Uma análise comparativa entre a noção de divindade na Maçonaria e na obra de Voltaire

 

João Carlos Lourenço Caputo ***

 

Introdução

A maçonaria é uma ordem que acolhe em seu seio homens de todas as nacionalidades, classes e de diversas vertentes religiosas, pretendendo-se uma ordem ecumênica sem que, contudo, a religiosidade mostre-se ausente em sua doutrina. Os diferentes ritos praticados possuem, cada um deles, seu nível de religiosidade, mas a figura da divindade está sempre presente em sua doutrina. Neste sentido, no intuito de evitar nomear a divindade de acordo com alguma tradição específica, excluindo outras tradições ou favorecendo uma religião específica, a ordem maçônica tem por costume nomear a divindade com o nome neutro de Grande Arquiteto do Universo, ampliando-se este conceito de forma que ele signifique um princípio criador, qualquer que seja ele, sendo de responsabilidade do maçom interpretá-lo de acordo com suas crenças religiosas.

É sabido que, historicamente, o início do estabelecimento da ordem maçônica tal qual conhecemos hoje, ou seja, a denominada maçonaria especulativa, deu-se em pleno século XVIII, período de efervescente surgimento de ideias no campo da filosofia e das ciências. Em meio a estas discussões, filósofos como Voltaire desenvolveram temas sobre metafísica e sobre a noção de Deus, discorrendo sobre as formas de provar sua existência e elencar alguns de seus atributos.

Tendo estes pontos em vista, gostaríamos de apresentar, neste artigo, uma análise comparativa entre a noção maçônica de Grande Arquiteto do Universo e a ideia de Deus apresentada nas obras de Voltaire. Não pretendemos aqui sugerir que ambos os conceitos se relacionam pelo simples fato de terem se desenvolvido em um mesmo período da história, o século XVIII. Tal perspectiva seria algo óbvio e infrutífero do ponto de vista filosófico. Ao contrário, nosso intuito será mostrar, amparando-se em textos de Voltaire e de autores maçônicos, que as bases metafísicas de ambos os conceitos são muito próximas, de forma que podemos afirmar que a filosofia francesa do iluminismo apresenta-se como um campo teórico com conceitos intercambiáveis em relação àqueles da maçonaria, sobretudo no que diz respeito a elementos metafísicos.

 

O princípio criador na maçonaria: O Grande Arquiteto do Universo

 

Apesar de ter se estabelecido como maçonaria especulativa e ter passado a trabalhar e a se organizar da forma que conhecemos hoje apenas no século XVIII, a história da maçonaria e de sua doutrina, bem como de seus símbolos e leis, remete-se a um passado anterior e encontra suas raízes em doutrinas e culturas mais antigas. Não queremos dizer com isso, como dizem alguns autores mais apaixonados e imaginativos, que a maçonaria já era pratica no antigo Egito ou até mesmo no início dos tempos. Longe disso, nos pautando apenas na história documentada, não parece ilícito afirmar que as influências que vieram a compor a simbologia e a doutrina maçônica são um apanhado de elementos de culturas e práticas anteriores ao século das luzes, período no qual a ordem foi formalizada. As próprias leis e regulamentos gerais que se aplicam de forma ampla e universal à ordem maçônica possuem uma origem antiga, apresentando-se em documentos fundamentais, como é o caso, apenas para citar um exemplo, do Poema Regius, datado de 1390 e publicado apenas em 1840 por Halliwell[1]. Os landmarks da ordem e seus Regulamentos mais primitivos também tem sua origem em uma época anterior a aquela da fundação da atual estrutura organizacional maçônica.

 

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