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Leituras Selecionadas do Editor-Chefe J.Filardo

Direito, Educação, Filosofia, História, Justiça, Política, psicanálise

O que realmente significa “não tolerar os intolerantes em nome da tolerância”

Jason Kuznicki

O Paradoxo da Tolerância de Karl Popper tem recebido muita atenção ultimamente. Com razão: os americanos e todo o mundo estão perguntando o que fazer quando surgem neonazistas entre nós. Talvez seja bom tolerar visões intolerantes, mas não é arriscado para a própria tolerância?

Popper discutiu esse medo, ao escrever:

“a tolerância ilimitada deve levar ao desaparecimento da tolerância. se ampliarmos a tolerância ilimitada mesmo para aqueles que são intolerantes, se não estamos preparados para defender uma sociedade tolerante contra o ataque do intolerante, então o tolerante será destruído e a tolerância com eles.
esta perspectiva não implica, por exemplo, que devamos sempre suprimir o enunciado de filosofias intolerantes; desde que possamos contrariá-los por argumentos racionais e pelo debate público, a supressão certamente seria imprudente. mas devemos reivindicar o direito de suprimi-los, se necessário, mesmo pela força.
é possível que eles não estejam preparados para disputar o campo do argumento racional e os escutem como se fossem denúncias. eles podem proibir seus seguidores de ouvir argumentos racionais, porque são enganadores, e ensiná-los a responder argumentos com o uso de seus punhos ou pistolas. devemos, portanto, reivindicar, em nome da tolerância, o direito de não tolerar o intolerante.”

 

Mas esta passagem – em uma nota de rodapé para o volume 1 de “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos” – não é a mais clara de Popper sobre esse princípio, e por isso tem sido abusada grosseiramente tanto pela extrema esquerda quanto pela extrema direita.

O que a direita não entendeu sobre o Paradoxo da Tolerância

A direita lê e diz: “Veja? Até a própria tolerância é intolerante conosco! Então, vamos perseguir quem quisermos. Ao contrário das pessoas chamadas “tolerantes”, não estamos sendo hipócritas!”

E por essa fina e quase imperceptível diferença, se imaginam os superiores morais contra quem condena a violência.

Isso é uma má leitura de Popper. A sociedade aberta defendida no livro, quando combate a violência, não se iguala de modo algum aos grupos que querem destruí-la.

Popper defende que, para se preservar, uma sociedade aberta primeiro tenta coisas como pensamento racional, debate aberto, votação e um sistema de leis, protegendo até crenças odiosas contra a violência política. A violência aparece apenas como último recurso, se e somente se, os outros métodos não forem possíveis. A violência contra discursos é utilizada raramente e apenas defensivamente, com o objetivo de retornar a um modo de existência mais civilizado sempre que possível.

Para os grupos anti-liberais, a violência não é o último recurso. É o primeiro, ou quase isso. Existe um mundo de diferença moral entre isso e o Paradoxo da Tolerância de Karl Popper.

O que a esquerda não entendeu sobre o Paradoxo da Tolerância

Enquanto isso, muitos na esquerda também interpretam mal a ideia de Popper, novamente por uma leitura grosseira. Como afirmado nas redes sociais e até mesmo na grande imprensa, o Paradoxo da Tolerância defenderia algo como:

– Uma sociedade tolerante deve ser tolerante por padrão,

– Há uma exceção: deve-se usar a violência para combater a intolerância

Popper jamais disse algo assim. Essa leitura grosseira ignora o que ele diz explicitamente quando tratou do Paradoxo:

esta perspectiva não implica, por exemplo, que devamos sempre suprimir o enunciado de filosofias intolerantes; desde que possamos contrariá-los por argumentos racionais e pelo debate público, a supressão certamente seria imprudente. mas devemos reivindicar o direito de suprimi-los, se necessário, mesmo pela força.

Para Popper, a violência contra um discurso não deve ser implantada porque ele ofende, é mal-educado ou deixa alguém muito irritado. A intolerância, e talvez essa palavra não seja adequada, só é justificada contra intolerantes que debatem com “punhos e pistolas”, ou, presumivelmente, algo ainda pior.

Para saber o que ele realmente queria dizer, não basta uma leitura atenta das passagens que citei, mas de todo o livro “Sociedade Aberta e Seus Inimigos”, onde ele trata do Paradoxo da Tolerância. O próprio é um debate contra ideias intolerantes, dissecadas e combatidas numa defesa fundamentada do pluralismo. Popper defendia a visão liberal sobre o debate público e seu primeiro recurso era o argumento racional. Foi apenas em uma nota de rodapé que ele considerou a possibilidade de violência contra intolerantes numa Sociedade Aberta, e com evidente desdém em meio à visão geral.

Parte essencial da visão liberal, afinal, é que o livre uso da razão e argumento são armas sempre melhores do que violência. Desviar-se deste princípio seria negar a hierarquia de preferências morais que, em primeiro lugar, sustenta os argumentos do livro. É tornar-se semelhante aos inimigos citados no título de A Sociedade Aberta, pelo menos nos métodos. Usar a violência como primeira arma contra discursos de ódio seria conceder à extrema direita razão em sua acusação de hipocrisia.

Popper considerava os antiliberais como “inimigos da sociedade aberta”, mas não necessariamente defendia violência contra eles

Por outro lado, utilizar métodos intolerantes diante de ameaças à sociedade aberta pode ser visto como renúncia de uma consistência filosófica liberal. Está longe de ser claro, no entanto, que esse era o modo de pensar de Popper. Em todo o livro, ele argumenta que todas as formas de tentativa de soberania ideológica nas atividades do Estado leva a essa inconsistência, e uma soberania liberal não menos que qualquer outra.

Ele considerou que isso era o resultado de uma confusão profunda na história do pensamento político, que erroneamente fez do Estado o único responsável por ordenar a vida social. Seu paradoxo de tolerância vem no contexto dessa afirmação.

Liberais anarquistas podem discordar desse ponto. Eu não acho que eles estariam errados, até porque Popper não era anarquista. Ele esperava, antes, por uma sociedade aberta em que o Estado tinha papel limitado e auxiliar, não dirigente.

Entendido corretamente, o “não se tolera os intolerantes” de Popper o aproxima de liberais clássicos, como F. ​​A. Hayek. Para torná-lo um amigo de leis de discurso de ódio, ou pior, de perseguição, é distorcer seu pensamento além do reconhecimento.

Quão útil é o paradoxo da tolerância? Na prática, a defesa de uma sociedade tolerante com discursos é, por definição, incompatível com a própria intolerância. Em alguns casos extremos, e se usarmos uma definição particular da palavra “intolerância” – a autodefesa contra intolerantes violentos.

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