Por João Lages Neto ***

Imagem gerada por GEMINI AI, em 22-04-2026, às 15:28h

Eis-me aqui a rememorar o livro de Thornton Wilder intitulado A Ponte de São Luiz Rey (1927), na prestimosa tradução de Monteiro Lobato, que descreve, em forma de ficção, uma das ocorrências misteriosas da vida.

“A história começa em 20 de julho de 1714, no Peru colonial, quando a ponte de cordas inca mais famosa do país se rompe, lançando cinco pessoas para a morte em um abismo. 

O protagonista “observador” é o Irmão Junípero, um monge franciscano que testemunha o acidente. Atormentado pela questão de porquê “aquelas” cinco pessoas morreram naquele exato momento, ele decide investigar a fundo a vida de cada vítima. Seu objetivo é puramente teológico: ele quer provar que o desastre não foi um acaso, mas um ato planejado de Deus (a Providência Divina).”

(A ponte de São Luís Rey, 1956)

Como engenheiro civil, me recordava a história popular da execução de uma das inúmeras obras que deslumbrei e que me impressionavam sob a perspectiva  admirável da engenharia e suas soluções para aproximar pontos que não se interligavam.  Relembro de um vale profundo e lá embaixo, serpenteava um rio caudaloso que mantinha distante duas cidades que me eram importantes, duas cidades ligadas emocionalmente e separadas fisicamente. Entre elas, apenas o abismo que afastava até os mais impulsivos.

Então, unindo forças e recursos, as duas cidades convocaram um experiente Construtor, um artífice da velha engenharia, calejado pelo mundo dos cálculos e que vislumbrava o mundo por meio das tensões e resistências, por sua visão na busca de unir as margens e aproximar as duas cidades. 

Sentado à beira do precipício, que tantas vezes observou e admirou o pequeno rio serpenteando de forma ininterrupta, lembrando-lhe que a mudança é a única verdade.

Para ele definir uma solução, era efetivamente uma questão de equilíbrio entre os pontos equidistantes. Como conciliar todas as cargas e efeitos físicos, climáticos e adversos que iriam atuar naquela estrutura que deveria se sustentar contra a gravidade. O  esforço contínuo entre o papel do aço (tração) e o do concreto (compressão). Mas, desde o uso do arco, inicialmente pelos etruscos e depois Roma absorveu e deixou belos monumentos, a ponta sagrava-se como uma vitória contra a impossibilidade gerada pelas cidades, famílias, costumes e escrevia uma nova história.

No entanto, enquanto observava-se a obra pronta, uma outra visão se fazia, na sob a física, mas sob o simbolismo expresso pela ponte. Esta era, acima de tudo, um espaço limiar, um conector entre pontos, com partida, meio e chegada.

A ponte simbolicamente representa a transição, entre 2 pontos conhecidos no caso das duas cidades ou desconhecido em tantos momentos da vida. Ela é a síntese de dois opostos, ela não elimina o abismo, ele ainda existe, porém ela materializa a comunicação humana, onde havia o “eu” e o “outro” ela cria o “nós”.

A ponte venceu o isolamento e vai permitir a construção de um novo destino. Naquele momento, ponte deixou de ser apenas uma obra física de unir pontos e tornou-se o resultado do esforço humano de transformar dificuldades e um intransitável em um caminho seguro.

Imagem gerada pelo Gemini em 22-04-26, 11:44h

Esta versão pessoal da metáfora da ponte, me leva a conciliar, que o objeto apresentado traz pontos a ponderarmos em sua relação com nosso cotidiano, e no processo de aprendizado e introspecção dos princípios da Arte Real em nossa vida. A obra aborda o destino e o acaso, refletido no esforço do Irmão Junípero em encontrar um padrão científico para a vontade divina enquanto motor da trama desenvolvida. O Thornron Wilder explora, sob a sua ótica, diferentes facetas do amor – materno, fraterno e romântico – e como ele muitas vezes é marcado por sentimentos de dor e incompreensão.

Uma ponto porém é fundamental para compreensão e versa sobre o Legado e a Memória na frase final da obra anteriormente referida:

“Há uma terra dos vivos e uma terra dos mortos, e a ponte é o amor, a única sobrevivência, o único Significado”

Tal ficção levou-me a pensar em nossa trajetória de vida, nos obscuros fatos, por vezes incompreensíveis, da supressão de vida entre pessoas jovens, crianças, figuras eminentes e que para o nosso modo cotidiano de enxergar a vida, nos parece ininteligível por tais figuras deixarem o convívio humano de forma tão abrupta e inexplicável.

