Tradução J. Filardo

por  Charles Chu

 

Pessoas preguiçosas fazem melhores líderes.

Essa era a crença de Kurt von Hammerstein-Equord, um famoso general alemão conhecido por sua oposição ao regime nazista.
Uma citação, de Os Silêncios de Hammerstein:
“Eu divido meus oficiais em quatro grupos. Há oficiais inteligentes, diligentes, estúpidos e preguiçosos. Geralmente, duas características são combinadas. Alguns são inteligentes e diligentes - seu lugar é o Estado-Maior. O próximo lote é estúpido e preguiçoso - eles representam 90 por cento de todo exército e são adequados para tarefas rotineiras. Qualquer um que seja inteligente e preguiçoso está qualificado para os mais altos deveres de liderança, porque possui a clareza intelectual e a compostura necessária para decisões difíceis. É preciso ter cuidado com alguém que é estúpido e diligente -  não lhe deve ser confiada com nenhuma responsabilidade porque ele sempre causará somente prejuízos”.
Para Hammerstein, era melhor para um líder ser inteligente epreguiçosodo que inteligente e trabalhador.
Mais tarde, vamos ver por que.
Primeiro, porém, vamos pensar sobre pessoas estúpidas.
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Fuja do seu médico

Anos atrás, como estudante no Japão, senti-me doente.
Minha mãe anfitriã - ou melhor, avó, pois ela estava bem perto dos oitenta - ofereceu-me seu melhor remédio médico.
Ela desapareceu na cozinha e, pouco depois, voltou com uma longa cebola verde, conhecida no Japão como negi.
“Para que serve isso?” Perguntei, em japonês estropiado.
“É para o seu resfriado”, disse ela.
“Oh”, eu disse. “Você vai fazer uma sopa?”
“Não.” Ela sorriu. “Eu vou amarrá-la ao redor do seu pescoço”.
Eu pisquei. Eu era um convidado e não havia nenhuma maneira de eu expressar meu ceticismo. Então fiquei quieto, deixei que ela envolvesse o vegetal fedido ao redor do meu pescoço. Poucos dias depois, meu resfriado desapareceu.
Aha! Prova de que vegetais no pescoço curam o resfriado comum!
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Os céticos gostam de criticar esses remédios populares como irracionais e semelhantes aos rituais de vudu utilizados por velhas avós e outros tolos que não entendem a ciência.
Mas acho que eles não percebem alguma coisa.
Primeiro, minha simples crença na cura aumenta a função imunológica, melhorando minha recuperação de maneiras que a medicina moderna não faz. De fato, tais placebos parecem funcionar, mesmo que eu saiba que o vegetal não me fará qualquer bem - até mesmo os céticos se beneficiam.
Em segundo lugar, e mais interessante, o remédio caseiro me mantém longe do médico.
Para ser atendido por um médico no Japão, eu tenho que esperar por horas, enquanto cercado por idosos catarrentos, portadores de vírus. Quando consigo ver meu médico, ele (é sempre um ele) balança a cabeça distraidamente por dois minutos, escreve algo em um bloco de papel e me dispensa com uma receita para um monte de pílulas.
As pílulas podem aliviar meus sintomas, mas isso também podem ter desvantagens invisíveis difíceis de detectar.
Tomemos os antibióticos, por exemplo. Um adolescente que os toma para se livrar da acne pode ser amaldiçoado com problemas intestinais para o resto da vida.
Este não é um ceticismo ingênuo, mas uma apreciação das consequências imprevisíveis de se meter com um sistema complexo: a medicação traz benefícios imediatos e visíveis, mas pode vir com riscos retardados e invisíveis.
Às vezes, a maneira mais rápida de se recuperar é não fazer nada.
Este é um exemplo do que o filósofo Nassim Taleb chama de iatrogenica - quando fazemos mais mal do que bem com nossas intervenções.
Como o cara preguiçoso diz: “Se não está quebrado, não conserte.”
