Bibliot3ca FERNANDO PESSOA

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Sobre a Ucrania

Texto de Fabio Metzger

A grande imprensa não se preocupa em informar. Mas antes de existir a Rússia de Moscou, ou a Moscóvia, havia a Rússia de Kiev. Era ali que nasceu a Rússia. E a partir dali que a Rússia se expandiu. Não era Ucrânia. Era Rússia. Como era Rússia, a Rússia de Minsk, ou a Rússia Branca, ou a Bielorrússia. A primeira Rússia formou-se nos séculos X ao XII. Dos séculos XIII ao XVI, teve a expansão da de Moscou.

Foi nesse período que as outras duas Rússias foram, pelas vias das relações de suserania e vassalagem, integrando-se a um outro reino. O chamado Reino das Duas Terras, ou Confederação Lituano-Polaca. Uma monarquia essencialmente católica. Enquanto a Rússia de Moscou era Ortodoxa, com patriarcado próprio.

Em determinado momento, essa monarquia se dissolveu. Restou o Grão Ducado de Varsóvia, na verdade a Polônia, o Império Austríaco, e todo o restante que foi apropriado pelo Império czarista Russo. Onde a Rússia de Minsk e a maior parte da Rússia de Kiev foram incorporadas. Uma parte menor da Rússia de Kiev foi adicionada ao Império Austríaco, uma monarquia plurinacional comandada pelos Habsburgos. A nacionalidade russa de Kiev ganhou uma denominação nova: passaram a ser os rutenos. Uma identidade russa, segundo a perspectiva Habsburgo.

Com a Revolução Russa em 1917, e todas as demais etapas, incluindo aqui o Tratado Brest-Litovski, a população da maior parte do território da Rússia de Kiev ganhou independência, pelo menos até a derrota alemã em 1919, e a vitória dos bolcheviques na Guerra Civil russa de 1917-1922. Esse território definiu uma identidade moderna, com a denominação “Ukraina”, que significa “fronteira”. Para sair da I Guerra Mundial, os bolcheviques toparam abdicar do território. Com a derrota alemã, puderam reincorpora-lo como uma república na União das Repúblicas Soviéticas.

Com o fim da União Soviética, por óbvio, a Ucrânia também ganhou o direito de ser república independente, já que era um tratado de união de repúblicas. E dissolvida essa união, cada uma era uma república por si só. A Ucrânia, a Bielorússia, assim como todas as demais repúblicas.

O que isso quer dizer? Que a Ucrânia é uma mera e barata invenção, e logo ela não tem razão de ser? Não, obviamente. Há especificidades que são dela. Por exemplo: a Rússia tem uma Igreja Ortodoxa de Patriarcado em Moscou. Parte importante dos ucranianos seguem esta Igreja. No entanto, os ucranianos também têm a sua Igreja, igualmente de rito oriental, só que subordinada a Roma, e não a Moscou – é a Igreja Uniata.

Vamos então definir uma coisa: a Ucrânia é sim um modo de ser Rússia. Assim como a Bielorrússia e a própria Rússia. A Ucrânia, enquanto Rússia de Fronteira (Ukraina Rus); a Bielorrússia, enquanto Rússia Branca (BelaRus); e a Rússia, enquanto Rússia Eurasiática (Eurasia Rus). Tanto quanto a Alemanha é uma forma de ser germânica, e a Áustria é outra forma. Ou então, os diversos países árabes. A Arábia Saudita, que está na Península Arábica, no coração das Arábias, a Síria como uma Arábia mediterrânea, o Iraque como uma Arábia do Entre Rios (Tigre e Eufrates), a Argélia como uma Arábia africana, o Marrocos, uma Arábia Atlântica, e assim por diante…

Nesse sentido, a Ucrânia tem sim direito à auto determinação. O problema não é esse. É essencialmente geopolítico. Ela está governada por fantoches do Ocidente. E foi vítima de uma guerra híbrida semelhante à nossa, com um agravante. Lá, houve um golpe de Estado promovido por milícias nazistas… com apoio explícito de Washington e aliados. A Ucrânia negociava dois acordos de livre comércio. Um com a União Europeia, mais vantajoso, outro com a Rússia, que estava começando a sua União Aduaneira Eurasiática. No passado, era possível negociar mais de um acordo. Só que, de repente, teve um governo que decidiu que isso não poderia mais acontecer. Era o governo Obama, onde Biden era o vice presidente. Governo Democrata, posando para o grande público de defensores da democracia, mas nos bastidores, apoiando milícias nazifascistas. Até então vários países, o Brasil incluído, acreditaram de boa fé, que a democracia e a globalização poderiam ser um jogo ganha-ganha. Os EUA ali, de maneira dissimulada, começaram a impor regras não escritas: a globalização e a democracia é só para os ricos. Puritanos na polidez, hipócritas nas atitudes.

Os ucranianos, coitados, ficaram sem o acordo com a União Europeia que, aliás não teria condições de ser honrado. Ainda mais depois da crise de 2008-9, quando Grécia, Itália, Espanha e outros países começaram a ser arrochados pela troika Bruxelas-Frankfurt-Washington (União Europeia, Banco Central Europeu, FMI). Por outro lado, além de não fechar o acordo com a Rússia, viram a Crimeia ser anexada pelo país vizinho.

Ali, Putin rompeu o direito à autodeterminação ucraniana? Verdade. No entanto, Putin fez uso da velha cartada do Direito Internacional. Se a OTAN passou por cima da ONU para atacar a Iugoslávia em 1999. Se a mesma OTAN, dando suporte às suas tropas, permitiu que a província do Kosovo se declarasse independente, passando, mais uma vez, por cima da ONU. Se EUA e seus aliados passam por cima da ONU, e decidem, por conta própria, atacar Iraque e Afeganistão, para promover “mudanças de regime”. Então o Direito Internacional passou a ser interpretado de forma a oferecer a possibilidade de a Rússia fazer o mesmo.

