Tradução J. Filardo

por TCS Xine

a mulher

Sob a forma de uma nota de humor, permitam-me, sobre este assunto, trazer meu pitaco como mulher, como maçom e também como linguista. Eu não tenho nenhum furo de reportagem a comunicar que vocês já não saibam, apenas um olhar um pouco diferente, um passo à parte do nossas habituais ideias feitas. Muitas palavras foram ditas recentemente, muitas palavras foram colocadas sobre as aflições das mulheres. Foi dito sobre a “palavra das mulheres” que ela foi “liberada” … No mundo profano, choveram pranchas e contra-pranchas, tribunas se sucederam a tribunas, o hashtag #MeuPrimeiroAssedio ecoou, além do mais discreto (talvez?), o “#metoo”. A estrela Catherine Deneuve, em nome desta mesma liberdade denunciou esta “febre de enviar os porcos ao matadouro” e, em seguida, pediu desculpas às mulheres estupradas, mas continuou a “defender a liberdade de importunar essencial para a liberdade sexual”…

Colocando claramente que não existe, como pretendem alguns, o estupro prazeroso, eu tentaria, no entanto, dar uma olhada em uma certa ambiguidade semântica.

“AS PALAVRAS QUE VÃO SURGIR SABEM DE NÓS COISAS QUE IGNORAMOS DELAS” é René Char quem escreveu esta frase muito relevante e, como sabemos, o poeta tem sempre razão!

Ambiguidade semântica, portanto: não é sensato “respeitar” uma mulher não “dormindo” com ela e a “honrar” “dormindo” com ela? Nosso pavimento mosaico, não cortando a questão de maneira maniqueísta, seria um começo de resposta?

Outro problema: onde estaria a linha divisória que separa a sedução do chamado “amante latino” da conduta politicamente correta do anglo-saxão?  O cimento do pavimento de mosaico poderia se manter inteiro?

Além disso, eu abordaria o fato de que essa questão do respeito às mulheres, em um momento em que os “estudos de gênero” estão no auge, parece-me, se não já obsoleta, pelo menos muito restritiva. Respeitemos igualmente os homossexuais diferentemente de jogá-los no vazio, os transgêneros, etc. Seria urgente que levássemos um pouco dessa tolerância tão cara aos livres pensadores que somos.

E gostaria de dizer que, se a lei é absolutamente necessária, as mulheres dispõem ainda de uma “arma de construção maciça”, tendo em conta que, muito mais do que os homens em todas as culturas, é sua responsabilidade educar os jovens, as crianças, a educação dos meninos como a das meninas. E isso, eu não leio, não ouço, não vejo em nenhum lugar. Fala-se de professores, educadores, mas nunca de mulheres, de mães. É claro que não se trata de culpabilizar as mulheres, mas de as responsabilizar, de torná-las conscientes do enorme poder que possuem. Para a criança que não sabe ler nem escrever, são elas que os ensinam a falar. Certamente, ensinar meninos que, em certas circunstâncias, quando uma mulher diz “não”, isso significa exatamente “não”, mas não se esquecer de ensinar às meninas que o papel delas na vida não consiste apenas dar respostas positivas ou negativas às perguntas que lhes são feitas, mas também ousam formular, elas também, seus desejos usando as palavras para dizê-lo sem passar por prostitutas!

Transmitir a língua materna … com vigilância!

Roland Barthes neste texto fundamental que constitui a “Lição inaugural” que ele pronunciou quando entrou no College de France, enfatiza sobre a linguagem precisamente que “o verdadeiro fascismo” não é o que é “proibido de”, mas “o que obriga a”. É a mãe que transmite as primeiras senhas que abrirão às mulheres (e aos homens, é claro) as portas de uma vida diferente que o masculino não será mais o “oposto” do feminino, como ainda podemos ver em alguns dicionários, e não “prevalecerá” sobre o feminino como ainda vemos nas nossas aulas de gramática.

Sobre os estupros e outras violências feitas às mulheres, gemamos, gemamos, mas, das mães, esperemos!

Publicado originalmente na Revista FM Franc-Maçonnerie