A Campanha do Desarmamento

– Perdeu, véio! Desce do carro e pro chão. Passa a aliança…”

Meu pesadelo se materializava: assaltantes armados, a ponte levadiça levantada, a princesa dormindo tranquila no interior do castelo… O sol ainda não nascera, 6 da manhã.

Ato contínuo, o vagabundo abriu o carro, que ficara atravessado na rua, e retirou um celular e uma bolsa contendo um velho laptop e obrigou-me a me levantar e ir em direção ao interior da casa, o que para mim era inconcebível. O bandido, “de menor” era um franzino adolescente que foi conduzindo-me dizendo que só queria saber quem estava na casa. Eu sentia as duas mãos dele me tocando, o que significava que dera a arma ao comparsa.

Avaliei a situação, considerando a presença de uma arma de fogo na cena e a perspectiva de ter ladrões armados dentro do castelo. Quando ficamos fora da visão do primeiro vagabundo, virei-me e, aos gritos, ataquei o vagabundo visando a traqueia. O capacete o protegeu, mas ele perdeu o equilíbrio e correu. Eu gritava com todos os pulmões: “Pega Ladrão! Pega ladrão!” Ele correu, montaram na moto e se escafederam.

Por pura sorte, ou porque o piloto estivesse mais preocupado em manobrar a moto para a fuga, eles não dispararam nenhum tiro. Corremos grande risco, mas a invasão do castelo era algo inconcebível.

Esse evento levou-me à decisão de aderir à campanha do desarmamento. Possuo algumas armas registradas, uma sem registro herdada de meu sogro e alguns exemplares de coleção, peças velhas enferrujadas, uma garrucha antiga, “dois tiros e uma corrida”, com uma bela coronha de madeira entalhada mas que na mão de um vagabundo poderia ser usada para intimidar, visto que ninguém discute com uma arma.
Assim, dirigi-me ao Distrito Policial do bairro para informar-me sobre a campanha.

Aí começou a pantomima terceiro-mundista.

O distrito policial, pasmem, apesar de inscrito como posto de recolhimento de armas da campanha, não dispunha de senha de acesso ao sistema da campanha de desarmamento! Ou seja, não estavam “credenciados” para recolher as armas. O funcionário que me atendeu disse ter a impressão de que a Guarda Municipal – a GCM – mais conhecida como Guarda de Cemitérios e Mausoléus, estava credenciada.

Ato contínuo, liguei para o Comando da GCM, expliquei a situação, fui transferido para uma simpática assessora que informou:

1 – Os números de telefone da Inspetoria do Butantã;

2 – O nome do Inspetor encarregado: Inspetor Ivan – que há algum tempo fora transferido para outra inspetoria, ou seja, nem o Comando da GCM sabe quem são os encarregados das inspetorias.

3 – Informou que a GCM poderia, inclusive, enviar uma viatura até minha residência para retirar as armas, evitando assim que eu transitasse com as peças (mesmo com a guia de transporte da Polícia Federal, há sempre um risco.) Achei genial, porque considerando a limitada jurisdição da GCM – guarda de próprios municipais, cemitérios e mausoléus, – eles estariam fazendo alguma coisa de útil.

Liguei, em seguida, para a Inspetoria do Butantã, onde constatei que o Inspetor Ivan foi transferido há algum tempo para outra unidade, e conversei com o encarregado do recebimento de armas da campanha. Ele contradisse a informação do Comando da Guarda de que uma viatura pudesse ser deslocada para coleta das armas. Informou que o novo Inspetor era Aldo, mas que ele estava em gozo de licença, e que não havia ninguém além dele que pudesse autorizar tal deslocamento.

Tudo bem. Brazil! Zil! Zil! Fora o sinal de desorganização e falta de unificação de informações, ainda restava a emissão da guia de transporte da PF e a condução das peças à Inspetoria da Guarda de Cemitérios.