Da mesma forma, von Hammerstein entendeu que a pior coisa que você pode ter é um idiota trabalhador que fica criandomais trabalhe para todos os outros.
No Japão, os empregados tendem a serem contratados para toda a vida. Quando um gerente inteligente descobre que você é um fracasso total no local de trabalho - apesar do seu diploma da Universidade de Tóquio e suas notas altíssima em testes - você é imediatamente transferido para o interior (longe de sua esposa e filhos) para minimizar os danos que você provoca para a empresa.
Mas vamos nos dar o benefício da dúvida.
Você é inteligente, trabalhador e bonito. Existe um motivo para ser preguiçoso, muito trabalhador e bonito?
A Vantagem da preguiça
Em seu excelente livro The Wiki Man, Rory Sutherland - vice-presidente do Grupo Ogilvy UK - argumenta que aqueles de nós que são obcecados com a produtividade e eficiência entendem mal um ponto essencial:
“Se você dedica sua vida a eliminar o lixo, você, sem dúvida, terá sucesso de uma forma suja. Mas, juntamente com o lixo, você estará eliminando talvez 90% de algo muito mais importante - suas chances de ter muita sorte. Se você evita beijar sapos, não terá muita chance de encontrar um príncipe. Isso pode explicar por que os atuários muito raramente se tornam estrelas de rock”.
Nós queremos acreditar que grandes coisas vêm do trabalho árduo, do planejamento cuidadoso, da ação direcionada. Mas isso, em parte, nos faz subestimar o quanto da vida é motivado pela sorte:
“O ponto é simples. Se você olhar para todos os avanços realmente importantes feitos em qualquer campo, o que você encontrará é que a conexão não planejada, não intencional ou fortuita desempenha um papel tão importante quanto a planejada, processada e organizada. É por isso que, bastante cedo, a Microsoft colocou quadros brancos ao longo dos corredores no campus de Redmond; pois eles descobriram que os encontros acidentais que ocorriam nos corredores eram de fato mais produtivos do que as reuniões agendadas que aconteciam nas salas de reunião “.
Em The Black Swan, o filósofo Nassim Taleb apresenta um exemplo (entre muitos outros no livro) de tal descoberta por pura sorte - o laser:
“O laser é uma ilustração primordial de uma ferramenta feita para um propósito específico (na verdade nenhum propósito real) que então encontrou aplicações que nem sequer sonhavam na época. Era uma “solução típica em busca de um problema”. Entre as primeiras aplicações estava a costura cirúrgica de retinas descoladas. Meio século depois, The Economist perguntou a Charles Townes, o suposto inventor do laser, se ele tinha tido as retinas em mente. Ele não tinha. Ele estava satisfazendo seu desejo de dividir feixes de luz, e isso era tudo. Na verdade, os colegas de Townes o provocaram bastante sobre a irrelevância de sua descoberta. No entanto, apenas considere os efeitos do laser no mundo ao seu redor: CD’s, correções de visão, microcirurgia, armazenagem e recuperação de dados - todas essas aplicações imprevistas da tecnologia. Nós construímos brinquedos. Alguns daqueles brinquedos mudam o mundo.”
O que aprendemos
Um último ponto sobre a preguiça.
Algumas pessoas dizem: “Não fique aí parado, faça alguma coisa!”
Mas não é claro para mim se a ação sem prudência - esforço insensato de idiotas com boas intenções - é a maneira de tornar o mundo um lugar melhor.
Talvez também faça sentido dizer: “Não faça nada, fique aí!”
Se você é trabalhador e inteligente, talvez haja um motivo para evitar todo o blablabla sobre produtividade, eficiência, trabalho árduo, ação constante, etc. e, em vez disso, fique em casa nas sextas-feiras, discuta com os amigos durante o jantar e libere mais tempo para simplesmente fazer o que lhe interessa.
E se você é trabalhador e estúpido, bem, você sempre pode trabalhar menos e depois pedir ao seu chefe um aumento; ‘)