos, a aprofundar sua fraternidade e a incorporar seus valores de forma mais plena. Ao acolher essas singularidades, as lojas não perdem nada de sua solenidade: ganham riqueza humana e intelectual.

No fim, todo maçom, neurotípico ou neurodivergente, busca a mesma luz. Os caminhos para chegar lá são diferentes, e é justamente essa diversidade que torna a jornada coletiva mais profunda. O templo, com seu esquadro e compasso, convida todos a desbastar sua pedra bruta – não importa o quão única ela seja.

No silêncio de uma loja, quando os cérebros mais atípicos convergem para o mesmo ideal, talvez nasça a mais bela das correntes de união: aquela que une não apesar das diferenças, mas graças a elas.

Fonte: https://450.fm


Notas

[1] O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento que influencia a forma como a pessoa percebe o mundo, se comunica e interage socialmente. Ele não é uma doença e não tem cura — é uma forma diferente de funcionamento neurológico.

[2] O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é uma condição neurobiológica que afeta a forma como a pessoa regula atenção, impulsividade e nível de atividade. Ele costuma aparecer na infância, mas pode continuar na vida adulta.

[3] Os chamados “superdotados” ou pessoas com nível de capacidade intelectual acima da média.

[4] Na maioria das lojas europeias, os trabalhos são conduzidos oralmente, sem a leitura de rituais. O maçom precisa saber de cor e salteado o conteúdo dos rituais de todos os graus.