Nesse momento, decidi entregar somente armas registradas e o revolver que herdei de meu sogro. As armas antigas, eu as desmontei completamente e vou descartar peça por peça no lixo reciclável, ou vou fazer uma escultura-quadro em homenagem à campanha do desarmamento.

Aproveitei para fazer uma coisa que adoro fazer: desmontar coisas. Procurei no Youtube um vídeo “Como desmontar um rifle Winchester 3030 e remover o percursor” e achei um muito bom. O modelo era o que mais se aproximava da Carabina Rossi Lever Action .38 que eu possuo.

Desmontei completamente o mecanismo (só não mexi nos canos, porque era muito primário. Um parafuso só) e remontei. O gatilho deu um trabalhão, porque a mola soltou e eu não conseguia recolocar a mola no suporte. Examinei cuidadosamente a peça e descobri um pequeno furo na haste e – EUREKA! – percebi como eles montam. Passei um pino pelo furo e girando a mola, ela foi retraindo até ficar todinha encolhida. Depois de montado, retirado o pino, o mecanismo funcionou.

Também deu um trabalhão alinhar o furo do gatilho e do cão com o corpo da arma, mas no final essa parte ficou perfeita. Só não consegui montar uma peça da alimentação da arma que sobrou no final da montagem. Não fazia mal, porque a arma será, pelo menos teoricamente, destruída.
Por via das dúvidas, esmerilhei o pino do percursor, e assim capei a arma. Agora é o Belo Antonio… Os outros dois revólveres também passaram pelo mesmo tratamento – esmerilhei o percursor do cão, inutilizando as armas. Se forem desviadas – nunca se sabe – quem as receber vai, pelo menos, ter algum custo para consertá-las.

Uma vez decidido quais armas seriam rendidas ao governo, emiti as competentes guias de transporte e dirigi-me à Inspetoria da Guarda de Cemitérios e Mausoléus para realizar a entrega.

Sexta-Feira. 17:30 hs. Pergunte: Conseguiu entregar? Não, naturalmente. Mas, um funcionário informou que eu poderia voltar no domingo, quando o armeiro estaria de plantão e receberia as armas. Como a guia de transporte vencia no dia 8, segunda-feira, preferi passar pelo posto no domingo, pois segunda é sempre mais complicado.

Domingo. 10:00hs. Pergunte: Consegui entregar? Não, naturalmente. Dessa vez o funcionário estava de plantão, mas eles não recolhem armas aos domingos. O sistema da PF não funcionava, a xerox estava fechada e não seria possível emitir os comprovantes de entrega.
Depois de ouvir a lenga-lenga de reclamações contra a PF que teria mudado o protocolo, perguntei se poderia trazer na segunda feira, e fui informado de que também não seria possível por problema de plantão do encarregado.
Perguntei se poderia então levar na terça-feira e se ele poderia perguntar ou pedir ao Inspetor a autorização para recolher as armas em domicílio.

Terça-Feira. Liguei de manhã e fui informado que o Inspetor Aldo não se encontrava e também que não seria possível entregar as armas, mesmo que emitisse a guia de transporte, porque o armeiro encarregado da recepção estava de guarda e não poderia deixar o seu posto.

Liguei novamente à tarde e finalmente eles concordaram em mandar uma viatura recolher as armas. Confesso que insisti nisso por uma questão de princípio apenas, porque de toda forma tive que acompanhar a viatura em meu carro para ultimar a entrega no posto de recolhimento. Eu podia ter emitido novas guias de trânsito e ido até lá sem problemas.

A entrega foi finalmente realizada e os vouchers no valor total de R$ 600.00 me foram entregues como indenização pelas armas rendidas.

Como podem ver, uma ideia que pode até ser boa (não vou discutir os aspectos políticos dela) encontra percalços na execução, diante da desorganização e desinformação dos órgãos envolvidos.

Agora, só me resta desapegar da última arma que possuo – uma PT57 linda – e rendê-la também ao governo…

Published in: on janeiro 12, 2018 at 10:06 am  Deixe um comentário  
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