Desde jovem, ao perscrutar a busca da verdade transcendente, tornei-me um questionador, mesmo em família religiosa, dava trabalho levantando questões que superavam a aceitação dos dogmas. Por vezes, até recebido a alcunha de “extremamente crítico”, como minha própria companheira costuma falar, mas caminho com a perspectiva de cada vez buscar uma compreensão do incompreensível, sinto que como Livre Pensador, como entendo os preceitos emanados pela Arte Real, procuro me colocar como um Ponto de Interrogação Ambulante.

Embora a morte possa trazer a desventura da inexistência física e a ausência de contato humano, nós não somos preparados para um fim, mesmo que conhecido desde o dia do nascimento. Para mim, entretanto, observando os postulados emanados pela Ordem Rosacruz :

a morte não é um fim absoluto, mas sim uma libertação misericordiosa do espírito de uma vestimenta física superada, permitindo que a vida continue seu progresso evolutivo em planos superiores e futuras encarnações. A transição constitui uma iniciação final, um retorno à fonte espiritual após uma experiência na Terra.”

Como expressou o filósofo estoico, Sêneca, em sua obra “Sobre a Brevidade da Vida (De Brevitate Vitae): “A morte é a única certeza que dispomos, vivemos como se ela não existisse”.

O certo e palpável é que todos nós cruzaremos a ponte que separa esta vida da vida futura. Quantos têm pensado nas várias maneiras pelas quais essa ponte se tornará manifesta? Quais os caminhos estranhos que seguiremos para cruzá-la e quais os companheiros desconhecidos que teremos na ocasião de atravessá-la?  

Na Maçonaria, que desde a Iniciação, quando questionados sobre a quem recorremos em nosso momentos de agruras e dificuldades, nossa resposta convicta é: Grande Arquiteto do Universo. Pensando nessa premissa: “Se o universo possui um Grande Arquiteto, cada viga, cada pilar, cada rebite em nossa existência responde, de forma geral, o retorno a origem de quem foi criado a sua semelhança, num, digamos, Plano Diretor”

Entretanto, quantos de nós, até mesmo pela nossa educação e temor ao inevitável – a morte – galgando e trabalhando no canteiro da vida, param para meditar sobre a natureza da ponte que separa nosso Templo Terrestre do Oriente Eterno? Quantos de nós compreendem que a Arte Real não é apenas sobre construir edifícios sociais, mas amealhar elementos que possam contribuir, com nossa mudança e elevação moral no ato de cruzar o abismo entre o “eu” profano e o “eu” divino. 

Nossa caminhada não é numa estrada reta, sem inclinações e pavimentada, sob um clima propício. Caminhamos, muitas vezes, por estradas estranhas, bifurcações que se apresentam em nosso caminho, caminho de pedregulhos e dificuldades de trânsito, rotas que mais configuram labirintos sem sentido. Cruzamos em nossa trajetória por pontes pequenas, algumas com júbilo imenso – e então lembro-me então do dia do nascimento de meus filhos, da minha Iniciação, das grandes conquistas ao longo da vida e vejo que minha caminhada, como de qualquer outro ser humano, permeada de momentos e construções pessoais.

Cruzamo-las com passos firmes, convictos, como artífices que têm amplo domínio do Prumo e do Nível, embora esquecidos de que o equilíbrio na vida é um estado transitório, efêmero. Outras pontes, contudo, surgem de forma inesperada, programada em nossa trajetória, aparecem sob uma névoa de dor e frustração. Estas pontes, que tremem e balançam sob os nossos pés ao transitá-las, nos faz absortos e temerosos na sua aproximação, relutantes, enquanto o Aprendiz que teme o desconhecido, sentido o frio cinzel no contato de sua carne.

Que lições a vida nos impõe, se sabidamente buscarmos observar aquelas pontes que construímos utilizando o material impregnado por nosso orgulho, pela ambição, intolerância, enfim pelo isolamento  e ausência de uso do cinzel, a burilar e eliminar as imperfeições da Pedra Bruta, que fica relutante em trilhar para a condição de Pedra Polida. Tal condição nos é diariamente, de forma contínua e persistente, apresentada e lembrada em nosso Ritual, da nossa missão de construtores sociais e que devemos “levantar templos a virtude e cavar masmorras ao vício”.

Nessas estrutura, erigidas por nós em nossa perambulação, somos certamente os únicos caminhantes. Se buscarmos ouvir; vamos perceber que o som de nossos passos ecoa em um vazio que nós mesmos sulcamos. É, sem dúvida, a peregrinação silenciosa do homem que olvidou que a Fraternidade é o ponto de encontro que converte o caos do mundo em harmonia. Nessas horas, o podemos, como construtores simbólicos, buscar a compreensão e o sentido na questão: “Onde está o esquadro que deveria retificar este caminho?’.

