Tradução J. Filardo

por Charles Chu  (Ensaísta e japanófilo seminômade  https://www.patreon.com/charleschu )

O ladrão astuto (Wikimedia Commons)

 

A maioria de nós pensa que fazemos escolhas por causa de quem somos.

Mas poucos de nós entendemos que o contrário também é o caso - nós somos quem somos, em parte, devido às escolhas que fazemos.

Em Isso Explica Tudo, o psicólogo Timothy Wilson faz uma pergunta:

“As pessoas agem do jeito que elas fazem por causa de seus traços de personalidade e atitudes, certo?  Eles devolvem uma carteira perdida porque são honestos, reciclam seu lixo porque se preocupam com o meio ambiente e pagam R$ 15 por um café com caramelo brulée porque eles gostam de beber cafés caros”.

Isso parece sensato, mas o que “parece” certo ou faz sentido não é necessariamente a verdade. Somos criaturas sociais, e muitas vezes o contexto (e não a personalidade) pode desempenhar um papel importante nas nossas decisões.

“Muitas vezes, nosso comportamento é moldado por pressões sutis à nossa volta, mas não conseguimos reconhecer essas pressões.  Assim, acreditamos erroneamente que nosso comportamento emanava de alguma disposição interior. … inúmeros estudos mostraram que as pessoas são altamente suscetíveis à influência social, mas raramente reconhecem toda a extensão dessa suscetibilidade, devendo assim atribuir sua conformidade aos seus verdadeiros desejos “.

Agora, é aqui que as coisas ficam interessantes.

Não é só que o ambiente afeta nossas ações. Nossas ações, por sua vez, também afetam como nos vemos.

“Talvez não sejamos particularmente confiáveis e, em vez disso, devolvemos a carteira para impressionar as pessoas que nos rodeiam. Mas, ao não perceber isso, inferimos que somos limpos e honestos. Talvez nós reciclemos porque a cidade facilitou isso (dando-nos uma lixeira e recolhendo todas as terças-feiras) e nosso cônjuge e vizinhos desaprovariam se não o fizéssemos. …É evidente que o comportamento emana de nossas disposições internas, mas … o contrário também é válido. Se devolvemos uma carteira perdida, há um tique ascendente em nosso medidor de honestidade. Depois de arrastar a lixeira de reciclagem para a calçada, nós inferimos que nos preocupamos realmente com o meio ambiente. E depois de comprar o café, assumimos que somos apreciadores de café”.

Isso é uma coisa poderosa.

Uma grande parte do bem-estar é como nós nos percebemos e o mundo que nos rodeia. Se minhas ações mudam a forma como eu me vejo então, bem, como eu ajo pode ter tremendo efeito sobre a minha qualidade de vida.

As ações podem literalmente mudar quem somos.

Auto sinalização

Em seu livro A verdade honesta sobre a desonestidade, o autor e psicólogo australiano Dan Ariely apresenta o que os cientistas sociais chamam de “auto sinalização”:

A ideia básica por trás da auto sinalização é que, apesar do que tendemos a pensar, não temos uma noção muito clara de quem somos.  Nós geralmente acreditamos que temos uma visão privilegiada de nossas próprias preferências e caráter, mas, na realidade, não nos conhecemos tão bem (e definitivamente não tão bem como pensamos que conhecemos). Em vez disso, nos observamos da mesma forma que observamos e julgamos as ações de outras pessoasinferindo quem somos e o que gostamos de nossas ações.

Embora a introspecção seja uma ferramenta poderosa, parece que a maioria de nós não é tão bom nisso.

O livro contém todo tipo de experiências fascinantes, mas uma série em particular se destacou para mim.  As pessoas a quem se pediu que usassem uma bolsa Prada falsificada foram então convidadas a fazer um teste. As pessoas que usavam bolsas falsificadas (em média) na verdade trapaceavam mais:

“… uma vez que, conscientemente, usamos um produto falsificado, as restrições morais se afrouxam até certo ponto, tornando mais fácil para nós dar mais passos no caminho da desonestidade”.

Então, essa sensação de que somos desonestos, realmente nos leva a fazer coisas mais desonestas no futuro.

Mas ainda há mais. Tome passos suficientes na direção errada, e (como todos nós já fizemos antes), encolhemos os ombros e dizemos: “Ah, foda-se”. Simplesmente paramos de nos preocupar.

Ariely chama isso de efeito foda-se:

“… para muitas pessoas houve uma transição muito acentuada onde, em algum momento do experimento, eles gradualmente evoluíram de um pouco de trapaça para trapacear em todas as oportunidades que eles tivessem. … quando se trata de trapacear, nós nos comportamos praticamente da mesma forma que fazemos nas dietas. Uma vez que começamos a violar nossos próprios padrões (digamos, com trapaças em dietas ou por incentivos monetários), ficamos muito mais propensos a abandonar novas tentativas de controlar nosso comportamentoe, a partir desse ponto, há uma boa chance de sucumbir à tentação de se comportar ainda pior”.

Eu senti isso muitas vezes. Na academia, se eu trapacear uma vez em repetições (“Bem, eu perdi a conta em três, mas senti como se eu fizesse oito, então digamos que eram oito …”), é mais fácil ser preguiçoso no dia seguinte também. Em breve, começo a pular exercícios inteiros. E, logo em seguida, eu simplesmente deixo de ir à academia.

Há aqui um círculo vicioso - quando trapaceamos, nos vemos como trapaceiros. E, depois de trapacear o suficiente, existe o risco de desistir de nossas regras e padrões. Uma única trapaça na refeição pode afetar hoje, amanhã, a próxima semana e até mesmo como quem você se vê para o resto de sua vida.

Agora, a boa notícia. Funciona na outra direção.

Uma única ação desonesta pode nos tornar mais desonesto, mas uma única ação positiva também pode nos tornar melhores.

Nós sabemos que apenas fingir um sorriso nos faz sentir melhor. E fazer uma melhor escolha hoje - seja se nós escolhemos comer uma refeição saudável, telefonar para um amigo apenas para dizer olá, ou doar dinheiro para uma causa em que acreditamos - afeta o nosso amanhã tanto no que nós fazemos quando na maneira como nos vemos.

Às vezes, fingir é a forma de fazê-lo.

 

 

Https://medium.com/the-polymath-project/self-signaling-how-our-actions-can-change-who-we-are-d7ab9ef6bc45