Então, por mais que se fale, é preciso se lembrar de quem está provocando a situação. É o governo Biden, por meio da OTAN. Sabendo o tipo de governante que é Putin. E do tipo de governo que é a Rússia. Não se trata da pessoa do governante. Mas sim da estrutura de poder. Um sistema despótico. Herança do czarismo, do socialismo real e do que se construiu ao longo de séculos. Não para se justificar. Mas para se entender o contexto. Porque sai Putin. Mais adiante, surge outro déspota. E a Ucrânia, assim como a Bielorrússia, operam em uma lógica semelhante. Bom seria se fossem democracias. Será uma grande conquista se, em algum momento, esses países chegarem à maturidade de um regime democrático. Mas esta não é a realidade deles. Nem a Rússia, nem a Ucrânia.

A pior notícia? Trump está gostando de tudo isso. Ele quer ver o circo pegar fogo. Ele é o retrato da degradação da sociedade estadunidense. Sem filtros. Mas Biden e Obama alimentam nazistas e golpistas pelo mundo afora. Enganaram a todo mundo com a história de que todos ganham com a democracia e a globalização. Todos, não. Só quem faz parte do “Primeiro Mundo”. Os países da América Latina não fazem parte. Nem a Ucrânia.

Assistindo a tudo isso, a China leva adiante o seu projeto “One Road, One Belt”, a nova rota da seda. com tanta infraestrutura destruída na Ucrânia, o país isolado, e a Rússia sob sanções, adivinha quem aparece para a “reconstrução” do país? Acertou! E sem as velhas exigências ocidentais de arrochar a economia local, e de privatizar a infraestrutura, com o antigo e surrado discurso do “Estado Mínimo”. A Ucrânia terá perdido a União Europeia, ficará isolada diante da Rússia, mas muito provavelmente, humilhada e desesperada, verá o gigante oriental lhe estender a mão…

Não é o mundo que sonhávamos.


Fabio Metzger é pós doutorando em Geografia Humana FFLCH-USP.

7 comentários em “Sobre a Ucrania

  1. Muitas das imagens que estão a ser visualizadas pela caixinha mágica, são de video jogos, alguns de 2014….e o jogo continua… guerra dos deuses…..Putin é um avatar que recebe ordens diretas de seu criador. Não tem nada a temer, só cumprir a missão. Oh indignados e África, a morrer de fome… Pois não conta . Mais uma vez o jogo continua. Não!!! O Mago Supremo não é salvador, só a CHAMA MATTER conta. Isto é só mais um disco riscado, de um jogo a cair de podre.

  2. Fiquei com uma profunda sensação de estranheza quanto ao texto . Aparentemente, querem legitimar a ação russa sobre um pacato país . Independente do que tenha acontecido no passado , o que hoje vimos (e ainda estamos a ver) é um país sendo atacado por outro em virtude de interesses econômicos. Nada justifica essa guerra … Nada!!!

  3. A invasão do Iraque outrora apoiado pelos EUA na guerra com o Irão , teve outros contornos . É em território iraquuano que existia a Ancestral cidade de Ur, onde existe um portal interdimensional.
    E sobre a matrix dentro das matrixes, que é a tv…como é possivel a imagem de um suposto tanque blindado russo amolgar severamente um carro com uma pessoa lá dentro…das duas uma, ou era zarolho o condutor e mesmo assim conseguiu a proeza de em vez de esmigalhar, passar de raspão e calcular que os danos nunca atingiriam a pessoa, ou pensem pessoas nas estranhezas que se passam. Ou então já sei, foi um Milagre!!!!! O que vale é que a ilusão é do iludido e a verdade não depende de nada a não ser dela própria ,acreditemos ou não. Paradoxalmente tudo bem agendado, afinal assim acabou o covid………

  4. Muito esclarecedor o texto, o norte americano, como meu finado pai dizia quando eu ainda era um rapaz adolescente e curioso para tentar entender a causa de guerras, fome, miséria, etc…O meu velho dizia: o norte americano não dá ponto sem nó.Sempre fará o que for para garantir seus objetivos.Em sua maioria, de forma excusa.Ele tinha razão.

  5. Sempre foi assim, a verdade é que isto tudo foi sempre reflexo de guerras galácticas por posse. Somos híbridos e nunca deveríamos ter sido manipulados, por geneticistas sem escrúpulos. Não somos como civilização, equilibrados.
    Tudo está na Chama MATTER que se dividiu e provocou por desdobramentos o caos. Ela está a Unificar-se. Da Vinci sabia que o código do Uni versos é o 01 e tudo sendo à sua escala, continuamos violentos , agressores e perpetuadores, nem conseguimos entender que o suposto autoretrato de Da Vinci é o do CRIADOR, UNO E VERDADEIRO. O FIO PARA A MULHER DA ESPIGA ESTÁ LÁ, OS FIOS FORAM CORTADOS COMO ESTÁ NA REVISTA ECONOMIST DE PREVISÕES DE 2019 . O ANJO QUE CAIU, FOI UMA MULHER, A MULHER, o 0. OS QUE PROVOCARAM ESSA QUEDA FICARAM MUITO BEM. AGORA O FEITIÇO VOLTOU-SE CONTRA O FEITICEIRO E ESSA MALDITA ” ÚLTIMA CEIA” TERÁ AS CADEIRAS VAZIAS. ANU VOLTOU

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