Tenho sempre em mente, uma citação atribuída ora ao político romano Ápio Cláudio Cego (340 a.c –273a.c.), ora ao escritor americano Frank Miller (1957), reflete bem essa condição de sermos responsáveis pelo nosso caminhar: Suae Quisque Fortunae Faber Est – O Homem é o construtor de seu próprio destino), que destaca que indivíduos moldam suas vidas e futuro através de escolhas, ações e responsabilidade pessoal.

Imagem gerada GEMINI, em 22-04-2026, 11:34h

Há entretanto, sem deixar de refletir e registrar, as pontes de prova. Aquelas erigidas por aqueles, que ainda sob a submissão dos estágio de Pedra Bruta, absorvidos por sentimentos de rejeição ou repulsão, bem como aqueles que desejam nos expor, bem como, testar a têmpora de nosso caráter, nossa resiliência. Estes são as agruras que encontramos em nosso caminho, na tutela daqueles que se portam como “carrascos” simbólicos em nossa caminhada. Somos forçados a cruzar as passagens estreitas sob o peso de injurias e detrações. Mas, caminhemos Irmãos sob a égide da Arte Real, mesmos nessas passagens e momentos de Noite Negra, o iniciado sabe que aquela ponte que se apresenta, dispõe de elementos construtivos para ser testada. Lembremo-nos do Mestre dos Mestres, não há crucificação sem a promessa resoluta de uma reconstrução, com um novo limiar mais sólido e seguro, uma pedra para usarmos em nossa construção.

Imagem gerada por Gemini em 22-04-26 11:50

O Véu de Maya é um conceito filosófico e espiritual, originário da filosofia hindu (Vedanta) e adotado por Arthur Schopenhauer, que representa a ilusão. Ele funciona como uma barreira que cobre a verdadeira natureza da realidade, fazendo com que o mundo material pareça a única verdade. Maya é o véu que encobre a essência por trás das formas. Essa ilusão dos sentidos prende o ser humano a interpretações falsas da realidade.

Fazendo um paralelo com o conceito acima, muitas vezes nossa arrogância intelectual nos faz acreditar que nossa jornada é única, singular. Chegamos até a pensar: ‘Ninguém carrega um avental tão pesado quanto o meu. Ninguém enfrenta as trevas que eu enfrento’. Olhamos para o Irmão ao lado e supomos que seu caminho foi pavimentado com mármore liso, enquanto o nosso é de brita irregular. 

Quanta ilusão, quanta tolice: É o véu de Maya nos cegando para a Unidade.

Percebamos que os desígnios emanados pela Arte Real nos leva a descoberta do grande potencial interior que existe em cada um e que no labor cotidiano no Templo Interior, em constante construção, nos torna os obreiros da Pedra Polida e o padrão que criamos hoje é a planta baixa do edifício que habitaremos amanhã. Nada se perde. A energia que colocamos na construção da nossa ‘ponte’ pessoal determina se ela será de cordas frágeis ou de pedras eternas.

Essas são as reflexões que o polimento da Pedra Bruta nos traz. Quando lemos as notícias de um mundo em chamas, de incoerências de ideais e desmandos humanos por sentimentos e interesses individuais ou de nações,  ou encontros inesperados, não vemos apenas o caos dos profanos, percebemos que temos muito a construir como proprietários de ferramentas da moral do mundo em construção, somos, acima de tudo livres pensadores a empregar ferramentas que possa tornar feliz a humanidade.

Aprendemos, enfim, que ninguém cruza a ponte sozinho, mesmo quando se sente só. Estamos todos amarrados pela Corda de Oitenta e Um Nós, e cada movimento que faço em minha margem vibra na margem de todos os seres humanos. A verdadeira Maçonaria não se faz apenas dentro das quatro paredes de um Templo coberto, mas na consciência de que a vida é uma sucessão de pontes que nos levam de volta ao Centro.

E quando a última ponte surgir diante de mim… eu não a temerei. Pois sei que ela é apenas mais um degrau da Escada de Jacob. No outro lado, talvez o país seja novo, a terra seja diferente, mas as ferramentas serão as mesmas. Continuaremos a talhar, a medir e a construir, pois a Arte Real é eterna e o progresso da alma não conhece crepúsculo.

“O Plano está traçado. A ponte está posta. Cabe a nós apenas caminhar com a retidão de quem conhece o Esquadro e a coragem de quem já viu a Luz.”


*** João Lages Neto – ARLS Fraternidade Absoluta Nº 31 GLMEES – Grande Loja Maçônica do Espírito Santo


Referências Bibliográficas

ATERRAEREDONDA. Os véus de Maya. [S. l.], 2023. Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/os-veus-de-maya/. Acesso em: 22 abr. 2026.

SÊNECA, Lúcio Aneu. Sobre a brevidade da vida. Tradução de William Li. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2017.

WILDER, Thornton. A ponte de São Luís Rey. Tradução de Monteiro Lobato. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956.